Economia dos Esportes – A divisão de acesso (complemento)

Eu não costumo fazer isto, mas aqui vai, apenas para desencargo de consciência, a atualização das tabelas do post que publiquei sobre a divisão de acesso na qual se encontra um dos meus dois times favoritos, o E.C. Pelotas (Lobão!).

Faço a atualização porque aí temos completas as onze primeiras rodadas da divisão de acesso. Dos 88 jogos até agora, 42 vitórias foram obtidas nos campos dos mandantes, o que nos dá 48% de “mando de campo” (ok, já discuti anteriormente isto, não vou me repetir). Ah sim, lembro que o próximo jogo é quarta-feira (amanhã) e você pode conferir mais aqui.

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Juízes de futebol favorecem o time da casa?

20160601_215320-001As evidências deste artigo de 2004 para a Bundesliga nos diz que….sim. A análise dos autores se baseia em duas variáveis: tempo extra concedido e pênaltis. Um dos canais de transmissão pelo qual isso ocorre seria por pressão da torcida (que, por sua vez, afeta o desempenho do time, “empurrando-o” e também teria impacto sobre a atuação do juiz).

Eu diria que, lembrando da teoria da regulação de Stigler, o juiz poderia ser ‘capturado’, sem falar, claro, na possibilidade de corrupção (algo também já estudado na economia dos esportes).

Mas vejamos os microfundamentos econômicos que os autores usam para explicar o fenômeno em questão:

(…) when facing a contentious decision, the salient cue of crowd noise (remaining rather silent when a home team player makes a tackle, but booing when a visitor tackles) may cause a difference in assessing fouls of home players or visiting players. Another subtle form of how crowd noise influences referees may stem from the use of heuristics in decision making. Even though heuristics frequently result in systematic errors (Tversky & Kahneman, 1974), they are often used as rules of thumb to reduce complexity in judgment. If a referee is uncertain whether a tackle was regular or irregular, he might, therefore, place equal weight on the possibly biased auditory information from the crowd and on his visual information. [SUTTER, M.; KOCHER, M. G. Favoritism of agents – The case of referees’ home bias. Journal of Economic Psychology, v. 25, n. 4, p. 461–469, 2004.463-4]

A análise dos autores, como já dito, limita-se ao campeonato alemão (o que nos faz pensar sobre a validação externa dos resultados, obviamente). De qualquer forma, como ela é feita?

Os autores utilizam uma regressão múltipla (MQO) com controles para cartões, substituição de jogadores e a margem do resultado (uma dummy construída pela margem de diferença de gols entre o time da casa e o visitante) na análise do tempo extra concedido pelo juiz. No caso dos pênaltis, faz-se uma comparação simples (um teste qui-quadrado) entre distribuições de frequências de pênaltis “classificados” como legítimos (ou não) com uma amostra que me pareceu pequena.

São reportados resultados que corroborariam a hipótese de viés do juiz a favor do time da casa, embora, no meu entender, possam ser feitas várias críticas aos dois testes (talvez no caso da regressão alguém possa reclamar de dos controles, mas creio que o teste dos pênaltis é mais sensível às críticas). Claro, o ideal é você ler o artigo para tirar suas próprias conclusões.

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Não confunda os Khans!

Um ponto que me chama a atenção é a necessidade que pesquisadores têm de que existam fichas detalhadas (e padronizadas) de jogos. Não basta saber quem ganhou ou perdeu, mas quem entrou/saiu, quem levou cartão e, claro, sempre com o tempo bem registrado. Bases de dados padronizadas permitem a análise inter-campeonatos e inter-países (o que minimiza bastante o problema de validação externa já citado…).

Mas isto é assunto para economistas? Bem, eu poderia citar vários argumentos, mas prefiro apelar a Khan (2000).

Bibliografia(zinha)

KAHN, L. M. The Sports Business as a Labor Market Laboratory. Journal of Economic Perspecitves, v. 14, n. 3, p. 75–94, 2000.

SUTTER, M.; KOCHER, M. G. Favoritism of agents – The case of referees’ home bias. Journal of Economic Psychology, v. 25, n. 4, p. 461–469, 2004.

Incentivos para que o trabalho em equipe funcione – o caso do futebol

O papel de motivador em um time (seja ele do técnico ou do jogador) é importante. Como dizem Anderson & Sally:

“(…) the Köhler effect occurs because weak links work harder to keep up, whether in an attempt to match their more talented colleagues or because they think their role is just as essential. These two factors are equally important in helping improve a weak link”. [Anderson, C. & Sally, D. (2013) The Numbers Game, Penguin Books, 2013, p.242]

20170224_151410-001Ok, o efeito Köhler está resumido aqui e, contrariamente ao que um economista novato esperaria, diz que o indivíduo trabalha mais em grupo do que individualmente. Após estudar um pouco mais (ou seja, deixar de ser “novato”), o pesquisador descobre que incentivos importam e que o trabalho em grupo pode gerar maior esforço individual conforme os incentivos que se aplicam.

Meu exemplo preferido era um que usava nos meus tempos de professor de Industrial Organization, retirado do excelente livro-texto de Oz Shy, mas não vamos cansar os poucos leitores com álgebra, ok? Basta dizer que é possível construir um sistema de incentivos simples que minimiza (bem, no modelo teórico diríamos que “zera”) o comportamento free-rider (o carona…).

Voltando ao nosso caso, os autores estão discutindo como fazer com o jogador que é o seu elo mais fraco na equipe (weak(est) link) e uma das soluções é buscar melhorá-lo. Mas é preciso ser mais específico quanto aos incentivos que operam, digamos, no dia-a-dia dos jogadores de um time que treinam para um campeonato. Não é muito fácil gerenciar um conjunto heterogêneo de jogadores (uns ganhando mais, outros menos, uns ídolos antigos, etc), percebe-se.

Uma sugestão dos autores é que você tenha um jogador que seja um baita strong(est) link (aqui eu diria strongest mesmo). Ou seja: o cara que chega cedo para o treino, faz o dever de casa, dá o exemplo, enfim, diminui o custo de absorção dos valores adequados para um time que deseja vencer (os autores são felizes na expressão: an ethos of maximum effort). Um exemplo? Para os autores, Lionel Messi. No Lobão, eu apostaria no nome de Rafael Dal Ri.

(Longo) p.s. Sério, não tem como parar de ler este livro e também não tem como não gostar da área de Economia dos Esportes, mais especificamente, a Economia do Futebol. Sem falsa modéstia, aos que se interessam, sugiro o artigo que provavelmente foi um dos primeiros no Brasil (leitores mais atentos, por favor, corrijam-me se não for o caso) que é este. Há também este e, nos últimos anos, alguns poucos pesquisadores de economia têm publicado no tema (já citei alguns por aqui, salvo engano). Claro, principal periódico da área é este journal.

Dados são importantes mas…

The data cannot do the manager’s job. Numbers cannot put us all in the dugout; analytics is not an attempt to mechanize soccer. It simply enables the manager to do his job of building and directing a successful team with the clearest possible vision of what is happening on the pitch. [Anderson, C. & Sally, D. (2013) The Numbers Game, Penguin Books, 2013, p.193]

Ok, é no contexto do futebol, mas vale para tudo na vida, inclusive para a Ciência Econômica.

Por que sua esposa só se lembra de quando você esquece de comprar pão?

As the psychologist Eliot Hearst explains: ‘In many situations animals and human beings have surprisingly difficulty noticing and using information provided by the absence or nonoccurrence of something…Nonoccurrences of events appear generally less salient, memorable or informative than occurrences’. [Anderson, C. & Sally, D. (2013) The Numbers Game, Penguin Books, 2013, p.126]

Ou seja, seguem os autores (e aqui traduzo livremente): isso faz com que descontemos coisas que não aconteceram e aumentamos a importância de coisas que aconteceram. Você não se esquece de comprar pão em quatro dias, ok, passou batido. Mas experimente se esquecer do pãozinho no quinto dia…

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Bra-Pel: a econometria do clássico de Pelotas

Pois é. Construí um banco de dados de confrontos Bra-Pel, pensando no grande Lobão, meu time em Pelotas. Tenho ali 362 clássicos, no período 1913-2014. Segui o livro de Éder (2010) [Éder, J. BRAPEL: A rivalidade no sul do Rio Grande, Editora Livraria Mundial, 2010] e os jogos de 2011 em diante foram coletados por mim (novamente, é impressionante como é difícil obter dados de jogos organizados em bases de dados no Brasil. Neste sentido, o Éder (2010) só tem um defeito: não ter a base de dados online, mas tudo bem).

Em resumo, temos: 487 vitórias gols do Lobão e 503 do Xavante. Temos também 109 gols vitórias do primeiro e 129 do segundo. Gostaria mesmo era de ter um banco de dados maior, com todos os jogos do Esporte Clube Pelotas, mas por enquanto minha base de dados é tudo o que tenho.

Alguns dados adicionais: os confrontos entre os dois times ocorrem desde 1913, exceto nos anos 1917, 1920, 1926, 1974, 1983, 1989, 1990, 1999, 2000, 2002, 2007, 2008, 2009 e 2010. O último confronto que tenho registrado ocorreu em 2014, o Bra-Pel n.362.

Antes de mais nada, alguns gráficos interessantes. Primeiro, a correlação entre os gols dos times (agrupados anualmente) é positiva (0.6439). Como sempre digo aqui, correlação não é causalidade, mas apenas uma visão inicial dos dados. O gráfico abaixo apenas nos diz que o total anual de gols de cada time é relacionado positivamente com o total anual de gols do outro time. Pode – atenção para o condicional! – ser que isto tenha algo a ver com alguma competitividade entre ambos os times, mas aí o melhor seria verificar se existe algum tipo de inércia nos dados, algo que não fiz aqui.

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De forma similar, calculei a correlação entre as vitórias anuais dos times, que é negativa (-0.0977).

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Desnecessário dizer que também há uma correlação positiva entre as vitórias de um time e o seu número de gols (ou mesmo o saldo de gols), não é?

Dito isto, vejamos o ditado popular – e óbvio – de que, quem não marca, toma. Trata-se de um logit simples e a classificação dos campeonatos ainda é precária. De qualquer forma, o leitor chegado em Econometria pode constatar a importância dos gols no aumento da probabilidade de vitórias. Note que, entre as variáveis independentes (as “covariadas”), incluí as primeiras defasagens das vitórias de ambos os times, para ver se há algum tipo de inércia.

Cabe destacar que, para as regressões, usei os dados desagregados, ou seja, dados de cada partida e não os agregados anuais.

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Algumas observações importantes: alguns pequenos campeonatos foram classificados como “amistosos” e o leitor pode se reportar a Éder (2010) para esclarecimentos (por isso eu disse lá em cima sobre uma certa “precariedade”…). A idéia de incluir este tipo de variável era controlar para tipos de campeonatos (eu esperaria que alguns campeonatos pudessem ser mais importantes que outros). Eu poderia ter seguido o autor, e incluído os pequenos campeonatos mas: (a) são poucas observações, (b) algumas observações nem possuem o atributo “campeonato/torneio” associado.

Além disso, os resultados acima me mostraram que, em relação aos campeonatos, apenas o Gauchão parece ser um determinante importante nas vitórias em Bra-Pel, mesmo assim, com sinal oscilante (negativo para probabilidade de vitórias do Brasil e positivo para o Pelotas). Talvez algum leitor que conheça melhor a lógica dos campeonatos e a história dos times possa me ajudar a entender a importância de cada um no suposto empenho dos times. Mesmo assim, as evidências que veremos adiante mostrará que talvez isto não seja assim tão importante. Mas vamos em frente.

O número de gols do Pelotas, claro, tem impacto positivo nas vitórias do Lobão e negativo no número de vitórias do adversário. Eu poderia trocar a variável por gols do Brasil e, sim, logo mais mostrarei o que acontece. Aguarde.

Outros fenômenos testados foram os períodos de guerras (1914-1918, 1939-1945) e o da ditadura (1964-1985). Nas especificações (1) e (2), há o curioso efeito, quase simétrico, da ditadura nas vitórias dos dois times (positivo, no caso do Lobão e negativo no caso do Xavante). Mas este efeito desaparece se eu considerar dummies anuais.

As vitórias defasadas – o efeito “inercial” – parece apontar um impacto positivo apenas na probabilidade de vitórias do Lobão. Seria este resultado associado ao fato de eu estar usando apenas os gols do Lobão nas especificações? Para tirar esta dúvida, fiz mais alguns logits similares aos anteriores, mas trocando os gols do Pelotas pelos do Brasil nas equações em que a variável dependente é a dummy de vitórias do Xavante.

Os resultados não mudam muito no que diz respeito à inércia, mas vemos que o Gauchão deixa de ser significativo (talvez porque a inércia capture este efeito?) e a dummy de ditadura perde significância, embora ainda pareçam existir traços de sua influência nas duas primeiras especificações. Por que será que a inércia não aparece no caso do Xavante? Esta fica em aberto.

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Bem, estes são resultados preliminares. Com um pouco mais de informações (sim, preciso de ajuda na construção da base de dados), talvez seja possível fazer algo mais interessante. O que seria mais bacana?

Ora, os times poderiam investir em algo simples que é construir bases com as fichas técnicas de todos os seus jogos, resgatando, inclusive, dados do passado. Afinal de contas, se queremos estudar o desempenho de um time, não basta olhar para “clássicos”. O interessante seria olhar para todos os jogos ao longo dos anos.

Claro que isto foi somente um exercício e as especificações são muito preliminares. Em outras palavras, não devemos tentar inferir muito sobre as estimações. Elas só valem para os clássicos Bra-Pel e, mesmo assim, eu gostaria de ter mais variáveis para incluir na pesquisa. Mesmo assim, espero que o leitor tenha apreciado um pouco da Economia dos Esportes (veja também, por exemplo, este e mais este).

O espaço dos comentários está à disposição.

Direitos de Propriedade e Futebol: tudo a ver

Este post é bem interessante. Trata-se de um problema de alocação de direitos de propriedade com respeito ao nome de um estádio de futebol (o autor o chama de naming rights). O que me agradou foi a discussão de qual seria, efetivamente, a maneira mais eficiente de se negociar o nome de um estádio. Cito o autor:

Acontece que a eficiência dos naming rights fica altamente comprometida quando tratamos de um estádio que não seja novo, já que o nome tradicional está mais que consagrado nas mentes dos torcedores, da imprensa e do mercado como um todo.

Daí a importância de projetos de novos estádios não aceitarem apelidos ou sugestões de nomes – muito já se falou, por exemplo, no Fielzão, o possível futuro estádio do Corinthians.

Vale dizer: tal como em um problema de extração de petróleo (ou de maturação de um queijo/vinho), existe um tempo ótimo para se negociar o nome do estádio. Este tempo, por exemplo, tem a ver com o tempo que a torcida leva para adotar um apelido (que diminui o valor do nome negociável).

Supondo que os agentes sejam racionais, inclusive os torcedores, e que aprendam que, para o time, o melhor é não ter um apelido para o estádio, pode-se prever que o maior interessado (ou os maiores interessados) em arrumar um apelido para o estádio é o concorrente (ou os concorrentes). Pode-se pensar nisto como um jogo, não?

A cooperação entre dois times concorrentes é algo bem improvável, exceto se ambos pretendem construir estádios próprios e não divulgam, um ao outro, os prazos da construção. Neste caso, podemos pensar na disputa entre ambos como um clássico exemplo de jogo dinâmico no qual os times cooperam (não incentivam os torcedores a criarem apelidos para o estádio do concorrente) ou não cooperam. Mais ainda, eu diria que é um jogo com infinitos períodos, o que nos leva à questão sobre qual o valor da “impaciência” que deixa os times no equilíbrio cooperativo.

Entretanto, há mais aspectos interessantes a serem modelados. Conforme nosso autor:

No Brasil, diz-se que os naming rights tem um sério inimigo na prática dos meios de comunicação de não divulgar o nome dos patrocinadores dos clubes, sob o argumento de não fazer propaganda de terceiros sem receber por isso. Pois eu acho que a obrigação de mencionar os nomes das arenas de acordo com o que especificam os clubes deveria estar definida no contrato de venda de direitos televisivos. O Clube dos Treze, como negociador, precisaria estar atento a esse aspecto e deveria ainda incluir também a obrigatoriedade das TVs compradoras dos direitos de mostrar os backdrops com os logos dos patrocinadores, assim como os bonés e outros materiais usados em entrevistas coletivas. Os valores dos patrocínios, com a garantia de exposição principalmente na mídia televisiva, certamente passariam por uma valorização substancial.

Em outras palavras, existe um problema adicional aqui que é o da própria existência da possibilidade de se alugar/vender o nome de um estádio e que diz respeito aos direitos de propriedade estarem claramente especificados em contrato (e devidamente respeitados). Em um exercício simples, poderíamos atribuir probabilidades para as ações dos indivíduos, criando um jogo com estratégias mistas e dinâmico. Obviamente, questões mais interessantes aparecem aqui porque, afinal, há várias formas de se pensar estas probabilidades (variam com o tempo? Não? Etc).

Belo post este do colega do Futebol & Negócio.

Economia do Futebol

Clube dos 13 e William Vickrey

A Folha Online divulgou que a Rede Record desistiu de disputar os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de 2009 até 2011. Achei normal, mas continuei lendo a reportagem porque sou curioso, e qualquer coisa que envolva a disputa pela taça das bolinhas eu leio. Daí veio a explicação. Segundo a Folha Online:
“A Record defendia que os direitos de transmissão fossem adquiridos pelo canal que oferecesse o maior valor, sem a possibilidade de a Globo cobrir a proposta vencedora. Mas o Clube dos 13 decidiu respeitar a cláusula que prevê a preferência da compra dos direitos pela emissora carioca.”

É interessante esse modelo do Clube dos 13. Tem essa cláusula maluca. Cada um faz uma proposta, no final a Globo pode cobrir as propostas das outras. Eu posso estar muito enganado, mas esse método não me parece ser o que maximiza a receita esperada.

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