Quando o juiz Learned Hand encontra os religiosos terroristas

Os recentes ataques terroristas parecem um triste argumento contra a fórmula de Learned Hand, dos manuais de Law & Economics. A fórmula aparece aqui e reproduzo-a para o leitor: PL > B. Como assim?

Suponha, como no manual organizado por Timm (procure por aí: foi editado pela Atlas e está na sua segunda edição), que eu tenha um bar cujas mesas e cadeiras estão em uma esquina. Pode ser que um motorista vire uma das ruas e atinja as mesas e cadeiras que podem ou não estar ocupadas por clientes. Devo eu ser considerado culpado?

A regra de Learned Hand (literalmente o nome do juiz) é a de que este será o caso se: PL > B, em que B é o custo de se precaver contra o acidente, P é a probabilidade da perda cuja gravidade é medida por L. Assim, se era mais barato para mim, relativamente, precaver-me contra o acidente.

Ou seja, se meu custo de colocar, digamos, uma mureta na esquina (considerando o tempo gasto, insumos, etc) for menor do que o dano total causado na ocorrência de um acidente como o que descrevi e eu não tomei as precauções, então eu devo ser considerado culpado.

Até aí, tudo bem. Entretanto, os atentados terroristas nem sempre seguem as hipóteses básicas deste modelo. O terrorista, muitas vezes, não liga se ele mesmo morre ao jogar o carro sobre as pessoas. Pior ainda, ele pode não se preocupar muito se, após jogar o veículo sobre as pessoas, sair esfaqueando-as e morrer no meio do caminho.

Na verdade, o problema é que, em situações como esta, não importa meu custo B, o terrorista quer mesmo é jogar PL para o maior valor possível e a fórmula perde a validade para se julgar alguém culpado pois, afinal, o terrorista se auto-declara como tal! Não precisamos mais da fórmula para imputar a culpa a alguém…

…exceto se dissermos que a legislação, agora, será mais dura e as pessoas terão que, por conta da lei, tomar todas as precauções para evitarem ataques terroristas, não é? Olha, mesmo assim, repare, a fórmula perderá sua utilidade porque não estamos lidando com acidentes e sim com ataques planejados (e a atribuição de culpabilidade fica óbvia).

Repare que a estratégia do terrorista, no fundo, envolve fazer a sociedade arcar com um custo cada vez mais alto para evitar ataques, sacrificando até mesmo valores como a liberdade individual até que, no final, esteja-se alocando milhares de recursos para a defesa. Economicamente falando, a idéia destes terroristas é, na verdade, destruir a economia de trocas forçando alocações cada vez maiores de recursos em prevenção contra ataques (a versão fictícia disso é a corrida armamentista entre o Império Klingon e a Federação de Planetas Unidos em um dos (melhores) filmes clássicos de Star Trek).

Claro, para nossa sorte, estamos sempre sujeitos a choques tecnológicos (mas eles também estão…), o que diminui os custos de defesa (e de ataques…). No final das contas, é uma situação bem desagradável para quem é vítima potencial desta gente (ou seja: nós).

Então é isso: teoricamente, a função de utilidade do terrorista segue sob os postulados da racionalidade econômica, mas esta função difere da que geralmente estudamos nos cursos de Economia. Melhor dizendo, é uma função com mais argumentos e, bem, você pode dar uma olhada no texto do link.

Uma dica para começar a ler sobre extremistas religiosos sob a ótica econômica é procurar pelos trabalhos de Laurence Iannaccone, o grande nome da Economia da Religião moderna (veja também a associação de pesquisa que ele fundou, a ASREC).

Ah, antes que me esqueça, existem sugestões para se tentar aumentar os custos para os ataques terroristas baseados em “jogar veículos sobre pessoas”. Evitar ataques terroristas, na lógica econômica, significa aumentar o custo do ato terrorista de forma a superar o benefício total auferido pelos seus perpetradores (que, note bem, significa prejudicar não somente o motorista do carro que se joga sobre as pessoas, mas todo o seu grupo).

Felizes os dias em que a gente se preocupava apenas com a fórmula de Learned Hand

 

Anúncios

Artigos recentes (atualizados)

Nossas pesquisas continuam.

“It is the economy, companheiro!”: an empirical analysis of Lula’s re-election based on municipal data. Economics Bulletin, v.29, n.2, p.977-992, 2009/ (with Araujo Jr., Ari F.; Carraro, A.; Monasterio, L.M. and Damé, O.M.)

Religião e Criminalidade no Brasil: primeiras evidências sob enfoque econômico. Textos de Economia, v.11, n.2, p.90-107, Dez/2008. (with Araujo Jr., Ari F. and Murta, S.R.)

Esqueça aquele alemão…

…o Weber. Pelo menos até acabar de ler este artigo de Timur Kuran. Aí volte e pense um pouco sobre a interpretação de Weber sobre o papel do calvinismo. Será que apenas a tal – genérica – cultura “judaico-cristã” é que gera capitalismo e mercados? 

O buraco, claro, é bem mais embaixo. Mas Kuran é uma referência importante neste debate.

Religião importa?

Tiago V. Cavalcanti · Stephen L. Parente · Rui Zhao
Religion in macroeconomics: a quantitative analysis of Weber’s thesis

Abstract Max Weber in 1905 claimed that Protestantism, and more specifically Calvinism, facilitated the rise of capitalism. This paper assesses the quantitative plausibility of his hypothesis by introducing religious beliefs into a dynamic general equilibrium model of development and growth. Through counterfactual exercises, the paper investigates whether differences between Catholics and Protestants most closely identified with the Protestant Work Ethic can account for long delays in the start of Industrialization observed between various countries and regions. The main finding is that these differences may possibly explain why Northern Europe developed before Southern Europe, but they cannot explain why Europe developed before Latin America.

Tá na hora de você repensar sua ida à igreja. ^_^

p.s. veja também este outro artigo do Tiago.

Economia e budismo

Boa matéria da BBC sobre o tema. Resumo: problemas religiosos do desenvolvimento econômico: como a emigração diminui a renda de monges e como os mesmos reagem utilizando estratégias de mercado.

Trecho:

Some monks are looking at alternative ways of raising money.

In Tokyo I met Kazuma Hayashi, a monk who offers bargain basement Buddhism.

He has a website which sets out the rock-bottom prices he charges for conducting a funeral service, or chanting a prayer.

He can tailor the religious experience you want to suit your budget, and yes, there are discounts for buying in bulk.

“I don’t try to steal clients from traditional temples,” he assured me.

“I just want to show people who in the past have had to pay huge amounts of money for funerals or memorials that there is another option.”

É ou não é uma questão de incentivos?

Grupos de interesse e a mídia

A última é a de uma igreja que resolveu brigar com a imprensa. O que é interessante? A forma como se coordenou uma estratégia entre centenas de membros da dita igreja. Já li várias vezes que a ideologia (ou a religião) é uma forma de mitigar problemas de ação coletiva. Mas nunca tinha visto um exemplo brasileiro.

Com esta notável notícia, já podemos inaugurar os estudos de Economia da Religião no Brasil. Note que isto é diferente das tentativas de se dotar a análise econômica de um “guarda-chuva” religioso, o que é uma atividade típica do pessoal do Acton Institute, dentre outros. Contudo, tanto uma como outra são interessantes manifestações de uma riqueza intelectual típica da academia da civilização (i.e., países desenvolvidos). Na selva – Brasil e assemelhados – ainda há muita poeira nos olhos dos acadêmicos. Poeira esta que, lamentavelmente, cria mais preconceitos do que os derruba.

Mas fica aí a dica: economia da religião.

Da série: ah, se o povo da igreja católica do Brasil fosse mais instruído…

A “Marketless World”? An Examination of Wealth and Exchange in the Gospels and First-Century Palestine

by Edd S. Noell

Research on the economic context of Jesus’ teaching on wealth and exchange points to the need to take into account the nature and extent of market arrangements in first-century Roman Palestine. This context involves changing relations among reciprocity, redistribution, and market exchange. Studies of the relevant archeological evidence point to intra- and inter-regional trade, increasing specialization, and monetization. This article claims that in the Gospels we find Jesus recognizing a growing role for market exchange and a legitimate pursuit of economic gain through risk-taking alongside of the need for the practice of general reciprocity. Perceived hostility toward wealth and market exchange is explained in terms of the institutional features of the Palestinian agrarian economy, including extractive wealth transfer by the Roman state and religious authorities. The article concludes that Jesus’ teachings on wealth and market exchange have greater moral relevance to modern economic life than is commonly thought.

Eu não tenho o acesso livre ao artigo, mas bem que eu gostaria. Contudo, pode-se entender mais sobre as idéias de Noell aqui.