Animalis Economicus

Psychonomic Bulletin & Review, 2002, 9 (3), 482-488

Self-control by pigeons in the prisoner’s dilemma
FOREST BAKER and HOWARD RACHLIN 

Pigeons played a repeated prisoner’s dilemma game against a computer that reflected their choices: If a pigeon cooperated on trial n, the computer cooperated on trial n +1; if the pigeon defected on trial n, the computer defected on trial n + 1. Cooperation thus maximized reinforcement in the long term, but defection was worth more on the current trial. Under these circumstances, pigeons normally defect. However, when a signal correlated with the pigeon’s previous choice immediately followed each current trial choice, some pigeons learned to cooperate. Furthermore, cooperation was higher when trials were close together in time than when they were separated by long intertrial intervals

Ficou difícil reclamar do paradigma do homo economicus de uns tempos para cá. O melhor é, realmente, deixar os preconceitos e os livros de auto-ajuda e partir para análises mais detalhadas dos comportamentos humanos e não-humanos.

p.s. (mal-humorado) Tem muita coisa interessante por aí mas pouca gente querendo pesquisar. Fazer política, gazetear e se fazer de vítima dá mais ibope entre os amiguinhos (como sempre foi). Sim, por isso vamos patinar muito nos testes mundias de educação.

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Batalha dos Sexos, versão comportamental: uma piada estranha

Penso em assistir o jogo de futebol em termos de dias, mas minha esposa pensa no mesmo evento em termos de semanas. Já a terrível (para mim) peça de teatro eu penso em semanas e minha esposa pensa em dias. O que acontecerá?

Não sei, mas pensei neste exemplo como um meta-jogo depois da dica do Mauro que eu, confesso, demorei a ler porque pensei em deixar para depois (mas aí a linha de tempo iria fazer com que o artigo sumisse…).

Achou tudo muito estranho? Então leia o texto sugerido pelo Mauro aqui.

Preferências podem ser afetadas por divulgação de “rankings”?

Duvido um pouco disto, mas com algum fundamento empírico, a gente pode discutir, não é mesmo? Então, uns pesquisadores resolveram olhar para a grande loja Amazon e:

Our society is increasingly relying on digitalized, aggregated opinions of individuals to make decisions (e.g., product recommendation based on collective ratings). One key requirement of harnessing this “wisdom of crowd” is the independency of individuals’ opinions; yet, in real settings, collective opinions are rarely simple aggregations of independent minds. Recent experimental studies document that disclosing prior collective ratings distorts individuals’ decision making as well as their perceptions of quality and value, highlighting a fundamental discrepancy between our perceived values from collective ratings and products’ intrinsic values. Here we present a mechanistic framework to describe herding effects of prior collective ratings on subsequent individual decision making. Using large-scale longitudinal customer rating datasets, we find that our method successfully captures the dynamics of ratings growth, helping us separate social influence bias from inherent values. Leveraging the proposed framework, we quantitatively characterize the herding effects existing in product rating systems and promote strategies to untangle manipulations and social biases.

Pois é. O problema destes trabalhos de “big data” é que, às vezes, a tentativa de tentar descobrir tudo a partir dos dados (inclusive para se construir teorias), a gente fica perdido. Eu sei, você vai dizer que estou pensando muito em termos da Methodenstreit que ocorreu na economia no passado. Na verdade, a grande lição daquele debate, para mim, é que sempre há uma teoria oculta em nossa coleta de dados.

Posto isto, não jogue fora estudos no estilo big data só porque não tem um modelo de otimização dinâmica. Afinal, o problema pode ser que não temos um bom modelo ainda e, bem, olha o nó de novo…

De qualquer forma, enquanto não temos o conhecimento final (nunca o teremos) sobre o comportamento do consumidor, eu diria que vale a pena continuar pesquisando com todas as metodologias possíveis. Algumas, de tão ruins, serão deixadas de lado – se o ambiente científico for competitivo, claro! – e teremos sempre um entendimento mais rico, marginalmente falando, do comportamento do consumidor. Aliás, creio que o pessoal que curte economia comportamental aqui no Brasil já percebeu que, sem dados, nada feito.

Bom, sobre o artigo…bem, dê uma lida. ^_^

A Psicologia Econômica é importante demais para ser deixada a cargo apenas dos psicólogos

Quer entender minha piada? Então veja isto. O restante das apresentações está aqui. Sim, quem me acompanha sabe que estive lá embora tenha conseguido passar longe das fotos do evento. ^_^

A propósito, já leu sobre os ratos hoje?

“42!” ou “Quando os camundongos mostraram que a lei de demanda existia fora do universo humano”

O artigo de Hirsh e Silberberg (Hursh & Silberberg (2008)) é uma prova cabal de que Douglas Adams tinha razão: os camundongos são tão (ou mais) inteligentes do que os seres humanos. Há quem diga que alguns deles já ganharam bolsa no vestibular da faculdade por desempenho.

É, parte do que eu disse é brincadeira, mas parte não. Veja o resumo do texto.

The strength of a rat’s eating reflex correlates with hunger level when strength is measured by the response frequency that precedes eating (B. F. Skinner, 1932a, 1932b). On the basis of this finding, Skinner argued response frequency could index reflex strength. Subsequent work documented difficulties with this notion because responding was affected not only by the strengthening properties of the reinforcer but also by the rate-shaping effects of the schedule. This article obviates this problem by measuring strength via methods from behavioral economics. This approach uses demand curves to map how reinforcer consumption changes with changes in the “price” different ratio schedules impose. An exponential equation is used to model these demand curves. The value of this exponential’s rate constant is used to scale the strength or essential valueof a reinforcer, independent of the scalar dimensions of the reinforcer. Essential value determines the consumption level to be expected at particular prices and the response level that will occur to support that consumption. This approach permits comparing reinforcers that differ in kind, contributing toward the goal of scaling reinforcer value.

Em outras palavras, enquanto você fica aí, com preguiça, babando em cima do livro, os camundongos estão nos mostrando que a lei de demanda funciona. Olha, eu sinto muito pelos marxistas que atrasaram a genética soviética por décadas, mas se há alguma lei econômica na natureza, esta é a lei de demanda. Sim, esta mesma, neoclássica, que seu “professor” disse ser uma reles construção burguesa.

Cuidado. Daqui a pouco quem vai estar na ratoeira será você. ^_^

Vai uma bolacha aí, véi? Eu já terminei a prova.

A natureza humana, segundo Adam Smith, e sua conta de água

Diz-nos Roberts (2014) em seu estudo informal sobre a Teoria dos Sentimentos Morais de Adam Smith que nosso patriarca teve ótimos insights que poderíamos usar como pequenas dicas para nos tornarmos pessoas melhores. Há quem veja neste livro um Adam Smith diferente daquele que escreveu A Riqueza das Nações, mas, honestamente, lendo o resumo de Roberts, não vejo traços de esquizofrenia ou mudança de opinião tão radicais.

Aproveitando minha recente exposição às palestras apresentadas no encontro entre psicólogos e economistas lá na USP, repare neste interessante trecho de Smith citado por Roberts:

“There is, however, this difference between grief and joy, that we are generally most disposed to sympathize with small joys and great sorrows” [Adam Smith, obviamente, apud em Roberts, Russ (2014). How Adam Smith Can Change Your Life, Penguin Books, 134]

Em outras palavras, Smith acreditava que as pessoas tinham uma reação assimétrica em relação a eventos que ocorrem a terceiros. Algo mais ou menos assim: se o evento lhe causou uma desgraça grande, sou-lhe simpático. Agora, se você obteve algum sucesso, sou-lhe simpático se este não foi um “grande” sucesso.

Seria isto uma curiosidade ou apenas um bom insight? Não. Há mais sabedoria aí. Sabedoria que podemos usar para melhorar o mundo à nossa volta. Tome-se o caso relatado por Alex Laskey, sobre como um bom incentivo para tornar o consumo de água mais racional não precisa ser um apelo para sua economia, mas sim um apelo para seu desempenho ‘inferior’ ao de seus vizinhos (video com legendas aqui).

Gosto de pensar neste incentivo citado por Laskey como um exemplo de aplicação desta idéia de Adam Smith, ainda que possa não ter sido diretamente inspirado nos escritos do celebrado pai da economia. Já que existem evidências de que o sucesso alheio nos afeta, por que não utilizar isto em nosso favor?

No caso relatado por Laskey, a queda no desperdício de água de uma família é atribuído à forma como a conta de água é entregue, com comparações relativas de desempenho, mostrando, ao consumidor, que seu desempenho é melhor ou pior do que seu vizinho/bairro/famílias de tamanho similar, etc. Ou seja, ao saber que tenho um desempenho pior que o seu, tento me sair melhor no próximo mês, economizando mais água. Um pouco de competição, claro, baseado no fato de que seu desempenho melhor me deixa incomodado.

Pensando em Adam Smith, teríamos algo mais ou menos assim: recebo a conta de água e percebo que fui muito pior do que os vizinhos. Isto me incomoda e, sem fazer alarde, faço de tudo para subir no ranking. Não parabenizo tanto o vizinho que foi muito melhor do que eu, mas começo a me esforçar para economizar mais água. No caso em que fui melhor que os outros, provavelmente, tentarei comparar explicitamente minha conta com o vizinho, lamentando que ele não tenha conseguido e lhe desejando melhor sorte da próxima vez.

Claro, pode ser que seja possível verificar estas assimetrias empiricamente e talvez alguém já o tenha feito. Não sei. Mas achei interessante esta relação entre pensamentos de Adam Smith e a moderna Ciência Econômica (ou a moderna Ciência Comportamental, caso você prefira…). Claro, vale a pena destacar a diferença entre normativo e positivo aqui.

“Smith’s observations on how we interact with others in grief and in joy are mainly about how we are made – the nature of human nature – and not so much about how we should behave”. [Roberts, R. (2014). idem, p.141]

Nunca é demais lembrar esta diferença essencial e, claro, Economia é, sim, algo muito legal, não?

Economia Comportamental: o encontro na USP (brevíssimas notas)

20141111_130541Há muito o que falar. Mas, antes, vou deixar aqui algumas das dicas que consegui, sem muita habilidade, pegar das apresentações da tarde. Primeiro, este vídeo sobre incentivos e uso da água (algo que o nosso governo poderia usar, se fosse eficiente…na verdade, é irônico que uma carta com “nossos governos vizinhos estão fazendo melhor do que você” escrito nela não nos levaria a um lugar melhor, mas…).

Outra dica são estes blogs: o da CVM, sobre economia comportamental, e o do pessoal do encontro. Este portal já deve ser conhecido de alguns e, claro, a história do Katona é uma curiosidade “arqueológica” única.

A idéia de vender o peixe como Ciências Comportamentais, discutida, parece-me legal. Não pude ficar até o fim do encontro, para o momento do debate, ou perderia meu vôo, mas imagino que esta tenha sido uma das idéias mais interessantes do encontro, para livrar as pessoas dos preconceitos e afins.

Outro ponto legal é ouvir que lá, na Psicologia, o pessoal não tem preconceito ou problema com a racionalidade. Há quem ache que as pessoas agem irracionalmente, mas não é a leviandade que ouço da boca de gente que critica sem ler. Claro, ainda há muito o que ser feito antes de sair por aí dizendo que pessoas são estúpidas.

Ah sim, a idéia de que elasticidade-preço da demanda e a própria demanda são mais do que conceitos exclusivos da humanidade é algo que sempre achei interessante e, claro, aparece em experimentos com animais (sim, isso mesmo). Bom, eu nunca vi dialética marxista entre formigas, mas lei de demanda…(fascinante, não?).

Pela manhã, alguns painéis foram apresentados e eis um resumo visual.

20141111_123810 20141111_123754 20141111_123744 20141111_123736Pois é. Muita coisa, não? Espero que o pessoal do encontro publique algo lá no blog (vídeos, fotos ou mesmo transparências apresentadas, quando possível) porque, quem já conhece um pouco, vai adorar.

 

O que você prefere?

Este artigo me deixou curioso sobre um tema avançado – para a graduação brasileira – em Economia: preferências. Todo aluno quer saber de onde elas vieram. Bem, nós assumimos que existem e mandamos bala na álgebra. É mais simples e, se você é aluno de primeira viagem, deveria agradecer a Deus por facilitarmos sua vida.

Agradecer a Deus, mas não deixar de continuar se questionando. Isso significa que você deve tentar construir seu conhecimento da maneira correta: aprenda primeiro muito bem a usar a ferramenta e, depois, procure por alternativas (ou aperfeiçoamentos da mesma). A mesma coisa se dá com o termo “preferências”.

Lembra do post de hoje sobre “cultura”? Pois é a mesma coisa. Eu só comecei a estudar o tema depois apanhar muito (e ainda apanho) da teoria tradicional. Aliás, até prova em contrário, ainda sou da velha guarda pois, de gustibus non est disputandum.

Ah é, falaram para você de interdisciplinaridade mas só te mostraram a porta do partido político do professor? Então esqueça. Há vida interessante na academia e ela inclui relações com a computação, com a matemática, com as ciências biológicas, da saúde, com a história, com a neurologia, etc. Antes de dar o salto, faça como economistas: suba os degraus. O ganho é sempre marginal.

Robert Shiller, as bolhas e a economia comportamental

Eis um bom artigo publicado na mídia. Faço a ligação com o post anterior. Como disse Mises, boa teoria é sempre julgada com relação às alternativas. Nada de austrianismos. Assim, você pode passar anos falando de “malinvestiment”, mas foi o pessoal de economia comportamental que desenvolveu a teoria. Não é a toa que Mark Skousen, notório austríaco, mudou de um radical austrianista (quem não se lembra da foto horrorosa dele rasgando o livro introdutório de Paul Samuelson?) para um entusiasta divulgador da economia (comportamental e outras) em seu recente (e recomendável) Econopower.

Sobre a estratégia austríaca, aliás, endorso quase tudo – senão tudo – que Peter Boettke disse no post anterior. Este é o caminho.

Sobre as bolhas, bem, bolha é bolha e Shiller mostra que ainda estamos longe de algo mais concreto quanto a previsões sobre as mesmas. Talvez Shiller seja mais consistente, creio, do que Noubini, para dizer algo a respeito. A dica é que se você quer estudar bolhas, terá que passar pelos microfundamentos tradicionais acrescidos de elementos da nova economia comportamental para fazer algo sério. Um programa de pesquisa interessante é fazer a interação com gente séria da Psicologia (gente que não dá fricote quando abre um livro bacana como o Psicometria (1998) do Pasquali) para estudar economia comportamental e fundamentos da ação coletiva e seus impactos no curto e no longo prazo.

Economia comportamental

Matizes Escondidos certamente gostará disto. Economia Comportamental é uma, digamos assim, volta às origens da Ciência Econômica, só que com os instrumentos da moderna Psicologia e das Neuro-ciências. Boa pedida para se saber o futuro da nossa Ciência.