Roberto Campos deveria assessorar candidatos (sérios) a qualquer cargo público

Cheio de ironia, Campos declarava-se um recém-convertido ao nacionalismo (hoje seria chamado de “nacional-desenvolvimentista”, “heterodoxo” e assemelhados). Concluía, em seu Elogio da Ineficiência:

  1. O Brasil não deve exportar nada que esteja em alta demanda no mercado mundial. O melhor é esperar que haja superprodução, porque aí não temos nenhum sofrimento em entregar os nossos bens ao estrangeiro.
  2. É melhor exportar pouco, a preços altos, que muito, a preços mais baixos. Se algum de nossos exportadores pretende vender mais barato a fim de aumentar o volume e deslocar concorrentes no exterior, subordinando-se servilmente ao mercado mundial, pancada nele, que a intenção é suspeita e o caso é de polícia.
  3. Deve-se sempre vender caro e comprar barato. Se é assim que os homens ficam ricos, por que não as nações?
  4. Quanto a produtos mineirais, o melhor mesmo é conservá-los no subsolo, até que possam ser decididamente industrializados. Assim não ficam buracos nem se estraga a paisagem.
  5. Cumpre preservar cuidadosamente os déficits de Governo, que são fontes de geração de riquezas; e a empresa pública é sempre preferível à privada, pois descobriu o segredo de dar emprego sem dar trabalho.

Está lá em “A Técnica e o Riso, APEC, 3a ed, 1976, p.27. Ah sim, sobre a xenofobia deste discurso, vale a conclusão do capítulo, na p.28:

Em verdade, em verdade vos digo: o único mal deste país é ter sido descoberto por estrangeiros.

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Nova ferramenta do governo e uma aplicação rápida para os dados relativos a Pelotas

O Ministério do Planejamento lançou um ótimo bem público (economistas sabem que uso o conceito econômico de bem público) que é este portal sobre transferências federais.

Aproveitei para ver como o município de Pelotas, no RS, aparece neste quesito, olhando por órgãos federais. Eis algumas figuras bastante ilustrativas.
pelotas1pelotas2

Claro, eu poderia melhorar mais a análise observando o status dos projetos (estão em execução? Já encerrados?), mas isso fica para o leitor. Peço desculpas, também, pelos títulos dos gráficos. A bem da verdade, o grande transferidor de recursos para o município é o Ministério da Educação e eu poderia ter feito, basicamente, só um gráfico.

O significado disto tudo? Vários pontos interessantes podem ser destacados aqui, mas isso fica para outro dia. Comentários, como sempre, são bem-vindos.

Ah sim, parabéns aos que disponibilizaram mais esta fonte de dados públicos. Ficou ótimo!

Não existe “Minha Casa, Minha Vida” grátis

O prof. Tabak e co-autores têm um novo texto. Eis o resumo:

Este artigo analisa o Programa Minha Casa Minha Vida – PMCMV, sob a ótica da Análise Econômica do Direito. Com o trabalho pôde-se concluir que o Programa, está alinhado ao nível de Análise Normativa do Direito, que estuda como a noção de justiça se comunica com conceitos de eficiência econômica, maximização da riqueza e maximização de bem-estar. Contudo, as consequências da referida norma não alcançaram seu objetivo inicial, qual seja, a redução do déficit habitacional entre a população brasileira, ao contrário houve elevação desse indicador, além de uma elevação do valor dos imóveis e afastamento das famílias de menor renda das sedes urbanas.

Análise Econômica do Direito em ação. O que complementaria o artigo? Testes empíricos. Fica aí a sugestão (seja rápido, antes que os autores (ou algum(ns) dele(s)) faça isso). ^_^

Como perder uma boa chance com o ferro, o nióbio, o cobre, o grafeno, etc

Há três infalíveis receitas para nos garantir um destino medíocre como exportadores de minério. A primeira é criarmos um monopólio estatal de exportação; isso afugentaria rapidamente as usinas consumidoras, receosas de manipulação de preços ou orientação política do abastecimento. A segunda é procurarmos valorizar o nosso produto mediante a ‘sustentação’ de preços; graças a esse processo logramos reduzir a nossa participação no mercado mundial de café, de 75 para 40% em cinco lustros, e não há a menor razão para não realizarmos façanha ainda mais radical no caso do minério. A terceira é evitarmos a associação com as usinas consumidoras; nesse caso, sempre que declinar a procura mundial, seremos os primeiros a ser expelidos do mercado, preservando-se assim as nossas jazidas. [Roberto de Oliveira Campos, “A técnica e o riso”, Apec, 1976, 3a ed, p.48]

Um título alternativo, na era da fake news seria: Roberto Campos humilha potencial candidato à presidência mesmo depois de morto.

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Entendeu? Ou quer que eu desenhe um diagrama de oferta e demanda?

Corrupção, Crime e Crescimento Econômico

Que tal este artigo?

A theory of organized crime, corruption and economic growth
Keith Blackburn, Kyriakos C. Neanidis, Maria Paola Rana

Abstract – We develop a framework for studying the interactions between organized crime and corruption, together with the individual and combined effects of these
phenomena on economic growth. Criminal organizations co-exist with law-abiding productive agents and potentially corrupt law enforcers. The crime syndicate obstructs the economic activities of agents through extortion, and may pay bribes to law enforcers in return for their compliance in this. We show how organized crime has a negative effect on growth, and how this effect may be either enhanced or mitigated in the presence of corruption. The outcome depends critically on a trade-off generated when corruption exists, that between a lower supply of crimes and the probability these crimes are more likely to be successful.

A referência? É esta: BLACKBURN, K.; KYRIAKOS, ·; NEANIDIS, C.; MARIA, ·; RANA, P. A theory of organized crime, corruption and economic growth. Economic Theory Bulletin, 2017. Springer International Publishing.

O artigo é de acesso aberto. ^_^

Dominância Fiscal? Não, obrigado.

Aparentemente, o debate sobre a dominância fiscal vai esquentar. Carlos Eduardo Gonçalves, do “Por quê” publicou um pequeno (altamente técnico para leigos, algo técnico para graduandos que entendem econometria) texto para “leitura” na Casa das Garças com evidências econométricas de que não, não há dominância fiscal no Brasil.

O debate é interessante porque…bem, leia a última frase da conclusão do artigo e veja os dados do governo (gastador pacas) do Brasil para entender porque isto é um tema que incomoda tanta gente.

p.s. dica do comentarista Diogo Bastos (lá no livro de caras) é este trabalho, de alguns meses atrás, que chega à conclusão oposta.

O índice de desconforto (“misery index”) de Arthur Okun…para o Brasil

Pode não ser lá aquelas coisas, mas é divertido de se ver o misery index de Arthur Okun para o Brasil. Na figura abaixo, duas alternativas: um com a taxa de desemprego da região metropolitana de São Paulo e outra com a taxa de desocupação. Ambas com o IPCA e o período escolhido simplesmente por questões de disponibilidade de dados.

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Claro, pode-se pensar em mais diversão com este índice. Outros gostam de inventar “moda” com o mesmo. Eu gosto da simplicidade e despretensiosidade do original: ninguém está a dizer que é uma variável importante, que não tem erro de medida, nem nada. Mas a tendência do mesmo condiz com minha sensação de desconforto com os rumos recentes da economia.

Ok, você pode fazer pesquisas mais sérias com ele, mas a busca de artigos fica por sua conta.

Algumas estatísticas interessantes sobre o Brasil (vão te ajudar a não passar vergonha nas redes sociais)

  1. “…, 58,1% (cinquenta e oito inteiros e um décimo por cento) dos empreendedores brasileiros têm rendimento familiar de até 3 (três) salários mínimos, 61% (sessenta e um por cento) são negros e pardos, e 30,6% (trinta inteiros e seis décimos por cento) não têm educação formal ou têm apenas o primeiro grau incompleto. Pequenos negócios empresariais constituem nada menos que 98,1% (noventa e oito inteiros e um décimo por cento) do universo de empresas no Brasil, respondendo por 43,5% (quarenta e três inteiros e meio por cento) dos empregos do país“.
  2. “… ao contrário do que muitos acham, é grande a parcela de pessoas que conciliam trabalho e estudo simultaneamente. Observe-se, por exemplo, que a média da idade em que as pessoas com ensino superior completo começaram a trabalhar é 17,5 anos. Em terceiro lugar, segundo dados da PNAD 2015, no grupo de pessoas que começaram a trabalhar antes dos 9 anos de idade, cerca de 74% alcançaram no máximo o ensino fundamental completo“.

Antes de sair por aí falando mal dos empreendedores (“capitalismo malvado”, “empresário só quer saber de lucro e vai te colocar em trabalho escravo se deixar”, “no Brasil a reforma da previdência trará o caos e uma chuva de gafanhotos destruirá as colheitas”) não custa nada estudar os fatos e, claro, selecionar entre as narrativas históricas que sejam honestas e, de preferência, baseadas em dados e com forte teor de ceticismo.

Esta foi a lição de hoje sobre prática científica, debates em redes sociais e sobre a necessidade de se contar até dez antes de falar bobagens. Até a próxima!

Multiplicadores da política fiscal: bem menores na realidade do que no livro-texto do primeiro período

Pois é. Nunca é demais lembrar, não? Para o Brasil, o que temos?

Estimamos multiplicadores fiscais em torno da unidade ou um pouco abaixo disto para a economia brasileira de 2004 a 2011. Nossos cálculos indicam que o impacto de um impulso fiscal atinge seu pico em cerca de um ano e meio – período para o qual estimamos multiplicadores entre 0,7 a 1,0. Em três anos, o resultado acumulado do multiplicador cai para 0,5 a 0,8.

O trecho acima foi retirado do texto de Oreng [Oreng (2012)] disponível aqui. Parte da moral da história é que a política fiscal (esta que aumenta gastos encantando os que apenas começaram a caminhada nas leituras de macroeconomia) é bem menos potente do que parece.

Substituição de importações e fechamento da economia…na visão de Tavares Bastos

Commettemos tambem a inepcia de fazer das tarifas das alfandegas um ponto de apoio da industria nacional contra o que chamava-se em França a invasão dos productos estrangeiros. (…) As industrias protegidas desapparecem ou definham, mas as taxas perduram. [Tavares Bastos, A.C. Cartas do Solitario, 1863, 2a ed., p.20]

O mais engraçado é que, outro dia, li crítica similar ao mercantilismo pombalino, que, no caso, obrigou os colonos a comprar tachos com buracos e mais caros do que os melhores (e mais baratos) ingleses.

Que tal um pouco de noção sobre o excesso de regulação no transporte marítimo?

Aqui mesmo na côrte sabemos que as commissões do arsenal teem declarado aptos para navegarem vapores em circumstancias pouco animadoras. E’ assim que a restricção fomenta a fraude das companhias, uma vez que os particulares depositam inteira confiança no resultado de um exame instaurado por commissarios do governo. [idem, p.21-2]

Tavares Bastos merecia, realmente um estudo mais profundo por parte de quem geralmente mais entende de Ciências Econômicas, ou seja, os economistas.

Quem está certo? Abílio Diniz ou André Diniz? ou: “Melhor é aumentar impostos ou cortar gastos?”

A entrevista foi publicada no final de semana e o empresário defendeu o aumento de impostos, para o que ele vagamente chama de “capital especulativo” (isso até que não é surpreendente). Claro que ele não defende impostos no setor em que trabalha, mas a pergunta é válida: por que não aumentar impostos para ajustar o setor público? Por que parar no (indefinido) capital especulativo?

Bem, talvez não seja uma boa idéia, conforme este artigo que mostra evidências favoráveis, para a América Latina, de um outro artigo anterior (o do Perotti, citado lá também), de uma hipótese já testada para países da OCDE sobre a diferença que faz ajustar a economia via aumento de tributos ou corte de gastos (a conclusão é que você perde menos bem-estar com o corte de gastos).

p.s. estou usando “impostos” e “tributos” como sinônimos porque, obviamente, estou me referindo ao conceito geral. Fosse isto aqui um blog de contabilidade, a história seria diferente.

A Petrobrás, motéis e restaurantes… – momentos curiosos do pensamento econômico brasileiro (e brasilianista)

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Pois é. Juro que não sei o que se passou pela cabeça de Werner Baer, Isaac Kerstenetzky e Annibal Villela quando escreveram este trecho da conclusão de seu artigo sobre o papel do estado na economia brasileira em 1973. Olha que se trata do final do artigo, uma seção chamada Tendências Futuras.

Tem horas que penso que talvez só Freud explique… ^_^

Não foi por falta de aviso – dívidas estaduais

Pois é. Os economistas já sabiam, não é? Apesar de serem acusados de “não conseguirem prever a crise de XX” ou “não terem previsto a chegada do homem à Lua” e afins, em 2014, alguns deles diziam (último parágrafo da conclusão):

Portanto, a persistência dessa política fiscal inócua implicará na trajetória ascendente da relação dívida/PIB e, por conseguinte, à insolvência dos governos estaduais. Desse modo, mesmo não sendo preocupantes os níveis atuais da variável dívida/PIB nos estados, a continuidade desse comportamento por parte dos governos estaduais pode levar à necessidade de uma renegociação da dívida dos estados semelhante à ocorrida em 1998. Logo, outra questão relevante a ser analisada refere-se à tolerância dos governos estaduais a esse comportamento. [ver este artigo]

Que coisa, não?

Por que você precisa aprender os conceitos de média, mediana e moda (mais uma vez)?

mediana

A figura acima é do relatório FOCUS de hoje. Outro dia eu falava da importância de se aprender os conceitos de mediana e da média (esquecendo-me, lamentavelmente, da mais fashion das medidas, a moda) neste blog.

Bem, hoje você tem mais um exemplo sobre a importância de se aprender os conceitos citados. Afinal, você tem que explicar o que ocorre com as expectativas de inflação para alguém, não é? Sempre há alguém que pergunta isto ao amigo que estuda Economia.

Olha, se você aprendeu o conceito depois de tanto repetir aqueles exercícios chatos de número de bolas verdes e vermelhas na urna, então não terá dificuldades em dizer que, por exemplo, em relação ao IPCA 2017, de abril a julho deste ano:

a) A mediana das expectativas deslocou-se para valores menores da inflação, com aumento da dispersão;
b) A mediana das expectativas deslocou-se para valores maiores da inflação, com aumento da dispersão;
c) A mediana das expectativas deslocou-se para valores menores da inflação, com queda da dispersão;
d) A mediana das expectativas deslocou-se para valores maiores da inflação, com queda da dispersão.

Qual é a alternativa correta?

Após escolher a alternativa correta, repare, não se deve cair no erro de se dizer que o causou a ______ (sua resposta ao lado) foi uma variação na mediana. Claro que se a mediana mudou…ela mudou. Agora, a causa da mudança tem a ver com os fatores que alteram as expectativas dos agentes econômicos envolvidos na amostra utilizada pelo relatório FOCUS.

Gostou do post? Dá um like. Não gostou? Dá um like também e se arrependa dos seus pecados.

Por que você tem que aprender os conceitos de média e mediana? Para entender melhor as políticas públicas no seu país. Sim, isso mesmo!

Eis uma belíssima observação do livro de Alston et al (2016)do Bernardo Mueller e do Lee Alston,“Brazil in Transition: Beliefs, Leadership, and Institutional Change”:

“In Brazil, the ratio of median to mean income has gone up from 0.45 in 1976 to 0.59 in 2009. This data suggests that important changes have taken place in the political equilibrium. They also indicate that the fall in inequality in Brazil over the past two decades is not a temporary fluctuation but rather the result of deep systematic changes in the country’s social contract”. [p.136]

A distância entre as rendas mediana e média, também nos lembram os autores, é uma contribuição do clássico artigo de Meltzer e Richard (o famoso Meltzer & Richard (1981)). Digo, eles não inventaram a medida de distância mas, até onde sei, foram eles que atribuíram à dita cuja a interpretação intuitiva, mas poderosa de ser uma boa ‘proxy’ da pressão política por redistribuição em uma sociedade.

Trechos assim nos lembram que, muitas vezes, é podemos obter muita intuição do básico. Aí o aluno me pergunta: por que eu aprendo média e mediana no curso? Não tá de bom tamanho fazer umas contas com uma amostra de bolinhas vermelhas e verdes ou com umas cartas de baralho?

Como você percebe do trecho acima, não, não basta. Um economista tem que entender o conceito, não apenas aplicá-lo. Veja como aprendemos um bocado sobre pressões por políticas redistributivas usando apenas a distância entre as rendas média e mediana!

A desigualdade criada por lei: por que sindicatos não precisam prestar contas sobre o uso que fazem do dinheiro dos cidadãos brasileiros?

Spotniks nos traz um fato muito revelador sobre o (mau ou bom) uso do dinheiro dos impostos que as pessoas pagam de forma mais estranha no Brasil: o imposto sindical. Não só ele, mas também qualquer outro recurso recebido por centrais sindicais.

Os itens 3 e 4 do didático texto nos ajudam a pensar em boas hipóteses – bastante compatíveis com a literatura de Public Choice – sobre a oferta e demanda de privilégios como o de não ter que prestar contas sobre o uso do dinheiro recebido.

Repare: estou apenas propondo uma hipótese de investigação, não estou dizendo nada sobre como eu acho que as coisas deveriam ser.

Caso você me pergunte sobre isto, ou seja, sobre o aspecto normativo, eu já te digo que não, eu não acho decente que nenhum sindicato financiado com dinheiro alheio seja privilegiada com a não-obrigatoriedade de prestar contas sobre o uso do mesmo.

Imposto Inflacionário no Brasil

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Calculado conforme este texto, ok?

Comentários rápidos: a primeira administração da Silva conseguiu, seguindo as políticas estabelecidas pela equipe do Plano Real, manter a inflação em níveis baixos. Entretanto, a partir de 2006, percebe-se uma leve alteração para cima e parece que o final da história não é muito bonito.

O mérito do Plano Real está na queda que se observa no pré e pós 1994. As administrações da Silva e Rousseff parecem ter uma certa dificuldade (anedoticamente bem saliente…) em manter a inflação sob controle, não?

O que um pouco de evidência empírica nos diz? Um exemplo de bom artigo sobre economia brasileira

Você não precisa ter o modelo mais “perfeito” (se isso for cientificamente possível…) para analisar a realidade. Muitos alunos ficam apavorados quando têm que estudar Econometria (com “E” maiúsculo) e, dos que avançam, alguns entram em um conundrum filosófico sobre a aplicabilidade dos modelos, imaginando que devem explicar o mundo inteiro no mesmo (o que destrói a própria noção de modelo, em termos científicos).

Hoje, a Zeina Latif, economista que trabalha no setor privado, tem um artigo simples – no sentido de didático – e interessante sobre os problemas fiscais que o governo parece não querer resolver (que não consegue, já sabemos). Chamou-me a atenção, para fins deste blog, estes trechos:

Neste artigo, apresento um modelo simplificado desenvolvido por Tatiana Pinheiro que busca estimar o efeito do impulso fiscal do governo federal sobre a demanda privada. Ficam de fora, portanto, o impulso de entes subnacionais e a política para-fiscal, por falta de dados suficientes. Trata-se de um modelo econométrico (VAR) que associada a variação da demanda privada ao impulso fiscal (superávit primário estrutural), taxa real de juros (ex-ante), taxa real efetiva de câmbio e atividade econômica global.
O modelo foi estimado para vários intervalos temporais, estendendo-se o final da amostra a cada etapa, com o intuito de observar a evolução do coeficiente que mede o poder do impulso fiscal para estimular a demanda. O período compreendido foi de 2000 a 2015 (3º trimestre).
O exercício revelou que a política fiscal afeta a demanda privada num intervalo de 3 a 6 trimestres, o que significa que o grosso da política fiscal em um determinado ano afeta a economia apenas no ano seguinte. O principal resultado é que a política fiscal perdeu a eficácia a cada ano (coeficiente em queda), com maior redução a partir de 2014, sendo nula para o período 2000-15. Os resultados indicam que a política fiscal pode ter se tornado contraproducente a partir de 2014. Assim, os excessos fiscais de 2013 e 2014 ajudam a explicar o quadro recessivo iniciado em 2014 e seriamente agravado em 2015.

 

Reparou? O modelo tem limitações (como qualquer modelo), brevemente citadas logo no início do artigo no Estadão (um dos poucos jornais que publica artigos de bom nível para aqueles que estudaram Economia com afinco, a despeito de faculdades ou professores). Em seguida, discute-se o resultado do VAR (vetor(es) autorregressivo(s), que não deve se confundido com VaR, Value at Risk, de Finanças).

O VAR já apareceu neste blog várias vezes. Vez por outra, o Vitor Wilher implementava um exercício simples em seu blog antes de iniciar seu empreendimento ensinando a linguagem R (quantas vezes você viu, aqui, os “Momento R do Dia” e “Dica R do Dia”?). Não é um modelo complicado de se entender, muito menos de se estimar. O que é preciso, claro, é que você saiba o que está fazendo. Isto implica que saiba onde quer chegar.

No trecho acima, a citada Tatiana quer chegar em uma resposta à pergunta: “a eficácia da política fiscal mudou o longo do tempo”? Para tanto, resolveu usar um VAR ao invés de jogos retóricos que poderiam começar dizendo que nem tudo na vida é quantificável – agradando aos que têm dificuldades com Matemática e, adicionalmente, são preguiçosos – e seguir adiante.

Também evitou usar modelos tecnologicamente defasadas para o problema em questão. Em outras palavras, uma regressão múltipla não basta e, portanto, o papo de que hoje em dia os economistas jovens só pensam em Estatística, esquecendo-se de ler os clássicos, não é um papo com o qual eu e o leitor devamos investir tempo. Claro que, digamos, na história da matemática, seria bizarro se um hipotético movimento de adoradores dos números reais tentasse criticar os matemáticos que usam números reais e imaginários, não é? O mesmo ocorre aqui.

Ainda que seja uma aplicação simples e, como sempre, criticável, há aí um modelo feito com uma tecnologia econometricamente difundida e compreendida por qualquer economista que atue no setor privado ou público.

Finalmente, sobre as conclusões, a triste realidade se impõe. A celebrada – por alguns – política fiscal perdeu eficácia. Não é que não seja importante, teoricamente falando, mas, dadas as escolhas de política econômica, transformou-se em algo quase inócuo para o que desejamos (maior bem-estar para a sociedade), senão contraproducente. Não precisa, claro, demonizar a política fiscal, diz o artigo. O ponto é torná-la novamente eficaz. Bem, isso vai dar trabalho.

Não é um artigo interessante? No final, o leigo entende o que acontece sem precisar fazer um curso de Econometria. Claro, caso queira saber mais, basta procurar bons cursos. Gosto de ler artigos para leigos do calibre deste da Zeina (com Tatiana). Educam e disseminam boas práticas científicas.

 

Por que a história econômica é importante para se entender nossos problemas atuais?

A dica é esta. Alguns trechos.

Is a budget deficit really so bad? Plenty of governments run deficits at times, and cover the shortfall by borrowing against future budget surpluses. Brazil does not face an imminent debt crisis. Yet the bond market has turned sour on them.  Why? The answer is history.  Over the last century Brazil repeatedly failed to honor its debt.  Instead of consistent fiscal discipline, it ran up deficits, using high inflation and default to avoid paying back what it owed. No wonder deficits set off alarm bells in Brazil.

(…)

The bond market is not the problem.  The market’s repricing of default risk is merely a symptom. The illness is the weak commitment to fiscally sound policies that avoid high inflation, and a questionable commitment to honor the debt. The problem is political, not economic.

Leia o texto todo!

De quanto será a queda na demanda por planos de saúde privados? Um breve exercício.

O pesquisador Ricardo M. de Moraes tem algumas estimativas preliminares (e uma rotina em R) que nos dão os seguintes resultados (leia o texto para detalhes, ok?) para uma especificação com controles sobre dados da POF 2008-2009:

Um aumento de 1,0% na renda domiciliar dos consumidores de planos e serviços de saúde está associado a um consumo 0,4% maior desses planos e serviços (elasticidade-renda). [p.6. Nota: a renda diz respeito à “renda monetária mensal da família”]

Há um alerta:

O cuidado a tomar, no uso de estimativas como as da elasticidade-renda, é que, neste e na maior parte dos estudos ele é feito com bases de dados em cross section e aplicado para projeções ao longo do tempo. A hipótese é a de que, com um aumento de 1% em sua renda, o consumidor adotará o perfil de alguém que, no período em que a pesquisa foi feita, ganhava 1% a mais. Em períodos normais essa pode ser uma hipótese válida. Em épocas de fortes mudanças na economia, ela pode não ser aplicável. [p.11]

Para fins didáticos, apenas, vamos assumir que este resultado seja um bom indicador do que está acontecendo na realidade, inclusive no sentido desta elasticidade ser a mesma para períodos posteriores a 2008-2009. Em resumo: suponha que ela valha para os dias de hoje, a despeito do alerta do autor (note que ele usa o verbo poder no final do trecho acima, o que é correto, dado que mudanças podem ou não afetar a estrutura da especificação estimada).

Assim, digamos que a renda das famílias, neste ano, caia em 4% (o pessimismo é baseado nas estimativas da Tendências). Neste caso, o gasto com plano de saúde cairia em 1.6%. Não dá para ficar muito otimista, mas no caso de a elasticidade ser unitária…bem, este é um dos resultados que o autor também obtém (em um dos resultados, a elasticidade é de 1.19, o que nos daria uma queda de demanda de 4.76% para os mesmos 4% de queda da renda das famílias).

O pequeno texto do autor tem mais observações interessantes e qualificações úteis para quem quiser se aprofundar no tema.

Contrafactuais e o Brasil

Vinicius e João Manoel com mais um texto legal sobre a economia brasileira. Eles falam de contrafactuais e, se você está no mestrado do PPGOM (a página está com problemas de atualização, mas o básico está lá), poderá conversar com um professor que entende muito do tema, o Felipe Garcia.