Austríacos com Econometria? – Vida inteligente existe!

Alguns conhecidos “austríacos” estão de luto pelo uso da Econometria, mas eu saúdo este tipo de artigo.

An Empirical Analysis of the Austrian Business Cycle Theory
William J. Luther & Mark Cohen

International Atlantic Economic Society 2014
Abstract
The Austrian economists Ludwig von Mises and Friedrich A. Hayek developed a unique theory of the business cycle. In their view, an unsustainable boom ensues
 when the rate of interest prevailing in the market falls below the natural rate. The boom is characterized not only by an increase in aggregate production but also by a distortion of the structure of production. Similarly, the recession that follows is characterized by a decline in aggregate production as the structure of production is repaired. Hence, the Austrian account of macroeconomic fluctuation stresses the misallocation and reallocation of resources in addition to the overproduction and underproduction of more conventional business cycle theories. In a recent article, Lester and Wolff (Review of Austrian Economics 26(4):433–461,2013) attempt to consider the empirical relevanceof the Austrian view. We argue that the authors’ use of the federal funds rate as anindicator of monetary policy is inappropriate in that it fails to distinguish a low marketinterest rate from a market interest rate that is low relative to the natural rate. Using an estimate of the natural rate provided by Selgin et al. (2011), we attempt to improve upon their analysis.

Meus amigos austríacos sempre insistem que o mercado é a melhor forma de se alocar recursos. Bem, eu assino este periódico e, portanto, não devo repassar este artigo gratuitamente para ninguém, não é? Quem entendeu a piada, entendeu. Quem não entendeu, chorou.

Ah, o artigo? É, eles – os autores – usam um VAR estrutural (SVAR), fina flor da da Econometria moderna, para sua análise empírica. Talvez alguns achem que isto é só uma “questão acadêmica” como chegaram a dizer para mim, certa vez, quando falei da necessidade de se analisar empiricamente a carga tributária. Pois é. Eu concordo que a teoria de Einstein é acadêmica, a epidemiologia é acadêmica, a psicometria é acadêmica, mas saber utilizá-la para aprimorar nosso conhecimento da realidade é um pouco mais do que academicismo. Acho que posso dizer que é fruto da ação humana, sempre cheia de propósitos…

Confere o número especial do AES, caso você realmente goste do tema.

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Ortodoxia, sim! Por que não? Tem até beijo gay na novela das oito!

Rebuliço e reboliços heterodoxos

Recentemente houve um certo rebuliço (isso mesmo) acerca de um artigo do Paul Krugman publicado, acho, ontem. Alguma coisa sobre choro heterodoxo. Ok, o povo adora discutir Paul Krugman porque, primeiro, dá ibope para o blog, segundo, porque pode ser que ele tenha algo a dizer que seja útil, ao invés de suas críticas ao Partido Republicano, sempre sujeitas a erros crassos.

Mas eu prefiro não citar o Krugman. Prefiro este professor de Oxford, Simon Wren-Lewis, que diz, sobre a economia mainstream:

●     Of course mainstream theory can be conservative. It has been used by some to support a particular ideology. I complain a lot about both. But the most important reason mainstream economics has become dominant is not because of these things, but because it has proved far more useful than all of its heterodox alternatives put together. I agree with Roger Farmer here: economics is a science. Its response to data and events may be slow compared to the normal sciences, for obvious reasons, but it is progressive. I cannot see any fundamental barriers to its continuing development.

●     This is because mainstream economics can be remarkably flexible. One of the sad things about the way economics is often taught is that students do not see much of the interesting stuff that is going on in both micro and macro, and instead just learn what the discipline looked like 50 years ago.

Ele se refere a uma discussão específica, de um povo lá de Manchester, mas creio que levantou bons pontos em seu texto. Note que um dos grandes erros das pessoas é imaginarem que economistas são caricaturas que pensam de maneira binária (sim, a vasta maioria dos críticos de nossa Ciência tem esta visão deformada que, aliás, dizem criticar).

Quem nunca viu um texto de Douglass North citado aqui, levante o braço. Quem acha que a Nova Economia Institucional é sinônimo de Ortodoxia, vá estudar mais antes de falar besteira. Quem acha que este blog tem posts sobre Econometria aplicada porque é ortodoxo, por favor, vá ler um pouco e praticar Economia antes de cometer tamanho erro. Dói mais em você – que morrerá de vergonha ao lado de quem entende do assunto (mas não ao lado dos idiotas que acham que o mundo a ser criticado é o de “cabeças de planilha”) – do que em mim, que tenho que perder minutos do meu tempo valioso para explicar o óbvio: Ciência não é Religião. Aliás, pega lá o A Solidão da Cidadania do Alberto Oliva e leia sobre a diferença entre ciência e religião. Já ajuda um bocado.

À guisa de conclusão

Uma anedota curiosa. Um amigo pessoal meu e também colega de trabalho, o Ari, é um sujeito chegado na econometria. Nada de errado com isto, certo? Pois é. Mas eu, que lia um pouco de Economia Austríaca (ainda leio) porque, sei lá, vai ver eu queria pegar mulher, ou porque eu achava (ainda acho) que há algo válido lá para meu crescimento pessoal (no pun intended, ok?). Pois é. Um belo dia, um sujeito que se diz libertário, perguntou ao Ari como é que ele podia trabalhar comigo pois ele usava econometria e eu falava de Hayek.

Ou seja, o preconceito do sujeito é tal que ele já assume como verdade universal e inabalável que se Mises fez xixi no livro de econometria, todos devem fazê-lo. Mises não sofre de dispersão do conhecimento e, claro, o método científico só vale se for o de, adivinhe, Mises. E ele se diz libertário, pluralista e tal. Não me perguntem o nome do sujeito. Não vou dizer. Mas perceba como a visão do leigo – que não é da área – é sempre tão preconceituosa quanto a dos economistas que dizem criticar.

“And the libertarian girl only wanted to talk about date, Rousseff, ops, Yousef. No mention to the PSDB vs PT eternal and important debate”.

Três textos para interessados em estudos avançados na área de Economia Austríaca

2009 Lavoie Graduate Student Essay Competition Winners

The Society for the Development of Austrian Economics is pleased to announce the winners of the Don Lavoie Memorial Graduate Student Essay Competition. Three prizes are given, each worth $1000, to be used to pay expenses to attend the Southern Economic Association meetings this November in San Antonio, TX, where the winners will present their work on a special panel at 10:00am, Saturday, November 21, 2009. Prize awards are contingent on attending the SEA meetings and the SDAE’s annual business meeting and awards banquet.

This year’s winners are:

Chad Seagren
George Mason University
Agent Based Modeling and Austrian Analysis of Accident Law”

Arash Molavi Vasséi
University of Hohenheim
“Static Tools for Dynamic Analysis: Ludwig von Mises’s Business Cycle Theory”

David Skarbek
George Mason University
“Self-Governance in San Pedro Prison”

Divulgação

Recebi esta mensagem e gostaria de compartilhá-la com os que estudam seriamente economia austríaca.

Good morning folks. Please see below for details on this year’s 2009 Don Lavoie Memorial Graduate Student Essay Competition sponsored by the SDAE.
*****

The Society for the Development of Austrian Economics is pleased to announce that submissions for the 2009 Don Lavoie Memorial Graduate Student Essay Competition are now being accepted. Submissions will be accepted from advanced PhD students in economics or other relevant disciplines anywhere in the world. The competition is limited to thesis chapters and/or other research that is geared toward publication in the professional journals; submissions should adhere to appropriate standards of academic writing and should be on a topic relevant to Austrian economics. There is no word limit; and, students submitting papers to this competition will retain all publication rights to their work; however, winners are encouraged to submit their papers to The Review of Austrian Economics for possible publication.

Three prizes are given, each worth $1000, to be used to pay expenses to attend the Southern Economic Association meetings this November 21-23, 2009 in San Antonio, TX, where the winners will present their work on a special panel scheduled for 10:00am, Saturday, November 21. Prize awards are contingent on attending the SEA meetings and the SDAE’s annual business meeting and awards banquet on Sunday evening, November 22.

The prize committee consists of:

· Peter Boettke, Committee Chair, George Mason University
· Emily Chamlee-Wright, Beloit College
· Steven Horwitz, St. Lawrence University
· David Prychitko, Northern Michigan University
· Virgil Storr, Mercatus Center at George Mason University

Deadline for submissions is October 1, 2009. Decisions will be made by October 15.

Please send all questions and submissions electronically to Peter Lipsey at plipsey@gmu.edu.

Artigo aceito para apresentação na Sociedade para o Desenvolvimento da Economia Austríaca

Apesar do que muitos leitores deste blog presenciaram em uma polêmica (até aí tudo bem) recheada de grosserias (aqui, nada bem) de supostos auto-denominados austríacos brasileiros lá no Ordem Livre (sim, tivemos pessoas educadas também. E também educados que não entendem a diferença entre ciência e fé. E outros que entenderam algo, mas não o todo, etc).

Diante da grosseria, o que fazer? Como já tive a oportunidade de dizer: continuo sempre com minha pesquisa.

Pois dito isto, a boa notícia é que a pesquisa, dentre outras, gerou um artigo e, este, com Ari e Pedro, foi aprovado pela SDAE para apresentação em Novembro, no encontro anual da Southern Economic Association. Se nada der errado, um de nós – possivelmente eu – apresentará o artigo lá.

Já tive oportunidade de afirmar – e reafirmo aqui – que a economia austríaca tem gerado alguns pesquisadores bem-sucedidos como Peter Leeson, Chris Coyne e Ed Stringham. Todos, claro, sob a benéfica influência de Peter Boettke. Creio que foi sob sua orientação que a RAE se tornou uma revista mais interessante nos últimos anos.

Talvez seja um dos primeiros artigos de economistas brasileiros a ser apresentado na Sociedade para o DESENVOLVIMENTO (grifos meus) da Economia Austríaca. Fico feliz com isto porque, na época da polêmica, tentei convencer – sem sucesso – algumas figuras do meio a divulgar um texto incentivando a pesquisa para o desenvolvimento desta escola de pensamento (*).

Há, evidentemente, utilidade em se divulgar eternamente algumas idéias e não construir nada sobre elas. Mas a divisão do trabalho, ensina-nos Adam Smith (e, creio, Mises, certo?), postula que isso seria apenas parte da história: é necessário desenvolver as idéias, trabalhar conceitos, relações, etc.

Se Smith (e Mises, creio) acertou na mosca, então – exceto por outros motivos que desconheço (e agora não me interessam mais)  não faz sentido não apoiar o desenvolvimento da economia austríaca. Então ficamos assim: eu (, Ari e Pedro) colaboramos para avançar nosso conhecimento, inclusive com o uso da literatura austríaca como parte do marco teórico e a galera que não curte isto (e, na polêmica e em pequenos textos recheados de maldade em certas comunidades de redes sociais, dizem até que  “o título de ph.d. é uma mer**”) que continue com as tradicionais atividades doutrinais e suas consequências nem sempre intencionais (como deveriam ter aprendido com Hayek).

A economia política (Mises, Hayek, Buchanan), por sua vez, diz que nem todo auto-denominado “austríaco brasileiro” ficará feliz com o fato deste artigo ser apresentado em novembro. Afinal, grupos de interesses brigam não apenas por recursos, mas também por status. Algo como o argumento misesiano (sic para mim mesmo) da inveja dos intelectuais. Só que, neste caso, permito-me uma leve arrogância: para ser intelectual é preciso não apenas ler, mas ler com lentes de intelectual, não com lentes de panfletário ou de grupos de amigos que nunca apresentam divergências ou discordâncias.

Vou aproveitar e agradecer meus maiores incentivadores nas leituras austríacas: Zanella e o Ronald. Este último, aliás, já disse que gosta muito de ler Hayek, mas não o faz de joelhos. Esta frase diz muito sobre o significado da pesquisa científica, não é mesmo?

Doutrinação anaeróbica versus Ciência

Interessantíssimo texto do Peter Klein. Reproduzo um trecho.

It is necessary to correct the misunderstandings that can be called forth by using the expression “Austrian School.” Neither Menger nor Böhm-Bawerk wanted to found a school in the sense customarily used in university circles. They never attempted to turn young students into blind disciples, nor did they, in turn, provide these same students with professorships. They knew that through books and an academic course of instruction they could promote an understanding suited to dealing with economic problems, thus rendering an important service to society. They understood, however, that they could not rear economists. As pioneers and creative thinkers, they recognized that one cannot arrange for scientific progress, nor breed innovation according to plan. They never attempted to propagandize their theories. Truth would prevail of its own accord when man possessed the faculties necessary to perceive it. Using impertinent means to cause people to pay lip service to a teaching was of no use if they lacked the ability to grasp its substance and significance.

Em outras palavras: sem favoritismos, sem passar a mão na cabeça, sem desrespeito por idéias alheias. Posturas adequadas a um acadêmico e coerente com o que tem sido sempre dito, por exemplo, por Peter Boettke. Não existe, portanto, tal coisa conhecida como “escola austríaca” no sentido anaeróbico. Existem, claro, as idéias de alguns economistas sobre determinados eventos e abordagens. Estas idéias podem até ter este ou aquele rótulo, mas, no final das contas,  não é o rótulo que importa na lata de palmito e sim o palmito.

O problema não é a matemática, mas sim os interesses

“Understanding Academic Journal Market Failure: The Case of Austrian Economics”

Do resumo:

Heterodox schools of economic thought often claim that discrimination takes place in the market for academic articles. Biases exist that prevent heterodox ideas from appearing in mainstream journals. We assess the claim in the context of Austrian economics. First, we document that the research topics pursued in Austrian journals differ significantly from mainstream journals. Austrians pursue different questions. Second, we argue that Austrian articles do not suffer from discrimination based on lack of formalism or ideology. Rather, the lack of Austrian articles in mainstream journals results from the lack of hypotheses in their arguments.

Da conclusão:

The failure of Austrian economics to penetrate mainstream journals arises from two factors. The first is that Austrian-oriented economists tend to focus on topics that mainstream journal editors do not. This does not imply that Austrian economists do not pursue research programs that yield new insights. Rather, they do not engage the majority of other economists. Second, Austrian-oriented economists present their ideas in a form that does not easily illicit discussion. In essence, they have raised the costs for mainstream economists of engaging in dialogue with Austrians, potentially signaling an unwillingness to engage in debate. The evidence does not suggest systematic discrimination by the journal editors or referees; quality Austrian ideas do appear in mainstream journals when presented in a fashion that transmits the ideas in a low-cost manner.

Interessante artigo. Mas falta uma pergunta: a quem interessa aumentar os custos do diálogo com os economistas não-austríacos? A resposta poderia estar em motivações políticas, não econômicas, de garantir posições dominantes em parcelas de mercado específicas. Scott Beaullier realmente levanta questões que incomodam os que defendem o catecismo econômico, ao invés do debate.

Buchanan nos ensinou que não existe troca isenta de interesses individuais. Quais são os interesses de um empresário? E se os incentivos o levam ao rent-seeking? Faça a mesma pergunta para os economistas heterodoxos, ortodoxos e outros e você começará a entender certos discursos que abundam na academia. 

Sim, Beaullier é um austríaco promissor. Já está adicionado em meus favoritos e não há nada de paradoxal nisto.

Um bom dia

Hoje tive uma visita de dois alunos que me perguntaram por bolsas de pesquisa. Infelizmente não temos bolsas, mas eles não queriam dinheiro, mas sim a chance de pesquisar. Fato raro, penso, este de gente que deseja pesquisar e entender um pouco mais do que estuda. Fiquei feliz.

Além disso, aprendi um pouco mais sobre Mises hoje, em um debate no qual até agressões apareceram (lembrei-me porque parei de discutir em grupos e listas de discussão). Aprendi tanto sobre o que Mises escreveu quanto também sobre como o liberalismo brasileiro ainda está longe de ser compreendido (embora muita gente o idolatre, como um socialismo de sinal invertido).

Alguns poderiam pensar que fiquei chateado mas, desta vez, fiquei feliz. Conheci um pouco mais dos leitores do Ordem Livre. Gente que, quase sempre anônima, frequenta este excelente site, deu as caras por lá para me ajudar a refinar meu pensamento (sem falar no sempre ponderado Joel que passou por aqui hoje, em meio ao debate). 

O liberalismo é assim: não é uma obra pronta. Vive da construção (sou hayekiano) e, creio, sou bem menos a favor do uso da violência do que pensava. Ou será que estão quase me convencendo a comprar um revólver e atirar em quem eu achar que queira me escravizar? 

Não sei. Mas, leitor, este dia foi cansativo. Muito. E olha que ainda assim, eu digo para você, foi um bom dia.

Portanto, agora, boa noite.

“Mate seus inimigos” – diz Mises

Duvida? Leia aqui. O interessante do trecho – inacreditável – escrito por Mises é que, além de ele convenientemente tê-lo suprimido em edições posteriores de seu principal livro, é que ele ou nos abre uma nova linha de pesquisa sobre “o uso da violência para garantir a liberdade” (lembra alguma cartilha de esquerda?) ou então nos permite algo mais singelo: perceber que não existe intelectual acima dos seres humanos.

Aliás, esta foi sempre minha crítica a alguns austríacos radicais. Pelo seu próprio bem e, claro, o meu. Afinal, eu não concordo com tudo o que Mises diz. Será que vão lutar até a morte por isto?

p.s. depois cito uma crítica de Lachmann a Mises para não deixar os amigos (e inimigos) austríacos chateados (ou felizes?).

O papo furado de Soros

Peter Boettke, um austríaco razoável e sério, coloca a pretensão intelectual de Soros em seu devido lugar. A dica é: só porque o sujeito é bom em apostas não quer dizer que seja bom em fazer chocolate.

Curso de Economia Austríaca

O programa está quase finalizado. Não sei quantos alunos terei, mas será muito interessante este curso. Em breve, aqui, mais detalhes sobre todos meus cursos deste semestre.

p.s. Meu curso se baseia fortemente no de Peter Leeson, mas há algumas alterações importantes. Usarei, inclusive, textos de conteúdo empírico (sou um heterdoxo para os “austríacos”?)

Kirzner, o confuso…

Dan Klein sobre um dos mais famosos economistas austríacos, Israel Kirzner. Texto obrigatório para o próximo semestre (se é que você me entende). Excelente para quem gosta de História do Pensamento Econômico que, claro, não se limita ao final do século XIX (lembrete: estamos no século XXI).

Austríacos gostarão disto

Charles Koch, seu livro e seu instituto. A julgar pela propaganda do livro, os professores de Administração terão que encarar o fato de que o livre mercado não é o vilão da história (hoje em dia, por incrível que pareça, esta é a tônica no discurso da “responsabilidade social”), mas sim o melhor meio de se gerar prosperidade para a sociedade.

Compre e me dê de presente (o livro) antes que eu mesmo o compre…^_^

Robert Shiller, as bolhas e a economia comportamental

Eis um bom artigo publicado na mídia. Faço a ligação com o post anterior. Como disse Mises, boa teoria é sempre julgada com relação às alternativas. Nada de austrianismos. Assim, você pode passar anos falando de “malinvestiment”, mas foi o pessoal de economia comportamental que desenvolveu a teoria. Não é a toa que Mark Skousen, notório austríaco, mudou de um radical austrianista (quem não se lembra da foto horrorosa dele rasgando o livro introdutório de Paul Samuelson?) para um entusiasta divulgador da economia (comportamental e outras) em seu recente (e recomendável) Econopower.

Sobre a estratégia austríaca, aliás, endorso quase tudo – senão tudo – que Peter Boettke disse no post anterior. Este é o caminho.

Sobre as bolhas, bem, bolha é bolha e Shiller mostra que ainda estamos longe de algo mais concreto quanto a previsões sobre as mesmas. Talvez Shiller seja mais consistente, creio, do que Noubini, para dizer algo a respeito. A dica é que se você quer estudar bolhas, terá que passar pelos microfundamentos tradicionais acrescidos de elementos da nova economia comportamental para fazer algo sério. Um programa de pesquisa interessante é fazer a interação com gente séria da Psicologia (gente que não dá fricote quando abre um livro bacana como o Psicometria (1998) do Pasquali) para estudar economia comportamental e fundamentos da ação coletiva e seus impactos no curto e no longo prazo.

A pesquisa em economia austríaca que funciona

Peter Boettke tem uma excelente resenha sobre a economia austríaca (e sobre porque Paul Davidson continua sem entender nada sobre muita coisa). Está aqui. A prova cabal de que austríacos legítimos não são dogmáticos, mas se submetem ao teste do mercado das idéias está aqui.

But Mises nowhere imposed a freezing of economic knowledge around his theories. In fact, as Mises explicitly said: “Science does not give us absolute and final certainty. It only gives us assurances within the limits of our mental abilities and the prevailing state of scientific thought. A scientific system is but one station in an endless progressing search for knowledge. It is necessarily affected by the insufficiency inherent in every human effort. But to acknowledge these facts does not means that present-day economics is backward. It merely means that economics is a living thing — and to live implies both imperfection and change.” (p. 7)

Later on Mises states again clearly that in matters of science: “All that man can do is to submit all his theories again and again to the most critical examination.” (p. 68)

p.s. se era só retórica, dançou, he he he.

Diogo Costa e eu estamos no mesmo barco

Diogo Costa faz a crítica dos austríacos. Não a crítica irresponsável ou maldosa, mas a crítica da razão, ainda que não saibamos bem para onde ela nos levará (o que, claro, é uma piada hayekiana, para os que entendem).

Ser herege ou não é uma questão religiosa, não científica. Parabéns, Diogo: este artigo foi ao ponto!

p.s. aliás, veja isto.

Qual a causa da crise atual?

The traditional role of the central bank as a “lender of last resort” is to make loans only to commercial banks, because the traditional rationale is to protect the economy’s payment system. The hope of the traditional last-resort lender is to avoid a collapse of the economy’s money stock by injecting reserves into the commercial banking system when there is an extraordinary “internal drain” of reserves (namely bank runs).

In the recent crisis, by contrast, there has been absolutely no threat of a shrinking money stock. Investment banks do not issue checking deposits, are not subject to bank runs, and are not part of the payment system. Neither are securities dealers. The Fed’s expansions of its own role therefore had nothing to do with protecting the payment system or stabilizing the money supply. The Fed’s new moves were rather made in the hope of protecting investment banks and securities dealers from the consequences of holding portfolios overweighted with mortgage-backed securities, or exotic derivatives based on such securities, while keeping levels of capital inadequate for such portfolios.The reason that some financial institutions have been having trouble rolling over their debts is fundamentally the market’s uncertainty about their solvency. It is not a liquidity problem.

Bem, assim pensa Lawrence White. Em outras palavras, a crise não é de falta de liquidez, mas de expectativa quanto ao socorro governamental. De fato, não houve uma corrida aos bancos. Mas deveríamos esperar por uma corrida aos bancos por conta do barulho no mercado financeiro? Talvez ajude ler o que disse Anna Schwartz, já citada aqui semana passada. Primeiro, o mesmo diagnóstico de White:

So even though the Fed has flooded the credit markets with cash, spreads haven’t budged because banks don’t know who is still solvent and who is not. This uncertainty, says Ms. Schwartz, is “the basic problem in the credit market. Lending freezes up when lenders are uncertain that would-be borrowers have the resources to repay them. So to assume that the whole problem is inadequate liquidity bypasses the real issue.”

In the 1930s, as Ms. Schwartz and Mr. Friedman argued in “A Monetary History,” the country and the Federal Reserve were faced with a liquidity crisis in the banking sector. As banks failed, depositors became alarmed that they’d lose their money if their bank, too, failed. So bank runs began, and these became self-reinforcing: “If the borrowers hadn’t withdrawn cash, they [the banks] would have been in good shape. But the Fed just sat by and did nothing, so bank after bank failed. And that only motivated depositors to withdraw funds from banks that were not in distress,” deepening the crisis and causing still more failures.

Entretanto, o que temos agora? Um problema de expectativa de socorro? Bem, é difícil dizer que não. Ainda Schwartz:

But “that’s not what’s going on in the market now,” Ms. Schwartz says. Today, the banks have a problem on the asset side of their ledgers — “all these exotic securities that the market does not know how to value.”

“Why are they ‘toxic’?” Ms. Schwartz asks. “They’re toxic because you cannot sell them, you don’t know what they’re worth, your balance sheet is not credible and the whole market freezes up. We don’t know whom to lend to because we don’t know who is sound. So if you could get rid of them, that would be an improvement.” The only way to “get rid of them” is to sell them, which is why Ms. Schwartz thought that Treasury Secretary Hank Paulson’s original proposal to buy these assets from the banks was “a step in the right direction.”

Talvez a idéia de Paulson fosse, de fato, a melhor. A crise ainda divide economistas (pelo menos é o que se vê na mídia que não se expressa em língua portuguesa oficial do Brasil), e a discussão ainda prevalece sobre qualquer consenso.

Um aspecto interessante da crise atual é que ela mostra o quanto um capitalista pode não ser um capitalista. Aquela história de “animal spirits” do Keynes parece um conto de fadas. O “animal spirit” do sujeito, na hora do pênalti (ou do pânico) é pedir socorro ao governo. Acho que nunca ficou tão explícito o quanto os estudos sobre grupos de interesse e economia (Public Choice)  são úteis para entendermos a realidade e desenharmos incentivos adequados para evitar problemas sociais maiores.

Se existe empreendedorismo – voltamos à discussão de Baumol e os tipos de empreendedorismo – este só é saudável para a economia se os incentivos funcionam na direção de maior saúde da economia (óbvio!). Neste sentido, ainda entendemos pouco, muito pouco, sobre como isto funciona.

A expectativa de socorro é maior que a expectativa de naufragar. Isto me parece bem pouco “capitalista” ou “kirzneriano”. Uma pergunta para o pessoal austríaco – algo maldosa, mas verdadeira – é a seguinte: nos ciclos econômicos, empresários são enganados pela ação do governo, segundo os austríacos. Assim, digamos que a crise atual é culpa do governo que enganou os empresários com suas taxas de juros artificiais. Então, um empresário austríaco pediria socorro ao Paulson? Ou ao Bernanke? Ou ele assumiria suas perdas? Se a pergunta lhe parece estranha, pense da seguinte forma: se a descrição austríaca dos mercados e do empreendedorismo é correta, porque os empresários agem de forma distinta do que prevê a teoria?

Há algo de bonito na visão empreendedora de gente como Kirzner, concordo. Mas não sei o quanto dela explica, realmente, o papel do empresário, inclusive o do ramo de bancos de investimento.

Apenas para sugerir mais um ponto marginal nesta discussão sobre a crise.

Teoria Austríaca dos Ciclos versus mundo real

Tyler Cowen no debate que, para mim, gera um único resultado: o teste empírico da hipótese. Há alguns anos um teste foi publicado na Review of Austrian Economics. No Brasil, lamentavelmente, os austríacos ainda não enfrentaram o desafio. Questão de tempo, creio.

Pós-Keynesianos não servem para explicar a crise

Peter Boettke, que transita bem entre a galera heterodoxa, acha realmente que os tais pós-xxx não ajudam muito agora. Difícil discordar dele. Para Boettke, a explicação teórica tem endereço certo.

The current financial fiasco is not a consequence of market instability, but because of the inability of government to engage in “apt intervention” due to knowledge and incentive issues, and that in reality it is nowhere as dangerous as in the hands of politicians who presume they have that knowledge to effectively tackle the problem that they in fact do not. Since they don’t have the knowledge required but must act as if they do, they will instead respond to political incentives of the election cycle and their ideological whim. When you breakdown the “institutional structures” of an economy to engage in “apt intervention” when you cannot “aptly” accomplish what you plan to do, then don’t be surprised when things go crazy.

This isn’t libertarian, this is economics. The epistemic turn in economics that Hayek forged, and the public choice turn in political economy that Buchanan forged, provide us with the appropriate tools to understand the dynamics of interventionism and why the instability introduced through failed intervention tends to be met by every increasing attempts at “apt intervention”. Rather than policy, we need politics — changes in the rules that are consistent with the “generality principle.”

É isto aí, Pete!