Direitos de propriedade importam? Sim. Veja o caso da diminuição do desmatamento no Brasil.

Curiosamente não achei os trabalhos de Bernardo Mueller – que é referência básica na área – dentre os citados, mas a conclusão é similar: direitos de propriedade importam.

Valeu, Douglass North! Só não entendo porque tantos preferem não te ensinar na faculdade ainda…

 

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“Eu sou um gato” e direitos de propriedade

“Eu sou um gato” é um clássico da literatura japonesa (do meu autor favorito: Natsume Souseki). Ainda não terminei de ler o livro, mas retomei a leitura após alguns anos e eis que em algum momento, o gato – nosso personagem principal – reflete sobre os direitos de propriedade ao discutir com o leitor sua invasão de uma casa alheia. O trecho é muito interessante.

Levantar cercas ou piquetes em terras vastas, delimitando o espaço, é como dividir o firmamento: esta parte é minha, aquela é sua. Se a terra é dividida e se comercializam os direitos de propriedade, nada mais natural do que dividirmos também o ar que respiramos e vendê-lo por unidades cúbicas. Se não podemos vender o ar e é improvável fracionar o céu, não seria a posse da superfície terrestre também uma irracionalidade? Esta é minha convicção, e com base nela entro onde melhor me aprouver. [Souseki (Soseki) Natsume, “Eu sou um gato”, Estação Liberdade, 2008, p.144 (original em japonês de 1905-6)]

O gato espertalhão mostra ter uma noção básica dos direitos de propriedade e tenta ludibriar o leitor colocando a dificuldade de se medir um bem (em contraposição à facilidade de se medir o outro) como um obstáculo ao estabelecimento efetivo dos direitos de propriedade…e tudo isto só para poder invadir as casas que quiser.

Divertido, não?

Por que tanta poluição no socialismo?

It is ironic, at least in terms of the rhetoric, that communist states had a hard time keeping resources such as air and rivers from getting into the public domain (the ultimate in collective ownership!). As a result, the value of these resources was reduced to a level much lower than the one they occupy in capitalist states. [Barzel, Y. (1997). Economic Analysis of Property Rights, Cambridge University Press, 2nd ed, p.135]

Era difícil manter rios e o ar como bens privados, logo, seu valor caiu e, portanto, mais poluição, como sabemos. A ironia a que se refere Barzel está no fato de que, na realidade, os países socialistas (hoje, recusam o rótulo e preferem, por exemplo, bolivarianismo) eram caracterizados por uma elite que enriquecia às custas da população. Ou seja, desfrutavam de direitos de propriedade privados, sim, sobre vários bens e serviços mas não conseguiram manter rios e o próprio ar como bens privados. Pelo menos não no grau que existe no capitalismo (ou você acha que a idéia do mercado de carbono surgiu no Kremilin?).

Interessante, não?

A importância dos direitos de propriedade revisitada

Um novo artigo propõe decompor a tradicional variável “direitos de propriedade” em duas: “definição” e “atribuição” (dos direitos de propriedade, obviamente). Por que?

The paper argues that, on the one hand, property rights quality is a two dimensional concept, because property rights should be considered as the result of two constitutional decisions: one is concerned with the definition of property rights while the other is concerned with the assignment of property rights. Definition and assignment will be considered as two dimensions of property rights quality. On the other hand, property rights in the “economic” approach must be understood in a broader sense than it usually is by the empirical papers. It must also include those rights that are considered to be in the political sphere of human actions as opposed to the economic.

Ok, mas será que é possível analisar as duas dimensões separadamente, em termos quantitativos? O ponto teórico é interessante:

The claim that the system of property rights is determined by two separate constitutional decisions means that property rights security has two orthogonal dimensions. This is because property rights can be expropriated in two ways: either by redefining property rights or reassigning property rights without the consent of the owner.

Ora, sendo ortogonais, teoricamente, até pode ser que seja possível. Como o autor faz isso? Bem, ele usa análise fatorial sobre os componentes dos índices de liberdade civil e de liberdade econômica. Depois, claro, passa para os testes empíricos (a tradicional econometria, etc).

Mas me incomoda não ter visto nenhum diagrama de dispersão de variáveis no artigo (exceto pela dispersão entre as duas dimensões construídas no artigo, entre si), não ver uma discussão sobre possíveis erros de medição introduzidos com a construção das variáveis (o ponto é: se eles existem, são relevantes ou não?) e também a ausência de interpretação dos coeficientes estimados.

De qualquer forma, eis aí outro artigo que discute pontos interessantes sobre os mecanismos de transmissão das instituições sobre o desempenho econômico das sociedades.

A cultura da liberdade e o respeito aos direitos de propriedade

direitospropriedade

 

Eu já falei deste indicador de “cultura” aqui antes. Ele está definido, por exemplo, em nosso artigo de 2011 publicado aqui. Já tendo dito muitas vezes que correlação não é causalidade, não reivindico muito mais do que um fato estilizado aqui. O IPRI é o índice de respeito aos direitos de propriedade (em sua edição de 2013) que pode ser encontrado aqui.

Ensina-nos Hernando de Soto que os direitos de propriedade são importante fonte de geração de riqueza (algo que já foi dito também por Ronald Coase e outros). É simples, neste sentido, aliviar a situação de pobreza pela qual tantos passam: basta dar-lhes o direito de propriedade sobre suas propriedades (penso em uma favela, como no caso do Cantagalo, no Rio de Janeiro).

Neste sentido, o que a correlação acima nos mostra? Eu a vejo da seguinte forma: sociedades que se educam para uma cultura que valorize a liberdade e os princípios que regem as trocas voluntárias aceleram seu processo de saída da pobreza e também o de crescimento econômico. É muito mais difícil, obviamente, tirar proveito dos direitos de propriedade em uma sociedade que acredita ser o mercado um ente malvado e o mercado um jogo de soma zero (algo que só é possível para alguém que nunca, mas nunca mesmo, leu um livro introdutório de Economia).

Pois é. Instituições informais e formais são importantes para a prosperidade. Gente com um viés burocrático tende a acreditar que bastam criar leis e leis e mais leis e obrigar as pessoas a serem felizes. Claro que há graus de graus nisto aí e o caso extremo é o de pessoas que acreditam no que Hayek chamava de engenharia social.

Entretanto, eu vejo um problema muito mais sério no que diz respeito às instituições informais. Sabotá-las em nome de uma vaga revolução socialista, ainda que o objetivo seja apenas o de criar uma nova classe, uma aliança entre burocratas e alguns empresários tal como na versão nacionalista do socialismo (daí o nome: nacional-socialismo que, em tons mediterrâneos, ganha o nome de fascismo e não carrega consigo o ódio racial) é, isto sim, brincar perigosamente com a vida das pessoas.

Afinal, instituições informais são difíceis de se compreender (digo, a sua dinâmica, como mudam, etc), mas são muito importantes. Bem, esta é a minha interpretação do gráfico acima mas, claro, é necessário se estudar um pouco mais e ir além das correlações. Com tanta gente se dizendo, orgulhosamente, membro de algo chamado ESTUDANTE pela Liberdade (EPL), eu só posso esperar que surjam estudos empíricos mais sérios e robustos sobre o tema. Não é mesmo?

Mas eu sou um pessimista. Não vejo isto acontecendo. Obviamente, posso estar enganado. Caso meu amigo Adriano Gianturco tenha razão em seu otimismo, não precisaremos esperar nem cinco anos para o surgimento de mais estudos neste sentido. Vamos ver quem tem razão: o italiano otimista ou o nipo-brasileiro cético.

O valor da vida humana para Stalin e uma breve digressão sobre novilínguas…

Ele [Stalin] desenvolveu uma piada em série para um de seus comissãrios, Vladimir Nosenko, responsável pela construção naval. Começou pouco antes da Segunda Guerra Mundial, quando, ao passar por ele num corredor, Stalin exclamou: “Camarada Nosenko, por que você ainda não foi preso?” De acordo com seus colegas, Nosenko passou muitas noites sem dormir, esperando que batessem à sua porta. Pelos próximos anos, sempre que Stalin encontrava Nosenko, ele brincaria: “Eu pensei que tinha mandado fuzilar você.” (Lewis, B. Foi-se o Martelo, Ed. Record, 2014, p.77)

Eu sei, não ganho um trocado para fazer esta propaganda gratuita do livro do Lewis. A editora Record não me paga nada. Mas o livro é tão bom que eu tenho que citar alguns trechos. Este, por exemplo, é uma perfeita demonstração de que o humor é democrático: ele pertence a opressores e a oprimidos tanto quanto aos famosos pelegos como o pobre Nosenko. Bom, neste caso, Nosenko não é tanto o mais bem-humorado, mas há um grau de selvageria na condição humana quando você se acostuma com piadas assim ao longo dos anos.

É como ir a um país no qual há tiroteio em um pedaço da cidade e você diz que um sujeito está com problemas porque não se acostumou com os tiros. Que tipo de civilização é esta na qual você é que tem problemas porque o normal é o massacre de pessoas?

Mas há algo de engraçado nesta piada de Stalin. Eu conheço alguns CEO’s de empresas que fazem exatamente este tipo de piadas com seus subordinados. A diferença com Stalin é que, numa economia de mercado, o próprio CEO pode ser demitido. Numa sociedade soviética, claro, esta possibilidade quase não existe e a demissão, em geral, é acompanhada de execução…tal e qual em uma favela brasileira que alguns sociólogos insistem em chamar de comunidades já que não conseguiram resolver os problemas sociais da favela (e preferem jogar a culpa nos economistas, que sempre defenderam soluções até simples para salvar as pessoas da pobreza).

Você é contra a liberdade das pessoas fazerem trocas?

Então é bom pensar de novo. Há evidências de que esta mesma liberdade gera mais felicidade. Aliás, sobre instituições e tudo o mais, que tal ver a cara da esquerda revolucionária (aquela que invade fazendas e destrói laboratórios alheios) quando descobrir que as coisas funcionam mais ou menos totalmente ao contrário do que eles pensam?

É, a gente não aprende ciência, vai pro bazar dos bens inferiores para comprar ou vender discursos bombásticos e vazios de conteúdo.

De quem é a culpa?

Foi encontrado um desenho animado chinês que é uma cópia absurda de um desenho japonês. De quem é a culpa? Claro que é de quem copiou. Mas veja só como uma intervenção do governo – geralmente desastrada – incentiva o crime:

NTV found a blog post written by a former employee of the animation company. He writes that government subsidies are handed out to companies that can create huge quantities of animation, so the company cuts corners by copying old cartoons.

Faz todo o sentido.

A depredação da escola pública tem a ver com a crença do brasileiro médio na “não-importância” dos direitos de propriedade

Falei sobre o tema em duas variantes do mesmo texto. Uma no Ordem Livre, outra na A Voz do Cidadão.

Blogosfera – rápidas

Como estou em um demorado processo de reorganização, deixo aqui apenas as indicações de leitura:

Assim que eu acabar de me reorganizar e também rever algumas notas de aula, eu volto. Bem, isto se minha esposa não me espancar antes. ^_^

Liberdade no Rio de Janeiro?

29.08.2008 » Índice de Liberdade Econômica: Encontro no Rio de Janeiro

Encontro anual de Colaboradores Internacionais

do Índice de Liberdade Econômica

do Fraser Institute, Ca.

Tema:

“Liberdade e Direitos de Propriedade”

O Rio de Janeiro vai sediar em novembro o encontro anual de especialistas que contribuem para a formação do Índice de Liberdade Econômica no Mundo elaborado pelo Fraser Institute, com sede no Canadá.

O Instituto Liberal é um dos cicerones do encontro, ao lado do Fraser Institute, com o patrocínio da Friedrich-Naumann-Stiftung für die Freiheit (filial Brasil).

Cinqüenta especialistas do mundo inteiro se reúnem para analisar os resultados do índice a ser divulgado e discutem a composição do próximo índice. No encontro também são apresentados alguns temas para discussão por participantes que se inscrevem com seus papers.

O tema central do encontro de 2008 cai como uma luva para o país sede: “Liberdade e Direitos de Propriedade”. Os brasileiros acham que são livres e nem desconfiam por que são pobres. Nesse ponto, muitos dos que têm convicção pessoal para as razões de nossa pobreza, geralmente tomam por base as justificativas incorretas.

Leia o resto.

Aposto que acusarão a Lei de “ser de direita”

Comecem a rastrear as contas que, aposto, a coisa ficará interessante pois difícil. Movimentos sociais sabem socializar os prejuízos quando lhe convém.

Então você acha que é fácil discutir direitos de propriedade, né?

Pois veja esta interessante disputa entre três economistas bacanas. A causa? É o seguinte: dois dos sujeitos escreveram um artigo no qual mostrariam, supostamente, que a venda de CD’s não é afetada pelo famoso compartilhamento de arquivos (suas idas ao BitTorrent, por exemplo, meu caro). O outro replicou…mas o editor, Levitt, não aceitou a réplica.

A história tem de tudo para ser – e tem sido – quente. Envolve o Journal of Political Economy, três excelentes e razoavelmente conhecidos economistas e, claro, Levitt. Além disso, há também a questão da base de dados original que não foi disponibilizada – ainda que sob anonimato – para os críticos do artigo.

Isso vai dar o que falar…

A inflação mundial é um bem público

Na prática, ao contrário, domina a idéia de que o problema de inflação é global e há pouco que se possa fazer. Essa atitude tende a perpetuar a inflação no mundo. Para reverter essa situação seria preciso, nos países desenvolvidos, uma desaceleração econômica suficientemente forte (que reduzisse a demanda global e, portanto, a inflação) ou um aperto monetário dos principais bancos centrais.

O que o Ilan diz aí, leitor, é bem óbvio: quando a inflação atinge vários países, todos os governos (principalmente os democráticos, que sabem que eleitores punem os ladrões ao menos uma vez a cada quatro anos) começam a jogar a culpa nos outros. A idéia é diminuir o custo eleitoral jogando a culpa na OPEP, no Bush, ou em qualquer outro.

Fica claro que este é mais um problema de direitos de propriedade, como diria Coase. Cada governo é responsável por sua moeda (ou não haveria o monopólio da emissão monetária em quase todos os países do mundo) e deve zelar pelo seu valor. O ponto do Ilan no texto pode e deve ser melhor explicado. Governos populistas, como é característica da atual administração da Silva, adoram divulgar aos quatro cantos do planeta que a culpa é dos alimentos, da OPEP ou do Bush. De certa forma, até manchas solares e o aquecimento global podem ser culpados pela sua menstruação ou pelo ciclo de preços. Nada contra. Mas é um tanto quanto óbvio que cabe a cada governo cuidar de sua parte. Não podemos alterar as políticas imbecis de um governo vizinho, apenas as nossas.

Em uma democracia, quando as pessoas percebem isto, pressionam o governo para que impeça as pressões (alguns diriam: “nacional-desenvolvimentistas”) pela volta da inflação. Contudo, este mecanismo, longe do que se poderia imaginar, não é perfeito. Há grupos de interesse poderosos que pressionam o governo para que tributem todos para lhes direcionar um percentual sob o nome de “bolsa-xx”, “subsídio”, “programa de xx”, qualquer coisa assim. Estes grupos proliferam quanto maior a ignorância das pessoas por um lado, mas também quanto pior a qualidade institucional do país, mesmo que as pessoas entendam um pouco de Economia (séria, não a pterodoxa).

No caso do Brasil, não é muito diferente. Basta ver quem são os principais berrantes contra uma política monetária (e uma política fiscal) séria(s). Ontem eu reproduzi aqui o link para uma entrevista do Pastore fornecido pelo blog do Ronald. Vale a pena reler aquilo lá para entender o que Ilan está a dizer.

p.s. mas não despreze a burrice. Ontem li no jornal um artigo de um sujeito que defendia medidas totalmente estapafúrdias para a economia brasileira. Coisa de gente que acha que sabe o que melhor para os outros (mas nunca leva uma vida, digamos, pudica…).

O mau argumento

Este, horroroso.

Ainda dia desses, em uma reportagem de TV, vi uma moça pró-aborto, de alguma dessas ONGs “feministas pra cacete” dizendo que nos últimos anos, alguns milhões de mulheres cometeram abortos, logo, não poderia ser crime visto que seria uma sandice termos 2 milhões de mulheres presas. Achei sensacional o argumento, com uma lógica espetacular: Se muita gente comete um crime, o mesmo deve deixar de ser crime. Uma pena que nossos legisladores não sigam a lógica da mulher que vi na TV pois, com o andar da carruagem, em breve o Brasil seria o primeiro país do mundo sem nenhum criminoso.

Ângelo tá certíssimo no que diz respeito à lógica. Se o argumento da dona parou por aí, realmente é difícil falar de mudanças institucionais sérias. O aborto envolve uma das mais difíceis discussões sobre direitos de propriedade. O mais legal é que estas “feministas” (ou, como gosta a imprensa, “supostas feministas”) sempre são não-liberais e ferrenhas defensoras do direito privado de abortar. Em outras palavras: são exatamente iguais aos inimigos que tanto criticam…

Feministas não precisam ser mal-assessoradas com estes argumentos ruins. Basta um pouco de leitura liberal para iluminar suas tristes vidas tão cheias de argumentos sofríveis…

Café com o Economista: direitos de propriedade

Prezado sr. da Silva,

Ouvi que o senhor, hoje, disse o seguinte:

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no seu programa semanal de rádio Café com o Presidente, fez um alerta hoje sobre a inflação e disse ser importante que o povo entenda o seguinte: “A inflação é uma obrigação de todo brasileiro, que deve cuidar para que ela não aconteça. Sabe, é do trabalhador que compra, da dona de casa que compra, do empresário que produz, do atacadista que vende, do varejista e do governo”.

O senhor deve ter ouvido falar – após seu abandono do discurso socialista e bolivariano – que direitos de propriedade são importantes para o bom funcionamento de uma economia. Não apenas os direitos, mas uma alocação eficiente dos mesmos. Se o senhor tem dificuldades com matemática, não se preocupe: o artigo original de Ronald Coase – pioneiro nesta análise dos direitos de propriedade na economia – não contém uma única fórmula e o senhor pode perguntar sobre o mesmo a qualquer economista sério que porventura conheça. De quem é a responsabilidade pelo combate à inflação? Vejamos isto.

Em seu discurso há uma hipótese estranha, a de que o responsável pela inflação somos todos nós, o que leva a crer que não é responsabilidade de ninguém. A inflação, como se sabe, é, em última instância, um fenômeno monetário. Assim, é bom que se diga que a responsabilidade pela inflação é, também em última instância, do Banco Central, o mesmo cuja independência o senhor se esqueceu de propor, novamente, embora tenha se dedicado a aumentar custos para as pessoas com esta sua reforma sindical.

Prezado sr. da Silva, eu sei que o discurso é para um povo-massa, um povo que nem sempre foi educado porque não tinha acesso a professores e foi submetido a místicos ou aloprados ideológicos por muito tempo. Sei que o senhor também acha errado que este tipo de situação prevaleça mas isto também não é culpa minha, mas daqueles que os presidentes passados e o senhor também nomearam para, supostamente, mudar o quadro da má qualidade educacional do país.

Sr. presidente, eu sei que muitos de seus chegados falam coisas muito feias sobre o Banco Central e eu não estou aqui para defender este ou aquele funcionário público. Mas é fato que o pessoal do dito órgão é mais bem preparado do que o trabalhador, o empresário ou a dona-de-casa para combater a inflação. O senhor mesmo, na época do presidente – então um opositor seu – José Sarney, foi um dos que desconfiou, pelo menos assim se manifestava, da eficácia dos tais “fiscais do Sarney”. O senhor também sabe que é de uma irresponsabilidade tremenda apoiar-se em um populismo que começa com fiscais da inflação e termina em fiscais de alguma revolução cubana ou bolivariana.

A razão pela qual se diz – e eu também digo – que é melhor deixar o Banco Central cuidar da inflação não se baseia, veja bem, apenas na excelência técnica. O senhor sabe como são estas coisas: até o melhor dos técnicos relaxa se não trabalhar sob incentivos bem desenhados. Por isto é que, a despeito do que dizem alguns, a independência do Banco Central deve ser discutida e estabelecida. Não há nenhum problema em que a diretoria do mesmo responda a metas estabelecidas diante do Congresso ou do senhor. O desenho destes incentivos é obrigação de qualquer economista bem formado e o senhor acha vários deles por aí.

A única obrigação de todo brasileiro, senhor presidente, é cuidar do próprio bolso. Somente assim uma economia pode crescer mais do que 3% (ou 5%, na metodologia nova do IBGE) ao ano. Este pensamento não é uma manifestação de egoísmo, como querem nossos supostos representantes religiosos, mas sim o motor do desenvolvimento econômico. É também a única forma de sobreviver em um país no qual o governo tenta, de qualquer jeito, aumentar os gastos públicos com aumentos de arrecadação, sem maiores investimentos em infra-estrutura. O senhor, que já foi assalariado, supostamente sabe muito bem como funciona isto: contas no final do mês, impostos, leite e pão para os meninos, etc. Imagino que, como seus orgulhosos companheiros, você até aceitaria algo como uma “bolsa-família”, mas não eternamente. Acho que o discurso sindical sempre foi o de combate às esmolas ou ao peleguismo. O senhor não precisa se aliar a gente que amarra pessoas em árvores nas florestas colombianas para fazer este discurso. Basta ser um defensor da economia de mercado.

Assim, senhor presidente, esta minha crítica tem um tom meramente didático: o senhor tem que entender com quem está falando. E não falo de minha pobre pessoa, mas sim dos seus ouvintes. Eles não entendem de política monetária, de SELIC ou de superávit primário. Eles apenas entendem que o senhor ganhou seu voto para cuidar disto, contratando gente qualificada para tal, evitando ilegalidades enquanto se equilibra na delicada corda do sistema político nacional sob as monções da sempre imprevisível economia mundial.

É com eles que o senhor fala. Mas o direito de propriedade para cuidar destes problemas, este lhe foi outorgado pela segunda vez. Por favor, faça seu trabalho que faremos os nossos.

Atenciosamente,

Claudio

p.s. perdoe-me os eventuais trechos mal escritos. Escrevi de uma só vez e não conto com revisores de português à minha disposição.

A reforma agrária gera direitos de propriedade privados que geram crescimento econômico?

Eis algo interessante. Veja o texto TD-E/51-2007, do prof. Feijó para boas evidências empíricas a respeito, no Brasil. A discussão é interessante, mas a parte empírica, creio, é a melhor deste texto.

Concurso para você

Essay Contest on Property Rights Now Accepting Entries

The 2008 Sir John M. Templeton Fellowships Essay Contest is accepting entries from college students and untenured college teachers until the contest deadline of May 1, 2008. For this year’s contest, applicants must examine the relationship between property rights and human rights.

For decades social critics in the United States and throughout the Western world have complained that “property” rights too often take precedence over “human” rights, with the result that people are treated unequally and have unequal opportunities. Inequality exists in any society. But the purported conflict between property rights and human rights is a mirage—property rights are human rights.
—Armen Alchian, “Property Rights” in The Concise Encyclopedia of Economics

Are property rights human rights? How are they related? What are their similarities and differences? If property rights are human rights, why have they enjoyed fewer legal protections and intellectual champions than other human rights?

STUDENTS:
First Prize: $2,500
Second Prize: $1,500
Third prize: $1,000

JUNIOR FACULTY MEMBERS:
First Prize: $10,000
Second Prize: $5,000
Third Prize: $1,500

Contest guidelines and other information

Anotou?

Direitos de Propriedade e Futebol: tudo a ver

Este post é bem interessante. Trata-se de um problema de alocação de direitos de propriedade com respeito ao nome de um estádio de futebol (o autor o chama de naming rights). O que me agradou foi a discussão de qual seria, efetivamente, a maneira mais eficiente de se negociar o nome de um estádio. Cito o autor:

Acontece que a eficiência dos naming rights fica altamente comprometida quando tratamos de um estádio que não seja novo, já que o nome tradicional está mais que consagrado nas mentes dos torcedores, da imprensa e do mercado como um todo.

Daí a importância de projetos de novos estádios não aceitarem apelidos ou sugestões de nomes – muito já se falou, por exemplo, no Fielzão, o possível futuro estádio do Corinthians.

Vale dizer: tal como em um problema de extração de petróleo (ou de maturação de um queijo/vinho), existe um tempo ótimo para se negociar o nome do estádio. Este tempo, por exemplo, tem a ver com o tempo que a torcida leva para adotar um apelido (que diminui o valor do nome negociável).

Supondo que os agentes sejam racionais, inclusive os torcedores, e que aprendam que, para o time, o melhor é não ter um apelido para o estádio, pode-se prever que o maior interessado (ou os maiores interessados) em arrumar um apelido para o estádio é o concorrente (ou os concorrentes). Pode-se pensar nisto como um jogo, não?

A cooperação entre dois times concorrentes é algo bem improvável, exceto se ambos pretendem construir estádios próprios e não divulgam, um ao outro, os prazos da construção. Neste caso, podemos pensar na disputa entre ambos como um clássico exemplo de jogo dinâmico no qual os times cooperam (não incentivam os torcedores a criarem apelidos para o estádio do concorrente) ou não cooperam. Mais ainda, eu diria que é um jogo com infinitos períodos, o que nos leva à questão sobre qual o valor da “impaciência” que deixa os times no equilíbrio cooperativo.

Entretanto, há mais aspectos interessantes a serem modelados. Conforme nosso autor:

No Brasil, diz-se que os naming rights tem um sério inimigo na prática dos meios de comunicação de não divulgar o nome dos patrocinadores dos clubes, sob o argumento de não fazer propaganda de terceiros sem receber por isso. Pois eu acho que a obrigação de mencionar os nomes das arenas de acordo com o que especificam os clubes deveria estar definida no contrato de venda de direitos televisivos. O Clube dos Treze, como negociador, precisaria estar atento a esse aspecto e deveria ainda incluir também a obrigatoriedade das TVs compradoras dos direitos de mostrar os backdrops com os logos dos patrocinadores, assim como os bonés e outros materiais usados em entrevistas coletivas. Os valores dos patrocínios, com a garantia de exposição principalmente na mídia televisiva, certamente passariam por uma valorização substancial.

Em outras palavras, existe um problema adicional aqui que é o da própria existência da possibilidade de se alugar/vender o nome de um estádio e que diz respeito aos direitos de propriedade estarem claramente especificados em contrato (e devidamente respeitados). Em um exercício simples, poderíamos atribuir probabilidades para as ações dos indivíduos, criando um jogo com estratégias mistas e dinâmico. Obviamente, questões mais interessantes aparecem aqui porque, afinal, há várias formas de se pensar estas probabilidades (variam com o tempo? Não? Etc).

Belo post este do colega do Futebol & Negócio.

Direitos de propriedade, Manuel Bandeira e tudo o mais

Este texto do Pedro Sette deveria ser obrigatório em cursos que se pretendem inovadores e críticos do “arranjo institucional dominante” de um país. No caso, o país é a selva (Brasil). Há muita coisa boa a se discutir ali. Eu não vou fazer o proverbial “discuta com o professor”. Afinal, todo leitor freqüente deste blog tem idade mental maior do que a da Certidão de Nascimento e sabe o que deve discutir.

Manuel Bandeira, direitos de propriedade e lei e economia: combinação explosiva.

Democracias menos liberais são também as mais falidas – continuação IV

Ah, voltando à discussão dos Estados Falidos, a correlação entre o recém-lançado IPRI (de 2008, citado aí embaixo) e o índice de falência estatal é de -0.86.

Desta vez não vou falar muito, nem sugerir nada. Quem veio até aqui, sabe o que fazer.