Mr. Potato e os choques reais

Nos anos 90…

Ainda me lembro quando este papo de “choques reais” chegou às salas de aula. Um ex-professor (hoje, importante membro do governo de um certo estado brasileiro), mostrando-nos que não era um especialista no tema, comentou, em tom obviamente jocoso: “- Choques tecnológicos negativos? Estes novo-clássicos apelam mesmo”.

Os anos se passaram, alguns professores passaram a se dedicar a outros temas que não a Economia e eu ganhei o The Tyranny of Experts do William Easterly por uma correção de mercado a uma falha de mercado (é, você não leu errado) que incentivou a generosidade do Ronald Hillbrecht.

Bem, e quanto aos choques reais?

Tecnologia é sinônimo de acelerador de partículas?

Acho que a grande virtude da noção de choques reais – sou eternamente grato aos economistas novo-clássicos (dentre outros) por me tirarem da escuridão do preconceito e da ignorância – é mostrar que a resposta ao título desta mini-seção é negativa. Claro que vou usar o exemplo do livro que ganhei (embora não exista almoço ou livro grátis).

Fala-se da China. China, que historiadores famosos da época – falamos da década dos 30 – diziam ser algo monótono, “estático”. Estamos falando de gente que apareceria em programas da televisão se vivessem hoje. Publicariam blogs disseminando suas análises, seu pessimismo, etc. Bem, por mais que a gente queira, nem sempre a razão nos dá respaldo.

Easterly nos dá um exemplo de como os chineses se livraram da fome. Eles importaram uma tecnologia latino-americana. Uma tecnologia que viria a explicar, segundo estudos, cerca de 1/4 do aumento populacional do país no período de 1700 a 1900 (da China e do Velho Mundo, para ser preciso).

Não são as caravelas, os trabucos ou a moeda. Nada disso. Trata-se da batata. Citando:

The Spanish borrowed the potato from the South American Andes (…) after the conquest by Francisco Pizarro in 1532, and other Europeans learned about it from the Spanish. Chinese farmers learned about the potato from Dutch traders in the 1600s. The potato made it possible for farmers to plant in mountainous areas previously unsuitable for agriculture. [Easterly, W. (2013) : 293]

Veja bem: a inovação não foi planejada por sábios e nem adquirida como alvo de uma invasão espanhola em busca de melhor alimentação. A tecnologia da batata é uma daquelas consequências não-intencionais de outras ações: alguém, em algum momento, encontra a batata em meio a um processo histórico em que a ênfase era a de exploração de minas de prata ou ouro e, por caminhos totalmente não-planejados previamente, a batata chega à China.

Vá plantar batatas!

Muita gente entende erroneamente o conceito de Mão Invisível de Adam Smith. A pista talvez esteja nas batatas, ou melhor, em situações como esta. Além disso, este verdadeiro case nos mostra que o conceito de choque tecnológico – tal como o entendemos modernamente – não tem nada de estranho ou incomum.

Talvez mandar alguém plantar batatas possa ter um significado, digamos, não muito pejorativo daqui em diante. ^_^

Choques tecnológicos em economia da saúde: obrigado!

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Tecnologia não é apenas uma sofisticada máquina eletrônica cheia de botões e painéis. Tecnologia está também nas pequenas coisas. A comparação de cores da água na foto acima mostra isto e, sim, eu acho que o cara que inventou este artefato de plástico com filtro fez mais pela humanidade do que muita gente que não lava um prato, mas se diz preocupado com os pobres.

Instituições informais importam? Taiwaneses e chineses sob o confucionismo

Da versão rascunho:

Confucianism and Preferences: Evidence from Lab Experiments in Taiwan and China

Elaine M. Liu Department of Economics, University of Houston
Juanjuan Meng Guanghua School of Management, Peking University
Joseph Tao-yi Wang Department of Economics, National Taiwan University

Abstract

This paper investigates how Confucianism affects individual decision making in Taiwan and in China. We found that Chinese subjects in our experiments became less accepting of Confucian values, such that they became significantly more risk loving, less loss averse, and more impatient after being primed with Confucianism, whereas Taiwanese subjects became significantly less present-based and were inclined to be more trustworthy after being primed by Confucianism. Combining the evidence from the incentivized laboratory experiments and subjective survey measures, we found evidence that Chinese subjects and Taiwanese subjects reacted differently to Confucianism.

Foi publicado aqui. Questão interessante, não? Por que será que os estudantes taiwaneses e chineses (do continente, da China comunista) reagem diferente? Não tenho nem uma hipótese para oferecer, mas digo uma coisa: o tema é, sim, muito interessante.

p.s. conheça mais sobre economia da religião aqui. [Marcos Fernandes me corrigiu: na verdade, seria algo como economia da cultura…vou deixar o link, contudo, porque seja a cultura ou a religião, ambos fazem parte das instituições informais, no sentido northiano, e o link pode ser útil. De qualquer forma, sigam o prof. Fernandes: é cultura, não religião!]

Instituições importam….

Institutions, Capital, and Growth

Joshua C. Hall, Russell S. Sobel, and George R. Crowley
The international development community has encouraged investment in physical and human capital as a precursor to economic progress. Recent evidence shows, however, that increases in capital do not always lead to increases in output. We develop a growth model where the allocation and productivity of capital depends on a country’s institutions. We find that increases in physical and human capital lead to output growth only in countries with good institutions. In countries with bad institutions, increases in capital lead to negative growth rates because additions to the capital stock tend to be employed in rent-seeking and other socially unproductive activities.
JEL Classification: B53, O10, I2 [Southern Economic Journal 2010, 77(2), 385–405
Institutions]

Só para lembrar, ok? O rent-seeking e os custos de transação, depois das recentes medidas de política econômica, parecem-me bem claras. O que você fará a respeito eu não sei, mas uma boa idéia é começar educando seus familiares e cobrando de maneira mais inteligente seus representantes.

Capital Humano importa? Escravos no Brasil

A se conferir a veracidade do verbete…mas a resposta seria: sim.

O capital humano de um escravo dobrava seu valor. Ainda bem que não temos mais escravos, mas eu me pergunto sobre o diferencial do retorno à educação hoje em dia. Continua sendo aproximadamente o dobro? Minha intuição diz que não, mas não sou especialista no tema.

Quem tiver alguma referência, nos comentários, por favor.

A lei dos rendimentos decrescentes…das instituições

Institutions and Growth: A GMM/IV Panel VAR Approach

Carlos Góes
IMF Working Paper No. 15/174

Abstract:
Both sides of the institutions and growth debate have resorted largely to microeconometric techniques in testing hypotheses. In this paper, I build a panel structural vector autoregression (SVAR) model for a short panel of 119 countries over 10 years and find support for the institutions hypothesis. Controlling for individual fixed effects, I find that exogenous shocks to a proxy for institutional quality have a positive and statistically significant effect on GDP per capita. On average, a 1 percent shock in institutional quality leads to a peak 1.7 percent increase in GDP per capita after six years. Results are robust to using a different proxy for institutional quality. There are different dynamics for advanced economies and developing countries. This suggests diminishing returns to institutional quality improvements.

Então, instituições não surtem efeito de ontem para hoje e, além disso, não são desprezíveis.

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Privadas salvam

Toilets Can Work: Short and Medium Run Health Impacts of Addressing Complementarities and Externalities in Water and Sanitation
Esther Duflo, Michael Greenstone, Raymond Guiteras, Thomas Clasen
NBER Working Paper No. 21521

Poor water quality and sanitation are leading causes of mortality and disease in developing countries. However, interventions providing toilets in rural areas have not substantially improved health, likely because of incomplete coverage and low usage. This paper estimates the impact of an integrated water and sanitation improvement program in rural India that provided household-level water connections, latrines, and bathing facilities to all households in approximately 100 villages. The estimates suggest that the intervention was effective, reducing treated diarrhea episodes by 30-50%. These results are evident in the short term and persist for 5 years or more. The annual cost is approximately US$60 per household.

Faz a conta: R$ 1.00 a mais gasto em esgoto e encanamentos vai nos ajudar mais ou menos na redução da pobreza do que R$ 1.00 gasto em uma Olimpíada?

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Quando surgiu a “interne…”, digo, Gutemberg

Veja que interessante. O resumo é promissor:

This research studies how variations in competition and in media content characterized the use and impact of Gutenberg’s printing press technology during the European Renaissance. The research constructs annual firm-level panel data on the publications produced by 7,000+ printing firms operating in over 300 European cities 1454- 1600. Evidence on the timing of the premature deaths of firm owner-managers is used to isolate shocks to competition. Firms where owner-managers died experienced large negative shocks to output. However, at the city level deaths of incumbent managers were associated with significant increases in entrance and with a positive and persistent impact on competition and city output. Variations in city supply induced by heterogeneous manager deaths are used to study the relationship between the diffusion of ideas in print and city growth. A uniquely strong relationship is observed between the new business education literature and local growth. This is consistent with historical research on the transformative impact business education ideas had on commercial practices and European capitalism.

Como sempre digo, respeito demais o trabalho de historiadores econômicos sérios. Similar ao surgimento da internet? Eu diria que sim: um importantíssimo choque de produtividade em nossas vidas. Aproveite e leia também este outro artigo, sobre a relação entre a mídia e a reforma protestante na Europa.

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Muito legal, não?

Confiança e Economia: endogeneidade?

Geralmente é uma discussão difícil.

Why would economic prosperity cause more societal trust? One possibility, advanced already in Banfield, 1958, is that generalised trust norm is a luxury good, whose income elasticity is large, so that in a prosperous society it replaces the parochial trust norm. Another possible explanation that we elaborate upon in the paper, is that enhanced economic prosperity acts as a signal that fellow citizens are trustworthy. The more optimistic assessment then breeds trust among individual citizens. This theory suggests the possibility of a mutual feedback between trust and economic growth.

Pois é. Complicado, não? Mas mostra que é importante prosseguir nesta investigação.

História Econômica do Brasil: a tipologia das colônias

Pois é. Um dos meus temas favoritos. Este texto do Leo e do Philipp é muito bacana. Uma verdadeira história do pensamento econômico focada nos conceitos de colônias de povoamento e de exploração que, não, não foram inventados por Caio Prado Jr.

Vai lá ler e depois comenta aqui. ^_^

Incapacidades das mães e pais

Queria saber onde, nos modelos econométricos que estimam os determinantes do ganho do sujeito no mercado de trabalho (ou seu desempenho escolar), está a variável referente a esta característica das mães e pais. É uma pergunta mesmo. Não tenho acompanhado esta literatura mas, sempre que vejo algum artigo, não vejo nada que se pareça com isto. Digo, suspeito que exista um viés de variável omitida em vários destes estudos.

Alguém aí pode me ajudar?

A importância dos direitos de propriedade revisitada

Um novo artigo propõe decompor a tradicional variável “direitos de propriedade” em duas: “definição” e “atribuição” (dos direitos de propriedade, obviamente). Por que?

The paper argues that, on the one hand, property rights quality is a two dimensional concept, because property rights should be considered as the result of two constitutional decisions: one is concerned with the definition of property rights while the other is concerned with the assignment of property rights. Definition and assignment will be considered as two dimensions of property rights quality. On the other hand, property rights in the “economic” approach must be understood in a broader sense than it usually is by the empirical papers. It must also include those rights that are considered to be in the political sphere of human actions as opposed to the economic.

Ok, mas será que é possível analisar as duas dimensões separadamente, em termos quantitativos? O ponto teórico é interessante:

The claim that the system of property rights is determined by two separate constitutional decisions means that property rights security has two orthogonal dimensions. This is because property rights can be expropriated in two ways: either by redefining property rights or reassigning property rights without the consent of the owner.

Ora, sendo ortogonais, teoricamente, até pode ser que seja possível. Como o autor faz isso? Bem, ele usa análise fatorial sobre os componentes dos índices de liberdade civil e de liberdade econômica. Depois, claro, passa para os testes empíricos (a tradicional econometria, etc).

Mas me incomoda não ter visto nenhum diagrama de dispersão de variáveis no artigo (exceto pela dispersão entre as duas dimensões construídas no artigo, entre si), não ver uma discussão sobre possíveis erros de medição introduzidos com a construção das variáveis (o ponto é: se eles existem, são relevantes ou não?) e também a ausência de interpretação dos coeficientes estimados.

De qualquer forma, eis aí outro artigo que discute pontos interessantes sobre os mecanismos de transmissão das instituições sobre o desempenho econômico das sociedades.

Capitalismo e Democracia: compatíveis?

The theory in this paper suggests that the association between economic growth and democracy is not causal as Lipset suggested. Thriving markets and economic growth do not produce democracy. Instead, both democracy and markets require the limit condition. Countries that have devised means to satisfy the limit condition can therefore sustain both democracy and the market. The two go together. Thriving markets are part of how countries get rich. To become rich, countries had to provide for the restrictions associated with economic liberty. These countries therefore have strong limits on the government and hence have strong limit conditions. Democracies with markets and economic liberty are therefore likely to be both rich and stable.

O trecho acima é deste novíssimo texto para discussão do Barry Weingast. Temos ali um esboço de teoria da democracia muito interessante.

É um inferno este país, mas nem tudo tem piorado

Por exemplo, desde um pouco antes do Plano Real, há uma variável que vem em contínua queda e todos gostamos muito disto.

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Sim, estamos falando de trabalho infantil. Aliás, este é um gráfico de um trabalho da professora Ana Kassouf. O tema do trabalho infantil é multifacetado: ninguém tem nada contra meninos venderem limonadas em barraquinhas (eu mesmo trabalhei por satisfação pessoal, quando criança, aos domingos, em uma banca de jornal, por um tempo) ou inovem criando aplicativos simples para celulares.

Mas existe uma discussão entre isto e trabalhos sistemáticos. Por exemplo: o que dizer de um menino cuja família recebe uma transferência do governo (via nossos impostos) para colocá-lo na escola, mas ele, ao sair da escola, fica no semáforo trabalhando? Para saber um pouco mais sobre isto, você pode ler este artigo.

Vejo muito estudante que se diz libertário reclamando do trabalho infantil regulamentado. Contudo, sempre a discussão é vaga, na melhor das hipóteses. Afinal, que dados estamos analisando? Qual a definição de trabalho que estamos adotando? O ponto de partida deveria ser a discussão dos custos e benefícios econômicos não apenas individuais, mas sociais do (tipo de) trabalho infantil discutido.

A impossibilidade do cálculo econômico

Daniel Sutter tem um artigo (com um co-autor) muito interessante mostrando, de uma forma inovadora, porque uma economia centralmente planejada, como a ex-URSS, é incapaz de gerar prosperidade econômica.