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Momento R Demográfico do Dia

Fui para lá, fui para cá, fui para acolá…

Olha que bacana o que os autores fizeram usando o R! Só para você ver, eles fizeram uma versão para a revista Science.

A article of mine was published in Science today. It introduces estimates for bilateral global migration flows between all countries. The underlying methodology is based on the conditional maximisation routine in my Demographic Research paper. However, I tweaked the demographic accounting which ensures the net migration in the estimated migration flow tables matches very closely to the net migration figures from the United Nations.

Muito interessante para curte demografia, não? Ah sim, mais um pouco:

Widely available data on the number of people living outside of their country of birth do not adequately capture contemporary intensities and patterns of global migration flows. We present data on bilateral flows between 196 countries from 1990 through 2010 that provide a comprehensive view of international migration flows. Our data suggest a stable intensity of global 5-year migration flows at ~0.6% of world population since 1995. In addition, the results aid the interpretation of trends and patterns of migration flows to and from individual countries by placing them in a regional or global context. We estimate the largest movements to occur between South and West Asia, from Latin to North America, and within Africa.

Vejam aí quem está procurando melhorar de vida e onde. O Império do Mal (EUA) continua sendo procurado por onze entre cada dez professores de Filosofia e Sociologia brasileiros que desejam falar mal da economia de mercado sem ter que viver numa economia pré-capitalista como a nossa. ^_^

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A juventude se diverte mais no carnaval, trabalha mais ou estuda mais?

Em suas aulas de Macroeconomia, lá no início do curso, você já deve ter ouvido falar de “estoques” e “fluxos”. Deve ter visto um diagrama, ouvido umas histórias e, se aprendeu algo, nem precisa ler este texto porque vou apenas usar estes conceitos com uma reportagem que li hoje de manhã. É, você já notou que o “carnaval” do título foi só para te enganar…

Vamos lá?

Estoques e fluxos: mercado de trabalho

Diz lá o Estadão, citando o IBRE:

Os reajustes salariais tiveram, em 2013, o menor peso no crescimento da renda do trabalho desde 2005. Do aumento de 1,8% no rendimento (também o menor avanço desde 2005), 0,7 ponto porcentual, ou 40% do total, deveu-se ao fato de menos jovens estarem entrando no mercado de trabalho, segundo estudo inédito do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV).

Sim, é verdade que estamos tendo menos filhos, mas não é este, ainda, o ponto central desta queda. A matéria não é sobre o fluxo de jovens, mas sobre o estoque atual e, neste, um bocado deles resolveu esticar seus estudos. Como se diz lá em casa, “trabalhar que é bom, nada”.

Mas isso é ótimo por um lado (embora os pobres pais tenham que pagar, geralmente, para o moleque um almoço, janta e até uma ajuda para as farras…): o número de anos estudados por indivíduo está aumentando.

Duas mudanças socioeconômicas acompanham o fenômeno: o aumento da escolaridade e o crescimento real da renda das famílias nos últimos anos. “Antes do fim da década de 1990, se você pegasse pessoas de 22 anos de idade, só 30% chegavam ao ensino médio. Hoje, são mais de 70%”, diz o economista Naercio Menezes Filho, coordenador do Centro de Políticas Públicas (CPP) do Insper.

O crescimento econômico com crescimento da base da pirâmide da classe média.

Sem a frieza dos dados estatísticos, Ricardo do Nascimento Reis, gerente de metodologia do Grupo Multi, sente essas mudanças na demanda pelos cursos técnicos. Segundo Reis, entre os jovens, sobretudo entre 15 e 20 anos, há uma pressa latente de alcançar cargos mais altos. Por isso, muitos preferem se afastar do mercado de trabalho ou atrasar o início da profissão para se qualificar e conseguir cargos melhores.

Há jornalistas e jornalistas e alguns não parecem ter superado o preconceito de associar “dados estatísticos” com “temperaturas polares”. O Estadão é um ótimo jornal, mas de vez em quando você lê estas frases estranhas. A ironia da coisa é que os jovens estudam, estudam, mas nem sempre aprendem tudo. Por exemplo, alguns continuam com a idéia de que dados estatísticos são “frios”. Um aumento do PIB em 2% é frio, uma desvalorização da taxa de câmbio em 1% é fria, mas, um “black bloc” espancando jornalista, bem, isto é quente.

Fluxos, Estoques…intertemporais…

Mas vamos seguir em frente, sem a frieza do preconceito contra dados estatísticos (a matéria é bem escrita, exceto por esta frase).

Além disso, há também um fator demográfico estrutural por trás do fenômeno. “Está caindo o porcentual de jovens na população em idade ativa (PIA), e aí, logicamente, você tem um menor contingente de jovens no mercado de trabalho”, ressalta Moura, do Ibre/FGV.

Eu já havia falado lá em cima, né? Aqui está a questão do fluxo. O fluxo de jovens está diminuindo. O estoque futuro, portanto, deve ser menor do que o atual, diz o pesquisador do Ibre implicitamente. Não apenas isto, mas este estoque tem a característica de alongar seu período de estudos. Nem discutimos a qualidade do ensino, mas tão somente a quantidade de tempo que o sujeito fica sem trabalhar (ou trabalhando pouco) para estudar. Por exemplo, o garçom – oriundo da classe média – que resolveu estudar mais, daqui a um tempo, anotará seu pedido em um português que todos entendam? Espero que sim.

Repare como a alteração nos estoques (via fluxos) dá-se por meio de milhares e milhares de decisões descentralizadas individuais não apenas de jovens que decidem estudar, mas também de pais que decidem ter mais ou menos filhos. Não é meio óbvio que as consequências macroeconômicas são fundamentadas em decisões microeconômicas? Por que é que você acha que economistas desenvolveram pesquisas em tópicos como a economia da família (veja também este texto), etc?

Ok, vamos em frente.

Possíveis reflexos de um melhor capital humano? Digressão idiossincrática.

Tenha em mente que o estoque de capital humano de um país é parte integrante do desenvolvimento econômico do mesmo (basta lembrar do modelo de Solow, né?). Quer ver algo que eu esperaria de um país que se quer desenvolvido com um capital humano decente? Eu esperaria:

1. Comentários civilizados: Páginas de jornais e outras páginas estão cheias de comentários mal escritos, curtos, sem conteúdo e/ou com apenas xingamentos. Isto sem falar nas frases desconexas. Melhorar o capital humano significa melhorar o conteúdo dos comentários em todas estas dimensões.

2. Aumento na produção de vídeos educativos: Meu amigo Diogo sempre comenta sobre sua decepção com a quantidade de vídeos educativos produzidos aqui e (como diriam os nacional-desenvolvimentistas) alhures. Acho que ele pretende fazer um post sobre isto no blog dele, então não vou me aprofundar (mas se ele demorar…).

3. Banheiros mais limpos: Espero que a educação escolar, lá na creche complemente a educação doméstica e a civilização geralmente vem acompanhada de gente que não chuta catracas, quebra paredes ou deixa as privadas em estado calamitoso.

Ok, o último ponto é menos relacionado com os anos de estudo, mas não é menos importante…certo?

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Quem mexeu na minha tangerina?

Laranjas Mandarim (ou, alternativamente, tangerinas…) e kotatsu (este, na figura ao lado) têm uma relação histórica, de cartão postal e desenhos animados na sociedade japonesa.

Ah sim, o “kotatsu” é o desconhecido. Trata-se do aquecedor usado no Japão para o aquecimento durante o inverno (obviamente). Existe a versão moderna, que faz uso de energia elétrica e, bem, a Wikipedia em língua inglesa é muito boa na descrição do mesmo.

O fato é que famílias japonesas, outrora com mais filhos (dois ou três) tinham um momento de reunião nas refeições no kotatsu. “Tinham” porque estamos falando do Japão pré-videogames. Quem não se lembra do clássico Ohayou de Ozu, no qual os filhos entram em uma verdadeira guerra com os pais para que se compre uma televisão?

A diversão era assistir TV em família com os pés esquentados pelo kotatsu. Bom, associado ao momento de lazer existia o consumo das tangerinas (em um dos últimos Kouhaku Utagassen, num poutporri de músicas de antigos desenhos, os apresentadores simulavam estar em uma sala de estar, com o Kotatsu e aquela pilha de tangerinas).

Pois é. Mas a economia não pára e não estamos mais nos anos 60. A tecnologia mudou, a família japonesa diminuiu e envelheceu e o BigMac é um alimento popular por lá (alimento? Bem, é gostoso…) e alguém resolveu analisar o consumo de tangerinas no Japão e descobriu que o mesmo caiu. O autor da matéria lança a hipótese – algo ousada – de que este declínio teria a ver com o tempo menor gasto com a família no Japão (recentemente li um artigo de 1996 no qual os japoneses se mostravam bem mais preocupados com laços entre amigos do que entre familiares…e a evidência anedotal parece confirmar isto). Em suas palavras:

Come to think of it, the mikan’s prominence was at its zenith when there was a kotatsu in practically every Japanese home, and families sat around it while watching television, before it had a remote control. If the mikan’s decline is tied to less time spent together for families and friends, then that’s rather sad.

Going back to how different fruits have their own distinct image, one could say that the mikan is something people eat facing one another, while the banana is for eating alone. The latter also makes for a convenient meal substitute for people on the go.

Não sei se a história da banana me convence, mas a hipótese do autor tem algo além da simples melancolia pelo fim de uma era de relações familiares mais fortes. Trata-se da hipótese de que, de alguma forma, a demanda de tangerinas (um bem não-durável) tem a ver com a demanda de kotatsu (um bem durável). Esta é uma hipótese interessante, mas muito heróica. Repare que é uma definição de complementaridade econômica que não é derivada diretamente do preço dos bens (“um aumento do preço da tangerina leva a uma queda na demanda de kotatsus”), mas sim das preferências (“famílias japonesas curtem consumir kotatsus e tangerinas em conjunto). Hipóteses sobre preferências são mais difíceis de se testar. Aliás, usualmente usamos as demandas, observáveis que são, já que preferências somente se revelam pelas demandas.

A queda da natalidade teria enfraquecido os laços familiares? Talvez. Isto significa que a demanda de tangerinas deveria cair? Não necessariamente. O autor parece esposar uma espécie de teoria de demanda distinta (lembrei-me daquele texto do Gary Becker sobre demanda de restaurantes), na qual as famílias só consomem tangerinas quando estão em conjunto (não haveria tanto prazer assim em consumi-las sozinho(a)).

Embora eu não compre a tese do autor, fiquei curioso acerca da queda na demanda das tangerinas ao longo do tempo. Aliás, isto me lembra uma daquelas belas músicas teatrais (literalmente) japonesas cantadas pelo gigante Haruo Minami.

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Vovô não quer BigMac. E agora, Ricardo?

Eis aí algo que é verdade aqui ou no Japão. O texto do casal de blogueiros é recheado de elementos que você pode usar para discutir com seus amigos, professores ou, claro, com seu avô. Eu ainda destacaria um ponto específico, além do demográfico: a questão ricardiana. Cito com negrito por minha conta:

If the central point of Abenomics is to boost prices and thus wages and consumption — the old “raise all boats” metaphor — then to a certain extent the plan has succeeded over the last year. Consumers don’t seem to be fixated on cheap goods and services any more, though, to be honest, it’s difficult to tell if this willingness to spend more is a function of anticipation for April’s consumption tax hike.

Pois é. A administração do Primeiro-Ministro Abe sabe que a política fiscal não é um saco sem fundo (até o do Papai Noel não tem buracos, vale lembrar…). Portanto, mesmo com o estímulo fiscal, a antiga promessa de aumentar o imposto sobre o consumo foi aprovada pelo parlamento.

E agora, para algo completamente diferente…ou pelo menos mais técnico.

A aprovação legal nos traz uma redução na incerteza jurídica, já que todos sabem que a lei, em um país desenvolvido (= civilizado) será cumprida sem maiores problemas. Mais ainda, o aumento tem data e foi anunciado. Então estamos diante de um clássico problema de Macroeconomia de se saber qual é o impacto de uma política anunciada em um mundo em que as expectativas racionais opera.

A proposição Barro-Ricardiana de livro-texto nos diz algo bem simples: se eu sei que vou ter que pagar impostos amanhã, eu poupo hoje. Já num mundo não-Ricardiano (ou não-Barro-Ricardiano), o reduzido imposto de hoje, sob a expectativa de aumento do mesmo amanhã, provavelmente me induzirá a consumir mais. Tudo isto, claro, ceteris paribus.

Mas quando se fala do Japão, é bom ter em mente um ponto muito importante que não tem nada a ver com aquela lenda de “cultura oriental”, mas sim com a demografia (o tal bônus demográfico que meus amigos Salvato, Ari e Bernardo explicam aqui, para o caso brasileiro). Os autores do post falam do desejo dos mais velhos em consumir produtos de qualidade maior (embora exagerem na ênfase). Não apenas isto, mas “mais velhos” no Japão significa que estamos falando de pessoas cujo padrão de consumo alimentar é bem distinto do moderno fast-food norte-americano que os jovens tanto parecem gostar.

Barro, na própria discussão de sua proposição, já havia discutido a questão demográfica ao falar do argumento do altruísmo (herança) que justificaria o efeito da equivalência no, digamos, longo prazo. No caso do post dos autores, a demografia não está tanto no longo prazo, mas no curto prazo (acho que se fala “coorte” lá em demografia). Estamos falando de um modelo de overlapping generations destes simples. Ou seja, no mesmo período de tempo convivem duas gerações distintas: a mais velha e a mais nova (estou supondo, por simplicidade, apenas duas gerações). Só que, ao contrário do modelo de livro-texto, estamos dizendo que o padrão de consumo das gerações é distinto: uma prefere consumir mais fast-food e outra prefere alimentos de maior tempo adicionado (é, eu pensei em algo como household production models que o Tyler Cowen, implicitamente, usa aqui).

A pergunta, portanto, neste caso, é a seguinte: em um modelo simples, com dois períodos, o que acontece quando tornamos o bem “consumo” (que é, lembre-se, estudante de graduação, sempre sinônimo de consumo de bens não-duráveis) heterogêneo? Primeiro, à la ciclos reais, temos duas gerações e, adicionalmente, agora, colocamos a heterogeneidade do consumo. Suponha que o restante do modelo funciona tal como antes. Ah sim, é importante fazer o destaque didático-científico: mantenha as expectativas racionais. Afinal, pode ser que algo mude (ou não) no modelo, mesmo que não haja nenhuma mudança no tipo de racionalidade dos agentes (esta é uma observação para os eternos apressados que desejam, loucamente, jogar fora a racionalidade sem antes relaxar outras hipóteses do modelo. Interessados vejam isto).

Será que a equivalência barro-ricardiana se mantém? Poderia ser uma questão de prova, mas fica para o espaço de comentários. Preferencialmente, gostaria de ver citações de papers que trataram do assunto com hipóteses semelhantes.