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Capitalismo de compadres

Olha o Brasil aí, gente!

Ah sim, os rankings continuam mostrando uma realidade parecida com a de 2014.

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Lamentavalmente, o índice tem poucos países e a metodologia de cálculo não parece ter sido divulgada amplamente (caso eu esteja enganado, corrija-me nos comentários, por favor). De qualquer forma, é uma iniciativa válida e interessante.

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O índice de “crony capitalism” da The Economist…

…agora está na Wikipedia. Só existe a amostra de 2014, mas você já pode trabalhar com os dados, se quiser. Note que a amostra é pequena e, portanto, não é possível ir muito longe nas conclusões. Vejamos um exemplo com uma das variáveis que fez sucesso aqui, semana passada: o gay happiness index.

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No caso, o que observamos é uma fraquíssima correlação negativa entre o bem-estar dos gays e o ranking do país no índice de capitalismo de compadrio (crony capitalism). Segundo o gráfico, quanto mais distante da origem está a medida de crony capitalism, mais embaixo no ranking desta varíavel o país está (o que, digamos, é “bom” para o país, supondo que a opção mutuamente excludente é um good capitalism).

Uma correlação negativa indicaria que um maior bem-estar dos gays ocorre em países com um capitalismo menos crony, embora não seja possível dizer nada sobre a causalidade destas variáveis. Mais ainda, esta correlação, como sabemos, pode ser falsa no sentido de que pode existir uma variável omitida (ou várias variáveis omitidas) importantes na explicação do fenômeno em questão.

Entretanto, eu diria que as teorias econômicas, em geral, dariam suporte para esta correlação. Afinal, um capitalismo mais livre significa que há menos discriminação de pessoas por critérios outros que não a eficiência econômica e não há qualquer motivo para alguém dizer que gays são menos eficientes (lembre-se de Alan Turing ou John M. Keynes, para citar apenas dois exemplos).

Bom, é isso. A inspiração não está lá muito alta hoje e fenômenos econômicos são por demais complexos para serem seriamente discutidos apenas em um pequeno texto como este. Mas fica a dica para você, (e)leitor(a): o índice de crony capitalism mereceria uma extensão. Um bom tema para um mestrado ou doutorado, claro.

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Corrupção e empresas estatais: uma nota de Anne Krueger

Dizia Anne Krueger, em um livro sobre o capitalismo de compadrio, mais antigo do que alguns leitores mais novos supõem:

(…) suppose that, instead of investing in SOEs [State Owned Enterprises, ou, simplesmente, estatais] at negative real rates of return, the government were to use resources to provide for palaces, airplanes, luxury automobiles, and other luxuries for the ruling group, or elite. Suppose that a fraction of savings, equal to that allocated to SOE investments in the situation outlined above, was diverted to these purposes through taxation or through deficit financing (including possibly even borrowing from abroad). [Krueger, A. “Why Crony Capitalism is Bad for Economic Growth” in Haber, S. (ed) “Crony Capitalism and Economic Growth in Latin America”, 2002]

Diz a autora: se estes gastos forem registrados como investimentos, a taxa de retorno será igual a zero e, caso registrados como consumo, observa-se uma queda na taxa de poupança doméstica. Há mais o que falar, mas deixo ao leitor o trabalho de comprar este livro (que é bem barato, menos de U$ 15.00) e ler o capítulo (e os outros capítulos também!).

Preciso dizer que é uma boa oportunidade de dar uma olhada nos dados do Brasil nos últimos anos (digamos, desde o início da mensuração das Contas Nacionais) para começar um estudo mais profundo sobre o tema nesta selva?

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Socialistas e Empresários podem se unir em torno de interesses comuns? A Emporiofobia novamente.

For the first time in human history, modern consumer culture has come to hold out the ideal of comfort as a plausible full-time expectation and worthy human aim. We live in the time of comfort foods, comfort zones, humidity comfort indices, being comfortable in your own skin. But there are values that are not compatible with comfort, and those include values crucial to the adventure you’re about to undertake.

Nada como um trecho de um discurso de boas-vindas para novos alunos que não deixa de falar algumas verdades. Afinal, sem determinados valores e comodamente acostumados com uma vida tranquila, não passamos de sacos de pipocas jogados no sofá, não é? Sair da zona de conforto e encarar um mundo cheio de incertezas é um valor tão antigo para a humanidade quanto compatível com o funcionamento de uma sociedade em que trocas voluntárias são sinônimo de prosperidade.

Mais um pouco:

But the fact that comfort promotes mediocrity is not the only problem. I will be amazed if you are not carrying around in your head a chatter of voices assuring you that you should already know what you’re going to be in later life, and should plan your Duke career to enable the systematic acquisition of all the merit badges that will assure your arrival at that happy goal.  There are many contributors to this inward chorus — natural anxieties, an unreliable economy that has heightened the perception of risk, a media and political chorus convinced that education has no value unless it aims straight for a job, parents who crave assurance that you will be set for life. These voices all reinforce the idea that there is one sure ultimate comfort: a career that will purge your life of uncertainty and risk. But allow me to say: you’re still very young, you can’t possibly already know for certain the eventual career that you are meant to occupy. To find that, you need to open your horizons, learn the range of possibilities, and find what fulfills and motivates you. Duke can be just the space of exploration and discovery that you need, but only if you free yourself from the need to know the answer in advance.

Um verdadeiro balde de água fria na visão emporiofóbica que une aqueles que poderíamos chamar de paulofreiristas (querem destruir a sociedade de mercado porque são socialistas) e rent-seekers (desejam uma sociedade de mercado, mas não os valores que potencializam seus efeitos para todas as pessoas).

Aliás, esta é uma aliança que, creio, explica muito do comportamento de boa parte dos brasileiros. Amantes do capitalismo de compadres (crony capitalism) são os maiores aliados dos tradicionais emporiofóbicos ideológicos (socialistas e afins) e, por isso, não ligam para distorções que se ensina para crianças porque, afinal, desejam construir uma sociedade baseada em privilégios (para si) e, caso fracassem, querem ter a quem culpar (e aí, erroneamente, jogarão a culpa no “mercado selvagem”, etc).

No fundo, há uma questão de dilema do prisioneiro simples aí, mas eu queria mesmo era destacar a aliança baptists-bootleggers que caracteriza os principais interessados na manutenção de um capitalismo de compadres como o nosso. Some-se a isto os velhos dilemas da ação coletiva (os incentivos desalinhados) e você explicará boa parte do curioso fenômeno que é o sujeito se dizer liberal mas não se preocupar com um ensino distorcido que busca doutrinar seu filho (contra os valores liberais que ele aprende em casa), por exemplo. Será?

A dica do texto é da Christiane Albuquerque.

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Capitalismo de Compadres: não parece compatível com o individualismo ou o liberalismo

The Economist, sempre ela, tem jornalistas inteligentes que vão além da simples notificação dos fatos, ou mesmo da emissão de suas opiniões: eles trabalham para testar suas convicções.

Então, vejam só, agora fizeram um índice de capitalismo de compadrio (crony capitalism index). Confesso que ainda estou surpreso com o resultado, mas a metodologia do índice poderia ser diferente, não é? Não sei se esta história das “grandes fortunas” é uma medida que me convence. Mas, sim, achei super interessante a idéia. Gostaria de tê-la tido antes.

Também gostaria de ter tido recursos para medi-la mas os supostamente ricos think tanks libertários brasileiros ou não gostam de Estatística, ou não têm recursos, ou não os aplicam em construções de indicadores. Tem gente que fala de IBASE, com aquelas teorias da conspiração (“li no jornal que X jantou com Y, é golpe da direita”…embora “li que acharam fulano com dólares na cueca e tem até foto….é golpe da direita) engraçadas que vendem livros (de ficção) e roteiros de filmes. Mas o fato é que os libertários brasileiros ou estão embolsando todo este dinheiro ou são péssimos para usar os mecanismos de mercado. Ou então não há tanto dinheiro assim. Ou, claro, uma combinação convexa destas hipóteses.

Mas o pessoal da The Economist deu um belo passo na discussão sobre rent-seeking no mundo.

Vocês já sabem, né? Eu gostaria de ver algumas correlações. Entretanto, só temos um ano para esta série. Como tirar conclusões mais detalhadas assim? Simples: não dá.

Tem muita gente falando de rent-seeking por aí, na imprensa. Há o livro do Lazzarini – que preciso comprar e/ou ganhar de presente – e há um papo aí que finalmente chegou aos bons restaurantes paulistas, sobre este tema.

Como sempre, lembro que esta questão foi tratada pela minha primeira publicação científica (e também pelo meu primeiro artigo escrito com alguém que eu não conhecia) lá nos idos dos anos 2000.

Meu co-autor, um destacado economista do IPEA hoje em dia, é um sujeito cujo blog você deveria acompanhar. Ele anda mais quieto no mundo que chamamos de “blogosfera”, mas é sempre alguém com quem vale a pena conversar – inclusive sobre Economia.

Mas eu olho para estes dados, para esta tabela, e a vontade de fazer alguma coisa com ela é grande. É tão fácil fazer correlações hoje em dia. Vou te dizer, já que a The Economist fez uma correlação com esta medida de qualidade institucional, vou olhar para uma outra medida de instituição informal.

cronismo

 

Olha aí o índice de cultura usado pela Claudia Williamson em um de seus trabalhos (pesquise em sua página…nós usamos a mesma variável aqui) e o ranking de cronismo. Em resumo, o índice de cultura mostra valores pró-mercado (caso você seja contra o “individualismo”, pode começar a chorar…). Achei interessante a correlação, apesar dos poucos dados desta amostra. Com todas as limitações (e eu não vou reclamar do tamanho da amostra porque eu não construí uma amostra maior…se você quiser, be my guest), a correlação parece fazer sentido com as teorias econômicas que abordam o papel das instituições: sociedades com valores mais liberais também são as que estão nos últimos lugares no ranking de cronismo.

Será que esta correlação é robusta a outras variáveis? Bom, aí tem que trabalhar mais e e eu nem almocei (a Lorena e a Charline, minhas orientandas, fazem monografias em temas correlatos, então, um dia destes, eu volto com novidades sobre o tema, ok?). Então é isto. Até mais.