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Novidades em pesquisa…

Enquanto a selva discute assuntos inócuos, vejamos três artigos interessantes: (a) a crítica keynesiana que nenhum pterodoxo (aproximadamente igual ao que o Alex chama de keynesianos de quermesse) conseguirá ler, (b) um estudo de história econômica que só será lido por bons profissionais do ramo aqui da selva e (c) um artigo interdisciplinar que não será sequer entendido pela pterodoxia local.

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Regulação de mercado

Hart e Zingales. Trecho:

Here, we can learn from a common market practice: margin accounts. In a margin account, an investor buys stock and puts down only part of the cost. When the stock price drops, the broker who extended a loan for the rest of the stock price asks the investor to post new collateral. The investor then has a choice: He can post the collateral, thereby re-establishing the safety of his position, or he can liquidate his holding, allowing the broker to be paid in full.   

Ahá!

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Teste de hipóteses sobre as causas da crise mundial

Diz Tiago Severo, doutorando em Harvard, em Cristiano Costa:

 Economias que se baseiam em alavacangem elevada, principalmente no sistema financeiro, ficam expostas a riscos sistêmicos que eventualmente redundam em crises financeiras agudas. Financiamento via participação acionária, por outro lado, permite a economia disseminar perdas e evitar riscos sistêmicos. Esta premissa deve guiar a reconstrução do sistema financeiro nos Estados Unidos e em outros países.

Eis aí uma interessante hipótese que pode não ser uma correlação, mas sim uma relação de causalidade. Alguma sugestão de teste?

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O debate da raiz unitária…no Brasil

Prometi um texto maior sobre a – obviamente – relevância do debate da existência de raiz unitária no PIB. Chamei a atenção, anteriormente, do leitor do blog para o debate nos EUA. Erik, por sua vez, resumiu bem a intuição neste texto. Leia as cinco primeiras páginas deste artigo e você entenderá o debate. Aliás, Erik encontrou fortes evidências favoráveis à existência de raiz unitária no PIB brasileiro.

Significa isto (a existência de raiz unitária no PIB), basicamente, que políticas econômicas podem alterar a trajetória de longo prazo da economia de uma forma bastante séria. A visão antiga – muito comum em capítulos iniciais de livros de macroeconomia – é a de que uma recessão no curto prazo seria apenas um desvio de uma tendência fortíssima de crescimento gerada pelos fatores reais da economia (estoque de capital físico, quantidade de trabalhadores, capital humano, etc). 

Em síntese: se o PIB tem raiz unitária, políticas econômicas desastrosas podem nos condenar a uma trajetória de longo prazo pior. Nada desta história maravilhosa de voltar à tendência de longo prazo. Em verdade, há quem diga que a política econômica “não teria importância no curto prazo”, neste caso. Não sei se esta é uma boa interpretação da hipótese de existência de raiz unitária. Basta lembrar que existem muitos outros aspectos de política econômica do que apenas a política fiscal ou monetária.

Mas voltemos ao problema. Já citei aqui que o debate, lá fora, está em outro nível (mesmo). Mas o que dizem autores brasileiros sobre nosso PIB? Há ou não raiz unitária?

Fava & Cati (1995) encontraram evidências mistas para o Brasil. Mas o trabalho – clássico – estaciona o estado das artes em mais de dez anos. Lima, Lopes, Moreira & Pereira (1995) encontram evidências favoráveis à hipótese de raiz unitária na série do PIB. Aguirre & Ferreira (2001), por sua vez, não encontram evidências de raiz unitária. Finalmente, o já citado Erik, Figueiredo (2006), com um teste diferente, encontra resultado favorável à existência de raiz unitária.

Poderíamos continuar indefinidamente (realmente esta era minha intenção ao iniciar este texto), mas eu teria que detalhar aspectos de cada artigo. De qualquer forma, só posso dizer uma coisa: aguardem que vem novidade aí.

p.s. ver também Figueiredo & Leite Filho (2005).

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Multiplicadores keynesianos: até quando confiar neles?

Já falei que a discussão atual, no Brasil, é fraca, quase toda ideológica porque gente que poderia responder esta pergunta está ocupada com alguma atividade ou desistiu. Já o pessoal do NBER mostra que o debate econômico nos EUA existe e é infinitamente mais rico que o daqui. Senão, vejamos…

O resumo:

Renewed interest in fiscal policy has increased the use of quantitative models to evaluate policy. Because of modelling uncertainty, it is essential that policy evaluations be robust to alternative assumptions. We find that models currently being used in practice to evaluate fiscal policy stimulus proposals are not robust. Government spending multipliers in an alternative empirically-estimated and widely-cited new Keynesian model are much smaller than in these old Keynesian models; the estimated stimulus is extremely small just when needed most, and GDP and employment effects are only one-sixth as large, with private sector employment impacts likely to be even smaller.

E olha que nem falei do debate sobre raiz unitária que só não é importante se você ignora tudo o que foi escrito em Teoria Macroeconômica nos últimos 40 ou 50 anos. Sobre este já falei aqui, mas o leitor é fortemente convidado a juntar as peças com esta nova referência.

p.s. Veja também o Renato passar pela prova de fogo aqui.

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Raiz unitária – novamente

Erik contribui no debate sobre o tipo de tendência do PIB norte-americano. Por que este debate é importante? Bem, se você acha que esta briga de economistas sobre o pacote de Obama é só retórica (bem, há os que realmente ficam só na retórica, mas não dá para dialogar com estes…), está enganado. Qualquer economista sério sabe que as prescrições de política econômica têm tudo a ver com o tipo de tendência do PIB. 

Um pouco de econometria não faz mal. Dê uma olhada no artigo dele. Se eu tiver tempo, farei um artigo pequeno, no blog do NEPOM, sobre o tema. Mas só se tiver tempo.

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Multiplicadores

Chinn – do blog do James Hamilton – tem comentários sobre o último texto de Mankiw, em seu próprio blog, acerca da magnitude dos multiplicadores keynesianos.

Note, leitor, a diferença da qualidade do debate. Primeiro, a blogosfera econômica brasileira ignora qualquer indício de discussão similar (talvez, concedo, porque boa parte da academia brasileira se recusa a calcular os similares nacionais, embora isto não seja 100% correto). Segundo, a mesma blogosfera brasileira ignora até o debate norte-americano. 

Ou seja, aqui, quer-se falar mal ou bem dos economistas mesmo que não se saiba nada de economia. Algo que, como já disse antes, retroage o debate à era Vargas (ou anterior), na qual existiam apenas palavrórios soltos, talvez ritmados e poéticos, mas sem conteúdo relevante. 

Obviamente, alguns não entram neste debate simplesmente porque não sabem ou não querem discutir com as armas do adversário (no caso, com os modelos keynesianos) porque isto exige, claro, estudo. A crítica que fazem, neste caso, fica opaca, pobre e pouco potente. Não há como não ficar com a blogosfera econômica norte-americana nestas horas…

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Exercício de Macroeconomia

Pego carona na discussão do Caplan com Kling sobre a crise mundial em um arcabouço IS-LM (adequado para os EUA). Pergunta Kling:

The most important thing going on in financial markets right now is de-leveraging, which means that everybody wants to sell risky assets and buy U.S. Treasuries. Where do you stick that in the IS-LM framework? Treat it as an increase in liquidity preference and shift the LM curve? Treat it as a drop in animal spirits and shift the IS curve?

Primeiro, acho não dá para falar de IS-LM, mas sim do modelo Mundell-Fleming (IS-LM-BP). Concordo que não precisamos usar o IS-MP já que não há uma explícita adesão a um modelo de metas por parte do FED. Mas, posto isto, acho que Kling precisa de um pouco mais de ajuda. Na minha opinião, um pouco de Obstfeld & Rogoff talvez ajude. Nada como microfundamentos em um IS-LM aberto (ou fique com McCallum).

Se o objetivo é uma análise bem simples e didática, talvez eu seguisse a sugestão do Kling, mas tentaria algo mais completo, com o bom e velho Mundell-Fleming.

O que você acha?

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Por que ninguém fala de Frederic Mishkin nestas horas?

Em qualquer profissão existem dois tipos de gente: os que avançam e os que apenas reproduzem o conhecimento. Para vender pipocas ou computadores, geralmente não é necessário avançar o conhecimento, claro. Mas, como nos ensinou Adam Smith, a divisão de trabalho é a melhor forma de se melhorar nossa vida. Principalmente se a mesma for diretamente relacionada com a demanda e a oferta em vários mercados. 

Assim, é bom que haja alguém estudando este ou aquele aspecto da realidade para melhorar nosso conhecimento da mesma. Em 1994, com o Plano Real, o brasileiro médio, conhecedor ou não de Economia, viu o que o avanço tecnológico pode fazer: hordas de doutores em economia formados no exterior trouxeram a tecnologia da política econômica moderna para um país no qual, como bem destacou Joseph Love (“A Construção do Terceiro Mundo”, Paz e Terra), o debate econômico limitava-se a honrar argumentos ridículos, baseados apenas na autoridade do sujeito sem qualquer critério científico.

Vá lá que seu Tomás de Aquino disse que temia um homem de um livro só. Eu também temo, mas porque o obscurantismo deste sujeito pode ser boçal. O verdadeiro significado – creio eu – do que disse o grande religioso, é simplesmente que o homem de um livro só foca seu estudo, parte do básico que leu e avança criticamente em direção ao futuro sem medo de criticar seu próprio passado.

É assim que vejo a ciência (sem qualquer pretensão maior do que a de um post na internet).

Isto tudo para dizer que, ao pesquisar alguns artigos hoje pela manhã, trombei, literalmente, em dois antigos de Frederic Mishkin (conhecido no Brasil pelo seu livro excelente de Economia Monetária), no qual ele estuda a recessão norte-americana dos anos 70 e alerta para o problema do mercado imobiliário. No maior deles, do Brookings Institute (com vários co-autores), lê-se, na conclusão:

One moral that emerges from the analysis presented here is that infor- mation on the balance-sheet positions of American households should be used in constructing stabilization policies. Furthermore, policymakers should analyze a wider range of monetary phenomena beyond interest rates and the stock of money before embarking on certain policy paths. In particular, movements in prices of common stock should be studied because of their possibly potent effects on aggregate demand.

Como ele chegou nisto é algo que não depende de preferências políticas ou de apriorismos circulares. Geralmente este tipo de discussão não ajuda em nada aquele que realmente precisa de entender os artigos científicos para aplicações práticas. Pois Mishkin faz um belo resumo do estado teórico da época – relativo à importância dos balanços dos consumidores (o que inclui as posições dos mesmos no mercado de ações e também no mercado de imóveis, dentre outros) – e parte para uma bateria de testes econométricos. 

O outro artigo, no Journal of Economic History, temos:

This paper focuses on changes in household balance sheets during the Great Depression as transmission mechanisms which were important in the decline of aggregate demand. Theories of consumer expenditure postulate a link between balance-sheet movements and aggregate demand, and applications of these theories indicate that balance-sheet effects can help explain the severity of this economic contraction. In analyzing the business cycle movements of this period, this paper’s approach is Keynesian in character in that it emphasizes demand shifts in particular sectors of the economy; yet it has much in common with the monetarist approach in that it views events in financial markets as critical to our understanding of the Great Depression.

Ou seja, o artigo nos dá um entendimento mais detalhado dos mecanismos de transmissão prevalecentes na economia durante a Grande Depressão, de maneira, digamos, mista entre uma visão unilateral keynesiana ou monetarista. 

Ambos os artigos são terrivelmente atuais e me alertam para um ponto que não tenho visto no Brasil, em termo do debate da crise: a abordagem de Mishkin não tem tanta popularidade.

Aqui, ao que parece, a imprensa se vê presa no que chamarei de paradoxo de Love: com todo o avanço do conhecimento econômico, só se noticia um debate primitivo, entre “keynesianos” e “não-keynesianos”. Embora este seja um exemplo didático para leigos, já temos muito mais a oferecer aos jornais em termos de hipóteses. 

Talvez não tenhamos tantos doutorandos trabalhando com, digamos, a hipótese de Mishkin, no Brasil. Talvez o governo atual tenha se deixado levar demais pela ideologia em suas escolhas de economistas para pesquisas. Talvez os economistas mais preparados tenham percebido a irrelevância do governo em decisões que envolvem o desenvolvimento do conhecimento econômico. Talvez alguns de nós, economistas, que não estudaram muito mas conseguiram um espaço no jornal de sua cidade, dediquem-se a criar barreiras à entrada, qualificando qualquer pensamento distinto do seu (e também os cientificamente mais consistentes) de heresias. 

Finalmente, claro, talvez eu tenha exagerado minha leitura de Mishkin. Mas o bom da internet e da curiosidade humana é que você mesmo, leitor, pode checar isto. Vá lá e dê uma olhada nos artigos. 

p.s. a impressão que tenho é que muitos economistas se vendem à imprensa com rótulos muito primitivos e a imprensa, claro, compra isto barato demais. 

p.s.2. eu não conheço o que Roubini escreve. Talvez ele seja a resposta. Alguém sabe se existe alguma abordagem científica nos argumentos do “Dr. Doom”? Se sim, é parecida com a de Mishkin? Vai que eu não li algo importante…

Referências (quase nas normas da ABNT, quase…)

The Household Balance Sheet and the Great Depression, The Journal of Economic History, Vol. 38, No. 4 (Dec., 1978), pp. 918-937

What Depressed the Consumer? The Household Balance Sheet and the 1973-75 Recession, Brookings Papers on Economic Activity, Vol. 1977, No. 1 (1977), pp. 123-174

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O Proer do Obama

Nos idos dos bons anos 90, fizemos por aqui um Proer. Ronald Hillbrecht o explicou bem em seu livro-texto de Economia Monetária. Apesar disso, muita gente usou o Proer como um ponto imbecil em debates políticos. Seria aquilo um socorro caríssimo para os bancos? Calma lá…

O custo do Proer, em termos do PIB, é um dos menores do mundo (onde está meu exemplar não-autografado do livro do Ronald?) e estamos onde estamos hoje, ceteris paribus, também por conta do Proer. 

Agora, e quanto ao Proer do Obama? Funcionará? O pós-keynesiano Leijonhufvud tem sérias dúvidas quanto aos gastos que seu governo pretende gerar para, supostamente, sanar a economia.

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O BID fez porcaria

Selva Brasilis descobriu mais uma: o BID não fez seu dever de casa. O que mostra que não é a “construção” de organismos multilaterais a opção “salvadora” para a economia global. Nem sempre o multilateralismo funciona. Depende das características da sociedade (economia e política, para começar). 

Posto isto, nada de posições absolutas do tipo: só o multilateralismo salva, ok? 

Lição #1 para cientistas – duvide de tudo (inclusive da lição #1).

Lição #2 para cientistas – após #1, comece a pensar em testar o que diz, empiricamente, de alguma forma. 

Claro que daí para frente é com você. Boa sorte.