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O termo “Contabilidade Criativa” não foi invenção brasileira – HPE para “dummies” como eu

Estive pesquisando uns artigos na manhã e tarde de hoje e me deparei com este interessante trabalho de 2008: BERNOTH, K.; WOLFF, G. B. Fool the markets? creative accounting, fiscal transparency and sovereign risk premia. Scottish Journal of Political Economy, v. 55, n. 4, p. 465–487, 2008.

Ok, você não perde por esperar. Parece até que os autores vieram ao Brasil e entrevistaram alguns ministros da época, não? Ou vieram ao Brasil e passearam pela Argentina. O interessante é que não. Quer ver a definição de contabilidade criativa? Bem, ela está no apêndice:

Recent work by Koen and van der Noord (2005) and von Hagen and Wolff (2006) suggests that governments systematically use creative accounting to beautify their fiscal position. Creative accounting consists of two parts:

CAt =c + et                                                                       (A1)


where
c is a constant and measures the average use of creative accounting of a country, and et is a zero mean normally distributed error term. We assume that is common knowledge to financial markets. [p.482]

Viu só? Tem até equação! Claro, tem mais depois, mas não vou estragar a surpresa.

Ah sim, o acesso não é aberto, mas se você tiver acesso ao Periódicos CAPES, ele está lá. Pois é. Quem diria que alguém já teria até criado o termo na mesma época em que o governo brasileiro usava e abusava da contabilidade criativa…falta saber se alguém por aqui testou hipótese similar à dos autores com dados tupiniquins.

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Vitória da contabilidade criativa e da eleição de campeões!

Muito bem, ministro Mantega e membros da equipe econômica! Começamos bem. Depois que o Cristo Redentor levou um choque divino para aprender a voar sem ter condições para tal, agora conseguimos mais um resultado positivo para nos afastarmos dos mercados. Parabéns a vocês!

Claro, Valdomiro Pinto deve estar em êxtase! Afinal de contas, não é todo dia que o povo pterodoxo da ala esquerda consegue vencer o monstro neoliberal. Temos que agradecer aos gaúchos do Tesouro, que tanto empenho mostraram nos últimos tempos (empenhando o dinheiro alheio…).

Também devemos agradecer aos gerentões (ou gerentonas) que cuidaram da criteriosa análise no uso do dinheiro público na compra da plataforma da Petrobrás. Gente, esta vitória é exclusiva de vocês!

“Mixed policy signalling by the government, with negative implications for fiscal accounts and economic policy credibility, coupled with a subdued outlook for growth over the next two years continue to weigh on Brazil’s policy flexibility and performance profile,” the agency said.

A Reuters disse tudo. Já começou a contagem regressiva para as atitudes xenofóbicas e nacional-socialistas de sempre (“eles não têm autoridade para nos julgarem”, “fora estrangeiros”, etc) que a esquerda nacional adora espalhar nestas horas (não duvide se um ex-presidente aparecer com o semblante tenso, com o discurso da indignação contra os estrangeiros na ponta da língua, tentando fazer você comprar a imagem de que Maduro é estadista e Reagan era um cão neoliberal…).

Já posso ouvir os gritinhos histéricos: “fora aritmética burguesa, na qual 2+2 = 4”! É o grito de guerra apropriado, inclusive, para quem curte “contabilidade criativa”.

Ah sim, eu também acho que os poderosos sindicatos de contadores poderiam ter ajudado a evitar isto tudo se tivessem vindo a público condenar práticas “criativas” em contabilidade, mas isso é outra história. Sempre haverá um empoeirado que dirá que a lei permite isto, aquilo, etc, mostrando um total desconhecimento do papel dos incentivos.

Nada disto importa. O que importa é que médico cubano é capacho e tem Copa no Maracanã. Viva!

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Quantos pterodoxos são ricardianos?

Segundo alguns pterodoxos da esquerda, a equivalência ricardiana é uma ilusão de ótica, um monstro embaixo da cama ou um sonho de verão. Não se pode nem falar que o multiplicador keynesiano do gasto de um pterodoxo é pequeno que ele fica todo saltitante, afina a voz e diz que o multiplicador dele é maior que o seu. Coisa de gente (“gente”?) infanto-juvenil (sem ofensas, por favor, criançada).

Mas eu insisto em ensinar que a gente deve testar teorias sem massacrar as pessoas (por exemplo: com congelamento de preços ou outras intervenções bestiais do governo na livre negociação de cada pessoa com cada pessoa) e, assim, ainda ensino a tal equivalência (também conhecida como Barro-Ricardiana).

Bom, aí um dia eu dei aquele exemplo: “- Gente, imagina aí um país hipotético de língua portuguesa na América Latina que resolveu adotar um acordo ortográfico unilateralmente e também decidiu que iria, em plena expansão dos gastos do governo, dar um desconto na conta de luz, como se “concessionária” de energia elétrica fosse sinônimo de “escravo fornecedor” de energia elétrica.  Vamos supor, para benefício deste governo, que o governo não está em um esquema Ponzi. Ele realmente vai equilibrar o orçamento. Então, vamos analisar os efeitos de uma redução na alíquota de imposto sobre seu consumo hoje…”.

E por aí vai.

Claro que sempre destaco as hipóteses importantes, os dois períodos, e tudo o mais. Aí, sem ideologia, sem forçar a barra, eu escrevo aquela peça de matemática complicadíssima (para alguns pterodoxos de direita), a tal restrição orçamentária intertemporal (com os temíveis dois períodos…e a taxa de juros que Böhm-Bawerk amava) e faço algumas contas. Não tem jeito: sempre dá o resultado de que, no mundo hipotético, teórico, se eu ganho um descontão no imposto hoje, mas sei que o governo não é um louco desvairado que vai acabar com a saúde, a educação (e ainda quer dar passe livre para os jovens maoístas) , ele não vai deixar de voltar a aumentar a alíquota amanhã. Então, eu não gasto mais em consumo, mas poupo para pagar o governo amanhã. Pronto, dançou o tal multiplicador keynesiano pterodoxo (de esquerda).

Algum aluno, com toda a honestidade, sempre pergunta: “- Mas, professor, e com mais de dois períodos?”

E eu sempre conto a mesma história: “- Bom, aí o sujeito vai suavizar o consumo, o nível de consumo vai variar, mas muito pouco…”.

Depois sempre há um debate sobre a realidade e alguém sempre pede um exemplo de evidência favorável ou contra. Aí eu tenho que explicar que estudar cinco anos de um curso significa que não vamos buscar evidências apenas no gogó de um empresário vetusto (que ganha grana do BNDES para se dizer empreendedor e defender o livre mercado enquanto mama nas tetas do Leviatã) e nem nas barbas do vovô, que ainda acha que uma ditadura é a melhor coisa que alguém poderia ter neste país e que estes “300 picaretas é que avacalham o bom príncipe”. A gente vai buscar evidências coletando dados e usando Estatística.

Não dá outra. A conversa resvala para sobre como a aula do professor de Econometria é complicada, com letras gregas, ou sobre como os alunos estão ansiosos para fazer uma regressão, mas desde que não seja no Eviews, porque é muito difícil e o melhor seria a gente tomar uma cerveja e discutir economia (armadilha certa!).

Eu sei, é mais ou menos assim na sua aula também. Aluno não é diferente e professor menos ainda: estamos todos sempre discutindo a mesma coisa porque, aliás, o governo também é o mesmo, faça tucano ou faça foice e martelo (disfarçada de estrelinha mensaleira).

Então eu sou obrigado, por motivos didático-pedagógicos óbvios, a buscar um exemplo mais prosaico, do jornal (que nenhum aluno nunca lê, embora ele use a internet até no banheiro da faculdade). Aí eu tenho que achar um jornal decente, que não tenha medo de noticiar coisas desagradáveis para os governantes (em Minas Gerais, isso deixou de existir faz tempo, dizem meus amigos jornalistas). Eu acho um e leio: “Governão bacana vai afagar o consumidor em uma incrível coincidência com o calendário eleitoral! Logo mais, desconto na conta de luz”.  Quando eu leio de novo, eu percebo que a história é mais ou menos assim: o governo tem um argumento retórico qualquer sobre um dinheiro sobrando (tipo um pré-sal que um dia será contabilizado, mas já o foi porque…deixa para lá) e vai te dar de presente. Mas, para fazer isso, ele, que está cheio de burocratas que condenam os “atravessadores”, vai ter que cobrar pelo serviço e vai se endividar. Entretanto, não se preocupe, ele vai cobrar isso da população brasileira.

Aí, um aluno sempre me pergunta: “- Opa, professor, espera aí, não é um exemplo de equivalência…?”. E eu digo: “-  Olha, como economista (mesmo o do governo) não é quadrúpede, ele sabe que terá que pagar a dívida um dia. Então, sim, ele trabalha com um horizonte de tempo em que a dívida é paga. Pode ser que estejamos diante de um grande experimento natural(mente maldoso) do governo com a sociedade.

Neste instante, geralmente faz-se aquele silêncio e todos começam a anotar algo em seus cadernos. Outros tentam tirar foto do quadro e outros, mais ricos, conversam porque vão tirar cópia dos cadernos dos colegas. Mas há sempre alguém que desconfia de que há algo errado. Aí ele pergunta: “- Professor, são os pterodoxos do governo e seus amantes-admiradores… (barro-)ricardianos?”

Sabe? Confesso que nunca pensei nisto.  Nunca parei para examinar as contas de meus colegas pterodoxos. Será que eles realmente desprezam o mundo intertemporal e fazem contas de um período só, com taxa de juros igual a zero (se forem de esquerda) e não ligam para microfundamentos? Bom, observando a vida deles, seus belos apartamentos, seus automóveis e, enfim, seu estilo de vida, eu desconfio que toda aquela gritaria histérica contra o homo economicus ou contra os microfundamentos não passa de uma espécie derivada do Teorema Mantegométrico da Contabilidade Criativa e que bem poderíamos chamar de Retórica Criativa. Ela consiste em reclamar de tudo que é teoria para justificar experimentos com a sociedade brasileira porque “aqui é diferente e a teoria “do hemisfério norte” não funciona nesta selva.

Fica aí a pergunta sociológico-científica: quantos pterodoxos são ricardianos?