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Angus Deaton é o Nobel

Consumo e pobreza. Angus Deaton é um dos autores do clássico “Deaton & Muellbauer”, conhecido por todos os estudantes de pós-graduação em Economia. Também desenvolveu o modelo AIDS (almost ideal demand system) para estimação de consumo.

Vamos ouvir o comitê agora.

nobel_2015_deaton

UPDATE (08:24): super-didáticos os materiais explicativos sobre a obra de Deaton. Tanto o técnico quanto o não-técnico.

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Consumo (de novo)

A Abenomics funcionará?

Desta vez, uma rápida passada de olhos nos dados oficiais japoneses e sem nada de expectativas, mas sim o que de fato ocorreu. Eu poderia fazer uma análise de elevador (subiu, caiu, caiu, subiu), mas aí seria muita moleza, né?

Repare que tem uma propensão média a consumir na tabela. Quem já estudou Macroeconomia básica já viu a Propensão Marginal a Consumir e, se deu sorte com o professor e também se pesquisou um pouco, já deve ter topado com a Propensão Média a Consumir. Sim, há um debate antigo envolvendo estes termos e a análise do consumo, mas fica para depois. Aproveite a dica para explorar as bases e dados do site.

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O final de semana da turma e o numerário

Namorados e namoradas chegam ao final de semana sem pensar muito em gráficos ou em R. Mas, deveriam? Estão perdendo algo? Não sei.

Alguns se divertem indo ao cinema, outros a motéis. Outros preferem uma boate, outros, jogos de futebol. Uma rápida pesquisa pelo IPCA nos dá uma idéia dos preços relativos. Qual preço relativo você quer analisar?

Diversão no sábado

O sujeito que deseja comparar suas opções de lazer com relação ao motel, digamos, pode fazer a hipótese de que o índice de preços é uma média do preço (preço médio). Assim, para o subitem do IPCA referente ao motel, ele calcula o índice. A mesma coisa ele faz para o índice de preço dos subitens boate, jogos e cinema.

Então ele pode verificar algumas coisas. Por exemplo:

relativos1

Ah sim, a amostra é de (1999.08 a 2014.01, dados, obviamente, mensais). Repare no eixo vertical. Ele tem o que seria o índice de preços relativo entre boate e motel. Quando ele estiver acima de um – supondo que o índice é a média – então diríamos que a média do preço da boate é maior que a média do preço do motel. Em outras palavras, está mais caro ir para a boate. Parece-me que, em Julho, o relativo é o mais baixo, ou seja, se você quer economizar…

Ignoramos, é claro, diversas diferenças, já que o índice de preços é, ele mesmo, uma média brasileira. Alguém mais preocupado com sua realidade local deveria trabalhar com as regiões metropolitanas levadas em consideração pelo IBGE.

Ok, outra escolha seria ir ao futebol ou ao cinema. Ceteris paribus, o incentivo do preço parece tender sempre para o futebol.

cinema_Relativos2

Ok, ok. Teríamos que olhar muito mais coisas para uma boa escolha de lazer no final de semana. Mas os preços relativos não têm moral ou censura: não me importa se você quer ir ao futebol ou ao motel, ao cinema ou à boate. O fato é que você pode construir preços relativos e expressar os preços dos outros bens em relação ao seu numerário.

O pessoal que teve aula hoje de manhã me perguntou isto e eu não poderia deixar de ir para meu sábado sem tentar lhes dar uma explicação mais intuitiva.

Citando da Wikipedia cujo link acabei de indicar:

Numéraire is a basic standard by which value is computed. Acting as the numéraire is one of the functions of money, to serve as a unit of account: to measure the worth of different goods and services relative to one another, i.e. in same units. “Numéraire goods” are goods with a fixed price of 1 used to facilitate calculations when only the relative prices are relevant, as in general equilibrium theory or in effect for base-year dollars. When economic analysis refers to goods (g) as the numéraire, typically that analysis assumes that prices are normalized by g’s price. In general equilibrium theory setting the price of one good to be 1 has the problem that this presumes (unwarrantedly) that this good will not be a free good in equilibrium. This is typically avoided by using the sum of the prices of all goods to be 1, that is, by restricting prices to the unit simplex.

Pois é. As coisas podem ficar bem mais complicadas quando você resolve estudar uma economia com mais bens, não? Por enquanto, estamos com dois bens e em equilíbrio parcial. Por isso, preocupe-se apenas com o início da definição. Com ela, podemos visualizar alguns relativos de preços. Bem, mais ou menos, porque estou, novamente, assumindo que o índice de preços é uma média dos preços do produto, né? Uma hipótese simplificadora, bem simplificadora, mas que todos fazem quando querem explicar o relativo de preços com dados com este.

Ficamos assim então. Aproveite seu final de semana e visite o blog do Nepom. Caso dê, volto aqui para conversar mais.

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Japoneses intertemporais e a Abenomics

Para mim, a resposta é simples: sim. Embora isto seja correto, o governo japonês – que já anunciou o aumento faz algum tempo – implementará este aumento de uma forma que nem todo consumidor entendeu corretamente, na opinião dos autores deste blog. Vejamos (grifos meus):

At Isetan, these notices are posted prominently in the furniture and bedding sections, as well as the eyeglass section, meaning departments where people order merchandise and then take delivery later. As one Isetan employee explained to the paper, the consumption tax is applied on the day of receipt of merchandise, not on the day it was ordered or even on the day it was paid for. A good portion of department store sales are order-made products, and the notices are cautioning customers to make sure they understand the date their stuff will be ready to pick up, otherwise they may end up paying more than they thought they would.

Então a história é assim: você pode encomendar um produto hoje e recebê-lo amanhã. Mas se o cartão de crédito só fizer o débito na sua conta dois dias depois do dia do novo imposto, você paga o imposto. Simples assim.

Obviamente, não se pode ignorar a oferta e a demanda:

However, a related article in the weekly Aera says that consumers shouldn’t worry that much, since there’s a good chance people will buy something now to avoid the tax hike only to end up paying more. Some retailers are not as straightforward as the above-mentioned department stores, using the rush as a means of getting customers to sign up for credit cards in order to compound their savings without realizing that in the end they’ll probably have to pay handling fees that will negate such savings, unless they happen to be frequent patrons of the store, in which case they probably already have a card. The magazine interviewed a few housewives who plan to make big purchases ahead of the tax hike.

Não é só uma questão de evitar o imposto, mas sim uma questão de se maximizar o seu excedente do consumidor, aproveitando sua liquidação (como sabemos, o excedente do consumidor é uma medida imperfeita, mas razoavelmente aceita, da satisfação do consumidor).

Posso estar enganado, mas acho que os blogueiros parecem comprar muito rapidamente esta história de que consumidores seriam bobos ou que os mesmos não seriam, digamos, tão racionais assim. Mas, calma lá. Temos que pensar no que o consumidor faz quando vai às compras. Informar-se sobre o imposto é fácil pois, como os próprios blogueiros relatam, as lojas buscam levar esta informação aos consumidores.

Em segundo lugar, não podemos nos esquecer daquela pergunta antiga, do George J. Stigler, sobre a demanda do consumidor. Mais ou menos assim é o problema: suponha que você quer comprar uma geladeira e quer comprá-la ao menor preço possível. Caso você a compre por um preço diferente do menor preço encontrado no mercado, então poderíamos dizer que você seja irracional? Não.

Obviamente, o consumidor tem que alocar seu tempo para diversas atividades em um dia (lembre-se do modelo de Household Production do Becker, por exemplo) e, portanto, só buscará o preço mais baixo até o ponto em que o benefício marginal de seu tempo se igualar ao seu custo marginal, o que não significa, portanto, que ele necessariamente encontrará o menor preço da cidade, mas o que lhe otimiza o uso do tempo. Simples assim.

Mesmo que alguns consumidores errem aqui ou ali, no sentido de se afastarem deste nosso modelo do consumidor racional, ainda assim o fato é que eles se anteciparam ao anúncio da política como a própria matéria no blog afirma. Interessante, não?

O governo japonês, como se sabe, está preocupado com sua dívida interna, realmente muito grande. A sustentabilidade dela não pode se perder e, afirmam, isto é um bom motivo para aumentarem o imposto sobre o consumo.

Um pouco de Microeconomia…

A antecipação dos consumidores pode ser pensada, em parte, como uma tentativa de suavizar o consumo. Afinal, parte do aumento do consumo busca manter o padrão de vida da família (já que estão pensando em queda de renda no futuro). Pensando em um modelo de dois períodos (sem inflação ou incerteza), o que ocorre é que o valor presente do consumo deve ser igual ao valor presente da renda total do indivíduo (ou família).

C1 + C2/(1+r) = (Q1 – T1) + (Q2 – T2)/(1 + r)

O governo anuncia que T2′ = T2 + d (d > 0). Poderíamos falar da expectativa de imposto futuro, Te2, mas como o anúncio do governo é crível (no caso do Japão, acho que ninguém reclamaria desta hipótese…), então o fato é que T2′ = Te2. Assim, o consumidor sabe que, agora, o valor presente de sua renda caiu.

Em dois períodos, a análise é simples porque o consumidor fará o seguinte: ele deixará de consumir um pouco hoje e poupará para manter seu padrão de vida amanhã, com o imposto mais alto.

Mas o problema pode ter mais de dois períodos e, neste caso, o que parece um aumento “temporário” (apenas em um período) é muito mais parecido com um aumento permanente (por vários períodos) no futuro. Neste caso, movimentos de poupança podem até existir, no curto prazo, mas não no longo. O que pode acontecer é um ajuste do consumidor à nova situação.

Entretanto…

Repare em um detalhe: na política do primeiro-ministro Abe, várias medidas são feitas para se estimular a inflação. Deseja-se chegar à meta de uma inflação de 2% ao ano. Então, outra expectativa que o consumidor japonês tem na cabeça é que os preços dos produtos vão subir. Isto significa que a taxa de juros relevante para ele é a taxa real, não a nominal. Com esta expectativa em mente, ele deve refazer suas decisões de consumo não apenas com o novo imposto, mas com a perspectiva de que os produtos ficarão mais caros.

Uma variável mais incerta é a renda do trabalho. Embora o primeiro-ministro esteja buscando acordos com sindicatos, é mais incerto que a renda do trabalho vá subir. Digamos que o consumidor espere um aumento de sua renda no futuro. Então, precisamos rever os parâmetros de nossa restrição. Em dois períodos:

C1 + C2/(1+r’) = (Q1 – T1) + (Q’2 – T’2)/(1 + r’)

Com r’ < r, T’2 > T, Q’2 > Q2.

Honestamente? Eu aposto que a renda disponivel ficará mais ou menos igual e que o aumento da inflação será sentido mais fortemente (estou sendo conservador: eu realmente acho (sou esquizofrênico, lembra?) que a renda disponível diminuirá um pouco, como falei no início desta análise…). Desta forma, para mim, o movimento mais forte, no momento, deve ser o da queda da taxa de juros real, que estimula o consumo presente.

Claro, eu ignorei aqui a taxa de desconto intertemporal, mas você pode fazer seus comentários aí embaixo, ok?

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Por que poupamos tão pouco do Oiapoque ao Chuí? Ou será que poupamos muito? Ou depende (de que?)?

Um dos tópicos mais badalados nos cursos de Macroeconomia é a questão da restrição à liquidez. Em resumo, a função consumo keynesiana, aquela coisa ingênua e super-simplificada, parece ser mais relevante em amostras nas quais os agentes econômicos não conseguem fazer escolhas intertemporais.

De novo: em um mundo no qual as pessoas não conseguem usar o mercado financeiro, as decisões de consumir mais ou menos são basicamente função da renda disponível e a taxa de juros não é importante. A intuição? Simples. Como o sujeito não tem acesso ao crédito (bancos, instituições financeiras, etc), o impacto da taxa de juros em sua vida é menor (em termos de consumo, o impacto é nulo, mas poderia atingí-lo indiretamente, via investimentos que afetam o produto, logo, a renda disponível, e tal).

Pois é. Aqui encontramos a realidade e o bom jornalismo do Estadão que nos deu duas matérias ótimas neste final de semana. A primeira está aqui. Tem muita coisa interessante na matéria e, claro, você deveria dar uma lida em tudo para ter uma boa idéia geral sobre o tema. Para mim, contudo, o ponto de destaque é o seguinte: a classe média emergente – esta que está, gradativamente, livrando-se da restrição à liquidez, ainda poupa pouco. Por que? Porque não existe confiança mútua. Entre quem? Entre o indivíduo e o banco.

Note que o interessante é que não se trata apenas do clássico “o banco não empresta a quem não tem reputação”. Existe também um fator, geralmente sabido mas ignorado, de desconfiança do consumidor com relação aos bancos. Não é preciso ir muito longe para descobrir que este ponto também é relevante. Basta visitar sites como o ReclameAqui para ver o quanto as pessoas reclamam dos bancos (ah sim, você descobrirá, por exemplo, nesta página, que bancos públicos adoram não responder às reclamações, o que os deixam, digamos, artificialmente melhores nos rankings, como neste caso). Desconfiança mútua, aliás, não seria algo irrelevante em um país como o Brasil, no qual a insegurança jurídica ainda é um problema sério (veja os artigos apresentados em congressos como os da ABDE, AMDE, IDERS, etc).

A falta de confiança em bancos e afins significa que brasileiro não usa o crédito? Não. Significa que brasileiro, como qualquer agente econômico racional, busca outras soluções, como o velho “fiado”. Sim, eu também acho que um sinal de subdesenvolvimento de um país pode ser detectado pelo baixo volume de transações financeiras caracterizadas pela confiança. Em um país desenvolvido, você compra de uma grande loja (ou compra produtos financeiros de um banco) sem muita preocupação. Já em países como o Brasil, com tanto rent-seeking e tanta impunidade, a confiança é muito menor.

Note que muita gente que não entende de Economia (sim, desculpem-me, mas este é o termo) fala que o Brasil é um país “neoliberal”, com um “mercado cruel”, etc. Ao contrário, o Brasil é um país cheio de problemas justamente porque nos falta mercado. Pobre não tem acesso ao mercado e, quando o tem, ainda enfrenta a baixa concorrência, empresários rent-seekers (ou seja, que se preocupam mais em ligar para um preso na Papuda do que satisfazer o consumidor), um governo que foge da transparência sempre que pode (tal como em qualquer lugar do mundo, mas com muito mais impunidade aqui) e uma estrutura ultra-anti empreendedora caracterizada por uma burocracia cartorial não desprezível. Assim, meu amigo, minha amiga…fica difícil dizer que estamos num país “neoliberal”.

Quanto ao consumo e à poupança, bem, em uma sociedade com baixa confiança, transações potenciais não ocorrem e, portanto, crescemos pouco. Este é um outro fator de travamento ao nosso crescimento que algumas pessoas não percebem.

Perceba…

Para o estudante de Economia é legal frisar: nossa discussão aqui vai além do livro-texto. Quando você entende bem o que está lá no livro (consumo, escolha intertemporal, restrições à liquidez, etc), você entende melhor uma pequena parte desta história toda. Note que entender bem aquilo tudo exige um bocado de exercícios, discussões, etc. Você sempre terá que ir e voltar em discussões mais amplas (como esta nossa, aí no alto) e uma parte da habilidade que um estudante de Economia desenvolve (caso seja um estudante, não apenas um aluno) é saber lidar com o “abstrato-realidade” de maneira talentosa e inteligente. Não é fácil, mas não custa tentar.

Eu diria que você deveria ler o capítulo do livro sobre os microfundamentos do consumo com carinho, fazer todos os exercícios, certificar-se de que consegue alterar os exercícios e ainda assim resolvê-los (mudando este ou aquele parâmetro, por exemplo) e, claro, neste passo adicional, vale a pena pensar em como introduzir questões como as discutidas acima no seu problema.

Bom, eu nunca disse que seria fácil, né?

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Should I buy or should I save?

Eis um exemplo de conclusão equivocada a partir de um teste. Vamos inverter a ordem. Primeiro o resumo do artigo:

Nesse estudo, os psicólogos de Columbia perguntaram a estudantes de nível médio como se sentiam em relação ao equilíbrio entre trabalho e lazer em suas férias. Imediatamente depois do período de descanso, os principais remorsos dos entrevistados estavam ligados a não estudar, trabalhar ou economizar o suficiente. Mas quando eles avaliaram as mesmas férias um ano depois, havia maior probabilidade de lamentos por não terem se divertido, viajado ou gastado mais.

E quando questionados novamente, já aos 40 anos, tinham remorsos ainda mais fortes sobre trabalhar demais e não se divertir o suficiente nas férias.

Ou seja, depois que eu alcancei os velhos 40 anos, poupei e estou cansado, sinto-me saudoso dos bons tempos da juventude. Ah sim, se a análise fosse um ano depois das férias, eu lamento não ter feito mais. Provavelmente porque vi que poderia, a posteriori, ter me divertido mais.

Bem, o que os caras concluem deste experimento?

Os preocupados demais com o futuro acabam não aproveitando a vida, o que resulta em frustrações. De acordo com o pesquisador Ran Kivetz, os experimentos mostram que se dar um prazer imediato gastando demais ou comprando algo que não é necessário também resulta em remorso, mas ele é apenas passageiro.

Existe um ponto ótimo para a preocupação com o futuro. Ninguém discorda. Também entendo que o problema do lazer e do trabalho é similar ao problema da escolha intertemporal (não é à toa que ambos são aplicações do modelo de escolha com dotações), mas será que a conclusão é que comprar mais hoje é melhor?

Se eu estiver pobre no futuro porque poupei pouco, será que eu olharia para o passado e diria: puxa, eu me diverti (gastei) pouco e, assim, deveria ter gastado mais, o que me deixaria (mais) pobre hoje? Falta algo nesta análise, não falta? Ou o artigo foi mal interpretado, ou os autores do artigo fizeram metade do trabalho. Bem, para ser honesto, também não tive acesso ao artigo para entender a metodologia mas isto apenas me deixa mais desconfiado sobre o mesmo.

A notícia completa está aqui.

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Neologismos para que te quero ou “Os novos ciclos austríacos sambam”

Falei hoje sobre esta interessante proposição do pessoal da FIESP. Pois é. Não deu um dia e o ministro da Fazenda me saiu com duas ótimas:

Note bem, leitor, não existe um único manual de economia que defina o que seja consumo sustentável. Trata-se de um neologismo, fruto da criação política (ou do discurso político). Consumo é fruto dos desejos insaciáveis dos consumidores com suas restrições orçamentárias. Mesmo estas, até onde eu saiba, não são apenas fruto do que o consumidor ganha trabalhando (existe sempre uma Bolsa-Família ou um mercado de capitais, certo?).

Em outras palavras, se o ministro queria dizer algo, dissesse simplesmente: “- Consumidores, continuem consumindo que do controle da inflação cuida o Banco Central. Eu, aqui, vou cuidar das demandas dos políticos com o necessário cuidado”.

Por que o ministro não fala de uma carga tributária sustentável? Por que não lhe passa pela cabeça alertar os empresários para os investimentos insustentáveis? Tal como os governos que criticara, o ministro joga a batata para o consumidor, este irracional que consome de forma insustentável. Parece que faz isto com uma tremenda sensação de desconforto, como se vê na combinação de notícias acima.

Entretanto, meu desconforto maior é com esta súbita – e não sustentada? – afirmação de que existem consumos insustentáveis ameaçando a economia. Volto ao tema austríaco. Nos ciclos austríacos, as decisões de investimentos incorretas – que os austríacos chamam, muito adequadamente de malinvestiment – é que geram problemas na economia. Lembro que, para os austríacos, estes erros dos empresários derivam de sua (inexplicável) incapacidade de incorporarem informações oriundas de políticas públicas em seus cálculos econômicos, o que geram os tais malinvestiments.

Esta de jogar a culpa para os consumidores amplia as irracionalidades. E aí vem o meu Teorema do Keynesiano de Quermesse (em homenagem ao Alexandre):

“Se investidores e consumidores praticam gastos insustentáveis, nada há que garanta que, quando nomeados para cargos públicos, passem a gastar de forma sustentável”.

Fica aí a sugestão de reflexão para você, leitor deste blog. Por que é que um sujeito com um cartão corporativo na mão não gosta de ser chamado – no “modo” polido – de consumidor insustentável e, ao mesmo tempo, adora dizer que “pobre não sabe gastar”?

Engraçado, né? Bem, como este blog segue a CC, espero que o leitor não se esqueça de nos citar quando fizer a piada ou a citação do mais novo teorema econômico da selva brasileira…

p.s. Quando passei pelas notícias, agora à noite, vi que o povo ficou ouriçado. Outro economista da FIESP negou a necessidade de se conter o crédito ao consumidor, bem como (claro), a Fecomércio. Claro, nem era preciso ler este blog para ver a conclusão natural de que subsídios para industriais não são de graça e que alguém teria que pagar por isto…