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O CADE e o Uber

Fullscreen capture 942015 81451 PMUber: faz bem?

Falei tanto do Uber aqui que achei que não iria mais voltar ao assunto tema. Entretanto, finalmente a autoridade regulatória se manifestou sobre o tema com um texto para discussão.

Ah sim, o seu prefeito e os seus vereadores poderiam gastar melhor seus recursos para ajudar na solução destes problemas de transporte coletivo? O documento responde:

A grande maioria das cidades não dispõem de modelos de simulação do tipo LUTI, nem mesmo muitas das metrópoles localizadas nas principais economias industrializadas do mundo. Contudo, o progresso tecnológico tem propiciado a produção e comercialização de computadores e softwares com capacidade de manipulação de grandes quantidades de dados a custos declinantes. [p.42]

Mas voltando ao Uber, o texto faz dois argumentos: um de equilíbrio parcial, outro de equilíbrio geral (economês, ok?). Nas conclusões, no que diz respeito ao primeiro tipo de argumento, destaco:

A lógica da desregulamentação e busca por políticas liberalizantes decorre fundamentalmente de uma ótica econômica de equilíbrio parcial, nos moldes da análise microeconômica clássica de bem-estar, onde o excedente do consumidor é claramente reduzido por conta do peso morto das restrições impostas pela regulação. Os consumidores toleram a regulação por considerarem que o mercado apresenta falhas, principalmente decorrentes de assimetria de informação. Contudo, quando tais falhas são solucionadas, a regulação perde sentido e o movimento refratário dos reguladores seria basicamente motivado pela captura regulatória.

Tal argumento é muito potente sob duas hipóteses: (i) o avanço tecnológico fará com que o mercado de táxis se limite ao segmento porta a porta por meio de chamadas telefônicas; e (ii) o consumo de viagens por meio de transporte individual de passageiros não gera externalidades negativas. A primeira hipótese parece ser menos restritiva, pois, como foi mencionado ao longo do texto, na metade da década de 1990 tal segmento já correspondia a 70% do mercado de táxis em países desenvolvidos. [p.45]

O negrito é por minha conta, para lembrar aos taxistas que a regulamentação/regulação não existe para serví-los e sim aos consumidores. Podem não gostar, podem chorar, podem me xingar, mas é um fato da lógica da regulação: ela não foi criada para lhe proteger e, caso o tenha sido, o correto, do ponto de vista da sociedade, é corrigir a regulação. Não vou discutir o ponto aqui, mas é meio óbvio que regulações também podem falhar e gerar cartéis. Qualquer economista minimamente versado no tema sabe disto.

Mesmo assim, o texto aponta na direção correta: os consumidores são os que devem ser beneficiados pela regulação.

Quanto ao argumento de equilíbrio geral:

Sob a ótica da análise de equilíbrio urbano, o próprio argumento da captura regulatória deveria ser relativizado. Gestores urbanos tendem a focar políticas que possam gerar incentivos para que as pessoas substituam o transporte individual de passageiros (públicos ou privados) por transporte coletivo. Neste sentido, buscam reduzir custos pecuniários (subsídios) e de oportunidade (aumento na velocidade de deslocamento) dos transportes coletivos e imputam custos adicionais aos veículos que servem de transporte individual de passageiros. Tais políticas não guardam nenhuma relação com captura nos mercado de táxis. [p.46]

Será mesmo que não há captura? Ok, este é um tema para outro dia. Mas digamos que um taxista me venha com este argumento: “ah, o texto do CADE é falho porque a regulação é imperfeita e o regulador é capturado”. Não é preciso pensar muito para ver que este seria o argumento mais imbecil que um protegido pela regulação poderia usar. Um verdadeiro harakiri retórico. Conclusão natural: desregule o setor.

Um ponto importante do texto: regulação não se faz em um vácuo institucional e não é instantânea. Tome-se o exemplo dos Países Baixos:

Os holandeses não apenas desregulamentaram o mercado de táxis, mas também criaram incentivos para que tal mercado operasse em consonância com as outras políticas urbanas. Por exemplo, o mercado de táxis foi estimulado a operar como um modal interligado à rede de transporte coletivo das cidades, contrapondo a lógica de que os táxis são substitutos dos veículos particulares e que concorrem com o transporte coletivo (argumento que tem sido desafiado pela evidência empírica recente). Em suma, os holandeses compatibilizaram os benefícios trazidos pela desregulamentação do mercado de táxis (análise de equilíbrio parcial) com os demais objetivos dos planejadores urbanos (análise de equilíbrio urbano). [p.47-8]

Pois é. Agora, aos defensores da desregulação, vamos parar com este discurso esotérico de eu tenho o direito de escolher porque, embora eu também ache que você tem este direito, o ponto é que o argumento é tão genérico que vale para qualquer coisa e precisamos discutir como será feita a desregulação.

Dados, dados…não é uma questão acadêmica, estúpido!

O regulador toca em um ponto – e eu fico feliz em ver isto porque canso de falar sobre o tema aqui e já fui vítima de críticas bem fraquinhas por isto – essencial que é a necessidade de coleta de dados locais para se conhecer o melhor o fenômeno. Como desregular sem gerar custos maiores que benefícios para todos (passageiros, motoristas de táxi e uber) se não temos dados?

Quem acha que “coletar dados é questão acadêmica” está fugindo do problema. Por medo, covardia, má fé ou ignorância, não importa. Importa que está prejudicando o nosso avanço na exploração do fenômeno.

Ah sim, a Microeconomia que você aprende…lembra?

Trata-se de um texto muito resumido, mas com uma bibliografia promissora para os interessados no tema e, ah sim, os alunos de Microeconomia gostarão do Modelo Alonso-Muth-Mills apresentado lá. É um belo exemplo de como você usa microeconomia (aquelas ferramentas de otimização) para entender um problema tão importante quanto este…

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Pode ser restaurante de sushi, uber ou táxis: a história é a mesma.

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Seus empregos vão sumir…búúúúú….

Em duas partes (aqui e aqui), o autor, H.D. Miller, conta a história do primeiro restaurante de sushi nos EUA. Surpreendentemente, ele existiu no início do século XX, nos idos de 1904-5, na California.

Mas o mais legal é que os restaurantes japoneses da época eram de dois tipos: os que serviam comida japonesa e os que eram apenas de donos japoneses, mas serviam comida local. A qualidade da comida era tão boa quanto e os preços, menores. Resultado? Os outros donos de restaurantes resolveram…boicotá-los!

In 1902, Spokane’s Local 485 organized a boycott of a ten-cent Japanese restaurant run by a Mr. K. Takahashi. Unfortunately, it was an imperfect tactic, one that did not succeed, mainly because it was hard for workingmen to turn down a cheap meal. So hard, that the union had to institute a $2.50 fine for any member caught entering a Japanese restaurant.

But there were some successes. In 1907, unions and American restaurant owners succeeded in convincing the Seattle city council to mandate a fifteen cent minimum price for a meal, erasing part of the Japanese price advantage.

Familiar, não? Exato. É a mesma história do Uber vs táxis e de tantas outras disputas. Não se convenceu? Veja como a selvageria de alguns taxistas brasileiros não é tão distinta assim da que alguns californianos manifestaram na época.

And in San Francisco, in December of 1906, unions conspired with the corrupt mayor, Eugene Schmitz, former head of the Musicians Union , to get Japanese children banned from public schools.

But the Japanese restaurants still prospered, as did the cut-rate Japanese barbers and laundrymen.

Banir crianças da escola pela etnia porque seus pais vendem comida a um preço menor? Não me parece muito razoável, não? Lembra até o Gary Becker nos dizendo que mercados podem mitigar a discriminação racial (já que a única preocupação do empresário é com a eficiência do trabalhador, não se sua pele é verde clara ou azul turquesa), não lembra? Ah, e quanto a arrancar uma repórter de um Uber e dar uma surra no motorista? Não parece com a punição sobre crianças? Acho bastante similar.

É em momentos como este que surgem discursos muitos sedutores – faustianos? – sobre como a concorrência é, supostamente, maligna e como você vai perder empregos se não espancar uns motoristas ou discriminar uns meninos de escolas públicas (lembre-se do que sempre repito aqui: emporiofóbicos existem e surgem das trevas nestas horas). Ou seja, pelo aspecto humano, não vale a pena ser contra a competição, alma do mecanismo de mercado.

Mas mesmo que você seja bem insensível a este aspecto, ainda assim há outro argumento: evitar que as pessoas tenham acesso a maior diversidade de bens e serviços que só sobrevivem porque conseguem ser mais baratos é privilegiar poucos em detrimento de muitos e, digo mais, este privilégio não é bom nem para os poucos. Você fica aí falando do Piketty, mas não prestou atenção em outro fato: dados mostram que a tecnologia mais criou empregos do que destruiu, nos últimos 140 anos.

Pois é. História interessante esta, não? O chato é que não tenho um sushi para comer agora. Vai ter que ser um pão com manteiga mesmo.

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III Prêmio SEAE

Mais uma edição deste prêmio sobre defesa da concorrência e regulação econômica

Período de Inscrições: de 25/03/08 a 22/09/08

Temas:
1. Defesa da Concorrência
2. Regulação Econômica

Premiação:

Categoria Estudantes de Graduação
R$ 5.000,00 – 1º colocado em cada tema
R$ 3.000,00 – 2º colocado em cada tema
R$ 2.000,00 – 3º colocado em cada tema

Categoria Profissionais
R$ 20.000,00 – 1º colocado em cada tema
R$ 10.000,00 – 2º colocado em cada tema
R$ 5.000,00 – 3º colocado em cada tema

Certificado de vencedor
Publicação da monografia

Recomendo, claro, a participação de todos os que tenham algo interessante a dizer sobre o tema. Independente da grana.

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Por que a NET não funciona? Elocubrações a partir de outro caso…

Por que serviços de atendimento ao consumidor não funcionam? Eles funcionam, mas há um ponto importante que diminui – em muito – sua eficiência: a falta de competição. O exemplo do Adolfo Sachsida é a NET.

Dou outro exemplo em busca de uma explicação. Recentemente adquiri um videokê da Sony (cansei de lutar contra os vagabundos genéricos importados, quer sejam sob marcas desconhecidas ou não). Claro que, antes da compra, eu resolvi me informar sobre um detalhe importante para mim e para minha noiva: o controle de tom de voz.

Mandei mensagem para a Sony, em 16.12, cujo conteúdo segue:

Prezado(a) senhor(a), shikida, claudio

Sua pergunta é muito importante para nós e a responderemos em até 72 horas.

Seu e-mail no Sony Contact Center:
Tema a tratar: Processo: Informação de Produtos
Categoria: Vídeo
Sub Categoria: Reprodutor de DVD
Modelo do Produto: DVP-K870P
Mensagem (máx.de 2000 caracteres): ATENCAO: DVP-K88P é o modelo que nao consta da selecao acima e sobre o qual gostaria de informacao. Minha duvida é simples: no modo karaoke, há possibilidade de mudança de tom da voz? Os modelos concorrentes da Gradiente possuem esta opcao e como eu e minha esposa cantamos em tons diferentes, seria bom que o modelo de voces tivesse esta opcao. grato pela informacao.

Antes de prosseguir, quero deixar claro que o modelo é ótimo exceto pelo fato de que, como seus similares nacionais, ele não é destravado para todas as regiões. Mas vamos em frente. Eu estava com pressa e, acidentalmente, em outra parte do site da Sony, descobri que havia tal controle (por incrível que pareça, não era naquela página que contém os detalhamentos técnicos). Notou, leitor, que falam em 72 horas para a resposta? Pois bem, isto nos daria algo em torno do dia 21 ou 22. Com boa vontade – e atrasos – dia 23.

Entretanto, eu estava com pressa (Natal…) e a informação descoberta involuntariamente era suspeita: afinal, eu esperaria encontrar algo sobre controle do tom de voz nas especificações técnicas do produto. Então resolvi ligar para o SAC da Sony. O atendente ouviu minha questão e fez o que muitos não fazem: trabalhou direito. Leu o manual e confirmou: existe o controle de tom de voz. Comprei o produto em 18.12.2007 .

Já havia me esquecido da mensagem enviada quando, em 26.12.2007 (72 horas???), chegou a resposta:

Prezado Senhor Claudio,

Agradecemos o contato com a Sony .

Informamos que não é possivél alterar o tom de voz no modelo em questão.

Para outras informações ou aquisições de produtos, solicitamos que entre em contato com nossa Central de Atendimento pelo telefone: (11) 3677-1080 de 2ª a 6ª feiras das 8h as 20h, onde um de nossos agentes poderá auxiliá-lo.

Ficamos à disposição.

Atenciosamente,

Claudio XXXX.
CRC – Central de Relacionamento com o Consumidor
Sony Brasil Ltda.
Telefone: (11) 3677-1080.

Como o leitor pode notar, a excelente Sony (sim, acho-a uma excelente marca) tem um SAC que é, no mínimo, um desastre. Primeiro, não respeita o próprio prazo a que se propõe. Segundo, informa de maneira incorreta. Mais simples seria que houvesse apenas um número de telefone e atendentes dedicados como o que me atendeu.

Será que, neste caso, a explicação do Adolfo também se aplica? Espaço aberto nos comentários.