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Quando eu já perdia a esperança nos cientistas políticos…

…alguém me envia isto. Ou seja, alguém lá entende bem o problema de variáveis instrumentais e não fica falando bobagens ou asneiras (do original: “asno”) sobre o “uso da estatística na ciência social”.

I rest my briefcase.

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Ciência e resultados que podem ser reproduzidos ou “civilização vs barbárie”

Sua empresa quer saber o que afeta a demanda pelo produto. Aí ela contrata um consultor que pega os dados e entrega um resultado que não consegue ser replicado usando todos os passos que o próprio consultor lhe fornece no relatório final.

Chato? Totalmente.

Seu aluno diz que fez uma regressão e achou um resultado interessante, mas não quer mostrar a base de dados. Aí você descobre que ela nunca existiu.

Chato? Totalmente.

Seu conhecido leu um artigo com implicações políticas importantes e pesquisadores tentam replicar o resultado usando os dados originais e descobrem que os dados originais não eram o que os autores do artigo disseram ser.

Chato? Totalmente.

Muita gente não aprecia e/ou não entende a importância de se fazer pesquisas que sejam reproduzíveis. Há alunos que me olham com uma cara de sono ou indiferença. Eles pensam que o problema é só “acadêmico” (aliás, o cara que mais separa a pesquisa acadêmica do mundo real é o aluno que não quer estudar. O segundo cara é o picareta que não quer concorrência de alto nível e inventa esta separação para proteger sua fatia de mercado…).

Os exemplos acima mostram que o problema é muito mais sério. A cultura de “feudalização” de bases de dados não sobrevive ao teste da academia. No longo prazo, a reprodução dos resultados é inevitável. Há tempos que bons journals norte-americanos exigem que a base de dados seja entregue junto com o artigo submetido. Faz todo sentido, não?

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O que dizem os dados? – Da futilidade da retórica diante dos fatos

Excelente iniciativa do Estadão foi o tal Basômetro. Lembro de ter divulgado esta ferramenta aqui há tempos. Mas é uma ferramenta tão boa que nenhum outro jornal estadual teve a coragem de bancar uma iniciativa similar para as Assembléias Estaduais. Entendeu, né? Pois é.

Mas o legal do Basômetro – saiu até um livro somente com análises de dados desta base dedados – é poder verificar algumas “falas”, “discursos” que ouvimos por aí. Por exemplo, aquela história do governo acuado por uma oposição malvada e feia que o impede de implementar seus humildes programas sociais é uma balela muito grande.

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A escassez de séries de tempo políticas no Brasil…e a (óbvia) relação entre desemprego, inflação e popularidade dos políticos

Estava procurando uma base de dados de popularidade presidencial para fazer um exemplo para meus alunos de Microeconomia III (isso mesmo, você não leu nada errado). Não deu outra: em português, quase nada. Em inglês, descobre-se quem tem alguma coisa.

Então descobri uma dissertação de mestrado em Ciência Política na qual o autor constrói a série. Infelizmente, ele não disponibilizou os dados e, assim, não posso sequer replicar seu estudo. Claro, uma opção é pedir-lhe a base, mas há um outro ponto a se destacar: a escassez de séries de tempo em Ciência Política no Brasil é um sintoma sério de que ainda é preciso muito trabalho para se entender os fenômenos sociais por aqui.

O trabalho do autor é muito interessante. Não é todo dia que vejo alguém da Ciência Política brasileira tentar tratar dados de maneira adequada, usando, por exemplo, testes de raiz unitária. Há alguns, eu sei, mas não os conheço (sequer conheço o autor desta dissertação, por exemplo).

Mas o melhor, para mim, foi constatar que minha tentativa de procurar a série certamente fazia todo sentido. Por que? Bem, veja o que ele conclui:

Quanto aos resultados, encontrou-se que a opinião pública brasileira avalia o trabalho do Presidente a partir do bom desempenho da inflação e do desemprego, sob influencia extraordinária do cenário político. Eventos como mensalão e o apagão tiveram efeitos destacados.

Exatamente. Eu queria fazer um exemplo simples relacionando inflação, desemprego e alguma medida de bem-estar. Como sabemos, isto não é tão fácil. Então eu, pensando naquela idéia antiga e simples de curvas de isovoto, pensei em fazer um exercício que vi, certa vez, na revista Conjuntura Econômica, construindo uma função de utilidade simples. Claro que meu medo era de que as variáveis não tivessem um ajuste bom. Bem, o autor resolveu meu problema. Eu só queria mesmo, agora, era ter acesso aos dados para fazer o exemplo, mas fica para outra vez.

Curiosamente, a dissertação não menciona se houve ou não tentativa de se construir um modelo dinâmico para se medir impactos de curto e longo prazo entre as variáveis (na tradição do VAR com cointegração). Imagino que o tema deve ter sido citado na defesa.

Agora, vejam só, o insight da curva de Phillips – que o ex-presidente negou e depois desmentiu que negou (errar é humano, errar como ex-presidente famoso é menos humano: pega mal, né?) – está lá, bonitinho, bonitinho. Tá tudo lá: desemprego, inflação e popularidade. Quem diria, heim?

p.s. enquanto isto, nos EUA…

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O dia em que li uma boa monografia de outra área…

Eis o título e o resumo da monografia de um conhecido amigo:

Intervindo em omissões políticas: há uma judicialização da política por meio dos Mandados de Injunção?

A judicialização da política é um tema que tem mobilizado a agenda de trabalho de muitos juristas e cientistas políticos desde meados da década de 90 (TATE e VALLINDER, 1995; ARANTES, 1997 e 1999; VIANNA, 1999; OLIVEIRA, 2005). O Judiciário é um ator chave no exercício do monopólio da força, na interpretação das regras que regem a economia e na relação entre os três poderes (TAYLOR, 2007). Esta monografia enfocará esse último aspecto da atuação dos tribunais, procurando compreender o papel da cúpula do Judiciário brasileiro na apreciação dos mandados de injunção, ações judiciais especialmente criadas para contornar omissões constitucionais. A metodologia utilizada foi uma análise qualitativa dos principais julgados do Supremo Tribunal Federal e a constituição de um banco de dados com todos os mandados de injunção ajuizados de 1988 a 2008 neste Tribunal, para análise quantitativa. A pesquisa centrou-se nos efeitos da alteração jurisprudencial recente, identificando os incentivos gerados ao ajuizamento das ações, o ritmo do processamento dos mandados e a inclusão de novos atores e issues. Conclui-se que os mandados de injunção se tornaram, ao que tudo indica, um forte instrumento de politização da justiça. Contudo, não se apresentam ainda como um instrumento de judicialização da política, não obstante existam diversas condições favoráveis para que isso ocorra.

Deu até vontade de ler (sério!). Ao folhear e ver tantas tabelas com dados coletados pelo esforçado autor, senti orgulho de quase ter sido seu professor. Talvez o fato de ele não ter sofrido em minhas aulas é que tenha sido o efeito positivo. Ou talvez ele pudesse fazer um trabalho melhor se assistisse uma única aula minha. Não importa. A culpa é dele mesmo. No caso, a “culpa” é um “mérito”, claro.

Aos que gostam de Teoria Econômica do Direito (Law and Economics), talvez esta seja uma monografia potencialmente interessante.

p.s. o melhor é ser citado nos agradecimentos o que, obviamente, torna meu (singelo) depoimento (bastante) suspeito. Quer tirar a prova? Leia a monografia do Pedro. Depois me diga se exagerei.

p.s.2. tomara que o autor não tenha homônimos, ou terei colocado o link errado aí em cima… ^_^

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Mitos e verdades

Este vai na íntegra:

O mais poderoso do Planeta?

Enquanto preparava o molho a bolonhesa para meu almoço de hoje estava pensando numa expressão que normalmente ouvimos por aqui, associada ao presidente dos Estados Unidos: “o homem mais poderoso do Planeta.”

Esta expressão nunca esteve tão longe da verdade.

Eu até chegaria a dizer que, individualmente falando, Chavez, Mugabe e Lula – este com suas Medidas Provisórias – têm muito mais poder para impor suas vontades e caprichos aos cidadãos dos seus países do que George Bush ao povo americano.

Enquanto a atuação do presidente americano é estritamente limitada pelo Congresso e seu poder limitado pela Constituição, por aqui as medidas provisórias abundam, inclusive criando canais de TV e todo tipo de coisa “urgente”. Basta uma canetada e pimba! TV Brasil criada. Outra canetada e pimba! Centenas de milhões liberados para empresas em dificuldades.

Há algo verdadeiro na queixa do xará. Só se fala em “poder” nuclear. Mas em termos de causar estragos, maus governos são muito mais poderosos fora dos EUA. Saddam fez o diabo com pessoas. Malucos fanáticos no Irã vão à prostíbulos e condenam a liberdade sexual dos jovens. Militantes da esquerda bolivariana passaram anos nas selvas da Colômbia plantando cocaína para uso ilegal e aprisionando gente inocente.

Por que é mesmo que uma boa constituição é como cêra nos ouvidos de Ulisses e por que isto é a perfeita metáfora de como se contém o poder ditatorial de grupos de interesse sobre outros?

Ahá…