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Recordar é viver

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Capital Humano: patrimônio único seu, de transmissão intergeracional não trivial…

Acerca do último post aqui, reforço meu ponto: aprendemos, sim, como fazer política econômica. Eu sei que existem restrições e tal, mas mesmo isto já aprendemos a tratar. Por que, então, como lamentou o Samuel, fizemos tudo errado nos últimos anos?

Creio que há dois fatores: má-fé e a ignorância. Poderíamos até enquadrar ambas no conceito de irracionalidade racional introduzido pelo prof. Bryan Caplan há alguns anos (clique na figura abaixo para entender um pouco mais sobre isso).

samueldesiludido

Assim, duas coisas: (a) não é porque Mansueto, Samuel, Lisboa ou Alexandre entendem bem de políticas econômicas boas para o país (mesmo sob restrições terríveis que limitam o alcance das políticas…) que toda nossa geração (de economistas e não-economistas) acha racional acreditar nestas teorias.

Em alguns casos, sai barato dizer por aí que você acredita em duendes. Por exemplo, uma criança se importa pouco se sua apresentadora de TV favorita diz isto, talvez até goste. Mas um cliente de um banco não vai se sentir muito confortável se seu gerente disser o mesmo… e; (b) mesmo que acreditemos ser possível aumentar o custo da irracionalidade, ainda assim, existe o fator dinâmico, intergeracional. Em outras palavras, todo este problema em (a) pode piorar ou melhorar (ou não mudar) quando novos economistas substituem os anteriores no mercado e na burocracia governamental.

Acho que a poesia de Cecília Meireles que se segue expressa melhor do que eu o significado do aprendizado e o quão difícil é transmitir a tecnologia da boa política econômica. Leia-a pensando na dificuldade que é, na prática, traduzir o bom ensino e o bom aprendizado. Com vocês…Cecília Meireles.

Com as minhas lições bem aprendidas (Cecília Meireles)

Com as minhas lições bem aprendidas,
com meus exercícios bem feitos,
estudante empírico,
autodidata aplicado,
tenho todos os sofrimentos aceitos
pela minha e por outras vidas.

Com o peso da minha humildade,
montanha enorme nos meus ombros,
estudante empírico,
autodidata aplicado,
vou com meus olhos de vastos assombros
pelas ruas novas da nova Cidade.

Meu nome não sabes, nem é necessário,
e de família e nascimento,
estudante empírico,
autodidata aplicado,
ficaram os dados perdidos no vento,
aéreas letras de registro vário.

Minha aprendizagem é uma calma conquista,
para as provas de qualquer instante:
estudante empírico,
autodidata aplicado,
em alma e corpo sou memória de diamante,
vida sem pálpebra, disciplinada vista.

Mas decerto o que aprendo é meu somente,
meu patrimônio incomunicável,sem herdeiro;
estudante empírico,
autodidata aplicado,
professor meu sou e único aluno verdadeiro,
e, a minha, é a escola comum da humana gente.

Apenas meu esforço ultrapassa noite e dia,
torna-me em aula constante o tempo do mundo,
estudante empírico,
autodidata aplicado,
desvalido, em mim mesmo, e para além, me aprofundo,
para o curso já sem palavras da sabedoria.

[Meireles, Cecília. Poesia Completa (organizado por Antonio C. Secchin), Nova Fronteira, 2001, Vol.II, p.1444-1445]

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Exercício de Redação – uma bela crônica de Cecília Meireles

Cecília Meireles tem esta bela crônica que tentei encontrar na internet. Não achei. Vou reproduzir aqui. Caso haja algum problema de direito autoral, basta me avisar. Mas a mensagem desta curta estória é tão bonita que não resisti a compartilhá-la com vocês. Ela se encontra esparramada entre as páginas 141 e 143 de Melhores Crônicas de Cecília Meireles/seleção e prefácio de Leodegário A. de Azevedo Filho – São Paulo: Global, 2003 – Coleção Melhores Crônicas/direção Edla van Steen.

Exercício de Redação

Cecília Meireles

Mariazinha fez sete anos e foi matriculada na escola.

A escola fica bastante longe de casa, e Mariazinha faz uma longa caminhada, todas as manhãs, carregando uma ardósia, um lápis, uma cartilha e um caderno.

O único defeito de Mariazinha é ser muito pobre (isso é defeito, professora?).

Por ser muito pobre, Mariazinha recebe merenda e uniforme da escola. Se a escola pudesse, dava-lhe um par de sapatos, porque os seus estão muito velhos.

A professora gosta muito de Mariazinha. Ela tem lindos olhos castanhos, cabelos crespos, e está mudando os dentes, o que a torna muito engraçada.

Os pais de Mariazinha também gostam muito da escola e da professora, porque, além de ganhar uniforme e merenda, a menina aprendeu várias letras em três meses e está na lista dos que vão ser alfabetizados este ano.

Está, não – estava: porque aconteceu uma coisa muito triste.

Ontem, Mariazinha foi para a escola, como de costume, acompanhada por uma vizinha que leva, todos os dias, várias crianças.

Mariazinha estava muito animada. Fez um exercício muito caprichado.

Apenas uma coisa a incomodava: é que a presilha do sapato estava descosida e o sapato caía do pé.

A professora ainda disse: “Você vai ganhar um par de sapatos, Mariazinha”. E ela sorriu, encantada (um par de sapatos custa trinta cruzeiros).

Quando Mariazinha saiu da escola, as outras crianças, suas companheiras, foram andando com o portador; mas como o sapato saía do pé, Mariazinha abaixou-se à porta da escola para ver se consertava ainda uma vez a presilha.

Foi quando o policial apitou. O automóvel não pôde parar, deu uma volta pela rua, apanhou Mariazinha, jogou-lhe para longe a ardósia, o lápis, o caderno e a cartilha. Mariazinha morreu no hospital.

O motorista disse que a culpa foi do guarda, qeu apitou quando o automóvel já vinha perto demais.

O guarda disse que a culpa foi do motorista, porque vinha com excesso de velocidade.

Os vizinhos disseram que a culpa foi da rua, porque não tem sinal de parada, que se aviste de longe.

As outras crianças disseram que a culpa foi de Mariazinha, porque ficou sentada na pedra, em lugar de ir logo para casa.

Os pais de Mariazinha não disseram nada, porque ficaram como loucos, sem entender como é que a menina podia estar morta.

A professora de Mariazinha achou que a culpa foi da presilha do sapato, que estava descosida, e não a deixava andar. E dizia, inconsolável: “Por que não lhe dei logo um par de sapatos? Por que não consertei aquela presilha? Por que não temos uma agulha grossa, para dar um ponto no sapato? Por que não acreditamos que as pequenas coisas podem ter grandes efeitos?”

Mas houve outras pessoas que acharam que o que tem de acontecer tem muita força, e que o sapato tinha de estar descosido, para Mariazinha morrer daquela maneira.

A escola é muito pobre. Não pode distribuir calçado.

As crianças levaram flores para Mariazinha morta.

Custaram cinquenta cruzeiros.

Mariazinha e nós – observações esparsas

1. A narrativa de Cecília, em certo momento, faz-me lembrar do conto “Dentro do Bosque (藪の中)” de Ryounosuke Akutagawa, parte do famoso “Rashomon e outros contos” (e também tema do filme “Rashomon” de Akira Kurosawa). Lá, naquele conto, também existe o tema das várias versões para um fato, no caso, um suposto assassinato. No caso, para ficar muito parecido, faltaria a autora incluir o depoimento da falecida Mariazinha explicando a causa de sua morte

1.1. Ah sim, o conto pode ser encontrado em pelo menos duas edições em português de livros de contos de Akutagawa. A primeira, comprada na saudosa “Feira de livros” que acontecia em BH, geralmente no segundo semestre é: Akutagawa, R. Contos. Civilização Brasileir ae Massao Ohno Editores, sem data. A segunda, mais recente, é: Akutagawa, R. Kappa e o Levante Imaginário. Estação Liberdade, 2010.

2. Como sempre, esta história tão singela quanto triste é útil para introduzir alguns conceitos ao aluno de Economia: incerteza, custo de oportunidade, por exemplo. Há também a complexa discussão sobre quem deveria fornecer sapatos para Mariazinha. Afinal, é um bem privado, não um bem público mas, lembre-se, a caridade privada nunca foi esquecida por Adam Smith ou qualquer outro economista sério sobre o qual você já deve ter ouvido falar. Lembre-se, por exemplo, do ótimo livro de Russ Roberts sobre Adam Smith, já citado aqui.

3. No final da redação, a mestra das letras, Cecília Meireles (realmente acho-a uma gigante…) dá-nos aquela estocada no coração: gastou-se um punhado de dinheiro com flores para o enterro de Mariazinha, cinquenta cruzeiros, enquanto um par de sapatos novos teria custado apenas trinta cruzeiros. Uma terrível forma de se aprender sobre escolhas, custo de oportunidade, preço de reserva, etc.

4. A visão de Mariazinha sendo atropelada tem um impacto muito grande em mim. Certa vez, em viagem pelo estado do Rio de Janeiro, vi uma menina sentada na beira da estrada esperando seu transporte escolar. Lembro que aquilo me emocionou. Sei que meus pais só tiveram educação de forma similar (se pegavam transporte escolar, não sei), ali, em escolas parecidas com esta de Mariazinha. É meio chocante ver Mariazinha morrendo por um motivo besta.

5. Este texto mostra como alguns pseudo-educadores erram (pseudo por opção ou por ignorância, não importa) ao tentar dar cores ideológicas a textos. Consigo imaginar um destes professores esquerdistas falando que a culpa da morte de Mariazinha é do capitalismo selvagem e também consigo visualizar um destes maoístas que se dizem liberais dizerem que Mariazinha é a culpada por não ter comprado seu próprio par de sapatos com seu trabalho. Ora bolas, minha gente, Mariazinha morreu porque esta é a crônica. Percebe-se a angústia de Cecília em determinar as causas na diversidade de visões dos poucos personagens citados. Interpretação de textos não é assim, algo simples, como querem fazer alguns, só por preguiça de estudar (ou de corrigir).

6. Acho este um texto muito bonito. Muito emocionante também. Não sei explicar, mas é uma narrativa singela e ao mesmo tempo muito pesada. Coisas que só autores bons conseguem provocar nos leitores. Ou então eu sou um leitor particularmente viesado a crônicas como as de Cecília Meireles.

Finalmente…

Espero que tenham gostado mais da crônica do que minhas observações esparsas. Não entendo nada de Literatura ou de Arte. Mas gosto de ler. É a vida. Ninguém é perfeito.

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Cecília Meireles, os ciclos reais e a tecnologia pró-pobre

Que eu gosto de Cecília Meireles, ninguém mais tem dúvida. Desta vez, eu comprei um exemplar da Coleção Melhores Crônicas que é um volume todo dedicado à poetisa (um livro da Global, de 2003, reimpresso em 2012 pela quarta vez). O prefaciador, que também é o selecionador, Leodegário A. de Azevedo Filho, organizou as crônicas sob grandes temas. Obviamente, fui lá ver a Cecília professora. 

Veja só o que me fez a leitura de Cinema e Educação, crônica que ocupa singelas três páginas do livro (páginas 316 a 318).

Enquanto alguns passaram anos tentando ver no Pato Donald um ataque imperialista aos frágeis e inocentes valores brasileiros, Cecília Meireles foi assistir ao Fantasia de Walt Disney e gostou. Não que faça críticas. Por exemplo:

Fantasia seria mais interessante se outrsa fossem as músicas escolhidas – já que se desejavam fazer os desenhos sobre música. [p.317]

Mas, coerentemente com sua defesa do papel do educador como um sujeito que sempre se renova, ela afirma que a tecnologia não deve ser desprezada. Em suas palavras:

A técnica cinematográfica é desde muitos anos considerada auxiliar poderoso do professor, em todos os campos de ensino. [p.317]

O que ela diria do uso de video-aulas hoje? Nem preciso comentar, né?

Eu me lembro que uma professora de minha infância tinha receio de que eu não aprendesse a ler se continuasse apenas no mundo dos quadrinhos. Mas Cecília Meireles não pensava desa forma. Sobre o nosso amigo Mickey Mouse, ou melhor, sobre desenhos, ela disse:

“(…) em certos casos, só o desenho animado está em condições de tornar visíveis e compreensíveis coisas que, apenas através dos livros, parecem difíceis ou áridas”. [p.318]

Não se trata de uma visão passiva, de aceitação incondicional do desenho animado em sala de aula. Trata-se, isto sim, de aceitar os choques tecnológicos e reconhecer em que eles são ou não positivos (para fins de ensino). Em outras palavras: Cecília Meireles era simpática a choques do lado da oferta (economês puro, né?).

Vale a pena lembrar a sensibilidade social de Cecília Meireles com um longo parágrafo que, por sinal, encerra seu belo texto.

Além disso, é o cinema uma grande livro que pode ser visto, ao mesmo tempo, por um grande píublico – e uma boa coleção de filmes científicos, fortes e vivos, como essa pré-história de Walt Disney, equivaleria a uma biblioteca ambulante, indo até as populações rurais, até os iletrados, para os quais um locutor discreto, sem bizantinismos de linguagem nem de voz, serviria de explicador – ampliando a órbita de cultura das classes mais desfavorecidas. [p.318]

Os preconceitusos que me desculpem, mas inteligência é essencial e esta mulher a tinha de sobra. Cecília tinha uma visão claramente empreendedora do educador, sem dúvida. Uma visão moderna (o que ela diria do uso de computadores em sala de aula?), não necessariamente ingênua (sabemos que a tecnologia pode ser utilizada pelo aluno para não se concentrar na aula) e de um humanismo generoso!

Imagine um educador dizer que o Fantasia de Disney pode ser usado para levar cultura aos que mais dela necessitam. Hoje em dia, não duvido, surgiria alguém dizendo que tudo é relativo (exceto, paradoxalmente, esta frase), que música clássica é coisa de rico e que devemos dividir o Brasil entre pobres injustiçados e, portanto, honestos (“nós”)  e os canalhas (“eles”) e, assim, o correto seria usar desenhos feitos aqui sob a supervisão de um comitê de ideólogos, etc.

Cecília Meireles era grande demais para este Brasil mesquinho, eu sei. Mas, como sempre, eu acabo por enxergar algumas intuições econômicas muito interessantes em suas crônicas ou em suas poesias. Bem, esta é minha interpretação (outro tema que ela aborda neste texto: Fantasia como interpretação de músicas escolhidas e, como ela mesma diz: “(…) interpretação é coisa pessoal (…)”) de sua crônica.

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O quadro-negro…e nós

O quadro-negro

Depois que os teoremas ficam demonstrados,
quando as equações se tiverem transformado,
desenvolvido, reveleado;
e o mistério das palavras estiver todo aberto em flores;

quando todos os nomes e números se acharem escritos
e supostamente compreendidos,
com vagaroso e leve movimento
o Professor passará uma silenciosa esponja
sobre as coisas escritas:

e nos sentiremos outra vez cebos,
sem podermos recordar o que julgávamos ter aprendido,
e que apenas entrevíramos,
como em sonho.

(Cecília Meireles, 1963)

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Falhas de Governo: o dia em que Getúlio Vargas destruiu a primeira bibioteca infantil do Brasil

Cecília Meireles: empreendedora da leitura

Vem deste blog a narrativa sobre a primeira biblioteca infantil brasileira que foi fundada e administrada por Cecília Meireles. Reproduzo porque esta foi, para mim, surpreendentemente, o melhor exemplo de falhas de governo. Vejam só:

Cecília exerceu, com destaque, a função de educadora ao organizar e dirigir a primeira biblioteca infantil brasileira. A biblioteca funcionou no Pavilhão Mourisco, enseada do Botafogo, no período de 1934 a 1937. Por sua amplitude, passou a denominar-se Centro de Cultura Infantil.

Jussara Pimenta, no ensaio “Leitura e Encantamento: A Biblioteca Infantil do Pavilhão Mourisco” (In: Poética da Educação, 2001) afirma que o Pavilhão Mourisco, um prédio em estilo neopersa, foi criado para servir de café concerto e tornou-se um bar restaurante muito frequentado pela sociedade carioca. Estava um pouco abandonado na época em que Anísio Teixeira, diretor do Departamento de Educação, resolveu transformá-lo em biblioteca infantil.

A inauguração aconteceu no dia 15 de agosto de 1934 e foi muito prestigiada. Contou com a presença de Pedro Ernesto, prefeito do Rio de Janeiro, e do Diretor do Departamento de Educação.

 

Pavilhão MouriscoOk, Cecília convence o governo a gerar uma belo bem público na figura da primeira biblioteca infantil brasileira. Não há como não ficar emocionado, ainda mais que não existem evidências de que Cecília Meireles agisse em prol de grupos de interesse. Parece uma genuína preocupação com a educação. Sabemos que não existem anjos, mas o fato é que a poetisa fez o que eu chamo, hoje em dia, de…gol da Alemanha!

Getúlio Vargas: pai dos pobres e analfabetizador de crianças

Mas, claro, estamos falando de um país com instituições muito pouco inclusivas – no sentido moderno que lhes dão os economistas (Acemoglu, Robinson, Bergstron, Persson, etc) – e, portanto, você já adivinha o que vem.

Nada dura para sempre. Em 19 de outubro de 1937, sob a vigência do Estado Novo, a biblioteca infantil foi invadida pelo interventor do Distrito Federal e teve as portas cerradas com a justificativa: “em seu acervo abrigava um livro de conotações comunistas”. O livro era “As aventuras de Tom Sawyer”, do escritor americano Mark Twain.

A diretora protestou pelo fechamento da biblioteca e a falsa acusação de ter no acervo um livro comunista. Era um absurdo! Os jornais da Europa e Estados Unidos deram destaque à medida arbitrária e descabida do governo de Getúlio Vargas. Tudo foi inútil. A biblioteca foi fechada e serviu depois para um ponto de coleta de impostos. Arrecadar dinheiro é mais importante do que a educar.

A blogueira, então, arremata a breve história da biblioteca com tristeza. Não é para menos. Vejam o que o governo, este bondoso Leviatã que deveria corrigir externalidades, fez. Invadiu e fechou a biblioteca com uma justificativa, no mínimo, grotesca e, não obstante, mostrou a que veio: transformou o local em um ponto de coleta de impostos.

Provavelmente o discurso do governo deve ter sido o de que os impostos serviriam para gerar bens públicos para a população ou para corrigir externalidades (tudo isto dito de alguma forma diferente, com palavras como “progresso”, “estatais”, “tudo pelo social”, etc). É realmente tragicômica a história deste país. Nem as crianças escapam da fúria arrecadatória do governo.

A gente ouve que o discurso oficial era de que Getúlio foi o “pai dos pobres”. Bom, como o capital humano (educação) é o que tira a gente da pobreza, esta ação do ditador – homenageado em praças, ruas e avenidas pelo Brasil afora – mostra que, sim, ele foi o pai dos pobres, mas em um sentido mais diabólico.

Finalmente…

Muita gente fala de exemplos de rent-seeking usando exemplos norte-americanos. É verdade que na falta de tempo, a gente importa exemplos de lá. Entretanto, não é preciso ir muito longe. Basta pesquisar um pouco nossa história e a gente descobre muitos exemplos. Um dia destes ainda escrevo um livro de Economia Política na História Brasileira e procuro um editor que tenha interesse em perder dinheiro comigo. Nestes últimos dez anos tenho feito acumular uma pilha de exemplos de como nosso governo mantém-se ineficiente ao longo das eras. No final do dia, Mancur Olson, James Buchanan e Gordon Tullock são muito mais úteis para explicar nossa realidade do que outros autores. Pelo menos é assim que vejo.

Como deve ter sido triste para as crianças perder uma biblioteca infantil e, claro, como deve ter sido triste para alguns pais ver a máquina coletora de impostos do Leviatã brasileiro crescer. Mas assim é como deve funcionar o governo brasileiro, na visão de alguns, não? Devem escolher vencedores o que é a mesma coisa de escolher…perdedores. Perdeu a sociedade como todo, ganharam o governo e os favorecidos com a coleta de impostos. Educação, claro, para poucos. Certamente não dá para chamar de gol da Alemanha

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Bônus para alunos: resolve? Revisitando o tema com tia Cecília (Meireles)

Poetisas e bônus

Cecília Meireles, em 1941, achava que não. Por que? Vamos começar com uma contextualização. A grande escritora, preocupada com a educação básica, comentava em um espaço de jornal (o clássico A Manhã) a proposta de um padre, que, segundo ela:

“(…) imaginou um sistema de distribuição de bônus, com os quais seriam premiadas as crianças mais assíduas. Esses bônus, convertidos em dinheiro, permitiriam a aquisição de pequenas coisas úteis, e assegurariam a presença constante da criança na escola, e, quem sabe, a sua permanência até o fim do curso”. [Meireles, C. (2001) [1941], Crônicas de Educação, vol. 5, Ed. Nova Fronteira, p.183]

A autora, então, manifesta-se contra este bônus. Para ela, o problema é que as crianças passariam a desejar o acúmulo puro e simples de bônus para, obviamente, aumentar o valor que teriam para comprar as miudezas. Outro ponto, contrário ao primeiro, é que o incentivo poderia ter um efeito de curto prazo:

Depois de algum tempo, os meninos dirão entre si: ‘Não, amanhã faço gazeta, pois já tenho vinte bônus, e posso comprar um bodoque.’ E o outro, respondendo: ‘Que maçada, eu ainda tenho de ir a semana toda, porque estou juntando bônus para comprar uma bola-pneu.’ [idem, p.184]

Repare que o ponto central de Cecília é tão somente o de se a criança responderá ao incentivo de forma genuína. Em outras palavras, para ela, o incentivo ideal é aquele que faz com que o garoto vá à escola porque a escola lhe parece interessante (ela desenvolve este argumento em uma coluna subsequente no mesmo jornal).

Incentivos em si ou apenas incentivos? 

O argumento de Cecília Meireles me lembra a discussão que foi feita pelo economista Bruno Frey, há uns 20 anos, acerca da motivação intrínseca e extrínseca dos incentivos. Geralmente, dizia ele, o economista se preocupa apenas com a última. Em outras palavras, se o bônus aumenta a assiduidade, tudo bem.

Entretanto, ele argumentou em seu pequeno livro Not just for the money, que poderíamos observar indivíduos que se importam com o tipo de incentivos. Em outras palavras: há gente que reage diferente ao incentivo e há gente que não concorda em reagir ao incentivo por achá-lo, por exemplo, repugnante. Por exemplo: podemos oferecer R$ 40.00 a um sujeito pelo seu sangue – para ajudar nos bancos de sangue – e não conseguirmos sucesso porque o sujeito, embora ache R$ 40.00 uma boa grana, ache repugnante a idéia de vender sangue.

A nossa grande poetisa teve a mesma intuição em sua crítica do sistema de bônus proposto pelo padre, mas eu me pergunto se a idéia era realmente ruim. Digo isto porque, sem recorrer a Bruno Frey (ou a Alvin Roth, que cunhou o termo “economia repugnante” para trocas que, muitas vezes, até salvam vidas…), podemos analisar o efeito dos bônus sobre a assiduidade das crianças usando a teoria econômica básica: o bônus nada mais é do que um dinheiro carimbado (uma transferência condicionada).

Seu objetivo não é mais ambicioso do que se propõe: manter a criança assídua na escola. Obviamente, se os pais e os professores não deixam claro isso ao moleque, sim, ele pode se preocupar apenas em acumular os bônus, como na crítica de Meireles. Mas há também a questão de como se desenha este bônus. Pense por exemplo nas seguintes perguntas: ele acumula indefinidamente? Que tipo de bens ele compra?

Eis aí um exercício simples para um aluno de economia: como obter uma solução que agrade tanto ao padre Bruno Teixeira quanto à Cecília Meireles? Eu diria o seguinte: preferências pelas escolas são muito mais difíceis de se mudar, com bônus ou não. A autora chama a atenção para isto em sua outra crônica (“Da evasão escolar”, na mesma coletânea). Este é um trabalho que envolve background de pais, por exemplo, na geração de valor da escola na cabeça (ou, como provavelmente diria a poetisa: no coração) da criança.

Conclusões Nada Poéticas

O bônus tem este problema de ser pensado em si, como aponta a escritora (o mesmo problema do sujeito que cumpre os Dez Mandamentos porque isto lhe dá “bônus” no céu, não por legítima fé). O que se pode fazer é criar um sistema de bônus com regras claras e que leve em conta esta possibilidade. Ora, o bônus pode ser ganho, por exemplo, no final do período escolar, computando a assiduidade líquida (presenças menos ausências). Isto evitaria o problema levantado pela autora.

Agora, um ponto no qual discordo da poetisa é quando ela critica o bônus dizendo algo como: “premiar uma criança é sempre despremiar outra” (p.184), dando-lhe uma conotação negativa. Nem toda criança deve ser premiada e aqueles que o são não estão subtraindo nada de terceiros. Esta visão estereotipada da premiação faz-nos crer que o mérito de alguém é o demérito de outrem. Retoricamente, pode ser. Afinal, se, digamos, alguém chegou em primeiro, os demais chegaram em segundo. Mas assim também o é para quem chegou em segundo, e assim vai. A idéia do bônus, em si, não premia despremiando, exceto se você construir o incentivo desta forma (por exemplo: se eu disser que o bônus vai ser subtraído dos que faltaram).

O que é legal na leitura destas coisas é perceber que o ser humano sempre foi inovador. Para quem acha que a Ciência Econômica é apenas um monte de proposições a-históricas jogadas em um livro-texto, nada mais iluminador do que perceber que a mesma está espalhada em nossa realidade, inseparável de cada aspecto de nossas vidas. É algo mais vibrante e presente do que muitos pensam e, como se vê, ocupou até mesmo as preocupações dos poetas. Como hoje é sábado…

Dia claro,
vento sereno,
roda, meu carro,
que o mundo é pequeno.

Quem veio para esta vida,
tem de ir sempre de aventura:
uma vez para a alegria,
três vezes para a amargura.

[Canção do carreiro (primeiras estrofes). In: Meireles, C. (1942) Vaga Música]