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Capitalismo de compadres

Olha o Brasil aí, gente!

Ah sim, os rankings continuam mostrando uma realidade parecida com a de 2014.

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Lamentavalmente, o índice tem poucos países e a metodologia de cálculo não parece ter sido divulgada amplamente (caso eu esteja enganado, corrija-me nos comentários, por favor). De qualquer forma, é uma iniciativa válida e interessante.

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Criar um conflito externo ou criar/fomentar divisões internas no país?

Digamos que você é um(a) presidente de um país e quer se manter no poder enfraquecendo a oposição. Digamos que você conseguiu enfraquecer o balanço de poderes entre o Executivo, o Legislativo e o Judiciário em algum grau. Então, seu problema é, em outras palavras, alocar seus recursos para conflitos externos ou internos.

Ocorre que recursos são escassos e, portanto, você tem que escolher onde alocá-los conforme as restrições que enfrenta (veja, por exemplo, este texto). Para alguns, é mais fácil criar um inimigo externo e partir para um conflito (potencial ou não, conforme o custo…este cálculo é dinâmico, intertemporal). Para outros, com restrições distintas, a melhor forma é fomentar divisões internas (o conflito interno) para enfraquecer seus adversários e, sim, esta é uma questão econômica (para um exemplo, ver este texto).

A idéia que me ocorre não é nova e qualquer estudante de Economia já deve ter pensado em algo assim. Dá para ver que o problema envolve o cálculo racional e períodos de tempo, sem falar na interreleação entre as ações do governante do país bem como as da oposição ou do país que será ‘provocado’ com o conflito externo, né?

O artigo, cujo trecho ilustro abaixo, trabalha o básico destas questões.

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Interessante, não é? Mas eu sinto falta de um artigo que ilustre melhor o que observamos na América Latina: em prol de um objetivo qualquer, alguns governantes buscam enfraquecer as instituições de seu país. Quando esgotam, ceteris paribus, esta possibilidade, criam inimigos externos. É mais do que apenas uma literatura sobre “democratização”. Na verdade, é o inverso. Não sabemos se isto é apenas uma “etapa” em um suposto processo de democratização, mas sabemos que o trade-off será mais ou menos duradouro conforme o grau de democratização do país, por assim dizer (formulo, aqui, uma hipótese de forma irresponsavelmente superficial, só para estimular o debate).

Vejo um modelo com dois tipos de democracias. Uma, tradicional, na qual a economia de mercado interage de maneira eficiente com a política e outra, na qual os incentivos são na direção de uma sociedade rent-seeking, ou, como se diz hoje, uma sociedade de capitalismo de compadres.

Este último caso englobaria seriam caracterizadas por sociedades que perderam o controle institucional e abriram espaço para que: (a) alguns populistas transformem teses sobre a desigualdade no país (ocorre-me o antigo dois Brasis de Jacques Lambert…), por exemplo, em planos para se perpetuarem no poder. Isto fica mais barato quando estes populistas não possuem forte ascendência sobre os militares por conta, digamos, de escassez de recursos econômicos e políticos que possam baratear seu acesso aos círculos militares); (b) outros populistas que já ultrapassaram esta etapa, mas encontram-se sem recursos (por exemplo, porque sua pauta de exportação não mais sustenta privilégios concedidos a grupos, páramilitares ou não,que o apóiam) e, então, passam a mirar em inimigos externos (imaginários ou não).

Seria interessante ver um modelo destes em algum artigo, preferencialmente com algum tipo de hipótese testável e, de preferência, com testes feitos para discutirmos. ^_^

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Socialistas e Empresários podem se unir em torno de interesses comuns? A Emporiofobia novamente.

For the first time in human history, modern consumer culture has come to hold out the ideal of comfort as a plausible full-time expectation and worthy human aim. We live in the time of comfort foods, comfort zones, humidity comfort indices, being comfortable in your own skin. But there are values that are not compatible with comfort, and those include values crucial to the adventure you’re about to undertake.

Nada como um trecho de um discurso de boas-vindas para novos alunos que não deixa de falar algumas verdades. Afinal, sem determinados valores e comodamente acostumados com uma vida tranquila, não passamos de sacos de pipocas jogados no sofá, não é? Sair da zona de conforto e encarar um mundo cheio de incertezas é um valor tão antigo para a humanidade quanto compatível com o funcionamento de uma sociedade em que trocas voluntárias são sinônimo de prosperidade.

Mais um pouco:

But the fact that comfort promotes mediocrity is not the only problem. I will be amazed if you are not carrying around in your head a chatter of voices assuring you that you should already know what you’re going to be in later life, and should plan your Duke career to enable the systematic acquisition of all the merit badges that will assure your arrival at that happy goal.  There are many contributors to this inward chorus — natural anxieties, an unreliable economy that has heightened the perception of risk, a media and political chorus convinced that education has no value unless it aims straight for a job, parents who crave assurance that you will be set for life. These voices all reinforce the idea that there is one sure ultimate comfort: a career that will purge your life of uncertainty and risk. But allow me to say: you’re still very young, you can’t possibly already know for certain the eventual career that you are meant to occupy. To find that, you need to open your horizons, learn the range of possibilities, and find what fulfills and motivates you. Duke can be just the space of exploration and discovery that you need, but only if you free yourself from the need to know the answer in advance.

Um verdadeiro balde de água fria na visão emporiofóbica que une aqueles que poderíamos chamar de paulofreiristas (querem destruir a sociedade de mercado porque são socialistas) e rent-seekers (desejam uma sociedade de mercado, mas não os valores que potencializam seus efeitos para todas as pessoas).

Aliás, esta é uma aliança que, creio, explica muito do comportamento de boa parte dos brasileiros. Amantes do capitalismo de compadres (crony capitalism) são os maiores aliados dos tradicionais emporiofóbicos ideológicos (socialistas e afins) e, por isso, não ligam para distorções que se ensina para crianças porque, afinal, desejam construir uma sociedade baseada em privilégios (para si) e, caso fracassem, querem ter a quem culpar (e aí, erroneamente, jogarão a culpa no “mercado selvagem”, etc).

No fundo, há uma questão de dilema do prisioneiro simples aí, mas eu queria mesmo era destacar a aliança baptists-bootleggers que caracteriza os principais interessados na manutenção de um capitalismo de compadres como o nosso. Some-se a isto os velhos dilemas da ação coletiva (os incentivos desalinhados) e você explicará boa parte do curioso fenômeno que é o sujeito se dizer liberal mas não se preocupar com um ensino distorcido que busca doutrinar seu filho (contra os valores liberais que ele aprende em casa), por exemplo. Será?

A dica do texto é da Christiane Albuquerque.

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Como a descarga da privada do shopping pode nos dizer algo sobre a omissão dos indivíduos diante da perseguição a analistas de bancos?

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A foto acima é, realmente, a cara do Brasil. “Boulevard Shopping” é um shopping de Belo Horizonte. No banheiro masculino, todas as descargas estavam assim. Dá para adivinhar o porquê disto?

Para ser honesto – e eu sempre digo que no longo prazo somos todos otimistas (não é difícil ver o porquê, mas aqui está um resumo) – nem todo grande estabelecimento de lojas assina suas descargas. Há outras formas de se controlar isto como, por exemplo, colocar um funcionário nos banheiros para a limpeza e…checagem.

Há vários aspectos nesta foto, mas um deles é o da importância das instituições formais e informais para o bom funcionamento dos mercados. Este é um tema mais do que recorrente neste blog como bem o sabem os leitores sobreviventes. Obviamente, o tema não é originalmente meu, mas uma construção de vários anos de pesquisa aos quais devemos associar os nomes de alguns ganhadores do Nobel como Douglass North, Ronald Coase, Oliver Williamson e Elinor Ostrom, dentre outros.

De novo este papo?

Na verdade, não. Não há muito o que acrescentar. Os leitores que usaram a caixa de “busca” no alto da página podem encontrar textos positivos ou normativos (fortemente opinativos) que escrevi neste blog ao longo dos anos. Mas vale a pena lembrar, novamente, a relevância do tema. Eis um resumo rápido.

Outro ponto importante é a relação entre governo e setor privado. Digo, a relação incestuosa.

Mas um problema importante que decorre da má formatação das instituições é o (sub)desenvolvimento dos mercados. Disse Adam Smith – na tradução mais famosa, devida a George Stigler – que a divisão do trabalho é função direta da extensão dos mercados (o prof. Bodreaux conta como a vida de seu filho foi salva por isto aqui).

Voltemos à foto

Pergunte-se novamente sobre a foto acima. O que ela mostra? Uma imensa falta de confiança nas pessoas. Melhor dizendo, uma falta de confiança entre as pessoas: ninguém confia em ninguém. Todos pensam que serão roubados. Esta visão preconceituosa contra as pessoas tem a ver, obviamente, com a verificação empírica de que muitas coisas já devem ter sido roubadas naquele shopping ou em outros lugares.

Como boa parte dos roubos no Brasil não resultam em atuação eficiente da polícia (é até difícil obter estatísticas simples como a do percentual de recuperação de objetos roubados), as pessoas tentam se defender de algum jeito, no caso, tentando “marcar” a peça para diminuir seu valor ao potencial ladrão.

Agora, voltemos ao Adam Smith. Para que mercados funcionem bem, é necessário que haja uma divisão de trabalho digna do nome. Esta somente se desenvolve se a extensão do mercado atinge um certo tamanho (não me perguntem qual é o tamanho, não sei). Para que isto aconteça, dentre outros fatores, é importante que acreditemos que nosso trabalho será recompensado e, portanto, devemos contar com uma sociedade na qual não existam muitos incentivos ao roubo.

Aí eu te pergunto: qual é a visão sobre “mercados” que você tinha quando estava no colégio? Caso você não se lembre, vou ajudar: assista isto aqui. Pois é. No caso do Brasil não é apenas a desconfiança com a eficiência da segurança pública que faz com que tenhamos que assinar descargas, amarrar canetas com correntes ou algo assim. Há também a visão de que mercados são jogos de soma zero (“se eu ganho, você perde”).

A politização do ensino é tal que predomina a unilateralidade de uma única visão sobre o funcionamento dos mercados. Até mesmo futuros empreendedores, quando entram nas faculdades, espantam-se ao descobrir que mercados não são jogos de soma zero (aliás, nunca foram). Educar, no Brasil, também é um árduo trabalho de desfazer preconceitos…

O ocaso do Santander e o capitalismo de compadres: um reflexo da nossa sociedade e história?

Você viu algum porta-voz de algum “conselho”, “ordem” ou “sindicato” se manifestar sobre a bizarra demissão da analista do Santander? Não. Por que? Porque existe uam significativa parcela da sociedade brasileira que realmente não acredita no funcionamento dos mercados. Tendo vivido sobre um capitalismo de compadres (crony capitalism) por séculos, crê que esta é a regra.

Só pode ser contra as trocas voluntárias (outro nome para mercado) quem é contra a democracia, não é? Provavelente.  Pois veja o Brasil no ranking do Latinobarometro. Quem dá nome de rua a ex-ditador (Getúlio Vargas) pode não saber o que está fazendo exatamente, mas ao fazer pouco caso da demissão da analista do Santander, percebe-se que a sensação é a de que não vale a pena se preocupar com um desconhecido, não é?

Mas não é este o fundamento das trocas que faz mercados crescerem? Não é a confiança de que quem vendeu vai te entregar a mercadoria?  Não é na base da confiança com desconhecidos que você entra em um táxi, em um ônibus ou em uma farmácia? 

Há aí, sim, um pouco de história sobre liberdade de trocas, liberdade civil ou econômica. Embora o discurso ideologizado, politizado, não-científico tente negar, os dados não dão espaço a tanta descaso com a liberdade de expressão.

Não, não me venha falar, subitamente, de seu amor às leis. Você e eu sabemos que você (e eu) passamos boa parte de nossas vidas reclamando de leis irreais ou sem sentido. Aliás, nem houve qualquer apelo legal para a demissão (só para deixar claro, nem faço idéia de quem seja a demitida, ok?).

O campo que estudo, na História Econômica, está praticamente repleto de estudos mostrando que nem todos os sistemas legais são pró-prosperidade (ou, se você quiser, pró-pobre, embora saibamos que haja alguma controvérsia no uso de ambos como sinônimos, mas duvido que entre os polemicistas haja algum defendendo o fim da liberdade de expressão). Leis também são dinâmicas, meus amigos leitores, e mudam com o tempo. Mudam com a ação dos homens, os mesmo que, agora, estão se calando diante da demissão citada. 

Conclusão inconclusa…

Talvez este seja um aspecto esquecido neste episódio negro na história da democracia brasileira: o fato de que muitos de nós se satisfazem com a demissão de uma desconhecida. Afinal, desconhecido não é digno de confiança e confiança, como vimos, é um dos pilares do desenvolvimento dos países e os países desenvolvidos, ensinam-nos nas escolas, só o são porque nos exploram (alguém precisa estudar com calma a inexistência, na língua portuguesa, da distinção entre exploitation exploration…acho que foi Pedro Sette quem me chamou a atenção para isto há anos…).

Pois é. Você não confia na analista econômica, mas confia em um político. Pela mesma lógica, deveria abandonar seu médico e se consultar com um qualquer eleito para a Câmara Municipal. Não sei o resultado, mas sei que você faz parte de uma sociedade doente mesmo…

Desculpem-me pelo texto tão longo e algo desorganizado. Prometo tentar algo melhor, ainda que você, meu caro, provavelmente não me conheça pessoalmente…

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É preciso ler mais Adam Smith, antes que seja tarde

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Pois é. Mas não basta ler Adam Smith. O Brasil tá cheio de auto-denominados liberais (ou libertários) que dizem que devemos ler este ou aquele autor. Há até exegeses, como se liberalismo fosse uma doutrina religiosa. Há institutos, grupos de estudo, etc.

Fazem mais de 20 anos que ouço falar a mesma coisa e, recentemente, conversando com um verdadeiro liberal, ele me fez a pergunta óbvia: por que não se tem nada produzido? São anos e anos de “vamos ler Mises”, “vamos ler Smith”, e não há uma única série de, digamos, índices de liberdade estaduais. Ou algo assim. Por que isto? Parece que nosso capitalismo de compadrio explica isto. Os grandes empresários só financiam discussões doutrinárias, que não colocam em risco seu poder de monopólio neste ou naquele setor. Nada de fazer um índice de liberdade econômica, meninos, porque isso vai gerar discussões sobre minhas relações com o governo.

Fato óbvio, até antigo, este de que empresários de um capitalismo de compadrio, não iriam mesmo além do discurso fácil. É muito bonito falar que é “anarco-capitalista”. Quero ver é alguém meter o traseiro na cadeira, pegar os livros, os dados, e fazer as pesquisas. Esta história de fugir da estatística tem, como diria a galera da Public Choice, uma explicação simples: interesses poderosos não querem ver medidas de concorrência porque atrapalham sua vida subsidiada e anti-mercado com o governo.

É por isto que não acredito mais em algumas pessoas do ramo: lucram com os estudantes, professores e filósofos liberais sem lhes patrocinar, realmente. Isto não diminui minha crença de que o caminho de Adam Smith é o melhor para o desenvolvimento econômico com prosperidade social. Isto só me mostra que Adam Smith, Hayek e outros tiveram as idéias certas e vislumbraram corretamente seus grandes inimigos.

Com a ajuda dos bolivarianos, claro, esta realidade que nos amarra a um sistema econômico ineficiente, desigual e atrasado defendida por supostos “anarco-liberais” que odeiam concorrência não mudará tão cedo. Claro, mudar dói. Quem é que não queria engatinhar ao invés de andar? Mas a realidade histórica nos mostra que dói menos do que dizem os defensores do obscurantismo e do liberalismo quadrúpede (este, que só é da boca para fora), melhor amigo do nacional-socialismo tupiniquim que adora o discurso militar ao mesmo tempo em que fala de “comissões da verdade”.

Churchill faz-se necessário. Pena que não ressuscitou na Páscoa (e no Brasil)…

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Cronismo…você sabe o que é isto?

Não??? Então você não deve estar morando no Brasil. Ok, você mora, mas não sabe do que se trata. Um livro que divulgou este conceito no Brasil é o do Lazzarini. Mas você pode aprender também sobre isto neste video. Este blogueiro (junto com o Leo Monasterio) já falava de rent-seeking no Brasil desde o final do século passado. A galera, contudo, custou a nos acompanhar na literatura. Ao longo destes primeiros 13 anos do século, vimos vários autores e artigos sobre o tema. Claro, tudo começou com o Jorge Vianna Monteiro (embora muita gente não pareça saber fazer pesquisa científica direito e, portanto, não faça a revisão da literatura corretamente).

O termo rent-seeking nunca saiu muito das conversas de economistas e alguns poucos cientistas políticos esclarecidos. Claro, havia também a competição dos marxistas, sempre receosos de perderem sua platéia para teorias concorrentes. Mas, aos poucos, as coisas mudaram. Aí alguém, acho que foi o Gary Becker, popularizou o termo capitalismo de compadres (ou de compadrio). Paralelamente, a mudança de gerações nas redações de jornais e a tecnologia ajudaram a popularizar as idéias de Tullock, Olson, Buchanan e outros. Mesmo assim, convenhamos, “capitalismo de compadres” não é um termo muito retórico, no sentido da McCloskey.

Aí, agora, veio este novo termo, o tal “cronismo”. No fundo, no fundo, fala-se do mesmo fenômeno. Mas parece que este termo está se popularizando com certa facilidade. Ajuda, claro, a corrupção desenfreada que assistimos no Brasil desde a primeira administração da Silva (agora também conhecido como “Lula”, “Lula da Rose”, “o Barba”, dentre outros divertidos apelidos). O desencanto dos eleitores não deixa de ter um impacto positivo: o aumento do ceticismo e do grau de exigência quanto às suas demandas políticas. Claro que isto não necessariamente melhora a qualidade do setor público ou diminui a corrupção, mas o realismo trazido pelo ceticismo é sempre saudável.