Pela segunda vez, Verissimo erra ao falar de Economia

Da outra vez, há uns 10 anos, eu me lembro bem, ele trocou até a data da publicação do livro de David Ricardo. Desta vez, ele mostra que, mesmo após este tempo todo, continua não estudando história econômica ou história do pensamento econômico ao citar, no caso, Keynes.

Este é o problema do sujeito que deseja falar de um assunto que não domina. Eu gostaria muito de dizer que matemáticos, cientistas de computação ou engenheiros estão errados. Mas não sou especialista na área. Nem me arrisco.

Há os que se dão ares de sábios – embora o currículo Lattes não seja lá aquelas coisas (e falo de qualidade tanto quanto quantidade do que é publicado – e posam de grandes conhecedores da “metodologia científica”. Sobre estes, realmente, não há o que falar. Sigo a regra do Monasterio dos desvios-padrões (perguntem a ele no Twitter).

Tavares Bastos e o capital humano

Abolicionista que era, mas também ciente das restrições que ocorreriam caso a abolição viesse de uma só vez, Tavares Bastos tinha uma proposta que avançaria marginalmente (o que teria evitado a crise financeira da abolição estudada por John Shultz?).

Interessante mesmo é ver que Tavares Bastos entendia bem a importância do capital humano. Por exemplo:

Entre as providências sugereidas, ressalta pela importância, esta – criando para cada senhor de cinqüenta escravos a obrigação de manter uma escola, destinada à educação de suas ‘crias’ e dos meninos das vizinhanças, sob multa de liberdade de dois escravos adultos, em quanto aproximadamente estimava a importância das despesas anuais pelo serviço escolar previsto.
Sem quaisquer preconceitos de raça, e levado por observações a respeito da capacidade e aptidões do negro, capacidade e aptidões já comprovadas em círculos dos Estados Unidos, Tavares Bastos propunha a educação na Europa, por conta do Estado, de certo número de negros libertos, em determinadas indústrias, artes e ofícios. [Pontes, C. “Tavares Bastos (Aureliano Cândido, 1839-1875). Coleção Brasiliana, v.136, Companhia Editora Nacional, 1979, 2a ed (original de 1938), p.154]

A primeira medida é uma tentativa de criar custos aos escravocratas, ao mesmo tempo em que sinaliza pela necessidade de se qualificar a mão-de-obra ao longo do tempo. Pode-se discutir se a medida seria mais ou menos eficiente, mas a idéia de que Tavares Bastos pensava seriamente no capital humano dos futuros libertos é clara.

Já a segunda, muito interessante, lembra a iniciativa do governo japonês, quando de sua modernização (era Meiji) em enviar alguns japoneses para o exterior para que aprendessem melhor os aspectos da civilização ocidental (os Choshu 5 Satsuma 14).

Tavares Bastos era, de fato, um liberal de idéias interessantes e com boa percepção acerca dos incentivos econômicos.

 

Napoleão é um bom instrumento?

Eis um artigo interessante para quem deseja entender o básico de variáveis instrumentais. O autor usa a pressão napoleônica como instrumento para o desempenho dos alunos. Como assim? Vejamos a explicação, em primeiro lugar.

The theory of Ramirez and Boli (1987) can best be described by a quote from their paper: “Our view is that European states became engaged in authorizing, funding, and managing mass schooling as a part of the endeavour to construct a unified national policy.” […] “External challenges […] were important stimuli to state action in education […]” (Ramirez and Boli, 1987, p. 3). Napoleon can be seen as one of the most pronounced external challenges of this era. Ramirez and Boli (1987) illustrate their theory by describing this process in seven European regions: Prussia, Denmark, Austria, Sweden, Italy, France, and England. Sweden, France, and England experienced a general call from within for mandatory, universal and free education later than other countries. [p.4]

Dito isto, o autor estima:

napoleonic_wars

Para o desempenho, usa-se o teste PISA e, para o tracking:

Two aspects of tracking in education systems are used: the number of tracks available to 15- year-old pupils and the age of first selection. These measures are obtained from OECD (2007, table 5.2) and adjusted for the German states using Woessmann (2007) and Kultusminister Konferenz (2013) and for French and Flemish Belgium using Eurydice (2013).

A discussão que se segue sobre as limitações e a robustez do modelo valem a leitura. Divirta-se.

Capital Humano, Imigração e Economia Brasileira

Outro artigo interessante.

Human Capital Persistence and Development

By: Claudio Ferraz (Department of Economics PUC-Rio) ; Rodrigo Reis Soares (São Paulo School of Economics) ; Rudi Rocha (UFRJ – Instituto de Economia)
This paper examines the role of human capital persistence in explaining long-term development. We exploit variation induced by a state-sponsored settlement policy that attracted a pool of immigrants with higher levels of schooling to particular regions of Brazil in the late 19th and early 20th century. We show that municipalities that received settlements experienced increases in schooling that persisted over time. One century after the policy, localities that received state-sponsored settlements had higher levels of schooling and income per capita. We provide evidence that long-run effects were driven by persistently higher supply and use of educational inputs and shifts in the structure of occupations towards skill-intensive sectors.

O poema que tinha todas as letras do alfabeto…japonês e a alfabetização espontânea

Calma, não falo dos caracteres chineses, mas sim do alfabeto “kana”, aquele que é apenas relativo aos sons. As informações iniciais são deste ótimo verbete da Wikipedia. Olha o poeminha aí (chamado “Iroha”).

以 呂 波 耳 本 部 止
千 利 奴 流 乎 和 加
餘 多 連 曽 津 祢 那
良 牟 有 為 能 於 久
耶 万 計 不 己 衣 天
阿 佐 伎 喩 女 美 之
恵 比 毛 勢 須

Opa, ficou difícil, né? Nem eu consigo ler isto. O que é distintivo neste pequeno poema? Ele inclui todos os sons básicos da língua japonesa (as vogais: a, i, u, e, o e as silábicas básicas: ka, sa, ta, etc, exceto o “n” que aparece ainda assim pois seu som pode ser contado como “mu” na língua japonesa). Que tal uma tradução?

Although its scent still lingers on
the form of a flower has scattered away
For whom will the glory
of this world remain unchanged?
Arriving today at the yonder side of the deep mountains
of evanescent existence
We shall never allow ourselves to drift away
intoxicated, in the world of shallow dreams.

Agora para o que não está na Wikipedia: o poema provavelmente foi escrito antes de 1079. Segundo Seeley (1991), o poema foi essencial na disseminação da língua escrita japonesa (capital humano!). Diz o autor:

Although the original purpose of the Iroha and several other mnemonic verses of about the same period – the Ametsuchi no kotoba and Taini no uta – is a matter of scholarly dispute, it is generally agreed that the Iroha came to be used extensively for elementary writing practice. This verse consists of forty-seven signs (or syllables), and since with the exception of お and を each of these represented a separate phonemic syllable until about 1200, it was considered that  お and を were to be regarded as separate signs, and not simply to be used interchangeably. In this way, the Iroha served as an inventory of the basic kana to be distinguished in use. In an age when a number of different kana were often employed to represent one and the same syllable, there was a clear need for an inventory of this type. [Seeley, Christopher (1991). A History of Writing in Japan, University of Hawai’i Press, 106-107]

A língua é tida como um ótimo exemplo de ordem espontânea (o conceito é de Hayek, Friedrich) e não vejo um belo exemplo de ordem espontânea assim há tempos. Em outras palavras, a existência de diversos poemas em uma época em que a língua escrita ainda está em formação (no sentido de que não havia uma forma única de se traduzir os caracteres chineses), vários poemas surgem, possivelmente porque os poetas queriam um jeito simples de se lembrarem dos fonemas. É neste contexto que aparece o Iroha.

Discussão adicional de internautas (não necessariamente especialistas, logo, pode conter erros) sobre o poema aqui.

 

Capital Humano importa? Escravos no Brasil

A se conferir a veracidade do verbete…mas a resposta seria: sim.

O capital humano de um escravo dobrava seu valor. Ainda bem que não temos mais escravos, mas eu me pergunto sobre o diferencial do retorno à educação hoje em dia. Continua sendo aproximadamente o dobro? Minha intuição diz que não, mas não sou especialista no tema.

Quem tiver alguma referência, nos comentários, por favor.

Modelos educacionais: mudanças na Austrália

Decisão interessante para que gerações futuras tenham condições de vida razoáveis, senão ótimas. Claro, alguns grupos perdem com isto, mas a tendência de mudança não é uma surpresa.

Tabus e preconceitos devem ser quebrados e a questão é válida: dinheiro de pagadores de impostos devem ter um fim na melhoria das condições de vida das pessoas. A polêmica certamente ocorrerá, como em toda mudança institucional.

Sei ver fotos no Insta e uso o Zap. Sou um gênio? Ou ao menos um bom estudante?

Parece que não. Veja o caso do exame da OCDE. Ele é bem simples: os alunos só precisam saber filtrar informações na internet. Não me surpreende o resultado. Ah sim, mais um pouco sobre a tecnologia necessária para você aprender a fazer bom uso da internet:

O estudo sugere que o acesso e uso de computador importa menos no desenvolvimento da capacidade de navegação e leitura online do que um bom preparo básico. Sugere também que a habilidade para navegar na internet pode ser ensinada e adquirida com a ajuda de pedagogias e ferramentas tradicionais.

Veja, é como esta história de que precisamos colocar tablet na mesa dos alunos: não quer dizer nada. A comunicação acelerada dos “zap” não é sinônimo de aprendizado. Tudo depende de como você usa a ferramenta (a tecnologia ou, para os alunos de Microeconomia, a função de produção).

Digamos que existam dois alunos, X e Y. Muito amigos, conversam muito sobre tudo: desde parafusos e porcas passando por garotas até futebol e deveres de casa. São dois adolescentes típicos. Entretanto, ao entrar em sala, X usa o celular na função “zap” para conversar com amigos de outras escolas, enquanto Y o utiliza para pesquisar informações a pedido do professor. Pronto. Já temos um uso diferente do mesmo celular. Duas funções de produção distintas.

Agora, pense em outros dois alunos: Z e W. Ambos pesquisam informações na internet, mas Z não sabe distinguir uma fonte confiável (e isenta) de informação de outra. Por exemplo, W sabe que a página do IBGE é um bom lugar para se obter informações sobre a inflação, enquanto que Z apenas digita “inflação” no mecanismo de busca e usa o primeiro link que lhe for de leitura confortável. Já percebeu, né?

Estamos na lanterna porque não educamos os estudantes. Ou seja, eles não entenderam que há custo de oportunidade em se usar o celular em sala de aula (na balada) para outros fins que não os da aula (balada). Simples assim.

Quando surgiu a “interne…”, digo, Gutemberg

Veja que interessante. O resumo é promissor:

This research studies how variations in competition and in media content characterized the use and impact of Gutenberg’s printing press technology during the European Renaissance. The research constructs annual firm-level panel data on the publications produced by 7,000+ printing firms operating in over 300 European cities 1454- 1600. Evidence on the timing of the premature deaths of firm owner-managers is used to isolate shocks to competition. Firms where owner-managers died experienced large negative shocks to output. However, at the city level deaths of incumbent managers were associated with significant increases in entrance and with a positive and persistent impact on competition and city output. Variations in city supply induced by heterogeneous manager deaths are used to study the relationship between the diffusion of ideas in print and city growth. A uniquely strong relationship is observed between the new business education literature and local growth. This is consistent with historical research on the transformative impact business education ideas had on commercial practices and European capitalism.

Como sempre digo, respeito demais o trabalho de historiadores econômicos sérios. Similar ao surgimento da internet? Eu diria que sim: um importantíssimo choque de produtividade em nossas vidas. Aproveite e leia também este outro artigo, sobre a relação entre a mídia e a reforma protestante na Europa.

weber_revolution

Muito legal, não?

Incapacidades das mães e pais

Queria saber onde, nos modelos econométricos que estimam os determinantes do ganho do sujeito no mercado de trabalho (ou seu desempenho escolar), está a variável referente a esta característica das mães e pais. É uma pergunta mesmo. Não tenho acompanhado esta literatura mas, sempre que vejo algum artigo, não vejo nada que se pareça com isto. Digo, suspeito que exista um viés de variável omitida em vários destes estudos.

Alguém aí pode me ajudar?

Capital Humano – Menos papo furado, mais atenção ao que dizem os experimentos

Fundamentalmente, concordo. Claro, há pontos que ficam soltos. Por exemplo: o que seria um professor que “inspira” o processo de aprendizado? Dado que é importante saber como a cabeça do aluno funciona para que ele se transforme em estudante (o processo de aprendizado em si…), é difícil dizer que exista um único jeito de “inspirar”.

Por exemplo, no meu caso, a grande inspiração era um professor de Macroeconomia que não deixava de cumprir as regras e era justo com todos, doesse a quem doesse. Para outras pessoas que conheci, ele não era tão inspirador.

Ou seja, voltamos ao ponto inicial do vídeo: nem tudo é adequado para todos e é por isso que as interações sociais são, e acho que sempre serão, complicadas.

Obrigado ao Igor pela dica do vídeo.

Economia da Educação: e o ensino técnico?

Mercado de trabalho e ensino técnico: quais são as evidências para o Brasil? Três autores exploram isto em um texto interessante, aqui. Eis o resumo:

Este trabalho utiliza uma base de dados ainda não explorada na literatura de economia da educação para investigar o impacto do ensino técnico sobre variáveis de mercado de trabalho. Os dados, estruturadas em painel, permitem utilizar diferenças em diferenças com efeito fixo do indivíduo aliado com variáveis instrumentais para lidar com os tradicionais problemas de endogeneidade nesse tipo de trabalho. As Estimações são realizadas para diversas subamostras para captar eventuais efeitos heterogêneos. Os resultados apontam que há impacto, notadamente sobre ocupação (principalmente entre as mulheres) e salários (com maior intensidade entre os homens).

Aí está, pessoal, mais um pouco de econometria aplicada.

Por que a assistência técnica da sua TV/geladeira/fogão é tão ruim? Algumas reflexões irresponsáveis

Eu me lembro que, nos anos 90, o CADE – e a política de defesa da concorrência – viraram heróis entre os brasileiros. Havia uma sensação de que, naquele momento, o consumidor seria mais respeitado. Neste aspecto, até funcionários públicos passaram a abusar menos dos cidadãos. Houve um certo recuo na arrogância de oligopolistas e funcionários públicos.

Sindicatos, outrora poderosos extratores de renda, perderam um pouco de apelo porque o público passou a enxergar a dinâmica econômica de forma mais civilizada. Emblemático talvez seja o fato de todos que foram “fiscais do Sarney” terem mudado de opinião: ninguém mais culpava empresário pela inflação.

Aí mudou o governo e o sr. da Silva resolveu que marco regulatório desagradava os seus amigos do partido. Para não ser deposto pelo voto popular, abraçou, meio sem fé, o tripé macroeconômico. Parece que sentia o mesmo prazer de um homossexual enrustido ao beijar a Gisele Bundchen na boca.

Assim, devagar, mas de forma perseverante, nosso marco regulatório foi sendo esfacelado, nomeações políticas feitas com gente do segundo escalão do time (para derrubar a meritocracia, comum a todos os países civilizados), ainda que se acusasse uns políticos de serem “do baixo clero”.

Hipocrisias à parte, pensemos nos eleitores-pagadores-de-impostos. Estes começaram a viajar para fora do país. Viram a civilização e voltaram. Tanto consumidores como empreendedores passaram a imaginar um país diferente. A economia mundial não atrapalhava: ajudava. Crescimento econômico mundial, clima ajudando (e olha que já se falava de “aquecimento global”, etc, mas não vi apagão depois de 2001), etc.

Mas aí é que, em algum momento, alguns fundamentos microeconômicos esfacelados cobraram seu preço. O consumidor, que viveu alguns anos como um cidadão de primeira classe, sendo bem tratado em repartições públicas e no mercado, lentamente voltou a “saber com quem estava falando”. Sindicatos de funcionários públicos se sentiam o próprio Eike Batista e a concorrência e a meritocracia deram lugar ao discurso do “BNDES que escolhe campeões”. Voltou-se à era Geisel, por assim dizer.

Claro que não podemos nos esquecer dos pobres. E os pobres? Ué, os pobres ganharam bolsa e alguns melhoraram de vida com o crescimento econômico. Entretanto, encontraram um sistema educacional enrijecido no qual não importa muito saber matemática e português (porque isto é coisa de “burguês”). Sem falar nas tentativas de se destruir a meritocracia.

Resultado? Uma força de trabalho ansiosa para viajar para Miami nas férias e louca para ganhar uns trocados. Ao mesmo tempo, infelizmente, uma mão-de-obra pouco preparada.

Obviamente, as coisas não acontecem de forma homogênea e com a mesma velocidade. Mudanças tecnológicas atenuaram alguns destes efeitos e resultados de reformas feitas nos governos anteriores apareceram (ainda que sob intenso fogo inimigo). Por bem ou por mal, o país caminhou, mas nunca em seu potencial e olha que nem incluí aqui as reformas que não foram feitas, embora todos os bons economistas alertassem por 12 anos em artigos, blogs, conversas de boteco e seminários de pesquisa (mas não na TV, porque, afinal, a concessão pública tem um preço…).

Falta de competição somada a um marco regulatório quebrado (e pisoteado pela política de “escolha dos vencedores” ou, alternativa e talvez mais correta, “escolha dos perdedores”) e uma força de trabalho que não escreve direito, não faz contas algébricas simples, embora saiba fazer o upload de um vídeo na internet (ainda que não saiba fazê-lo se você chamar de upload) são os elementos que, para mim, explicam a má qualidade dos serviços no Brasil contemporâneo.

Obviamente, o buraco é mais embaixo e explicar estas relações envolve um pouco mais de rigor na investigação das relações causais envolvidas aqui (ou em bons contra-argumentos). Não fui atrás de dados que pudessem ser usados de forma cautelosa para investigar os efeitos quantitativos que a teoria (que também não elaborei rigorosamente) prevê. Mas acho que é por aí.

Não afirmo que este texto seja inédito, original ou profundo. Apenas uma coleção de insights. Uma coleção surgida de sucessivas decepções.

A atitude da sociedade com relação ao estudo (capital humano, sempre ele…)

Nada tenho contra ou a favor das lojas citadas neste post. Mas acho que as imagens que você encontrará aqui (Brasil) e aqui (Japão) mostram uma diferença de atitude em relação ao significado do “estudo”.

Não, não tenho qualquer pretensão de enunciar uma lei universal (e muito menos estatística…), mas acho que a diferença está mais para um insight inicial.

Convenhamos, fosse eu criança, iria querer uma destas. Na verdade, eu tive uma parecida mas, hoje em dia, parece que estas estantes sumiram do mercado, ou sou só eu que estou me enganando com meu famoso pessimismo? O ENEM, cujo resultado foi divulgado hoje, não me ajuda muito, mas…

p.s. não me venha falar de computadores e laptops sem ler o que o Makiw citou hoje, em seu blog.

Instituições e Estado Leviatã, em tempos imemoriais

The form Fune no Fuhito (or Fune no Fumibito, etc) in the Nihon shoki reading tradition was originally a hereditary title granted to Oo Shinni to designate his role as recorder of ships’ taxes (…). [Seeley, Christopher (1991). A history of writing in Japan. University of Hawai’i Press, p.7, footnote 15]

Nihon Shoki (talvez seja melhor aqui) é um destes antigos registros japoneses sobre os quais se debruçam os historiadores e estudiosos da língua japonesa.

Agora, neste trecho de Seeley (1991), temos uma daquelas evidências milenares de que governos sempre se preocuparam em coletar tributos. Nada muito estranho a quem estuda história, eu sei, mas é algo que, muitas vezes, escapa à percepção das pessoas, acostumadas a imaginar que governo existem para proverem alguns bens que o setor privado não provê.Isto pode ser verdade, mas não porque governos sejam benevolentes.

Pois é. o Nihon Shoki é um dos textos mais antigos do mundo, mas não nega a importância do capital humano para a expropriação. Interessante, não?

Instituições importam? Por que o Brasil pode piorar muito se um dos candidatos ganhar?

O Leo Monasterio reclamou outro dia da desconsideração do problema institucional. Trecho:

No fim dos anos 80, eu ouvi de um professor meu (eu acho que foi o Barros de Castro) : “E se depois da inflação acabar descobrirmos que o problema do Brasil não é esse? E se descobrirmos que nem temos o caos inflacionário como desculpa?”
A realidade mostrou que a estabilidade foi condição necessária, mas não suficiente para o país tomar jeito. Hoje existem dois entraves consensuais ao crescimento: 1) infra-estrutura; 2) educação. A infra-estrutura é um gargalo óbvio e eu não tenho nada a acrescentar. A minha dúvida é sobre a educação.
Meu medo: fazemos um choque de educação, aumentamos o número e a qualidade do ensino e aí… nada acontece. Depois de 20 anos descobriremos que nossas instituições são uma porcaria e impedem o desenvolvimento econômico. Perceberemos que o acúmulo de coalizões distributivas* nos tornou incapazes de fazer as reformas urgentes.

Ele tem razão. Só educar não basta. Há várias formas de se mostrar isto e geralmente eu tentaria fazê-lo aqui. Mas basta lembrar dois fatos que li hoje: (a) a insanidade do governo argentino, que não mede esforços em destruir a cooperação dos indivíduos – algo próprio das economias de mercado com limitações de margens de lucro (algo similar ao que o caótico governo venezuelano faz com seu próprio povo e, (b) o tratamento que o governo iraniano – este, que muitos de nossos diplomatas governistas adoram louvar como aliado e exemplo a ser seguido (sei lá em que áreas…) – deu aos perigosíssimos jovens que resolveram dançar Happy de Pharrell Williams.

Aí você me pergunta: e o Brasil? Está longe disto? Olha, eu estava pronto para dizer que sim, mas aí nosso governo forçou a barra para demitirem uma funcionária de um banco, nosso Banco Central tentou calar um de seus críticos (de forma muito seletiva, porque há críticos muito mais virulentos que não mereceram a atenção dos atentos encarregados do Banco Central…) e agora, claro, o governo – com a aprovação de seus militantes (pergunte a um deles se ele é contra este tópico do discurso: não encontrei um que saísse fora da partitura…) ataca um patrimônio de anos e anos de trabalho de economistas e funcionários públicos brasileiros: a política monetária moderna, isto é, a que se faz com um Banco Central independente (ou autônomo, ou independente de facto, etc).

Então, não, não estamos tão longe assim. Muita gente ajudou a piorar a situação e, como sabemos, os incentivos importam.

Melhor negócio que Judas
fazes tu, Joaquim Silvério:
que ele traiu Jesus Cristo,
tu trais um simples Alferes.
Recebeu trinta dinheiros…
– e tu muitas coisas pedes:
pensão para toda a vida,
perdão para quanto deves,
comenda para o pescoço,
honras, glórias e privilégios.
E andas tão bem na cobrança
que quase tudo recebes!
[Cecília Meireles, O Romanceiro da Inconfidência]

Não é mesmo?

Falhas de Governo: o dia em que Getúlio Vargas destruiu a primeira bibioteca infantil do Brasil

Cecília Meireles: empreendedora da leitura

Vem deste blog a narrativa sobre a primeira biblioteca infantil brasileira que foi fundada e administrada por Cecília Meireles. Reproduzo porque esta foi, para mim, surpreendentemente, o melhor exemplo de falhas de governo. Vejam só:

Cecília exerceu, com destaque, a função de educadora ao organizar e dirigir a primeira biblioteca infantil brasileira. A biblioteca funcionou no Pavilhão Mourisco, enseada do Botafogo, no período de 1934 a 1937. Por sua amplitude, passou a denominar-se Centro de Cultura Infantil.

Jussara Pimenta, no ensaio “Leitura e Encantamento: A Biblioteca Infantil do Pavilhão Mourisco” (In: Poética da Educação, 2001) afirma que o Pavilhão Mourisco, um prédio em estilo neopersa, foi criado para servir de café concerto e tornou-se um bar restaurante muito frequentado pela sociedade carioca. Estava um pouco abandonado na época em que Anísio Teixeira, diretor do Departamento de Educação, resolveu transformá-lo em biblioteca infantil.

A inauguração aconteceu no dia 15 de agosto de 1934 e foi muito prestigiada. Contou com a presença de Pedro Ernesto, prefeito do Rio de Janeiro, e do Diretor do Departamento de Educação.

 

Pavilhão MouriscoOk, Cecília convence o governo a gerar uma belo bem público na figura da primeira biblioteca infantil brasileira. Não há como não ficar emocionado, ainda mais que não existem evidências de que Cecília Meireles agisse em prol de grupos de interesse. Parece uma genuína preocupação com a educação. Sabemos que não existem anjos, mas o fato é que a poetisa fez o que eu chamo, hoje em dia, de…gol da Alemanha!

Getúlio Vargas: pai dos pobres e analfabetizador de crianças

Mas, claro, estamos falando de um país com instituições muito pouco inclusivas – no sentido moderno que lhes dão os economistas (Acemoglu, Robinson, Bergstron, Persson, etc) – e, portanto, você já adivinha o que vem.

Nada dura para sempre. Em 19 de outubro de 1937, sob a vigência do Estado Novo, a biblioteca infantil foi invadida pelo interventor do Distrito Federal e teve as portas cerradas com a justificativa: “em seu acervo abrigava um livro de conotações comunistas”. O livro era “As aventuras de Tom Sawyer”, do escritor americano Mark Twain.

A diretora protestou pelo fechamento da biblioteca e a falsa acusação de ter no acervo um livro comunista. Era um absurdo! Os jornais da Europa e Estados Unidos deram destaque à medida arbitrária e descabida do governo de Getúlio Vargas. Tudo foi inútil. A biblioteca foi fechada e serviu depois para um ponto de coleta de impostos. Arrecadar dinheiro é mais importante do que a educar.

A blogueira, então, arremata a breve história da biblioteca com tristeza. Não é para menos. Vejam o que o governo, este bondoso Leviatã que deveria corrigir externalidades, fez. Invadiu e fechou a biblioteca com uma justificativa, no mínimo, grotesca e, não obstante, mostrou a que veio: transformou o local em um ponto de coleta de impostos.

Provavelmente o discurso do governo deve ter sido o de que os impostos serviriam para gerar bens públicos para a população ou para corrigir externalidades (tudo isto dito de alguma forma diferente, com palavras como “progresso”, “estatais”, “tudo pelo social”, etc). É realmente tragicômica a história deste país. Nem as crianças escapam da fúria arrecadatória do governo.

A gente ouve que o discurso oficial era de que Getúlio foi o “pai dos pobres”. Bom, como o capital humano (educação) é o que tira a gente da pobreza, esta ação do ditador – homenageado em praças, ruas e avenidas pelo Brasil afora – mostra que, sim, ele foi o pai dos pobres, mas em um sentido mais diabólico.

Finalmente…

Muita gente fala de exemplos de rent-seeking usando exemplos norte-americanos. É verdade que na falta de tempo, a gente importa exemplos de lá. Entretanto, não é preciso ir muito longe. Basta pesquisar um pouco nossa história e a gente descobre muitos exemplos. Um dia destes ainda escrevo um livro de Economia Política na História Brasileira e procuro um editor que tenha interesse em perder dinheiro comigo. Nestes últimos dez anos tenho feito acumular uma pilha de exemplos de como nosso governo mantém-se ineficiente ao longo das eras. No final do dia, Mancur Olson, James Buchanan e Gordon Tullock são muito mais úteis para explicar nossa realidade do que outros autores. Pelo menos é assim que vejo.

Como deve ter sido triste para as crianças perder uma biblioteca infantil e, claro, como deve ter sido triste para alguns pais ver a máquina coletora de impostos do Leviatã brasileiro crescer. Mas assim é como deve funcionar o governo brasileiro, na visão de alguns, não? Devem escolher vencedores o que é a mesma coisa de escolher…perdedores. Perdeu a sociedade como todo, ganharam o governo e os favorecidos com a coleta de impostos. Educação, claro, para poucos. Certamente não dá para chamar de gol da Alemanha

Construtivismo não leva ninguém a…

Quer saber? Então leia a entrevista. Depois, chore. Os resultados no PISA não negam e já geraram até a reação bizarra de “não concordamos com o PISA porque é um exame neoliberal e excludente”.

Sim, tem gente que além de não saber ler, não sabe perder ou pensar.