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Ensino de Economia no colégio?

Bernardo acha que sim e o Leo acha que não. Aliás, como diz este último (o Leo): muitos com diplomas de economistas sequer entendem vantagens comparativas e, digo mais, alguns não querem mesmo entender este conceito. A idéia de que se tivesse este ensino nas escolas é boa? Não sei.

Já fui a favor, mas acho que o aluno, hoje, tem ótimas opções sem precisar entrar em sala de aula (estou pensando nos vídeos do portal do Carlos Eduardo, o tal “Porquê”)  e penso que seria legal investigarmos, empiricamente, o grau de analfabetismo econômico entre economistas e também entre não-economistas (penso em algo assim).

De qualquer forma, a discussão me faz lembrar de um pequeno artigo (acho que foi uma palestra convertida em artigo) de Bryan Caplan que nos dá motivos para defendermos a proposta de ensino nas escolas, ceteris paribus a existência massiva de professores de economia que entendem vantagens comparativas.

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A ética islâmica do subdesenvolvimentismo

Citando Timur Kuran em seu livro, Caplan nos dá uma ótima pista sobre o porquê de alguns países terem uma pedra adicional amarrada a seus pés, tornando-os eternos emergentes que nunca emergem. Assim, governos islâmicos seguem ao pé da letra a religião e proíbem a cobrança de juros. Por que?

The objective is not simply to make Islamic banking more accessible. It is to make all banking Islamic. Certain campaigns against conventional banking have succeeded in making ‘interest-laden’ banking illegal. In Pakistan all banks were ordered in 1979 to purge interest from their operations within five years, and in 1992 the Sharia court removed various critical exemptions. Interest prohibitions have gone into effect also in Iran and the Sudan. [Caplan, B. (2007). The Myth of the Rational Voter, p.33]

Perguntas que me ocorrem: suponha que os refugiados sírios que vieram ao Brasil recentemente não sejam predominantemente católicos. Como eles enxergam a questão dos juros? Como conciliarão sua oposição à cobrança de juros com a prática brasileira?

Interessante pensar nesta questão. Nós, cristão, também já tivemos este pensamento errado sobre juros. Errado, sim, do ponto de vista científico mas não necessariamente do ponto de vista religioso porque uma religião pode pregar o que quiser sem checar fatos empíricos (é questão de fé apenas).

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Sobre usar os modelos…

Quando eu e o Pedro começamos o Nepom, a idéia era aplicar o que se aprende em sala na análise do mundo real. Nada mais natural, já que a Ciência Econômica não foi criada para analisar mundos não-reais, certo?

Existem excelentes livros-textos, com exemplos, que bons alunos sabem usar como ferramenta de apoio para seu aprendizado. De vez em quando eu cito um ou outro aqui. Mesmo assim, achamos que era uma boa idéia criar o Nepom.

Hoje leio um texto curtinho, de blog, do Bryan Caplan, um cara que acompanho há mais de dez anos, e que está muito bom. Um ponto que me chamou a atenção do texto é que muitas vezes o aluno acha que não precisa fazer nada mais do que “invocar” um modelo no início de sua resposta. Por exemplo, você fala de um aspecto econômico qualquer da realidade (digamos, a inflação na década dos 80, no Brasil) e pede que o aluno use um modelo para explicar. Aí ele vem com um singelo: “assuma modelo X” e despeja uma análise que tem tudo a ver com o modelo X, mas não necessariamente é uma explicação compatível com o fenômeno analisado.

Um trecho do texto dele:

I don’t mean something lame like, “Some econ students disagree with me.  How dare they?”  What I mean is: I ask a question about the real world.  The question even contains the phrase, “In the real world…”  Then instead of discussing the real world, many economics students tell me about a model they learned in class.  Sometimes their answers even contain the phrase, “Assume model X.”

For example, an exam question might ask, “What determines the price of water when two individuals bump into each other in a remote desert?”  Many economics students will then start talking about supply and demand, or even state, “Assume perfect competition.  Then blah blah blah.”

This wouldn’t be so bad if the students would at least argue that, contrary to appearances, the perfectly competitive model applies.  But when students take a model for granted despite the violation of its core assumptions – such as no individual has any noticeable effect on the market price – something has gone terribly wrong.

Percebe o ponto? A grande habilidade a ser apre(e)ndida pelo estudante é a capacidade de analisar a realidade. Há duas grandes dificuldades: (a) qual teoria se adequa ao cenário proposto e (b) qual o papel dos dados nesta história?

Dois problemas sim porque, embora a covariância entre eles não seja nula – sei que não simplifica, mas… – estes dois problemas são uma senhora dificuldade. Por exemplo, eu poderia criar uma questão com algumas correlações entre cinco ou seis variáveis macroeconômicas, digamos, e perguntar ao aluno qual modelo econômico explicaria melhor aqueles dados (uma questão do tipo “modelos de ciclos reais explicando dados da realidade”).

Ou eu poderia fazer como o Caplan fez, criando uma situação que claramente não inclui a competição perfeita ou um monopólio como boa descrição da realidade e peço para o aluno responder, sem fornecer qualquer dado.

Mais ainda, poderíamos fazer aquela clássica questão de prova no qual uma firma é monopolista no mercado doméstico, mas uma pequena concorrente no mercado internacional e você introduz o índice de Lerner para ajudá-lo a responder a pergunta (na verdade, o índice faz parte da resposta porque o ponto é que o aluno tem que ter a capacidade (tico-e-teco) de perceber que o custo marginal da firma, neste caso, é o preço que ela pratica no mercado internacional).

Agora, como Caplan diz, corretamente, alunos enlouquecem quando a questão não é igual ao exercício para dummies. Digo, os exercícios para dummies são, para o ensino, algo como o alongamento para a hora de exercícios na academia. O aluno deveria fazer e perceber sua importância primordial, mas não suficiente. Claro que tem que fazer exercício simples, mas o desafio do aprendizado está em saber manipular os modelos.

Obviamente, o problema é de oferta e demanda. A faculdade é pública ou privada? Quais incentivos cada uma dela tem para ofertar um aprendizado mais sofisticado, de mais conteúdo (valor adicionado) ao aluno? Quais os incentivos que regem as ações dos professores? E a direção? Mais ainda: e os alunos? Eles dizem que querem aprender, mas só querem mesmo o diploma. Será mesmo? E a sinalização? Eles poderiam usar como sinal de sua produtividade, no mercado, sua capacidade analítica. Será que querem mesmo? Qual é o mercado relevante (algo como: ele quer trabalhar no interior do interior do interior…ou no mercado financeiro) para esta decisão?

Não é fácil, não é?

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Mais Caplan, menos Pit, Pik..ah, vocês entenderam!

Bryan Caplan tem um ótimo post sobre estas visões apocalípticas da economia mundial. Confira aqui. Ah sim, Ellery já havia mostrado que existe um cisne negro (engraçado como, quando é para criticar a teoria econômica, falam de cisnes negros o tempo todo mas, quando alguém mostra que há cisnes negros no pensamento crítico, o silêncio impera…) no caso da análise do francês pop.

Aliás, ainda sobre o francês, uma crítica bem pesada é esta. Pois é. Nem todo mundo que é best-seller para a mídia é, necessariamente, uma boa leitura. Digo, é uma boa leitura, mas nem sempre é cientificamente consistente. Ok se o livro for o diário de Jerry Seinfeld, ou o último livro de Stephen King, mas nada ok se o livro se pretende uma análise da sociedade.

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Choques reais e choques monetários…juntos – observações aleatória sobre bitcoin, Lucas, Marschak e, claro, política monetária

One source of difficulty in formal empirical studies of monetary policy effects on real variables has been the common practice of focusing attention on real responses to policy innovations—i.e., unexpected components —in vector autoregression (VAR) studies. [McCallum, B.T., here]

O que dizer da distinção entre choques reais e monetários quando o governo norte-americano, de forma inteligente, aceita a inovação do bitcoin? Pois é. A criação do bitcoin e similares é um choque tecnológico, mas é também um choque monetário. Digo, você injetou mais moeda de forma descentralizada e temporalmente aleatória na economia. A princípio, isto tornaria a oferta de moeda mais instável do que a demanda, penso. Bem, como seria de se esperar, políticos, que são tão racionais quanto nós, facilitaram o fluxo de bitcoins…para eles.Seria legal agora que pudéssemos investigar uma galera da Papuda. Será que eles têm bitcoins também? Old bottles… Suspeitas à parte, a questão sobre como medir o choque monetário do bitcoin é algo a ser pensado, não? McCallum já chamava a atenção para a dificuldade, em termos do debate acerca da demanda de moeda (a equação (4) do texto, reproduzida a seguir) e dos choques tecnológicos já em 2002.

mt −pt = γ0 +γ1γt +γ2Rt +εt

Agora que você se lembrou da famosa equação, eis o trecho interessante:

Indeed, it would seem almost to suggest the opposite—for the theoretical rationale for (4) is built upon the transaction-facilitating function of money, but the technology for effecting transactions is constantly evolving. And since technical progress cannot be directly measured by available variables, the effects of technical change (not captured by a deterministic trend) show up in the disturbance term, εt. But the nature of technological progress is such that changes (shocks) are typically not reversed. Thus one would expect a priori there to be an mportant permanent component to the εt process, making it one of the integrated type— and thereby making mt −pt not cointegrated with yt and Rt.

Podemos ver que McCallum, ao discutir a questão do progresso tecnológico, deu-nos uma pista para como poderíamos começar a entender o problema. Temos que estudar mais séries de tempo, cointegração e pensar melhor no sistema de equações que usamos. Ok, não é um conselho fácil, mas nem inventar o bitcoin foi fácil, não é? Fica esta dica para o debate sobre o choque que é (ou os choques que são) a introdução do bitcoin no modelo. Mas vamos aproveitar que o autor é bom e citar outro trecho!

“Eu já sabia. Pelo menos o Lucas deve ter lido meu artigo…”

Ah sim, em um outro excelente momento do texto, ele mostra seu conhecimento da evolução histórica do pensamento econômico. Vejam que trecho ótimo:

Now clearly the switch from the fixed-lag to the rational expectations hypothesis was the consequence primarily of theoretical, rather than empirical, analysis. At the time it seemed a rather drastic step, but after the fact it has come to be recognized as an entirely natural extension of the usual approach of neoclassical economic analysis to an area of economic activity (expectation formation) that had previously been treated in a non-standard manner. Today, many economists trained after 1980 appear, empirically, to have difficulty in even contemplating any other expectational hypothesis. Also, it should be remembered that Lucas’s critique itself was not new, but merely a (brilliantly persuasive) application of Marschak’s (1953) fundamental insight that policy analysis requires a structural (as opposed to reduced-form) model.

Marschak é um autor bem mais antigo, nascido em Kiev (Ucrânia, Putin, Ucrânia…) e, como você pode ver, não era um sujeito qualquer. Não digo para sair por aí correndo para ler artigos dele, mas pense na questão que sempre destaco aqui: a importância do capital humano na formulação e condução da política monetária. De certa forma, o genial Bryan Caplan já pensou em algo assim quando publicou aquele artigo que sempre cito aqui sobre a idea trap (versão para iniciantes aqui, para alunos que já fizeram pelo menos um ano de curso e não temem as letras do alfabeto em combinações algébricas aqui). Só para você ter um gostinho do que Caplan intuiu:

The current paper presents a simple political– economic model of the interaction of growth, policy, and ideas to explain this puzzle. Growth, policy, and ideas are mutually reinforcing, given a key assumption about the impact of growth on ideas. Countries tend to have either all ‘‘good’’, all ‘‘mediocre’’, or all ‘‘bad’’ values. An important implication is that social forces do notinexorably drive economically unsuccessful countries to reform. In my model, policy ‘‘turn-arounds’’ instead arise due to large random disturbances that shock economies into better equilibria. While this conclusion is somewhat counterintuitive, it is much more consistent with the empirical failure of the convergence hypothesis than the optimistic ‘‘learning’’ model (Williamson, 1994a).

Pense nisto um pouco. Não é o que ocorre no Brasil? Sai uma equipe econômica que coloca a economia no lugar, entra outra que parece não ter lido nem um livro-texto básico. Não há porque a política econômica ser sempre melhor do que a anterior porque ela é feita por seres humanos. Logo, diria o leitor de Buchanan, precisamos de amarras constitucionais para não dependermos de anjos, né? Eu adoraria falar mais disto, mas notei que isto está se transformando em outro post.

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Nacional-desenvolvimentismo (inflacionismo) latino-americano e a armadilha das idéias estúpidas

Eis duas notícias para vocês dormirem à noite com a consciência tranquila. Primeiro, o governo nacional-desenvolvimentista – o mesmo que está enfiando “marxismo” goela abaixo das faculdades de economia argentina (e já falam em fazer algo assim aqui, de maneira muito dissimulada…) resolveu que a internet deve ser controlada. Para quem adora falar mal da NSA norte-americana e apelar para um nacionalismo primitivo, este é um chute no meio das pernas (eu ia dizer isto de uma forma mais “rolezinho”, mas resolvi ser educado).

Bom, mas antes que você diga que isto é o mínimo que se pode fazer para barrar esta “inimiga dos pobres, a globalização excludente que destrói o meio ambiente e aumenta a temperatura da Terra”, adiciono a segunda notícia, a de que governo venezuelano,  mais saudosista que Itamar Franco do Fusca ineficiente dos anos 50, apelou para taxas múltiplas de câmbio.

O que estas duas notícias nos mostram? Acho que o prof. Caplan, há alguns anos, deixou isto claro para nós por meio da armadilha das idéias. Já a citei aqui antes, mas repito:

Thus, the least pleasant places in the world to live normally have three features in common: First, low economic growth; second, policies that discourage growth; and third, resistance to the idea that other policies would be better. I have a theory to explain this curious combination.3Imagine that the three variables I just named—growth, policy, and ideas—capture the essence of a country’s economic/political situation. Then suppose that three “laws of motion” govern this system. The first two are almost true by definition:

  1. 1. Good ideas cause good policies.
  2. 2. Good policies cause good growth.

The third law is much less intuitive:

  1. 3. Good growth causes good ideas.

The third law only dawned on me when I was studying the public’s beliefs about economics,4 and noticed that income growth seems to increase economic literacy, even though income level does not. (…)

(…) The bad news is that you can also get mired in the opposite outcome. A society can get stuck in an “idea trap,” where bad ideas lead to bad policy, bad policy leads to bad growth, and bad growth cements bad ideas.

Pior de tudo é que você pode se perguntar: está tudo perdido? O que pode mudar isto?

If both good and bad combinations of growth, policy, and ideas are stable, why does anything ever change? The answer, in my model, is luck. An economy in the idea trap usually stays in the idea trap. But once in a while, it wins a little lottery. Maybe the president of the country happens to read Bastiat during his last term, and decides to try a more free-market approach. This increases growth, which in turn improves the climate of public opinion. And maybe—just maybe—public opinion changes enough to elect another president who embraces his predecessor’s reforms.

Você não precisa acreditar neste texto. De qualquer forma, a formalização do modelo do Caplan está aqui. Aparentemente, a sociedade argentina e a venezuelana caíram na armadilha e, por anos, permitiram que seus governantes fizessem besteiras atrás de besteiras. Aliás, alguém já disse que cada povo tem o governo que merece. Quanto a isto, é bom lembrar o saudoso Barão de Itararé que disse: Cada povo tem o governo que merece, mas não é menos verdade que muitos povos não merecem o governo que têm. De certa forma, o dito do irônico barão é compatível com a proposição de Caplan.

O que notar?

Eu chamaria a atenção para o problema das instituições formais e informais para o desenvolvimento econômico. O único jeito de sair desta armadilha é ensinar para as pessoas acerca da importância das instituições – já cientificamente debatida há anos – para que uma sociedade saia do buraco. Este tema é recorrente neste blog e não preciso cansar os leitores com isto novamente.

Outra coisa a se notar é aquela minha hipótese da tecnologia da política econômica. Em resumo, sim, eu acredito que aprendemos a fazer política econômica e sabemos como lidar com a inflação. Também não ignoramos o ciclo político-econômico. Contudo, este conhecimento e os incentivos para que façamos a coisa certa não são fluidamente transmissíveis de geração em geração. Então, sim, quem fez o Plano Real acontecer tem um mérito imenso. Da mesma forma, não há motivos para se esperar que burocratas e políticos posteriores ao plano tenham a mesma capacidade intelectual e/ou os mesmos incentivos para manter a estabilidade de preços e lutar por um crescimento econômico saudável, no qual o governo não se comporta de maneira prejudicial.

Acho que foi Buchanan quem cunhou o termo Economia Política Constitucional. Nunca foi tão atual…