Tudo o que você gostaria de saber sobre o Bolsa Família, mas não tinha coragem de perguntar

Novo artigo com dois amigos de alto nível sobre o Bolsa Família recém-publicado. Trata-se de um survey e, por isso, o título bem-humorado (e verdadeiro, creio) deste post.

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Educando os pais

Na biografia do Mussum (vários momentos aqui), um trecho que me chamou a atenção, logo no início do livro, é quando o autor descreve como o famoso sambista se alfabetizou e, quase ao mesmo tempo, alfabetizou a mãe. É um dos trechos mais bonitos do livro.

Bem, ele não é uma exceção. Tomando como base este artigo, para o Brasil, alfabetização é muito importante para quem é muito pobre.

Este trabalho tem por objetivo investigar a possível existência de um benefício positivo da educação das crianças em idade escolar para os adultos analfabetos, inseridos no Programa Bolsa Família, em decorrência das condicionalidades educacionais do Programa. Buscam-se sinais de externalidade da alfabetização no sentido dos filhos para os pais/adultos analfabetos, no quesito rendimento do trabalho. Utiliza-se o modelo de seleção de Heckman para corrigir o problema de autosseleção dos indivíduos em participar do mercado de trabalho. Os resultados apontam que os pais/adultos analfabetos, beneficiários do Programa Bolsa Família (PBF), e que residem com ao menos um filho alfabetizado recebem, em média, 10,96% a mais do que os pais/adultos analfabetos, beneficiários do PBF, que não residem com filhos alfabetizados.

Legal, né?

Bolsa-Família faz a turma ter mais filhos? Parece que…não. Isso mesmo.

Quantas vezes já ouvi isso? Pois bem. É uma preocupação legítima. Cechin, Carraro, Ribeiro & Fernandez (2015) explicam:

As regras do Programa determinam que a quantidade de recursos transferidos depende do número de filhos da família, ou seja, transfere mais renda para as famílias que têm mais filhos. Dessa forma, o Programa pode gerar um incentivo ao aumento da fecundidade de suas beneficiárias, tendo como consequência a multiplicação da população pobre. De acordo com Rocha (2009), a preocupação é que esses Programas possam gerar uma espécie de armadilha da pobreza.

Concordo. Eis um ponto a se estudar. O que os autores encontraram? Vejamos o resumo do texto do qual tirei o parágrafo acima.

Abstract
CECHIN, Luis Antonio Winck; CARRARO, André; RIBEIRO, Felipe Garcia and FERNANDEZ, Rodrigo Nobre. O Impacto das Regras do Programa Bolsa Família Sobre a Fecundidade das Beneficiárias. Rev. Bras. Econ. [online]. 2015, vol.69, n.3, pp. 303-329. ISSN 1806-9134. http://dx.doi.org/10.5935/0034-7140.20150014.

Este trabalho investiga um possível incentivo do Programa Bolsa Família ao aumento da fecundidade de suas beneficiárias em decorrência de suas regras, dado que a quantidade de recursos transferidos depende do número de filhos da família. O diferencial deste estudo reside na análise desse impacto em um maior período de exposição das beneficiárias aos efeitos do PBF. Aplica-se o algoritmo de seleção de covariadas proposto por Imbens (2014) e o método de Propensity Score Matching. Os resultados apontaram que o PBF gera pequeno incentivo à geração do segundo filho, sendo que as regiões Centro-Oeste e Nordeste apresentaram os maiores valores de impacto.

Ou seja, não parece haver um incentivo muito forte. Leia o artigo para ver mais detalhes. Claro, o assunto não está encerrado. O artigo, acredito, coloca é mais tempero na discussão.

Ah sim, antes que você saia por aí dizendo que o Bolsa-Família vai fazer as creches do país explodirem de novos eleitores, leia o artigo. Ou vá lá aprender um pouco de econometria e tente falsear as conclusões dos autores. É com ciência (notem o trocadilho) que se faz o bom combate, não com ideologia barata.

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p.s. que bela extensão do modelo de Becker, heim? Simples, elegante e bonita. Mereceu a foto.

Bolsa-Família e eleições: artigo novo publicado!

Tema quente, não? Desde nossa primeira contribuição (cuja citação é sempre um problema, uns citam em ordem alfabética e meu amigo André Carraro fica feliz, outros seguem a sugestão do journal original, e eu fico feliz, etc), o tema volta a me assombrar de tempos em tempos. Não só a mim, mas quem quer que olhe a blogosfera (veja o Carlos Cinelli no Análise Real, o blog do Estadão, etc) sabe que o assunto é polêmico.

Nos últimos anos, trabalhei junto com o Nakabashi e com a Ana e, posteriormente, com o Felipe, numa sequência colaborativa que resultou em uma versão inicial, então, em nosso último artigo publicado.

Meus alunos de Econometria III de um ou dois semestres atrás tiveram acesso a uma das versões preliminares e, com prazer, agora posso lhes mostrar a versão definitiva.

O tema, como sabemos, é popular e a análise empírica é sempre polêmica. Bem, este foi um artigo que deu bastante trabalho.

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A economia política do Bolsa-Família

Mais um artigo se junta ao debate que já dura algum tempo, na literatura, desde nosso artigo de 2009. Desta vez, as conclusões do autor são-nos favoráveis. Acho que até o citei por aqui outro dia, mas esta é a versão final.

Mais Bolsa-Família e Votos…por Estados – Correlações e p-valores

Olhando para a correlação entre votos e bolsa-família para cada estado brasileiro (uma correlação de Pearson, só para dar uma olhada).

Olha, pode ser, claro, que existam variáveis omitidas e tudo o mais, mas é curioso como o caso da candidata governista se destaca dos demais. Bem, só para vocês verem os resultados (a correlação é o “tau.est”, a estatística de teste é “z”, o p-valor é o “pval” e o teste é bicaudal).

Marina Silva

Estado    z             pval                   tau.est            alt
1 AC -4.4491139 3.099254e-04 -0.723699989 two.sided
2 AL -2.7262562 7.887442e-03 -0.293243370 two.sided
3 AM -2.3292235 2.392808e-02 -0.312865167 two.sided
4 AP -1.7696941 1.021591e-01 -0.454938476 two.sided
5 BA -12.9155924 1.365660e-31 -0.563783334 two.sided
6 CE -8.7018683 2.150882e-15 -0.546302271 two.sided
7 ES -3.3150492 1.406227e-03 -0.355431923 two.sided
8 GO -5.3827358 1.860965e-07 -0.339772972 two.sided
9 MA -7.3461459 6.734349e-12 -0.479244534 two.sided
10 MG -15.3789517 6.979343e-47 -0.480003811 two.sided
11 MS -1.8014480 7.576165e-02 -0.206307697 two.sided
12 MT -0.7886029 4.318138e-01 -0.069806484 two.sided
13 PA -2.9638282 3.806089e-03 -0.285479761 two.sided
14 PB -7.3062152 6.679984e-12 -0.461734115 two.sided
15 PE -8.3135468 2.710302e-14 -0.535394835 two.sided
16 PI -3.5590672 4.729893e-04 -0.253144881 two.sided
17 PR -4.4079040 1.350252e-05 -0.217576896 two.sided
18 RJ -3.3451273 1.220468e-03 -0.339314276 two.sided
19 RN -5.6948006 6.196880e-08 -0.419335713 two.sided
20 RO -5.3354587 2.425570e-06 -0.606195987 two.sided
21 RR -2.4112029 3.284060e-02 -0.571286897 two.sided
22 RS 0.1141620 9.091565e-01 0.005178426 two.sided
23 SC -2.1679982 3.097770e-02 -0.126720652 two.sided
24 SE -4.6917343 1.255629e-05 -0.483883603 two.sided
25 SP -3.4271486 6.499277e-04 -0.135709199 two.sided
26 TO -4.6355931 8.820492e-06 -0.383003916 two.sided

Aécio Neves

Estado     z                 pval              tau.est      alt
1 AC 0.7912845 4.390810e-01 0.1833459 two.sided
2 AL -3.6129904 5.303607e-04 -0.3765704 two.sided
3 AM -3.4835671 1.038080e-03 -0.4419317 two.sided
4 AP -2.5847104 2.388958e-02 -0.5980190 two.sided
5 BA -6.4346748 3.972301e-10 -0.3219733 two.sided
6 CE -3.4009979 8.289671e-04 -0.2470161 two.sided
7 ES -4.6405569 1.422730e-05 -0.4698837 two.sided
8 GO -5.0430301 9.513113e-07 -0.3206000 two.sided
9 MA -8.7323740 1.633692e-15 -0.5444412 two.sided
10 MG -20.4178164 9.708190e-75 -0.5877274 two.sided
11 MS -3.4218534 1.022418e-03 -0.3717889 two.sided
12 MT -5.2209590 7.059956e-07 -0.4203643 two.sided
13 PA -4.8533619 4.530665e-06 -0.4384065 two.sided
14 PB -5.6666463 5.114201e-08 -0.3743719 two.sided
15 PE -2.8228729 5.320916e-03 -0.2104229 two.sided
16 PI -6.3820075 1.367721e-09 -0.4247786 two.sided
17 PR -9.2087089 2.037767e-18 -0.4221690 two.sided
18 RJ -1.5945248 1.144873e-01 -0.1694554 two.sided
19 RN -6.1878838 5.400395e-09 -0.4485742 two.sided
20 RO -2.7743780 7.805308e-03 -0.3684554 two.sided
21 RR -0.8607954 4.062215e-01 -0.2411564 two.sided
22 RS -16.0095603 1.226275e-46 -0.5876083 two.sided
23 SC -12.9975636 1.043927e-30 -0.6080425 two.sided
24 SE -3.6126487 5.575955e-04 -0.3917287 two.sided
25 SP -10.9702508 9.854043e-26 -0.4015562 two.sided
26 TO -5.8965083 3.242318e-08 -0.4664971 two.sided

Dilma Rousseff

Estado    z              pval                tau.est     alt
1 AC 3.836699 1.208408e-03 0.6707325 two.sided
2 AL 3.546011 6.610359e-04 0.3705557 two.sided
3 AM 4.065355 1.696383e-04 0.4984242 two.sided
4 AP 3.020456 1.065389e-02 0.6571933 two.sided
5 BA 13.007781 0.000000e+00 0.5665191 two.sided
6 CE 7.308599 8.774315e-12 0.4804385 two.sided
7 ES 8.104959 6.930900e-12 0.6808958 two.sided
8 GO 8.085466 3.996803e-14 0.4769587 two.sided
9 MA 10.909305 0.000000e+00 0.6298354 two.sided
10 MG 28.516473 0.000000e+00 0.7122024 two.sided
11 MS 4.966258 4.344176e-06 0.5025307 two.sided
12 MT 6.606409 9.763674e-10 0.5057305 two.sided
13 PA 7.019877 2.815330e-10 0.5764878 two.sided
14 PB 8.549719 3.552714e-15 0.5202252 two.sided
15 PE 8.605537 4.662937e-15 0.5486074 two.sided
16 PI 7.015881 4.177236e-11 0.4584245 two.sided
17 PR 10.801899 0.000000e+00 0.4794073 two.sided
18 RJ 4.767404 7.533819e-06 0.4572050 two.sided
19 RN 7.629096 2.407852e-12 0.5262032 two.sided
20 RO 5.232703 3.466584e-06 0.5987326 two.sided
21 RR 2.081985 5.941354e-02 0.5151368 two.sided
22 RS 15.977526 0.000000e+00 0.5868377 two.sided
23 SC 12.500017 0.000000e+00 0.5930573 two.sided
24 SE 7.553398 1.042568e-10 0.6649009 two.sided
25 SP 15.690953 0.000000e+00 0.5313000 two.sided
26 TO 8.513184 4.485301e-14 0.6058104 two.sided

A discussão sobre estes resultados fica para vocês. Ah sim, eu fiz em R. Usei as dicas do pessoal daqui. Ficou legal, né? Digo, não é só olhar a correlação, mas a significância da mesma. Aí as perguntas que o Cinelli deixou no ar ganham mais uma informação para o debate: a significância das correlações estimadas (clique na imagem para ampliar).

bonitinho

Obrigado, Cinelli, pelo código!

Bolsa-Família e Votos em Alguns Estados…

Ainda brincando com os dados e pensando no segundo turno, resolvi dar uma olhada em alguns estados: SP, BA, PE e MG. Escolhi pensando no sucesso do PSDB em São Paulo na eleição para governador e presidente. Também pensei no sucesso do partido da presidente em MG para governador (e, acho, presidente). A BA e o PE são dois estados cuja votação não foi favorável ao candidato do PSDB no 1o turno, mas apresentaram padrão distinto (e eu diria que o falecido candidato do PSB tinha mais em comum com o candidato do PSDB do que com a candidata do partido do governo).

Enfim, apenas para fazer passar o tempo, mais um pouco de correlações. Novamente, estou somente repetindo a análise do Cinelli, apenas com uma curiosidade pela existência de aglomerações nos diagramas de dispersão. Seria bom ver as correlações (e sua significância), mas fica para outro dia. Talvez eu volte a pesquisar o tema com mais cuidado após as eleições e, aí sim, tratarei destes dados com mais calma.

Tem algo aí que valeria a pena estudar? Sim. Acho que os eternos estudiosos do federalismo fiscal deveriam olhar para estes gráficos com mais carinho do que de costume. Mas é só um palpite.

Imagino que um bom candidato tenha uma assessoria técnica que saiba, realmente, fazer marketing, analisando dados como estes. Como nunca vi, no Brasil, um profissional da área de marketing me convencer de que sabia estatística (e, mais ainda, valorizava o uso da ferramenta), permaneço olhando muito desconfiado para esta galera mas, claro, posso estar enganado.

Seguem os gráficos e palpites e comentários são bem-vindos.

aespdilmsp marinsp marinba dilba aeba marinpe dilpe aepe marinmg dilmmg aemg

Mais Bolsa-Família e Votos: o que nos mostram as correlações? (um debate sem fim)

Hoje, mais cedo, comecei a olhar para os dados do Bolsa-Família e Votos no 1o turno nos três candidatos (cortesia do Carlos Cinelli). Em seu ótimo post, ele concluiu:

(…) será que a correlação se mantém dentro de cada UF? Por exemplo, Aécio ganhou em SP, SC e MT. Nesses estados, também houve correlação negativa do BF para o candidato tucano?

Aparentemente, sim, conforme pode ser visto no gráfico abaixo. E a separação por estado também indica que a correlação do BF com votos para Marina foi negativa em grande parte das UF’s. Um estado que chama a atenção é Minas Gerais, em que estas relações se parecem bem acentuadas.

Resolvi olhar melhor a dispersão dos dados, mesmo sem dividir por estados. Entretanto, vou usar estes diagramas de dispersão que nos fornecem uma informação adicional que é a concentração de pontos na dispersão.

A seguir, os gráficos para Marina, Dilma e Aécio, respectivamente.

marinabfvotos

 

 

dilmabfvotosaeciobfvotos

Só eu suspeito que existe um padrão interessante no caso do diagrama de dispersão do candidato Aécio Neves e no de Rousseff? Parecem duas distribuições bimodais? No caso do Aécio Neves, parece mais ainda do que no caso de Rousseff? Dá esta impressão, mas falo apenas por um simples exercício de eyeballmetrics.

Mais interessante é que, no caso de Marina Silva, não parece haver qualquer conexão clara entre bolsa-família e votos, no agregado. O que será que estamos observando aí nestes gráficos? Palpites?

Bolsa-Família e Votos

Apenas brincando com os dados que o Cinelli disponibilizoubolsafam

Falei no livro de caras sobre o artigo que fiz com o prof. Nakabashi, o prof. Felipe e a doutoranda Ana (aceito para publicação na Análise Econômica sobre o papel do Bolsa-Família na eleição da presidente Rousseff, em 2010, e ele pode ser lido aqui).

Agora, com esta eleição, temos mais dados para estudar. Espero que mais gente se interesse em estudar o tema…

Ano de eleição e os motivos originais

Por que o Bolsa-Família foi criado? Talvez alguém lá do Banco Mundial – o povo adora este tipo de programa – possa nos explicar. No que ele vai se transformar? Tenho até medo de responder. Ah, claro, o câncer do uso eleitoral pode causar a morte da democracia.

Uso eleitoral do Bolsa-Família

Evidências de que isto existe aqui. É óbvio que políticos usam isto para obterem votos. A questão que ninguém responde convenientemente é: qual o impacto disto, na prática? Quantos votos são obtidos, ceteris paribus, pelo Bolsa-Família?

Diz um economista inglês…

O economista trata como positiva a transformação do Bolsa Escola e outros três programas de transferência de renda criados no governo Fernando Henrique, aos quais se refere como “mais paternalistas e mais seletivos”, no Bolsa Família, no governo Lula.

Mas deixa claro que ainda considera o programa brasileiro, que atende a famílias com renda mensal de até R$ 120 por pessoa, paternalista. Para Standing, ao selecionar e colocar condições aos beneficiários, no caso famílias com crianças em idade escolar, o Bolsa Família exclui famílias que não se encaixam nessa categoria. A exigência de cadastro também é criticada.

“A autonomia (no Bolsa Família) é assegurada no sentido de que os recipientes podem escolher como gastar o dinheiro, mas as condicionalidades são restritivas, e incluem freqüência escolar de crianças entre 5 e 15 anos, aulas pré-natal para mulheres grávidas e vacinas para crianças menores de sete anos”.

O principal alvo das críticas do autor, entretanto, são os programas que distribuem comida ou outras commodities. Ele argumenta que as famílias são obrigadas a aceitar o que se presume ser bom para elas, além de poder distorcer os preços desses produtos no mercado local. “Ademais, tais programas reforçam a idéia de caridade mais do que de direitos econômicos.”

Repare na última frase: caridade ou direitos econômicos? A pergunta é importante. Uma coisa, que político adora, é tratar o sujeito como um boi. A idéia é que se você lhe dá capim, já está ótimo. Outra coisa é o sujeito ter prerrogativas enquanto consumidor.

Eu diria que é muito mais “cidadania” ter o direito de combater a inflação e enfrentar um mundo de preços relativos pouco distorcidos do que aceitar que o governo destrua minha vida às custas de um pedaço de queijo (além de me vender o pedaço como algo muito melhor do que realmente é, ainda mais que minha vida vira um inferno com preços distorcidos…).

Eis uma discussão que dará pano para a manga. Aposto que não veremos nenhum dos economistas pterodoxos (da ala ortodoxa) criticar estes aspectos dos planos. Afinal, o monopólio das bolsas de pesquisa (e também a “suposta” neutralidade que uma bolsa de pesquisa pública lhe confere, enquanto suposta “autoridade no assunto”) é muito tentador para este tipo de pterodoxo.

Mas a discussão não deveria passar em brancas nuvens. Vejamos se os pterodoxos (da ala heterodoxa) conseguem se libertar de sua fascinação com o esoterismo psicodélico da idolatria do trabalho em detrimento do capital (e da agricultura ou ao capital humano) e elabora alguma crítica civilizada ao programa. Civilizada, eu disse…

Até lá, fico com o colega inglês que, pelo menos, abre o debate.

Correlação ou Causalidade?

Agora é o outro jornal de São Paulo que diz algo similar ao que foi publicado no Estadão há umas duas semanas: o Bolsa-Família e a votação do presidente da Silva têm correlação positiva. A notícia só não é idêntica porque o pessoal não analisou o desempenho escolar (veja também esta notícia, sobre uma possível manipulação em ano eleitoral).

Obviamente, todo mundo que passa por uma notícia como esta se pergunta: então o governo usou a Bolsa-Família como moeda de troca eleitoral? É possível. Mas existe uma segunda pergunta que não se confunde com a primeira, embora seja -lhe uma decorrência natural. Trata-se de: uma vez que o Bolsa-Família existe, ele gerou votos adicionais ao presidente da Silva?

Para esta pergunta, veja bem, não basta uma correlação simples, como os jornalistas têm feito. É preciso um pouco mais de trato estatístico com os dados. Qual a diferença entre correlação e causalidade? De forma resumida, eu diria que é o grau de sujeição de seu argumento sobre a causalidade à terrível coincidência. Pode ser que, simplesmente, coincidiu de as variáveis X e Y serem correlacionadas positiva, neutra ou negativamente. A explicação causal necessita um pouco mais. Uma sugestão óbvia é uma regressão múltipla, envolvendo mais variáveis. Eu diria mais. Acho que um bom meio de se iniciar esta análise é aplicar variáveis instrumentais aos dados, sob um arcabouço teórico específico.

Em outras palavras, se eu fosse um jornalista realmente obcecado pelo tema, correria para um pacote econométrico qualquer, importaria os dados, e tentaria provar a causalidade entre Bolsa-Família e votos. Vai que ela existe mesmo…

Nunca antes na história deste país um ministro foi tão sincero

Gostei de ver a sinceridade:

O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, disse ontem que a nova política industrial será o “Bolsa-Família” do setor de produção. “Vamos pegar tudo que há no governo de forma desorganizada e dar uma coordenação. Será mais ou menos o Bolsa-Família da área industrial”, afirmou.

Nossos industriais não são exatamente aqueles “gigantes do capitalismo”. Afinal, “competição é coisa de estadunidense“, diz o empresário que ficou uma hora na fila do aeroporto de Miami e se irritou. Eis o destino de nossos empreendedores: dependerem do “Bolsa-Família” do setor de produção. O famoso “lado real” da economia, que tanto reclama do resto (provavelmente o lado fictício da economia) é o alvo da mais nova política social do governo.

Eu não sei se rio ou se choro, mas entendo bem quando os think tank liberais reclamam que não recebem doações desta gente: eles não querem liberalismo.

Mas, dirá você, Cláudio, você reinventou a roda! Nem tanto. Eu já sabia disto. Aliás, Stigler, uma vez, falou algo similar ao que estamos a conversar aqui. Há ainda aquele livro – como é mesmo o nome? – Salvando o Capitalismo dos Capitalistas (acho que é isso) que é bem pouco lido nas faculdades de Economia do Brasil (infelizmente), pois mostra que o discurso Woodstock do “socialistas-do-bem” versus “qualquer não socialista” não funciona para explicar nem cantiga de roda das meninas no clube matinal de domingo, com a família.

Todo mundo já sabe e vou repetir: há duas formas de se ter problemas:

Claro, pode-se combinar isto também. Uma vez que você se livre da burrice (todo mundo já foi burro um dia…eu, pelo visto, continuo burro em um monte de coisas) e enxergue bem os interesses que buscam subsídios às custas do dinheiro que poderia ir para a enfermeira que cuida da sua avó, o desafio maior consiste em entender como criar incentivos que nos levem para longe desta cloaca, sem perder a ternura (eu sou, por burrice, um democrata, mesmo sob a artilharia pesada dos inimigos que jogam, sim, bem sujo).

O lado ruim da história é que nós, liberais, também somos imperfeitos e erramos. Somos humanos. Reconhecer isto, na selva, é sinônimo de fraqueza. Quem berra mais alto (viva a “cultura” indígena de 1500!!), ganha! Argumentos racionais? Nenhum. Avaliação de políticas públicas? Nada. Debate? Só entre iguais (ei, isto é debate?).

Vá lá que exista um evento isolado, lá no Rio Grande do Sul, uma vez por ano, que realmente promove um debate. Entretanto, este ainda é confuso para a mídia que se apega a uma incorret identificação entre conservadores e liberais. Isto sem falar no pseudo-paradoxo entre “mais liberdade é sempre igual a mais fascismo”.

Aproveitando que acordei cedo hoje, vamos ver um pouco mais do que o excelente Ordem Livre nos fornece de leitura (sério mesmo, quando Pedro Sette me convidou a participar do blog do Ordem Livre, eu me espantei com a quantidade de excelentes traduções que eles estavam fazendo). Um pouco de reflexão para você:

A experiência transformou em cinzas as grandes esperanças que os coletivistas e socialistas depositaram na Rússia e na China. Na verdade, a única esperança desses países vem de seus movimentos recentes em direção ao livre mercado. Da mesma forma, a experiência, digamos, enfraqueceu as esperanças extravagantes colocadas no socialismo fabiano e no Estado do Bem-Estar Social na Grã-Bretanha e no New Deal, nos Estados Unidos. Um grande projeto governamental após o outro, todos iniciados com as melhores intenções, resultaram em mais problemas que soluções.

Poucos, hoje em dia, consideram que a estatização de empreendimentos é um meio de se promover uma produção mais eficiente. Poucos ainda acreditam que todo problema social pode ser solucionado pelo aporte de dinheiro do governo (ou seja, dos contribuintes). Nessas áreas, as idéias liberais – no sentido original da palavra “liberal”, do século XIX – venceu a guerra. O crescente fardo da tributação levou a população em geral a reagir contra o crescimento do governo e de sua ampla influência.

As idéias desempenharam um papel fundamental, como nos episódios anteriores, por manterem as opções abertas e por fornecerem políticas alternativas a serem adotadas quando há necessidade de mudanças.

Como nas duas ondas anteriores, a prática deixou as idéias para trás. Assim, tanto a Grã-Bretanha quanto os Estados Unidos estão mais longe do ideal de uma sociedade livre do que estavam há 30 ou 40 anos, em quase todas as dimensões. Em 1950, o gasto pelos governos federal, estadual e municipal, nos Estados Unidos era de 25 por cento da renda nacional; em 1985, era 44 por cento. Nos últimos 30 anos várias agências governamentais foram criadas: um Departamento de Educação, um Fundo Nacional para as Artes e outro para as humanidades, EPA, OSHA, e daí por diante. Funcionários públicos, nessas e em outras agências decidem por nós qual são os nossos interesses.

Pois é, leitor. O buraco é mais embaixo, né? Tudo bem, um dia a gente tem que começar a se perguntar sobre estas coisas. Por exemplo:

  • Se Hayek é um sujeito liberal, contra guerras ou conflitos, por que ninguém gosta de citá-lo nos cursos universitários que envolvam, sei lá, discussão de idéias de “grandes pensadores”?
  • Se Hayek é um economista tão importante quanto diz Friedman (este, mesmo que o leitor não goste, é muito importante, né?), por que sua ausência das salas de aula?
  • A quem interessa caracterizar Hayek como um “autor desta seita de fanáticos neoliberais malvados e feios”?

Boas perguntas. Duvido que haja uma única boa resposta que não envolva o preconceito ideológico. Mas, veja só, sou um liberal, pode ser que haja alguma. Comente educadamente e, claro, discuta com seu professor.

O tal Bolsa-Família

Ok, eu gostei da matéria do Estadão. Meus poucos amigos jornalistas sabem que admiro jornalista que realmente trabalha. Estes aí, do jornal de São Paulo, trabalharam. Cruzaram informações. Já é muito. Querer uma regressão múltipla, sim, seria querer demais (exceto se o cara tiver feito um MBAzinho decente).

A questão do Bolsa-Família é sempre polêmica. Falei disto para 50 cabeças de estudantes no início do semestre que ora se desenvolve. Alguns me olharam com um ar de indiferença, outros acharam interessante, alguns palpitaram e outros continuam a falar muito sem entender as implicações disto para suas vidas.

Há um artigo que eu, Leonardo Monasterio, André Carraro, Otávio e Ari escrevemos sobre a existência ou não do impacto deste programa social sobre a reeleição do sr. da Silva. O debate é importante, inclusive, do ponto de vista metodológico. Há um outro artigo, com uma base de dados diferente, que afirma ser um ponto crítico ao nosso. Ambos foram submetidos ao último encontro nacional da ANPEC, mas apenas o outro foi escolhido. Imagino se a tradição dos debates na ANPEC sucumbiu a outros fatores, já que ambos os artigos falam do mesmo tema, com metodologias e bases de dados distintas, o que é sempre um prato cheio para o aprofundamento do conhecimento do tema.

Mas a matéria do Estadão desperta em mim meus mais primitivos instintos científicos, para citar o ex-aliado do presidente da Silva, o sr. Roberto Jefferson. Pergunte ao seu professor:

  • Qual a melhor forma de se medir o fenômeno: “bolsa-família no município”? Este é um debate que você encontrará em nosso artigo e é muito relevante para se começar a discutir o tema. O outro artigo citado também sofre deste problema, creio, em um grau mais forte, já que usam dados estaduais.
  • Se existe impacto do bolsa-família sobre a votação do atual ocupante da Granja do Torto,  sem a correspondente melhora na escolaridade das crianças, isto ocorre por conta de fatores externos ao programa? Ou o programa é mal formulado? Ou a má formulação técnica oculta uma bela formulação política, com fins eleitoreiros?
  • Por que alguns governos preferem gerar mais empregos do que usar mecanismos de transferências (ou mesmo de “criação estatal de empregos”)? Por exemplo, otimistas radicais quanto a este tipo de receita (transferências) são os socialistas e Cuba ou Coréia do Norte seriam os melhores exemplos de “sucesso” deste tipo de política (inclusive com reeleições maciças dos ditadores destes campos de trabalho gigantes). Isto significa que toda transferência é ruim do ponto de vista da manutenção das liberdades individuais? Radicalizo: dar esmola é algo que deveríamos evitar sempre, independente do estado de saúde aparente do pedinte?
  • Países que adotam políticas mais liberais geram mais empregos, suponha apenas para fins da pergunta (mas olhe os dados!). Posto isto, pode-se dizer que liberalismo é um conceito absolutamente contrário, oposto ou radicalmente contra o de caridade? É possível um sujeito ser liberal e caridoso? Posto de outra forma: pode um sujeito não-liberal ser caridoso? Até que ponto o controle social da vida das pessoas (o bordão preferido dos não-liberais) é, de fato, um ato compatível com a melhoria de suas vidas?
  • Viver como um animal no matadouro sendo alimentado com ração de primeira é a melhor opção de um sujeito muito pobre? Discuta as implicações disto no curto e no longo prazos. Elabore, em linhas gerais, um programa de incentivos que seja o mais imune possível à manipulação eleitoreira e aos interesses dos apaniguados (que jamais desejarão tirar a mão do vil metal…).

Eis aí muito material para análise. Ah sim, o povo do Banco Mundial é fascinado com este tipo de programa. Pesquisa o site deles (www.worldbank.org) e enriqueça sua discussão. A única dica de leitura adicional é aquele famoso livro do William Easterly, cuja tradução estranhíssima do título é: “O Espetáculo do Crescimento”.

O povo educado não vota em você? Não o eduque!

Regras básicas:

1. Mantenha uma linguagem pitoresca, próxima da do menos educado, inclusive com preconceitos e falsidades científicas (ou, como gostam alguns, “não-verdades”, “inverdades”…).

2. Distribua dinheiro e se preocupe pouco (ou nada) com a mensuração do impacto do dinheiro (ou mensure de forma errada) no tal bem-estar social.

3. Tome medidas hilárias, absurdas e inacreditáveis para causar barulho na imprensa, mas jamais, jamais mesmo, deixe que o debate seja mediado por alguém inteligente (dica: incentive o radicalismo para nunca ter um inimigo mais inteligente que você no debate).

Eis aí a receita do sucesso.