O índice de “crony capitalism” da The Economist…

…agora está na Wikipedia. Só existe a amostra de 2014, mas você já pode trabalhar com os dados, se quiser. Note que a amostra é pequena e, portanto, não é possível ir muito longe nas conclusões. Vejamos um exemplo com uma das variáveis que fez sucesso aqui, semana passada: o gay happiness index.

ghi_crony

No caso, o que observamos é uma fraquíssima correlação negativa entre o bem-estar dos gays e o ranking do país no índice de capitalismo de compadrio (crony capitalism). Segundo o gráfico, quanto mais distante da origem está a medida de crony capitalism, mais embaixo no ranking desta varíavel o país está (o que, digamos, é “bom” para o país, supondo que a opção mutuamente excludente é um good capitalism).

Uma correlação negativa indicaria que um maior bem-estar dos gays ocorre em países com um capitalismo menos crony, embora não seja possível dizer nada sobre a causalidade destas variáveis. Mais ainda, esta correlação, como sabemos, pode ser falsa no sentido de que pode existir uma variável omitida (ou várias variáveis omitidas) importantes na explicação do fenômeno em questão.

Entretanto, eu diria que as teorias econômicas, em geral, dariam suporte para esta correlação. Afinal, um capitalismo mais livre significa que há menos discriminação de pessoas por critérios outros que não a eficiência econômica e não há qualquer motivo para alguém dizer que gays são menos eficientes (lembre-se de Alan Turing ou John M. Keynes, para citar apenas dois exemplos).

Bom, é isso. A inspiração não está lá muito alta hoje e fenômenos econômicos são por demais complexos para serem seriamente discutidos apenas em um pequeno texto como este. Mas fica a dica para você, (e)leitor(a): o índice de crony capitalism mereceria uma extensão. Um bom tema para um mestrado ou doutorado, claro.

Gays são mais felizes em países mais coletivistas? Em países mais individualistas? Mais um pouco de correlações para sua reflexão.

Como sabemos, as dimensões culturais de Hofstede são úteis para algumas investigações sobre valores informais (no dizer de Douglass North) e desenvolvimento econômico. Ora bolas, no final, queremos mais bem-estar, não é mesmo?

Vamos dar uma olhadinhas em quatro das dimensões? Citando da Wikipedia em língua inglesa (negritos meus, ok?):

  • Power distance index (PDI): “Power distance is the extent to which the less powerful members of organizations and institutions (like the family) accept and expect that power is distributed unequally.” Individuals in a society that exhibit a high degree of power distance accept hierarchies in which everyone has a place without the need for justification. Societies with low power distance seek to have equal distribution of power.[6]Cultures that endorse low power distance expect and accept power relations that are more consultative or democratic.
  • Individualism (IDV) vs. collectivism: “The degree to which individuals are integrated into groups”. In individualistic societies, the stress is put on personal achievements and individual rights. People are expected to stand up for themselves and their immediate family, and to choose their own affiliations. In contrast, in collectivist societies, individuals act predominantly as members of a lifelong and cohesive group or organization (note: “The word collectivism in this sense has no political meaning: it refers to the group, not to the state”). People have large extended families, which are used as a protection in exchange for unquestioning loyalty.
  • Uncertainty avoidance index (UAI): “a society’s tolerance for uncertainty and ambiguity“. It reflects the extent to which members of a society attempt to cope with anxiety by minimizing uncertainty. People in cultures with high uncertainty avoidance tend to be more emotional. They try to minimize the occurrence of unknown and unusual circumstances and to proceed with careful changes step by step planning and by implementing rules, laws and regulations. In contrast, low uncertainty avoidance cultures accept and feel comfortable in unstructured situations or changeable environments and try to have as few rules as possible. People in these cultures tend to be morepragmatic, they are more tolerant of change.
  • Masculinity (MAS), vs. femininity: “The distribution of emotional roles between the genders“. Masculine cultures’ values are competitiveness, assertiveness, materialism, ambition and power, whereas feminine cultures place more value on relationships and quality of life. In masculine cultures, the differences between gender roles are more dramatic and less fluid than in feminine cultures where men and women have the same values emphasizing modesty and caring. As a result of the taboo on sexuality in many cultures, particularly masculine ones, and because of the obvious gender generalizations implied by Hofstede’s terminology, this dimension is often renamed by users of Hofstede’s work, e.g. to Quantity of Life vs. Quality of Life.

Ok, o que eu esperaria? Eu esperaria que a felicidade gay tivesse uma relação negativa com PDI, positiva com IDV, negativa com MAS e, quanto a UAI, eu não tenho uma hipótese inicial muito clara, não sei bem o que esperar (acredite, leitor, eu fiz as hipóteses antes de olhar para os gráficos…).

Ah sim, eu também esperaria que a felicidade dos não-gays também tivessem relações similares, mas não vou calcular estas correlações aqui porque não tenho os dados acerca dos percentuais de gays não-gays nos países.

gay_pdi gay_idv gay_mas gay_uaiBem, qual não foi minha surpresa quando vi que as correlações ficaram mais ou menos parecidas com o que eu esperava. Mais ainda, as medidas de Hofstede parecem ser razoáveis indicadores de valores informais (ou culturais) de uma sociedade, não?

Minha ex-aluna Charline, há algum tempo, fez-me o favor de tabular estes dados (refiro-me ao Hofstede) e devo agradecê-la por isso pois sempre que penso em estudar um problema institucional (meus leitores sabem que sou um entusiasta da história econômica tal como preconizada por Douglass North e colegas, né?), acabo usando estas variáveis para ter uma noção inicial do problema.

De qualquer forma, no post anterior, falei do porte de armas como uma proxy de liberdade individual. Sei que é polêmico, mas a intenção era mesmo chamar a atenção (a minha também) para o problema das instituições. A bem da verdade, o que está no âmago da discussão sobre bem-estar e instituições é a questão da dinâmica institucional (como as instituições mudam). Vejam o caso do casamento gay nos EUA, por exemplo. Será que estas mudanças têm a ver com valores (que não são necessariamente rígidos) de uma sociedade?

Repare como, novamente, as mesmas instituições que suportam uma liberdade econômica (como a liberdade de trocas voluntárias que é, essencialmente, uma dimensão individualista e que requer confiança – trust – entre as partes) também suportam a felicidade da turma LGBT. Suspeito, cada vez mais, que os maiores entusiastas do liberalismo ainda não saíram do armário. Será que existe uma discriminação de gays coletivistas contra gays liberais? Eu tenho um palpite, mas vamos deixar para outro dia.

p.s. Nos gráficos, o “humank_2010”  é uma medida de capital humano (educação, para os leigos…). Quanto maior o tamanho da bolinha, maior o nível de capital humano do país.

Liberdade nos EUA, impostos no Brasil e gente que só pensa em populismo…

Não se trata apenas da liberdade econômica, mas da liberdade em seu conceito mais amplo. A iniciativa é ótima e foi pouco divulgada no Brasil (as usual…), mas não apenas vale citá-la como também adaptá-la para verificar nossa baixíssima liberdade econômica, vítima, inclusive, de políticas sem sentido algum, mas com um apelo populista enorme.

Por falar nisso, lembrando do bom lembrete do Ronald Hillbrecht, eis uma campanha cujo custo marginal é praticamente zero e o benefício marginal é positivo: o abaixo-assinado por menos impostos e mais eficiência no Brasil. Não, não é uma campanha liberal. O movimento popular que endossa o abaixo-assinado tem o – sempre elogiado pelo sr. da Silva – Delfim Netto, o heterodoxo Nakano e o liberal Rabello de Castro.

Cotas e a economia

Na verdade, não deixa ser um tanto vergonhoso discutir a questão das cotas. Exagerando um pouco, seria o mesmo que estabelecer reservas de leitos nos hospitais para os não-brancos, como se o direito à vida não devesse ser igual para todos.

É o mercado em funcionamento

Será uma falácia da janela quebrada? Esta fica para o Cristiano e o Igor discutirem (eu vou querer um whiskey, não um martini, ok?). Bem, vejamos:

Quer assistir TV? Só se for produção nacional, dizem os burocratas.

Obviamente a campanha defende interesses dos empresários do setor de TV a cabo. Mas é uma campanha que também atende aos interesses dos consumidores. Como resultado (indireto?) da campanha deles, sua liberdade prevalece. Saiba mais sobre isto aqui.

Há várias formas sutis de se fazer política industrial às custas de seu bolso. Também por isto vale a pena pensar no assunto.

p.s. onde estão os referendo-fanáticos nestas horas?