Aula e pesquisa

Cristiano começou uma discussão muito interessante. Erik resumiu e difundiu mais ainda o ponto. Aparentemente, é uma boa desculpa para picaretas pois qualidade de ensino e pesquisa poderiam não ser bens complementares. Também é um bom ponto para se pensar seriamente sobre o que fazem alunos e professores em faculdades.

Claro, há várias combinações. Basicamente, há alunos que só querem mesmo o diploma (se a faculdade tiver um “bom nome”) e os que querem estudar. Alunos, claro, podem ser de vários tipos, simplificadamente, bons e ruins (em termos de capital humano acumulado).

Professores, por sua vez, podem dedicar seu tempo a três atividades: pesquisa, ensino e lazer (uma quarta existe se ele trabalhar também na área burocrática). Em resumo, a lei de que o total de horas em um dia é igual a 24 implica que pesquisa + ensino + lazer (+ burocracia) = 24. Pensando-se que dormir faz parte do lazer, claro, não há como escapar: existe uma substituição entre o tempo dedicado a cada atividade. Pode-se discutir se um minuto gasto em pequisa é exatamente igual a um minuto perdido em “24 – restante”, mas isto não muda o fato de que há, de fato, um trade-off.

Uma idéia que tem me ocorrido cada vez mais ao longo destes quase 20 anos de sala de aula (isto significa que a amostra é grande, não necessariamente que eu seja um mestre do saber) é que quase tudo é sinalização. Diploma, para 100% dos alunos, é só um papel que deve significar um x% de aumento de salário segundo a carreira de alguma empresa na qual trabalha. Ou então é um sinal que, supostamente, imputa-lhe alguma competência…até a hora do processo produtivo em si.

Dar boas aulas e ser um péssimo pesquisador é uma característica comum por aí. Mais difícil é encontrar um bom professor que também seja um bom pesquisador. Geralmente, claro, maus professores que não pesquisam se acomodam em escolas de má qualidade ou saem do mercado.

Se a aula tem acréscimo desprezível no aprendizado do aluno – já que a sinalização é o jogo – então deveríamos partir para uma estratégia de ensino fortemente ligado à pesquisa, caso queiramos fazer algo de útil com os alunos. Em outras palavras, deveríamos promover uma interação dos alunos com atividades de pesquisa.

Nestas horas, eu sei, você vai me dizer: “Mas, Cláudio, e se o cara não quiser? E se ele achar que aquilo não é importante na vida dele”? Bem, então pelo menos o professor deveria se dedicar mais à pesquisa. Ao menos alguém, no todo, estaria melhorando o capital humano total da sociedade.

Há vários pontos interessantes a serem discutidos aqui.

Por exemplo, como fica a faculdade privada com seus recursos escassos? No Brasil, há poucos exemplos de faculdades privadas com esforço em pesquisa de alta qualidade – e há muitas com elevado esforço em pesquisas de baixa qualidade. O exemplo não é exclusivo do setor privado, perceba. É um fenômeno generalizado. Ainda assim, muita gente do setor privado pensa que é possível ter o melhor dos dois mundos sempre (ou chuta o balde e vende a mediocridade total).

Outro ponto, derivado da discussão do Cristiano, é como trabalhar na função de produção do ensino para tornar as atividades mais Cobb-Douglas e não tanto substitutas perfeitas (ou complementares perfeitas). Se a única coisa que acontece é alunos bons se destacarem sobre alunos ruins, então seria de se esperar que os primeiros se interessassem um pouco por pesquisa. Claro, pode-se discutir mecanismos de tentar transformar as laranjas podres em boas laranjas (isto é possível, no que tange ao ensino, mas não tenho evidências empíricas significativas).

Mais ainda, a discussão sobre pesquisa, aluno e professor passa por uma mudança na atividade didática do professor. Ao invés de se fornecer, de mão beijada, dados já deflacionados, bem-comportados, com instruções detalhadas (como a que se dá a uma criança), o correto seria alterar o foco para instruções genéricas que obrigassem os alunos a aprenderem, por conta própria, a construirem suas bases de dados.

Perguntas como: qual a melhor proxy para a demanda de moeda, qual o índice de inflação adequado neste caso, qual é a especificação funcional da demanda de moeda a ser estimada, etc, todas seriam estímulos para os bons alunos melhorarem e os maus alunos se decidirem se querem melhorar ou capitular.

Este é apenas um exemplo. Claro, há muito o que se elaborar sobre o tema. Mas acho que o Cristiano deu um chute inicial muito bom. A pelota, como dizem, está no ar.

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