Muçulmanos moderados nos EUA e percepções sobre o terrorismo

Recentemente assisti este vídeo da Prager University sobre o que muçulmanos moderados significa, do ponto-de-vista dos próprios muçulmanos. É um vídeo polêmico, mas levanta pontos interessantes para uma discussão sobre o terrorismo.

Bem, agora que você já assistiu ao vídeo, eis uma questão interessante: será que muçulmanos são idênticos em suas preferências por ataques terroristas ao redor do mundo? Esta nova pesquisa feita nos EUA – para uma amostra de muçulmanos dos EUA – ajuda a colocar as coisas em perspectiva (ainda que tenha diversos problemas metodológicos, um deles a falta de um modelo teórico, por exemplo). Resumindo a pesquisa (literalmente), temos:

Tracking Radical Opinions in Polls of U.S. Muslims
Veronika Fajmonová, Sophia Moskalenko, Clark McCauley

Abstract

This Research Note examines two telephone polls (2007, 2011) and three Internet polls (2016) to track opinions of U.S. Muslims relating to the war on terrorism. Results indicate that a small but consistent minority (five to ten percent) justify suicide bombing of civilians in defense of Islam, while those seeing the war on terrorism as a war on Islam have declined from more than half to about a third. This decline coincided with a decline in perception of discrimination against Muslims in the U.S., and correlational results confirm that perceived discrimination is one source of seeing the war on terrorism as a war on Islam. Other results from both the Pew and Internet polls show that disapproval of U.S. foreign policies affecting Muslims also contributes to seeing a war on Islam.Discussion emphasizes the value of Internet polling for tracking shifts in the opinions of U.S. Muslims, but acknowledges that polling has not yet discovered what is different about the small minority who justify suicide bombing.

Percebemos que se sentir discriminado nos EUA é uma fonte de apoio ao terrorismo por parte dos muçulmanos. O que é se sentir discriminado, contudo, não é algo tão simples de se entender.

Afinal, um ponto importante que se depreende do vídeo é saber se os muçulmanos desejam ser vistos como parte de uma nova sociedade, preservando alguns valores, mas tolerando (ou até assimilando parte de) outros valores ou, por outro lado, se desembarcaram nos EUA dispostos a impor seus valores religiosos a outros, usando a força se necessário.

Neste sentido, o artigo citado aponta para a importância de se entender bem as preferências de um grupo de imigrantes. Querem ser aceitos mantendo seus valores – mas sem obrigar outros a seguí-los? – ou querem impor seus valores na sociedade que lhes recebe?

A virtude da sociedade norte-americana tem sido, ao longo dos séculos, resolver este dilema de forma pacífica (no cômputo geral da história do país, creio que soluções pacíficas ganham, a despeito de conflitos aqui e acolá).

Ah sim, economia do terrorismo é um campo de pesquisa importante (faça uma busca no google) e que vale a pena ser explorado.

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Timeo hominem unius libri? Econometria aplicada a caminho…

Latim?

Expressão de São Tomás de Aquino, eu sei. Significa que um sujeito que conhece muito de um tema é um adversário perigoso. Alguns pensam, incorretamente, que a frase do grande filósofo diz respeito ao livro e, vejam só, saem por aí dizendo que basta ler um único livro para entender do tema.

Os maiores amigos da interpretação equivocada da frase de São Tomás são, paradoxalmente, os educadores (ou, como adoram os supostos jornalistas: os “supostos educadores”). Afinal, como não existe almoço grátis, comprar livro significa diminuir o retorno dos acionistas ou gastar menor em campanhas eleitorais para a reitoria.

De fato, eu concordo que ler 200 livros sobre o mesmo tema é bom, mas demanda muito tempo. Mas eu acredito que o sujeito tem capacidade de saber – melhor do que eu – como alocar seu tempo. Tanto isto é verdade que, quando ele erra na alocação, ele possui inteligência suficiente para criar as desculpas as mais sofisticadas que você já ouviu. Experimente com um aluno qualquer um dia destes: enquanto o povo diz que ele é um coitado burrinho que não consegue se organizar, o mesmo inventa a desculpa mais mirabolante do mundo para justificar sua procrastinação.

Então, no final das contas, cada um sabe o que é melhor para si e não adianta ignorarmos isso. O aprendizado não parte apenas um único livro e o número ótimo de livros depende das preferências do indivíduo e de sua restrição.

Onde estamos? Para onde vamos?

Por que isso tudo? Pelo simples fato de que eu estava lendo dois ótimos livros de Econometria, em busca de algumas explicações sobre estas medidas de outlierspontos influentes. Nunca me aprofundei nisto e sei que econometristas meteram a mão nesta cumbuca há tempos. Assim, para o R, por exemplo, Fox & Weisberg (2011) implementaram várias destas medidas no pacote car. Então, este é um aspecto positivo da tecnologia: temos vários testes e critérios prontos para serem usados.

Entretanto, quando leio Maddala & Lahiri (2009), vejo que estas medidas devem ser vistas com muito cuidado, senão descartadas. Na verdade, em edições anteriores, Maddala já alertava para o fato e isto não mudou nas novas edições em co-autoria com Lahiri.

Ao ler apenas um livro – e ambos são excelentes – você fica com a impressão de que é só sair calculando medidas e critérios. Mas o outro, mais apropriado para o estudante de Econometria, alerta para os problemas no uso indiscriminado de critérios e medidas (quando não aponta erros nos mesmos).

Então, no final do dia, você tem que ler mesmo. Não tem jeito. Tem que ler e ler vários livros, artigos, etc. Não há como ter a produtividade chinesa com elevada qualidade e no patamar necessário para tirarmos este país da lama (ou sua empresa, ou apenas sua vida) sem ler muito.

Dá um olhada no Maddala & Lahiri (2009), no capítulo 10, especificamente. Fox & Weisberg (2011), por sua vez, trata das medidas no capítulo 6. Os dois livros se complementam, mas eu não saberia dos problemas em algumas medidas se não lesse o primeiro.

Dando tempo, eu mostro um exemplo com pontos claramente fora da amostra (influentes? Outliers?) ainda hoje. Já estou olhando para os dados há algum tempo e eles prometem.

Eu acho que vou ler mais este livro de Econometria…