Leo não se informou bem sobre chatos

Afinal, ele me conhece.

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História Econômica – O evento em que não estive (infelizmente)

Gostaria muito de ter encontrado alguns amigos lá (vários apresentadores), mas não deu. De qualquer forma, eis os artigos deles (dica do Leo Monasterio).

O que fazer com os imigrantes? Alguns pontos sobre o recente episódio de Roraima

Texto didático para uso em aula que reproduzo aqui. 

Excelente oportunidade para falar de imigração. Os comentários de Joel Pinheiro neste vídeo são oportunos. Meus pensamentos iniciais sobre o tema:

1. O aumento de indivíduos em um território gera uma tensão acerca dos direitos de propriedade. Quais “direitos” e quais “propriedades”? Por exemplo, o direito à propriedade do uso da mesma rua que o brasileiro, do serviço público de saúde, do serviço de segurança pública, etc. Veremos mais à frente sobre isso no curso, mas este choque de demanda gera uma natural demanda por regulação dos direitos (e.g., qualquer venezuelano pode? Mesmo criminosos, ainda que refugiados? Apenas adultos? E assim por diante).

2. Como já disse McCloskey, em seu antigo livro-texto de Teoria dos Preços (curso, hoje, mais conhecido como Microeconomia), a ausência de uma estrutura legal definidora dos direitos de propriedade numa América pré-ingleses, rica em diversidade de povos (e, portanto, de culturas), pode ser explicada pelo mesmo motivo: a baixa densidade demográfica não enseja uma criação de supervisão formal dos direitos de propriedade (os próprios interessados, informalmente, podem resolver isso).

3. A imigração é boa para um país? Não responderei. Mas qualquer pista sobre possíveis respostas cientificamente sólidas pode ser encontrada nas breves postagens do prof. Monasterio.

3.1. Diga-se de passagem, nem sempre imigrantes são inicialmente bem recebidos nos países em que chegam. A imigração japonesa, em seu início, foi alvo de campanhas negativas (veja, por exemplo, os escritos de Oliveira Vianna (conheça um pouco mais sobre ele aqui)) e o Imigração Japonesa nas Revistas Ilustradas de Marcia Y. Takeuchi (EDUSP, 2016) é uma referência interessante (e divertida, caso você goste de caricaturas) que ilustra um pouco deste aspecto.

4. Obviamente, as questões relativas à imigração envolvem sempre um componente de xenofobia, como transparece no item anterior e muitas vezes há um certo temor da violência potencial dos “novos residentes”. A relação entre imigração e terrorismo existe? Tal e qual o câncer de pulmão e a caixa de fósforos, a causalidade não é tão óbvia (onde estão os cigarros, cara-pálida?).

Por exemplo, este estudo levanta a hipótese de que a marginalização do imigrante pode acentuar aspectos do comportamento radical que induzem ao terrorismo. Já este outro mostra que, de 1975 a 2015, uma fração ínfima (0.000038%) dos imigrantes ilegais nos EUA se voltaram para atividades terroristas. Para você ter uma ideia do número, cito textualmente:

Only 10 illegal immigrants became terrorists, a minuscule 0.000038 percent of the 26.5 million who entered from 1975 through 2015 as summarized in Table 7. In other words, 2.65 million illegal immigrants entered the United States for each one who ended up being a terrorist.

Como se percebe, imigração em qualquer país geralmente ocorre sob por controles legais de fronteiras (hoje em dia mais sofisticados do que nunca).

Discussões sobre casos particulares de imigrantes (eu-conheço-um-amigo-que-foi-espancado-por-um-XX) não podem servir de guia para uma discussão séria, científica, acadêmica (você não está mais no colégio, estamos falando de Ciência…). Ainda que estudos de casos sejam importantes, há uma metodologia científica a ser respeitada. O mesmo vale para estudos outros que não estudos de casos, claro.

Repito: (i) é importante pensar na demanda por direitos de propriedade formalizados que um choque demográfico induz, (ii) é importante pensar na demanda e oferta por imigrantes (e também na demanda e oferta por migração), (iii) a relação entre imigrantes e terrorismo não pode ser pensada de forma ingênua, irresponsável (ou de ambas as formas) como uma correlação simplista.

 

Sobre o controle social da mídia, “fake news”, etc

É um interêsse essencial do Estado e da nação evitar que o povo caia nas mãos de maus educadores, ignorantes e mal intencionados. É, por isso, dever do Govêrno velar pela educação do povo e impedir que o mesmo tome orientação errada, fiscalizando a atuação da imprensa em particular, pois a sua influência sôbre o espírito público é a mais forte e a mais penetrante de tôdas, desde que a sua ação não é transitória mas contínua.

O trecho acima poderia estar em alguns programas de governo de candidatos que enamoram-se – e querem que você também se enamore – de variados graus de controle da mídia, seja com argumentos como os de “fake news” (seja lá o que isso for) ou, como sempre vemos no Brasil, por meio de belos e vazios discursos sobre “crimes contra honra”, etc.

A ideia, claro, é sempre cercear a liberdade de expressão de outros em prol da própria.

A propósito, o trecho acima está na p.159 de um livro traduzido no Brasil pela Editora Moraes, em 1983. Um livro cuja tradução do título é “Minha Luta”, de um famoso autor: Adolf Hitler.

Pois é, frases bonitas (para alguns) surgem e se multiplicam em programas de governo. Eventualmente, podem ser vazias o suficiente para serem usadas por qualquer candidato mas, claro, também podem representar uma sinceridade perigosa.

O número ótimo de chibatadas

Coincidentemente após terminar o Escravos de Leandro Narloch – livro que recomendo, inclusive – eu me deparo com a informação de que, em Richmond (EUA), a racionalidade econômica era importante não apenas no sentido de se preservar o escravo (pois era um ativo), mas também em outro aspecto do negócio: as chibatadas.

Pois é: não existe chibatada grátis. Excesso de violência tem um preço.

Mamão frito, com sal, etc

Lembro-me da minha falecida avó contar que, ao chegar a este país, obviamente, não encontrou a gastronomia que havia no Japão. Um dos improvisos era fritar mamão, muito provavelmente porque não sabiam como comer a fruta.

Sempre achei pitoresca esta história e nunca imaginei que outros imigrantes japoneses passassem por isso. Bem, isso até ler Nomio (2007), em sua biografia romanceada de Shuhei Uetsuka (sim, o homem por trás do famoso viaduto).

Não tinham apetite, colhiam melancia selvagem, derrubavam mamão verde, colocavam sal e comiam. [Nomio, Toru. “O homem da mata selvagem: saga do pai da imigração japonesa, Shuhei Uetsuka”. Editora Jornalística Inião Nikkei, 2007, p.44]

E pensar que hoje a turma curte um picolé coreano de melão lá na Liberdade…

p.s. fugimos do tema central do blog, mas foi irresistível…

Urnas eletrônicas, eleitores identificados, o que acontece?

O mesmo que em democracias maduras. Digo, “maduras”. Claro, isso tudo começou antes, em artigo que nunca encantou a mídia brasileira (já foi publicado, mas uma versão aberta está aqui), co-autorado por um ex-economista que trabalhou para Chavez e, depois, renegou o ditador e se estabeleceu na academia norte-americana.

A perda de privacidade pelo Facebook é consentida (quando não é roubada), mas a perda de privacidade pela ação estatal (que também é roubada mas, bem, “a Constituição foi rasgada e você nem se importou”) tem consequências bem palpáveis…

Incentivos importam – o caso dos pseudônimos

Brasil, anos 20, Rio de Janeiro, meio jornalístico. Ufa! Mas aí está o cenário. Determinada revista que vivia de humor, resolve pagar por contribuição. Envie uma piada e, se aceita, você ganha uma grana. Ou:

“(…) por contribuição publicada pagará, a título de animação, três mil-réis”.

Incentivos importam, não?

“Alguns conseguiam faturar bastante com o esquema, recorrendo a uma ampla variedade de pseudônimos”.

Os trechos são da p.115 de “Entre sem bater”, de Claudio Figueiredo, editado por Casa da Palavra e lançado em 2012. É, é o mesmo livro sobre a vida do Barão de Itararé que citei antes.

Olavo Bilac já sabia que existiria o ‘PowerPoint’

“Em 1907, escrevendo na revista Kosmos, o poeta Olavo Bilac (…) insinuava que o fenômeno [“das conferências”] dava sinais de esgotamento e queixava-se de palestras animadas por música, canto e até por projeções de lanterna mágica”. [Figueiredo, Cláudio. “Entre sem bater: a vida de Apparicio Torelly” Casa da Palavra, 2012, p. 80]

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Eu avisei! Agora vou criar meu próprio Talk Show: “Bilac News”.

A timidez que afunda

Sobre alunos que adoram se esconder em sua timidez para sempre…

I got a few chances to see him in action. After observing one class, when I was visiting at George Mason in the 1980s, I heard a student talking excitedly to a group of faculty in the hallway. “Dr. Tullock is mean to all the other students, but he’s always nice to me. He doesn’t correct me or ask me questions.” I stared at the others,and they all shook their heads: “No! You’re doomed! If he’s nice to you, he thinks you aren’t worth fighting with. You have to go back and challenge him!” Within two weeks, the student reported back that Gordon was now insulting and berating her on a regular basis. Disaster averted.

Em contraposição, lembro-me sempre de um aluno – vamos chamá-lo de “Lucas” para preservar sua identidade verdadeira – cujas piadas chamavam a atenção da turma pela sua clara identificação com o humor dos economistas. Curiosamente, ele migraria para a Matemática no mestrado…

Keynesianismo, demanda efetiva e Charlie Brown

“(…) em 1950, os americanos estavam comprando 75 por cento dos aparelhos fabricados no mundo inteiro! A primeira década do casamento dos Schulz aconteceu durante ‘uma das maiores farras de consumo da História’. Com o PIB dos Estados Unidos dobrando entre 1940 e 1960, aquele era, como a publicidade não se cansava de lembrar a todos, ‘um tempo para comprar, comprar, comprar’. E não só para o próprio prazer, mas para o bem geral da nação. Uma sociedade aprovadora com a Depressão, temendo, nos anos pós-guerra, que qualquer queda na demanda pudesse desaquecer a economia – de onde nasce a ênfase na crença de que os gastos com a Guerra Fria poderiam fazer muito para manter a prosperidade da nação – via investimentos em bens de consumo como manifestações de virtuosa confiança”. [Michaelis, D. (2015). Schulz & Peanuts – a biografia do criador do Snoopy, Seoman, 2015, p.314]

Notas: (1) “aparelhos fabricados no mundo inteiro”, no caso, são bens de consumo duráveis. (2) a descrição mostra a importância dos bens de consumo duráveis, justamnte os que são geralmente entendidos de forma incorreta como “consumo agregado” e não “investimento privado agregado” por conta da confusão entre a compra do bem (investimento) e seu usufruto (consumo).