A importância das preferências reveladas – Howard, o Pato

Um dos personagens mais bizarros da Marvel Comics é Howard, o Pato. Ele serve para explicar, mais uma vez, a importância – e a dificuldade – de se considerar corretamente as preferências dos consumidores.

“- Claro”, você dirá, “isto é fácil”.

Contudo, estamos falando do lançamento da revista em 1976. Howard havia aparecido algum tempo antes, em outras histórias e estava há algum tempo fora do radar dos leitores de quadrinhos. Quando do lançamento da revista ocorreu o seguinte:

[Os consumidores] (…) corriam para as bancas e compravam todos os exemplares da edição – às vezes, até antes de estarem expostos”. [Sean, Howe. Marvel Comics: A História Secreta, Leya, 2013, p.191]

Quanto à editora, segundo depoimento no mesmo livro:

Eu falei: ‘Qual é a desse pato? É só mais um personagem tipo Disney. Não vai dar certo’, disse o diretor de circulação da Marvel, Ed Shukin, à New Yorker. ‘Por isso só imprimimos 275 mil. Na época, eu ainda não havia lido um exemplar de Howard. Foi um erro. Subestimei o patinho.

Os especuladores, não. Em questão de semanas, o gibi estava sendo vendido a quase dez vezes o preço de capa – se você encontrasse alguém a fim de vender. [Sean, Howe. Marvel Comics: A História Secreta, Leya, 2013, p.191]

Ou seja, a preferência revelada não é desprezível. A narrativa do livro segue mostrando que a Marvel rapidamente percebeu o valor do pato e iniciou uma agressiva campanha de propaganda.

Ah sim, não, eu nunca li uma história do patinho. ^_^

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A economia de Snoopy

Em 1902, William Randolph Hearst, o extravagante proprietário do New York Morning Journal, com 33 anos de idade e biótipo um pouco caricatural – homem alto, voz fina – teve a engenhosa idéia de aumentar a receita líquida ao vender o direito de publicar suas tiras em quadrinhos a donos de outros jornais, em uma centena de outras cidades, simultaneamente. [Michaelis, D. “Schulz e Peanuts – a biografia do criador do Snoopy”, Seoman, São Paulo, 2015]

E assim começa mais uma leitura que me levará de volta à economia dos gibis…

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Sábados Econômicos

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Sábados que se iniciam com um almoço potencial, passam por uma descoberta no sebo mais próximo e terminam com uma ótima conversa no almoço efetivo. Claro, o hiato do almoço aí inclui os ausentes porque nem sempre o almoço opera em sua capacidade plena devido aos ciclos de agendas individuais (o almoço tem microfundamentos, né?).

De estereótipos perpetuados por sociólogos: o caso do mineirinho pão-duro

Poupar é o caminho!

Poupar é o caminho, uai!

Minas, por exemplo (…) com uma população superior à de vários Estados europeus. Neste Estado, é dominadoramente abundante o tipo do ‘rentista’. Encontramos ali, talvez, o nosso paraíso do Pré-capitalismo, portanto.

No ponto de vista da mentalidade econômica, o mineiro pode ser considerado o francês do Brasil: poupado, seguro, extremamente parcimonioso, desprovido do gosto da especulação e da aventura, principalmente no campo da indústria. Tem um padrão de viver modesto, mesmo quando poderia deixar de tê-lo. Carece visivelmente da vocação para nababo – tão freqüente entre os paulistas. [Vianna, O. “História Social da Economia Capitalista no Brasil, vol.2, Ed. Itatiaia/UFF, 1987, p.66]

Assim, paulistas têm vidas nababescas e mineiros são pão-duros. Experimente encontrar um rico mineiro na zona sul de Belo Horizonte. Ele não é muito diferente do paulista nababesco.

Agora, não dá para não parar de rir com a noção de que Minas Gerais é a terra dos rentistas. ^_^

Pombal e sua novilíngua

Imensas as dificuldades do governo: mal começadas as obras acentua-se a denominada ‘crise do Brasil’ (1760), defluente do declínio da produção aurífera. Ademais, a guerra com a Espanha (1762).

Para prover despesas da reconstrução, foi imposto ao Brasil um tributo extraordinário, sob o impróprio nome de donativo ou ‘subsídio voluntário’. [Avellar, Hélio de A. História administrativa do Brasil; a administração pombalina, 2.ed, UnB/FUNCEP, 1983, p.16]

Engraçadinho ele, né? Para quem não sabe o que é novilíngua, clicar aqui.

Um livro nem sempre é um livro

Qu20170118_091325-001ando estava na graduação, sofri muito com microeconomia. Para tentar me sair bem, comprei o famoso livro de Henderson & Quandt, que existia em português. Cheguei até a fazer uma errata do mesmo (acho que ainda tenho este documento…). Com o passar dos anos, consegui comprar a terceira edição do livro em inglês (em um sebo), já que a nacional era, salvo engano, a tradução da segunda edição norte-americana. Um belo dia, um antigo professor meu resolveu me presentear e me deu a primeira edição norte-americana do mesmo livro.

Claro que o valor emocional desta última é imenso para mim e é por isso que eu mantenho os dois livros em minha biblioteca. Um, por saudosismo (e por ser uma fonte útil para meu trabalho) e outro porque é um presente de alguém que foi extremamente importante em minha formação.

Pois é, há livros e livros. ^_^

Um exemplo bem simples de como aprender a analisar dados em R

É um blog cheio de propaganda, mas vale a pena. Didático e simples. A dica é: copie e cole os comandos e replique lendo o texto. Depois, pense no que você pode fazer com isso (ou seja, com os dados que te interessam). Pense também nas limitações do exemplo (o que poderia ser feito para minimizar seu trabalho).

R é tudo, heim? ^_^

Melhor pensamento sobre o excedente do consumidor que já li

O excedente do consumidor é um conceito ardiloso. [Bilas, R.A. Teoria Microeconômica, 12a ed brasileira (2a ed norte-americana), Forense Universitária, 1991, p.122]

Não cai do céu a afirmação. Vem após algumas páginas de demonstrações em um nível simples para intermediário. Outro que já fez crítica similar – mas com uma proposta original – foi o David Friedman, no seu ótimo Hidden Order.

Mas é mesmo um conceito ardiloso. Todos os que já estudaram um pouco mais de microeconomia já tiveram que bater a cabeça neste muro.

Frases para não se esquecer nunca

Uma sociedade economicamente racional irá privatizar um recurso a partir do momento em que a manutenção de limites custar menos do que o desperdício decorrente do uso excessivo do recurso. [Cooter & Ulen, Análise Econômica do Direito, 2010, p.164]

Não é ótima? Nada de pregações ideológicas como “privatiza porque o Estado é ruim” ou “coletiviza porque o liberal é burguês”. Nada disto. A frase, como destacam os autores, dá-nos proposições testáveis. Vai lá no livro ler.

Incentivos importam? O caos microeconômico criado pelo coletivismo soviético

Eis um artigo mais antigo, mas importante, sobre o problema dos anticomuns (o problema oposto ao famoso problema dos comuns). O livro de Cooter & Ulen (acabei de falar dele no post anterior) descreve o exemplo interessante dos apartamentos que, após a Revolução Russa, foram divididos entre várias famílias (sabe aquela história de que “se o socialismo for implantado no Brasil, você terá que dividir seu apartamento”? Pois é, ela não é uma ficção…).

Como era feita a divisão de um apartamento? Pode-se esperar que as famílias dividam os cômodos e, de comum acordo, compartilhem o(s) banheiro(s) e cozinha. Bem, aí vem o problema.

Quando o comunismo acabou, essas famílias achavam que tinham direitos de propriedade contínuos a suas peças individuais e aos espaços comuns. Suponha que, se transformado num imóvel para um único proprietário, o valor do apartmento – ou ‘kommunalka’, como era chamado – seria de US$ 500 mil. Suponha que atualmente haja quatro famílias de inquilinos e, cada uma ocupe uma peça e compartilhe o uso dos espaços comuns. Vendidos separadamente, os interesses dos inquilinos alcançariam, segundo nossa suposição, U$ 25 mil – ou US$ 100 mil no total. Converter a ‘kommunalka’ num único apartamento criaria US$ 400 mil em valor. Mas ocorreu frequentemente que os custos da combinação dos interesses individuais dos inquilinos eram tão grandes que impediam o uso mais valioso do recurso. [Cooter & Ulen, Análise Econômica do Direito, 2010, p.139]

Esta é uma das interessantes distorções microeconômicas geradas pelo modelo econômico socialista soviético. Repare que não é um problema exclusivo da ex-URSS. Sempre que há excesso de direitos de propriedade (no sentido de que há ‘superproprietarização’, ou seja, há um número excessivo de direitos de propriedade em relação ao seu ótimo), o problema aparece. Já li em algum lugar que este é um problema atual da indústria de smartphones, na qual se tenta patentear até o deslizar dos dedos sobre a tela.

 

Taleb é muito “pop” mas de pouco conteúdo?

Neste ótimo blog sobre o R (link direto ao post), uma crítica ao Nassim Taleb, já ao final do texto:

Overall, I don’t like Taleb’s The Black Swan. While some of what it has to say (the fallacy of seeing things as a controlled dice game) is very sound, it is riddled with straw man propaganda techniques when he gets on to his critique of statistics. I can only presume he received some exceptionally bad, old fashioned teaching of economics, econometrics and statistics, and didn’t take the trouble to look beyond to the amazing things that have been going on in this field. He writes as though no-one before him had noticed non-normal distributions or outliers. See my answer on Cross-Validated.

A sequência do debate no Cross-Validated é interessante. Aliás, quem tomou o lugar de Taleb na lista dos “economistas pop” é o Thomas Piketty que, talvez, tenha até mais produção científica relevante do que ele.

Novamente…o p-valor

Foi sem querer, galera!

Foi sem querer, galera!

Por indicação de um leitor, fui parar neste blog e, de lá, encontrei – e estou acabando de ler – este excelente texto sobre o p-valor. É, provavelmente, o mais didático texto escrito sobre o tema e mostra que muitos seguem cometendo erros que podem ser facilmente corrigidos. Nós, em Ciência Econômica, temos que, no mínimo, ter mais cuidado (eu, obviamente, incluso) ao falar de inferências.

A bem da verdade, não se pode ser muito fanático nestas coisas. Pesquisa é algo continuamente em desenvolvimento e, sendo popperiano, sempre há algo a ser refutado e revisado no futuro (o belo exemplo da teoria do consumo sempre me vem à mente nestas horas). O problema do p-valor (ou da má interpretação do p-valor) só reforça algo que sempre digo – e que nem sempre é seguido por alunos – sobre a revisão da literatura: ela é a parte mais importante da pesquisa. Caso contrário, você só fez um exercício de, digamos, estatística (ou de econometria), não uma pesquisa (aliás, pense no significado prático da palavra “pesquisa”).

Vou acabar de ler o texto sobre o p-valor.

Salário-eficiência em livro-texto brasileiro na década de 70?

Simonsen, do post anterior, jogando o insight:

Em segundo lugar, como observa Liebenstein, ainda que a oferta de mão-de-obra seja superabundante e que os salários sejam flexíveis, pode não interessar aos empresários do setor capitalista rebaixar os salários aquém de certo nível. Com efeito, há um mínimo calórico de subsistência, e um trabalhador excessivamente mal pago torna-se fraco, doente e, por isso, ineficiente. Como assinala Liebenstein, pelo menos até certo ponto é de se presumir que exista uma correlação positiva entre o salário e a eficiência do empregado. [Simonsen, M.H. Macroeconomia, 2a ed., v.2, p.243, APEC, 1974]

Na minha graduação, alguns diziam que Simonsen era um “malvado ortodoxo” e que não deveríamos nós, alunos, levar muito a sério o que ele dizia porque ele só “fazia matemática, não economia”. Parece até piada, né?

Em uma época na qual você não tinha muitos livros-texto de macroeconomia, o de Simonsen surpreende por seu elevado nível não apenas teórico como também pelos exemplos, que não se limitavam à economia norte-americana.

Entendendo hipóteses dos modelos: o caso da oferta de trabalho totalmente inelástica

A hipótese de uma oferta de mão-de-obra absolutamente rígida é a caricatura de uma sociedade onde os indivíduos não dispusessem nem de amigos nem de familiares, não dispondo senão de duas alternativas: trabalhar ou morrer de fome. No mundo real há a alternativa de o indívíduo se tornar dependente; isso pode tolher consideravelmente a liberdade do homem ou da mulher, mas representa uma alternativa de sobrevivência. Na medida em qeu se considera a família, e não o indivíduo, como a unidade econômica, chega-se à conclusão de que a oferta de trabalho pode apresentar razoável coeficiente de elasticidade pela variação do número de pessoas ativas dentro da família. [Simonsen, M.H. Macroeconomia, APEC, Vol2. 2a ed, 1974, p. 241]

Observações:

  1. Não descobri isto lendo 140 caracteres na tela do meu celular, mas sim em um livro. Logo, leitores-estudantes, leiam livros, pelo amor de Deus. Deixem de preguiça e este papo de que “ah, tá tudo salvo no meu celular”. Salvar arquivos não é sinônimo de estudo.
  2. Nunca havia lido uma explicação tão singela e, ao mesmo tempo tão inteligente acerca da hipótese de oferta de trabalho inelástica. Simonsen tinha o dom, realmente.
  3. Há uma implicação interessante, portanto: se você trabalha com um modelo em que as unidades de mensuração que são households (“famílias”, numa tradução aproximada), então eu esperaria uma oferta de trabalho (por hipótese e/ou estimada) menos inelástica do que uma oferta de trabalho individual. Isto é, digamos que estimei uma oferta de trabalho para uma família e a elasticidade-preço dela (no caso, o preço da mão-de-obra, né?) for de, digamos, 0.2, então eu diria que a elasticidade da oferta de trabalho do indivíduo seria, no máximo, 0.2.
  4. Outra forma de dizer a mesma coisa é pensar no insight básico dos livros-texto de microeconomia: a oferta de uma firma é sempre mais inelástica do que a oferta de mercado para o produto desta mesma firma. É exatamente o que Simonsen explicou de maneira brilhante lá no alto.
  5. Logo, trabalhar com modelos em que a unidade básica é uma família, não é a mesma coisa de se trabalhar com “n vezes o mesmo indivíduo”, exceto sob esta hipótese explicitada. Afinal, como bem sabemos desde os trabalhos de Gary Becker, o modelo de household capta a diversidade de uma família (as famosas questões: quem lava os pratos e quem trabalha, etc). Ok, como eu disse, você pode fazer a hipótese de que a família é simplesmente uma replicação do indivíduo, mas isso seria uma simplificação desnescessária (veja o ponto 3: dali temos uma riqueza maior de análise, não?).

Ok, eu posso ter me entusiasmado um pouco, mas didaticamente, acho que Simonsen foi brilhante. Muitos passam por esta observação sem captar as sutilezas e depois, lá na frente, ficam confusos na interpretação do modelo. É sobre isto que estou tentando explicar: Simonsen foi um dos melhores economistas em explicar intuições de modelos.