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Filhinhos de papai na ponta do tráfico?

Não é à toa que essa cena, do filme Tropa de Elite, é uma das que mais chocam os espectadores. Ela toca numa questão crucial do tráfico: a taxa de responsabilidade dos consumidores. Uma pesquisa divulgada na semana passada pela Fundação Getúlio Vargas aponta o dedo para uma parcela da elite. Maconha e cocaína no Brasil são bens de luxo, para a população com maior poder aquisitivo. De acordo com o levantamento, o consumidor-padrão de drogas no Brasil é homem, tem entre 20 e 29 anos, é da classe média alta e mora com os pais. Gasta, em média, R$ 45 por mês com drogas. “Estatisticamente, a visão de Tropa de Elite é correta: quem financia o tráfico é a classe média”, diz o economista Marcelo Neri, coordenador da pesquisa. (…)”

Então as drogas e os meninos da classe média estão, digamos, intimamente relacionados, não é? Bem, isto explica tanta dissonância cognitiva entre eles após verem o filme: não conseguem assumir sua parcela de culpa pela morte de outrem, tão distante, lá na favela…uma estatística, simplesmente, né? Triste vida esta. Talvez por isto alguns espanquem faxineiras e torçam para seus papais os tirarem da delegacia antes da derradeira hora…

Agora, vejamos o lado científico disto. Para mim, a melhor coisa de “Tropa de Elite” foi, digamos, fazer o modelo de “equilíbrio geral” do tráfico de drogas ilegais. Antes, é verdade, eu pensava no tráfico como um mercado no qual, sim, a violência diminuiria em caso de liberação, por conta da menor necessidade de um consumidor de drogas, que não mais precisaria roubar e matar para manter seu vício. Agora, por outro lado, vejo que há um efeito indireto: a redução de mortes no mercado de insumos da droga.

Em outras palavras, a pergunta relevante, agora, é: caso o mercado de drogas fosse liberado (suponha que sejam seguidas as tradicionais sugestões de Gary Becker e Milton Friedman), qual seria o ganho de bem-estar para a sociedade derivado da diminuição da violência entre os meninos da classe média e entre as crianças da favela? Provavelmente o efeito seja até maior e a defesa deste arranjo para o mercado de drogas fique fortalecida. Mas este é um tema de pesquisa no qual nunca me aventurei.