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Jovem mamador

Direto do Erik:

Dinheiro público

Ontem participei de uma banca de monografia onde a aluna analisou o programa “Jovem Empreendedor”. Sua principal conclusão foi: o programa, que em quatro anos atendeu 10 mil jovens, conseguiu formar apenas 215 empreendedores. Desses 215, uma dezena conseguiu levar o negócio adiante. Logo, ineficiência plena. E mais, tudo à custa de mais de meio milhão de Reais. Um membro da banca questionou: “não se prenda a essa análise fria dos dados, tente ver como o programa contribuiu para a felicidade dos 9 mil e poucos que não se tornaram empreendedores. Será que as vidas deles não melhoraram? Faça uma análise qualitativa.”

Na minha fala, entre outras coisas, retruquei: Felicidade dos jovens com mais de meio milhão de Reais dos cofres públicos?

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Atenção pessoal de Belo Horizonte, em São Paulo já é assim!

Reproduzo integralmente 

Não esqueça de levar a câmara na próxima viagem!

Começo a ler as notícias e me deparo com isso:

As placas dos veículos utilizados por vereadores em São Paulo serão trocadas para que eles não sejam atingidos pela restrição do rodízio de veículos. Segundo a Folha de S.Paulo, os parlamentares aproveitarão um privilégio concedido por norma do Conselho Nacional de Trânsito (Contran) a presidentes de Câmaras Municipais: o uso de placas diferenciadas (pretas e sem a númeração e letras tradicionais).

O vereador Adilson Amadeu (PTB) defende a medida argumentando que um parlamentar de uma cidade como São Paulo não pode “ficar podado de andar em um dia de rodízio”. Para ele, “isso (o uso de placa especial em carros parlamentares), perto dos 5,7 milhões de veículos (que circulam), é um pingo no oceano”.

 

É muita ignorância pensar que o trabalho de um vereador é mais importante para a sociedade do que o de um empresário ou o de um trabalhador da indústria, por exemplo. Seria muito bom se alguém tivesse a coragem de propor a extinção das Câmara de Vereadores de todas as cidades brasileiras. Pra que servem elas? Conheço três atribuições principais: nomear praças, criar feriados e viagar pra congressos. Tudo com o dinheiro do povo.

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O governo não-liberal aumenta o custo social?

indícios e há medidas que servirão para estudos futuros, caso sobre alguém para fazê-los. Curioso mesmo é a visão dos empresários: antes a favor, agora críticos. Nada misterioso, claro, quando se lembra que nosso país vive sob intensa atividade rent-seeking. Indícios disto não faltam.

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IPEA…

Outro dia me contaram de uns blogueiros que disseram que o que ocorreu no IPEA foi correto do ponto de vista jurídico (sempre há uma lei, certo? Lembremo-nos de Hitler…). Uma das críticas era: se gente como Giambiagi quer livre pensamento, que vá para a faculdade. O IPEA é órgão do governo.

Ok.

Então alguém me explique como seria uma faculdade regida pelo pensamento único.

É fato. A esquerda anaeróbica, aquela que vê Opus Dei até em discurso de dono de boteco é ótima para se dizer imparcial, mas é péssima na hora de sê-lo.

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Disse tudo

Uma “reforma” é uma medida de amplo alcance que consiste em remover privilégios concedidos a minorias militantes em detrimento de maiorias distraídas. Sua utilidade pode ser aferida, em geral, pela truculência e falta de decoro das minorias quando percebem que suas benesses estão ameaçadas. Por isso se dizia que as privatizações mais salutares foram as que produziram mais gás lacrimogêneo. Por isso alguns sindicalistas andaram querendo lutar jiu-jitsu com alguns parlamentares. O imposto sindical é assunto paradigmático; embora ninguém seja obrigado a filiar-se, somos todos obrigados a pagar o sindicato do mesmo jeito. Para o trabalhador, esse “imposto” custa um dia de trabalho a cada ano, capturado diretamente da folha de pagamentos. Para a empresa custa uma fração do capital (1% para empresas com capital de R$ 1,000,00) recolhidos anualmente a favor do sindicato patronal da atividade predominante da empresa.

A defesa desta odiosa sistemática repousa sobre o argumento teórico, e patético, de que todos os trabalhadores de uma categoria se beneficiam do trabalho do sindicato. Balela. A prática é que o sindicato não tem incentivos para trabalhar porque recebe do mesmo jeito. Parece óbvio, portanto, que as pessoas devem ser livres para contribuir, ou não, para os sindicatos e associações que bem entenderem, e o óbvio, às vezes, é um poderoso impulso político; ele se insinua pelas barreiras mais cerradas, e quando menos se espera, lá está ele, como neste caso, a apontar para a obsolescência da nossa organização sindical corporativista.

Mas se aceitamos o princípio segundo o qual ninguém deve ser obrigado a fazer o que faria na ausência da obrigação, e desobrigamos as pessoas de pagar pedágios para os sindicatos, inclusive os patronais, a pergunta seguinte é por que mesmo as empresas são obrigadas a fazer contribuições para o Sistema “S”. Sempre que ouço empresários exaltando o belíssimo trabalho feito nessas instituições, a pergunta que não quer calar é simples: porque então elas precisam de recursos públicos para se sustentar?

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Manchetes alternativas: Itamaraty quer ver o déficit na balança comercial crescer

Eis a nova moda de engenharia social: controlar os microfundamentos do comércio internacional.

O secretário geral do Ministério das Relações Exteriores, Samuel Pinheiro Guimarães, afirmou em seminário sobre Integração na América do Sul que as exportações e investimentos de empresas brasileiras geram “muitos ressentimentos” em países da região. “Empresas brasileiras vêm comprando empresas nesses países e a recíproca não ocorre, exceto no caso do Chile e da Colômbia”, disse ele no evento na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Quero ver aqueles “empresários” que choram a cada resultado da balança comercial e seus representantes baterem neste burocrata como bateram em Gustavo Franco por anos. Não vejo a hora de ver a coerência dos amantes do capitalismo cartorial…

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A necessidade imperiosa

Os empresários que possuem franquias dos Correios são tão importantes, mas tão importantes, que a renovação da franquia se dá por Medida Provisória. Mas, vem cá leitor, Medida Provisória não é algo importante e perigoso demais para ter seu uso avacalhado por qualquer motivo? Ou será que renovar franquias de um serviço público é algo tão urgente assim?

Eu não conheço nada do setor, não sei como o governo mede a eficiência de suas franqueadas (se é que mede…), mas creio que um pouco mais de cuidado com as leis não faz mal. Talvez o Jorge Vianna Monteiro comente isto em uma de suas próximas cartas. De minha parte, eu me espanto com a necessidade imperiosa que o Poder Imperial Executivo diz haver para sua concorrência com estas “centenas” de “poderosas” concorrentes que os Correios alegam ter. Eu, se no CADE estivesse, estaria com as mãos coçando…

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A nova era das parcerias público-privadas

SÃO PAULO – Sem ter de desembolsar um tostão para adquirir formalmente a BRA, a OceanAir costurou um acordo que fará com que ela herde quase toda a operação da empresa. A companhia dos irmãos Folegatti parou de voar na quarta-feira da semana passada (dia 7) com uma dívida de US$ 100 milhões e 70 mil bilhetes em aberto.O acordo anunciado ontem pelo presidente da OceanAir, German Efromovich, prevê a transferência da frota da BRA para a OceanAir. Em troca, atendendo a um apelo do governo, a OceanAir bancará as operações de fretamento da BRA nos próximos 120 dias. Assim como fez no fim de semana, a OceanAir vai arcar com custos de combustível e tarifas aeroportuárias para que sejam realizadas viagens com aviões e tripulação da BRA, em vôos fretados que estavam programados antes da quebra da empresa.

Se eu entendi bem, este é o país “neoliberal” no qual o mercado rege tudo? A notícia toda está aqui. Ou é um país no qual o atendimento da vontade real é recompensada com um mimo? Ou há algo a mais no fato que não foi noticiado?

bolivarianismo · brasil · esquerda · PT · rent-seeking · socialismo

Great Moments of the Brazilian Left

A apresentação da denúncia na Itália não mata todas as curiosidades. Fica no ar, por exemplo, a atitude que deverá tomar a Polícia Federal brasileira caso a peça acusatória cite os nomes (ou pseudônimos, em alguns casos) de integrantes seus que usaram suas franquias institucionais para uma operação extra, remunerada, para interferir em uma disputa comercial. Mais ou menos como o árbitro de um jogo de futebol que mata a bola no peito e chuta para o gol de um dos times.

A tradutora/intérprete de Bernardini, Luciane Araújo, citou nomes incompletos de gente da PF como R. Menezes, Lessa, Godoy e Geraldo. Outros personagens mencionados nas conversas: o presidente da Previ (Fundo de Pensão do Banco do Brasil), Sérgio Rosa; o ex-ministro Luiz Gushiken; o jornalista Paulo Henrique Amorim; o atual presidente da Brasil Telecom, Ricardo Knoepfelmacher; parlamentares petistas, como Ideli Salvati e até o juiz que cuidou do processo do Opportunity em Cayman, Kellog.

Boa parte desse grupo tinha por objetivo unicamente derrubar o obstáculo que os separava do comando da Brasil Telecom: o banqueiro Daniel Dantas. A meta foi alcançada quando o Citigroup, finalmente, retirou-o da gerência de seus fundos de investimento. Juntos, a multinacional italiana, o grande banco americano, os fundos de pensão, a Polícia Federal e uma das principais células do partido do governo, o PT, venceram a partida. Quanto custou, é possível que a justiça italiana responda em breve.

Clique no trecho acima para ler tudo.

Desenvolvimento econômico · Mancur Olson · rent-seeking

Sindicatos e economia

Suponha um sindicato com quatro ou cinco membros. Suponha que um dos membros tenha falido. Você esperaria que:

a) o sindicato defendesse o interesse do falido junto ao governo, por exemplo, pedindo subídios;

b) o sindicato ficasse caladinho

Agora leia esta notícia. Mancur Olson já falou sobre o papel deletério dos sindicatos no desenvolvimento econômico. Mas, normalmente, as pessoas pensam em sindicatos maiores e no efeito dos lobbies que distorcem alocações de recursos. É verdade que isto é uma correta consequência da teoria olsoniana. Mas também é previsível que um sindicato que represente um cartel tenha os mesmos problemas de ação coletiva que um cartel. Ou seja, se um cair fora, a briga é para ocupar a fatia de mercado correspondente.

E o pessoal me fala de função “social” de grupos. Valha-me São Jorge…Quosque tandem, Catilina….abutere…

ação coletiva · economia · rent-seeking · sindicalismo

Onde estão os movimentos “populares” nestas horas?

De acordo com a Constituição, se a sindicalização é livre, como admitir que cidadãos que não participam de um sindicato sejam obrigados a contribuir para o mesmo, descontando parte de seu salário, como manda a regulamentação do citado Imposto Sindical? Ao aceitar o Imposto Sindical, o sindicato atrela-se ao Estado, perdendo, de certa maneira, sua autonomia. Sindicato, para ser independente, tem que viver da contribuição de seus associados, exclusivamente. Além do mais, poucos são os sindicatos que prestam, realmente, algum serviço a sua categoria respectiva. Firma agrícola, em que trabalho, paga a contribuição anual sindical à respectiva entidade patronal sem nunca ter recebido qualquer serviço da mesma, nem do sindicato da categoria.

Incrível mesmo é que a CNBB, a UNE, a CUT, etc, todos eles, estão bem menos barulhentos hoje em dia. Nenhuma palavrinha – nem mesmo um sussurro – de protesto contra o “peleguismo”. Deve ser alguma coincidência cósmica. Leia todo o artigo aqui. ^_^

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Excelente artigo

Rent Seeking and the Unveiling of ‘De Facto’ Institutions: Development and Colonial Heritage within BrazilJoana Naritomi, Rodrigo R. Soares, Juliano J. Assunção

NBER Working Paper No. 13545
Issued in October 2007
NBER Program(s): EFG

—- Abstract —–

This paper analyzes the roots of variation in de facto institutions, within a constant de jure institutional setting. We explore the role of rent-seeking episodes in colonial Brazil as determinants of the quality of current local institutions, and argue that this variation reveals a de facto dimension of institutional quality. We show that municipalities with origins tracing back to the sugar-cane colonial cycle — characterized by a polarized and oligarchic socioeconomic structure — display today more inequality in the distribution of land. Municipalities with origins tracing back to the gold colonial cycle — characterized by an over-bureaucratic and heavily intervening presence of the Portuguese state — display today worse governance practices and less access to justice. The colonial rent-seeking episodes are also correlated with lower provision of public goods and lower income per capita today, and the latter correlation seems to work partly through worse institutional quality at the local level.

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Artistas engajados…em seu próprio interesse

Reproduzo na íntegra:

A Gang da Arte

Na selva é assim: os “artistas” decidem o que é bom para o público. Nesse caso o “artista” Zé Celso quer proteger o povo do capitalismo. Ele julga que seu teatrinho, visto e admirado por meia dúzia de desocupados que se consideram intelectuais, deve ter tratamento especial dos governos municipal, estadual e federal e, além disso, ele deve ter o poder de determinar o que pode ou não pode ser construído nas suas cercanias

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Como dizer “rent-seeking” em japonês? 天下り

Amakudari é como se lê os caracteres do título. Literalmente: “caiu do céu”. Eu não sou linguista ou antropólogo, mas é engraçado ver que, no Japão, “cair do céu” tem uma conotação ruim enquanto que, no Brasil, “cair do céu” é algo bacana.

Outra coisa interessante é perceber que não é só aqui que os burocratas e militantes adoram “cair do céu” no setor privado, com suas incestuosas ligações políticas. No Japão ocorre o mesmo e, para os que adoram o argumento da “cultura”, eu pergunto: em que parte de nossa herança latina está a explicação para esta prática em ambos os países? Ok, vocês têm 5 minutos de vantagem. ^_^

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Jornalismo chapa-branca e os incentivos econômicos à sua formação

Um trecho de uma ótima reflexão do PH ácido.

Nas últimas décadas, tem havido uma tendência de concentração de produtores em alguns setores, inclusive na mídia. Essa é uma indústria muito peculiar, que suscita muitas análises românticas, completamente descoladas da realidade. As almas esquerdóides se alvoroçam a cada negócio fechado que poderia sinalizar uma concentração da produção jornalística numa determinada região ou no país. Diferentemente delas – que consideram “independente” um veículo desde que ele seja “progressista” ou qualquer outro lugar comum do jargão – meu conceito de independência de um jornal (ou revista, ou rádio, etc.) está relacionado a aspectos do mercado. Quanto mais ligado ao mercado, menos dependente do governo. E essa independência é que importa.

Aonde eu quero chegar? Vamos lá. Por exemplo: uma região onde quem dá as cartas é uma única organização de mídia, com rádios, jornais e emissoras de televisão. Isso é necessariamente ruim para o público? O senso comum diz que sim. Não há “pluralidade” de coberturas, de discursos (se preferirem).

Mas há um outro aspecto, o do mercado. Se a organização reina praticamente sozinha, deve abocanhar a grande maioria da verba publicitária da região. Se os anúncios vêm majoritariamente da iniciativa privada, a organização de mídia hegemônica (para usar um conceito deles) é muito menos dependente das benesses dos governos. Por ser forte comercialmente, tem condições de fazer coberturas jornalisticamente corretas. Isto é, se tiver que “bater” no poderoso de plantão, baterá, por não depender dele financeiramente.

Já a existência de muitos jornais e revistas pequenos não é garantia alguma de boa prática jornalística. Muito pelo contrário. Em todos os estados há aqueles jornalecos feitos para tirar dinheiro de político. Há muitos jornaizinhos e pouco jornalismo. A quantidade de produtores não garante o abastecimento do mercado com bons produtos jornalísticos. Eles são fracos e dependem das verbas oficiais.

falhas de governo · rent-seeking

Xô CPMF?

Os sindicatos de industriais dizem querer acabar com a CPMF. Parte de seus membros acabam de ganhar um presente dos políticos. Somando ambos, a pergunta que fica é: seria sincera esta destemida e impávida campanha dos sindicalistas da indústria? Ou será que alguém se esqueceu de dizer que gasto sem receita é aumento da dívida?

Depois vão chorar como menininhas quando a taxa de juros aumentar. É por isto que, apesar de tudo, eu ainda ensino Economia. Já pensei em ensinar Matemática elementar (4 – 2 = 2) para este povo, mas ou o orgulho do ignorante é ferido ou sua cara-de-pau transparece. Como muitos deles têm filhos, pega mal, né?

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Metropolis

Existe um filme brilhante de Fritz Lang, o Metropolis. Na época de universitário, como todo mundo na minha idade, eu assisti ao filme. Trata-se de uma obra-prima, certamente. O interessante é que, na época, eu vivia submetido a bons professores e os tradicionais pterodoxos (e os explosivos pterodoxos-bolivarianos). Para minha sorte, havia um amigo, da Filosofia, que era mais crítico de tudo do que qualquer um que conhecia. Hoje ele leciona filosofia em uma universidade federal.

Este meu amigo me ajudava na compreensão destes filmes malucos. Talvez ele tenha sido o responsável por eu gostar dos filmes expressionistas, odiar os franceses e torcer o nariz para o pervertido Pasolini. Ele simplesmente me apresentava aos filmes e eu, seguindo a idéia de experimentar novas formas de expressão cinematográficas, assistia a tudo que via pela frente. E conersávamos muito sobre o que víamos. Foi uma boa época, sem dúvida.
Não quero tirar o prazer de alguém que nunca assistiu nenhum destes filmes (até mesmo Pasolini e Godard), mas Metropolis tem uma mensagem que, na época, combinava com o discurso nazista e que era a acomodação entre os proletários e os burgueses. Meus amigos socialistas achavam isto ruim porque, na verdade, gostariam de ver o pau comer , desde que não os atingisse, claro. Para este povo, a vida é passear de motocicleta escrevendo um diário enquanto se mata um ou outro burguês aqui e acolá.

Ok, há muita polêmica sobre se o final feliz deste filme é apenas uma infeliz coincidência com os desejos de Goebbels, Hitler e a corja toda, ou não. Não vou discutir este etéreo conceito de “pensamentos da época”, mas o fato é que, após receber o convite de Goebbels para trabalhar pelos nazistas, Fritz Lang se mandou para os EUA onde, aliás, filmou o último filme da trilogia de “Dr. Mabuse, o gênio do crime” (e o único falado deles) .

Desde então, toda vez que vejo um discurso de “pacto social”, eu fico desconfiado. Mas mais desconfiado ainda eu fico quando vejo união de sindicatos patronais e de trabalhadores (embora patrões também trabalhem, a esquerda anaeróbica gosta de pensar em si própria como o único amontoado de gente que trabalha) em torno de propostas. Sempre há algum interesse oculto. Por exemplo, nenhum destes sindicatos defende o fim da contribuição sindical, senão que a deseja como algo petrificado em lei. O objetivo, claro, é fazer com que todos pertençam às corporações. Qual a diferença deste discurso para o de Mussolini? Nenhuma. Mas o problema é que quem diz isto é chamado por eles de anti-socialista ou anti-patriota, conforme a tonalidade da madeira que cobre a cara-de-pau do sindicalista.

Ok, falamos um monte de cinema e de cinismo sindical. Agora, isto tudo me veio à mente quando eu vi a que nível podem chegar as relações perigosas entre esta gente.

É preciso um pouco mais de leitura – e eu recomendo Mancur Olson – para se entender as implicações dos efeitos negativos dos sindicatos sobre o desenvolvimento econômico (para o caso do Brasil, veja isto, por exemplo). Mas no caso das relações perigosas, eu me lembro do clássico artigo de Bruce Yandle, sobre batistas e contrabandistas (revisitado e revisado pelo próprio aqui).

Qual é o final disto tudo? Bem, nem toda história tem moral (ou ética, como vimos entre os aliados do sr. da Silva, esta semana, notadamente seu amigo, o sr. Calheiros). Mas o mais importante é que você tenha a chance de, um dia, assistir Metropolis do Lang (veja se consegue a cópia original, em preto e branco, muda, não a que ganhou cores e trilha sonora nos anos 80), o 1984 do Orwell, e tente sair da armadilha mental que é achar que uma ideologia que justifica matança porque “o futuro será melhor para todos” é melhor que a outra que justifica a mesma matança porque “você é de uma raça superior”.

Aliás, pouca gente gosta de admitir (porque realmente é incômodo para quem ama ideologias como estas), mas nazismo e socialismo têm muito em comum (além do fato de Hitler ter importado a idéia dos campos de concentração da URSS) e um bom livro que mostra isto é o The Lost Literature of Socialism, de George Watson. É meio chato de se ler, mas é interessantíssimo. A capa do livro tem as chamadas mais interessantes:

  • The state can make of mankind anything it wants – that sums up ther theories (Tocqueville)
  • Germany takes Schleswig with the right of civilisation over barbarism, of progress against stability (Marx)
  • There is something wrong with a regime that needs a pyramid of corpses every few years (Orwell)
  • How, as a socialist, can you not be an anti-semite? (Hitler)

A combinação é explosiva, certo? Ok, o ponto é óbvio: não se deve tomar escritores humanos como escritores divinos, imunes aos erros da lógica (ou às imoralidades). Talvez aí esteja uma das melhores formas de se defender a liberdade de pensamento. Afinal, é melhor ter várias pessoas errando e acertando do que apenas uma, cujos erros e acertos são impostos a todos por um governo assessorado por um conselho de iluminados que, opa, também são humanos.