Economia do Crime · referendo do desarmamento

Desarmamento…para que?

Na época do referendo éramos eu e o Leo neste blog apenas. Nesta questão, eu e ele pensamos diferente. Na época tivemos vários textos aqui e, no que me lembro, eu sempre reclamei de um ponto específico (que, aliás, eu sempre reclamo quando se fala de política pública): a (quase total) despreocupação dos burocratas e seus asseclas (ou assessores, conforme o caráter do sujeito) com medidas objetivas de impacto. Algo como: “tá bom, eu tenho aqui um estudo que mostra que se aprovarmos o desarmamento, a criminalidade cairá em x%, com y% de confiança estatística”.

Pois é. O desarmamento não passou, eu fiz um artigo com mais três co-autores sobre a economia política deste negócio (você sabia que existe toooooooooda uma área de pesquisa sobre referendos e outros métodos de democracia direta? Procure por John Matsusaka no seu Google, tá?), e, hoje, entre um programa de TV e outro, eu abro o jornal na cama e leio:

Arma da PM abastece crime, diz estudo

Dados de subcomissão da Câmara mostram que 1 em cada 4 armas ilegais de SP pertencia ao poder público

Luciana Nunes Leal

Rastreamento realizado pelo Exército a pedido da Subcomissão de Armas e Munições da Câmara dos Deputados mostra que uma em cada quatro armas ilegais apreendidas no Estado de São Paulo teve como primeiro dono o poder público, principalmente a Polícia Militar. A estatística refere-se apenas às armas vendidas pelas fábricas legalmente para as instituições – ou para policiais e outros agentes de segurança – e depois desviadas para o crime.

O Departamento de Fiscalização de Produtos Controlados (DFPC) do Exército rastreou 4.200 armas apreendidas em São Paulo entre 2003 e 2006. Desse total, 1.134 (27%) tinham sido vendidas ao poder público – 1.002 delas (23,8%) à PM.

Eu assino o Estadão no final de semana e, portanto, pude ler o resto da matéria. Há mais no jornal. Há uma briga entre órgãos de segurança acerca destes números (você não achou que isto seria uma maravilha para os burocratas da segurança, né?) e mais informações.

Se eu fosse um daqueles caras das teorias de que “tudo-é-culpa-do-Bush-neoliberal”, eu estaria aqui elocubrando sobre a demora em divulgar e/ou fazer um relatório destes. Afinal, se estes dados estão corretos, o desarmamento pode não ser a melhor solução. O que ocorre é uma brutal falha de governo na qual pessoas privilegiadas no acesso ao mercado legal de armas ou são roubadas, ou vendem as armas para bandidos e estes privilegiados não são eu ou você, mas gente que é paga para nos proteger dos bandidos.

Mas eu não compartilho da tese da conspiração. Não neste caso. E não é porque sou como a esquerda anaeróbica que culpa Bush por tudo e se recusa a ver o Foro de São Paulo como algo beemmm estranho (embora as FARC estejam lá…). É porque descuidos ou falhas com respeito à informação estatística para o público…em tempo hábil é uma característica de nossa burocracia. Ou porque não têm recursos, ou porque podem desagradar algum poderoso que deseja se reeleger e/ou eleger o sucessor.

A discussão do desarmamento segue legítima, claro. Mas eis a informação interessante: talvez tivesse valido a pena, na época, investir na segurança e/ou mudança de regras quanto aos privilégios de alguns do que fazer o tal referendo. Ou, talvez, muita gente tenha visto com bons olhos a ampliação de seu mercado caso o referendo fosse aprovado. Afinal, é claro que a demanda ilegal de armas aumentaria um bocado.