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Mais Nobel

Peter Boettke pode até ter razão sobre a influência – longínqua – de Hayek sobre o trabalho dos nobelistas deste ano. Contudo, é fato que Hayek não era nenhum entusiasta da linguagem matemática. Talvez seja mais simples entender o que trabalho dos nobelistas com este pequeno resumo de Tabarrok. Já a pterodoxia, bem, para eles o melhor mesmo é isto aqui.

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Academia · pterodoxos

Mankiw sobre Markowitz e também sobre consultorias

Markowitz era um cara racional? Esta é a pergunta que você se faz após ler isto. Cuidado, contudo. Os pterodoxos adoram usar este tipo de história como justificativa para avançar sua agenda picaretética. Funciona mais ou menos assim: “se o fulano não faz o que sua própria teoria ensina, então a teoria não presta”. Claro, estes pterodoxos não agem de acordo com as próprias teorias (basta seguir um décimo da vida de qualquer um deles), mas adoram inverter a lógica.

Como fica Markowitz? Primeiro, suas teorias, de modo algum, esgotam o tema “Finanças”. O próprio desenvolvimento de modelos microeconômicos mais avançados que incorporam comportamentos, digamos, aberrantes, mostra isto. Em outras palavras, Markowitz também é um ser humano cujo comportamento pode, em determinadas situações, refletir alguns aspectos não contemplados nos modelos dos livros-texto de graduação (que muitos pterodoxos tomam como a última palavra na teoria econômica…quanta burrice….).

Dito isto, vamos ao outro bom texto do Mankiw, um sobre consultoria e ética. Aqui o ponto é mais simples ainda. Há lá um jornalista bravo que vem me falar que Milton Friedman tem uma mancha na carreira porque deu conselhos ao General Pinochet. Eu também não gosto do Pinochet (e nem do Che, do Fidel…sou coerente), mas o que dizer de Friedman? Ele também deu conselhos a oficiais do governo chinês. E aí? Por que a bronca apenas com os conselhos ao Pinochet? Mais uma vez, o problema é o cinismo de alguns: ajudar uma ditadura que use, “marketeira e intensamente”, a palavra “social” pode. Ajudar alguém que não gosta de comunista, não, não pode não.

Ou seja, falta ética aqui, mas não é em Friedman.

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A desonestidade do econometrista

Uma preocupação pertinente de muita gente diz respeito à seriedade da pesquisa acadêmica. No caso de artigos que aplicam Econometria, é importante que os autores disponibilizem a base de dados utilizada para que outros possam replicar seus resultados.

Este tipo de procedimento já é comum no mundo desenvolvido, embora esteja, sim, sujeito a críticas e imperfeições, como mostra este artigo. O que me deixa curioso: por que isto ainda não é prática no Brasil? Provavelmente há muita desonestidade por aqui e temos pouca gente qualificada para replicar algumas regressões, embora a situação tenha melhorado nos últimos anos (mais gente faz Ph.D fora, volta, etc).

Não é incomum ouvirmos denúncias de trabalhos econométricos feitos por alunos desesperados por pontos recheados de dados “inventados”. Por que duvidar que alguns de seus “professores” façam o mesmo? Com a seriedade que qualquer método científico é visto no Brasil, eu não duvidaria que temos sérios problemas.

Aliás, aqui vai um resumo do argumento pterodoxo (para justificar a picaretagem):

  1. Econometria é um método que envolve Estatística (= o cara não pode ser tão burro a ponto de não saber disto).
  2. A realidade é muito mais complexa (= se assim o é, como o sujeito sabe onde está a complexidade? É um mistério, não? O sujeito deve ser um semi-deus. Talvez os econometristas sejam tão burros que não percebam esta iluminada observação que, na verdade, saiu de dentro de uma privada…).
  3. Logo, a Econometria e a Estatística são inferiores à minha verborragia (= li Monteiro Lobato e uso mais “entrementes” que você, logo, sou bonzão e você é nerd).
  4. Assim, se eu tiver que ler um artigo com Econometria, não lhe darei a mínima importância (= vou ignorar o que não sei porque sou preguiçoso demais para estudar).
  5. Mais ainda, serei conivente com a picaretagem com os dados porque, como já disse, Econometria não capta toda realidade ( = já que sou estúpido o bastante para não aprender a usar Econometria como se deve, vou incentivar a desmoralização do método, assim todos serão leitores de meus artigos verborrágicos).

Simples assim. Quer criticar o método? Aprenda-o antes e depois critique. Fácil, né?

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Bons motivos para seu pessimismo com a selva

Quem disse:

Vi um cartaz na faculdade hoje e achei interessante a proposta: os Feds regionais promovem, uma vez por ano, um concurso para estudantes de graduação onde estes, em última instância, simulam uma reunião completa do FOMC (o Copom deles). Os estudantes devem montar uma apresentação com uma exposição clara sobre a conjuntura do país, estabelecer os principais problemas e, por fim, dizer qual deve ser a trajetória dos juros que o Fed deveria escolher como consequência dos problemas apontados.

No Brasil, acho que o máximo que chegamos a ter foi o Concurso de Monografias, de 2003, e as ações do “BC e Universidade”, onde funcionários do Banco dão palestras sobre as principais funções de um Banco Central.

Imagino o dia em que chegaremos a ter uma promoção como esta, e… Não, na verdade, eu não imagino o dia em que chegaremos a ter algo neste sentido: do jeito que estão as universidades no país, vai aparecer uma meia dúzia de bobo-alegres, erguendo cartazes contra a privatização da Vale, dizendo que o BC dá dinheiro para os banqueiros, e apresentando, por fim, o trabalho como se fosse um jogral (alguém se lembra do significado disto, ou já ouviu esta palavra na vida? Quem conhece, sabe exatamente o que eu estou falando). Tudo para, no fim, dizerem que o resultado foi manipulado para dar o prêmio para alguma das grandes universidades em economia que fosse alinhada com o pensamento neo-liberal privatizante. No limite, chegaríamos a uma CPI… Deixa para lá.

Acertou. Foi ele.

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Pterodoxia e a ignorância científica

Hoje eu tive que ouvir em sala de aula(sobre o modelo de Solow) que os economistas neoclássicos(foi o termo usado, seria mais adequado “ortodoxos” ou “convencionais”) são “otimistas, pois em seu modelo a economia sempre está em pleno emprego”. Não é a primeira vez, nem será a última, que se critica a teoria econômica convencional por ter pressupostos irrealistas.

O bom é que o próprio aluno, muito mais informado, arrematou:

Se os heterodoxos quiserem fazer teorias como se conhecessem toda a realidade, com hipóteses que acreditam que descrevem-na com perfeição, que façam. Agora, quando quiserem criticar a teoria ortodoxa, que façam direito, criticando as previsões feitas a partir dos modelos, e não os modelos em si.

Tem gente que realmente não aprende. Mas, claro, será um prazer ver o modelo completo, de toda a realidade relacionada com tudo e com todos, talvez um Novíssimo Testamento, criar discípulos fiéis, ao invés de cientistas. Ah, repare que, no caso citado, o pterodoxo é também um heterodoxo. O conjunto dos pterodoxos não abrange apenas heterodoxos, mas muitos deles são fanáticos adoradores do modo de pensar pterodoxo.

Academia · direitos de propriedade · economia · pterodoxos · sociologia

Sociólogos e os Direitos de Propriedade

No “mundo-menos-o-Brasil”, é comum encontrar economistas heterodoxos sérios. Mais ainda, é comum também encontrar economistas heterodoxos sérios que levam a sociologia mais a sério do que os sociólogos.

Nicolai Foss é um destes economistas. Há anos eu comprei um livro seu, interessante, sobre economia austríaca, composto de vários pequenos artigos (minha visão não o alcança em minha mini-biblioteca, no momento). Um deles, se não me engano, fazia um pouco de História do Pensamento Econômico sobre Coase, Mises e os direitos de propriedade.

Pois é. Faz tempo que eu não leio os artigos do prof. Foss, mas apenas seu blog. E olha só que indagação interessante ele faz em um texto publicado hoje.

I just finished reading Bruce Carruthers and Laura Ariovich’s ”The Sociology of Property Rights,” published in The Annual Review of Sociology (2004) (no, Brayden, O&M is not the anti-sociology blog). This is a nice piece, but it is debatable how much of it is sociology per se. In actuality, most of the paper, which given the journal (research annual) that it is published one would expect to survey sociology contributions, turn out to be a survey of — economics. Specifically, the contributions of Coase, Demsetz, Barzel, and even Moore and Hart are highlighted and summarized. The authors themselves acknowledge that sociology “neglects” property rights. Others have made similar observations (e.g., Richard Swedberg).

This neglect of property rights is bizarre; after all, property rights, in a sort of proto-Hartian understanding, were central in Marx’ thought. Durkheim and Veblen also didn’t neglect property rights. Intuitively, one would think of property rights as a preeminent sociological theme, as it involves power, social stratification, inequality, and other sociology favorites. So, what accounts for the neglect?

A pergunta é bem interessante. Desde as contribuições de Coase (ok, antes dele outros falaram do tema, como Mises, reconheçamos, mas não com a mesma capacidade comunicativa), a questão dos direitos de propriedades, gradativamente, tornou-se importante nas análises econômicas.

Como em toda agenda de pesquisa, apesar dos pterodoxos de sempre, o conceito evoluiu e as análises teóricas se sofisticaram em diversos aspectos (matemático, abrangência, etc). Hoje, um economista consegue dissertar sobre o tema com bastante desenvoltura.

Mas a festa não pára por aí. Interessados em estudar o tema, procuraram os colegas do Direito e hoje, por exemplo, existem diversas associações, como a ALACDE.

A impressão que dá é que os auto-denominados pluralistas da “sociolândia” isolaram-se contra a concorrência das idéias de outras áreas e adotaram o monocórdio – e improdutivo – discurso do “isto não é marxismo”, “isto não é novidade”, “isto é ciência burguesa”, “isto não nos ajuda a compreender a realidade” (como se a luta de classes ajudasse…se bem que Marx disse que o importante não era entender, mas mandar mata…digo, mudar a realidade).

Claro, há exceções, estatisticamente falando. Mas eu não conheço nenhum sociólogo brasileiro sério quanto ao tema, então não posso nem citar exemplos.

Mas é irrelevante saber se há sociólogos, pedagogos, veterinários ou botânicos imunizados contra o tema dos direitos de propriedade. O ponto mais importante é que, quem deseja estudar o tema, estuda. Quem não quer, que vá fazer outra coisa. Talvez a pergunta de Foss tenha uma resposta óbvia: o silêncio ecoa a honestidade dos silenciosos porque os mesmos realmente não se metem a dizer asneiras sobre o que não entendem (e/ou não pesquisam).

Prefiro pensar assim do que imaginar que haja sacanagem na academia, embora eu saiba que, sim, isto existe às pampas.

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A economia política da mudança do discurso

Antigamente, mas muito antigamente, na época do regime militar, quando um oposicionista queria dizer algo bonito, na faculdade, ele falava da impossibilidade de se separar o “positivo” do “normativo”. Trata-se de um argumento totalmente falho e bem maldoso porque, na verdade, tenta apelar para o lado emocional da discussão (“você considera este frio economista um sujeito qualificado para falar sobre a vida das pessoas? Ou considera este barbudo de bandeira soviética na mão, que toma cerveja com os alunos no horário da aula e se indigna com a pobreza?”).

Bem, os tempos mudaram, a oposição chegou lá e, quando uma discussão bem sensível chega a seu (triste) fim, o que dizem os bons e velhos economistas “normativos”?

“Quem está falando aqui é o ministro da Fazenda e eu não vou me imiscuir nas questões do Congresso. Isso é uma agenda do Senado, por eles tem que ser resolvida. Eu opino sobre questões econômicas”

Entendeu?

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Qual Chicago boy, cara-pálida?

Em 1979, quando o setor público já apresentava um pequeno superávit, os administradores de política econômica chilena resolveram fixar a taxa de câmbio em 39 pesos por dólar, para acabar de vez com a inflação. A sugestão vinha do professor Arnold Harberger, da Universidade de Chicago, um entusiasta da âncora cambial. Sucede que o Chile continuou reajustando trimestralmente os salários pela inflação passada, atendendo aos conselhos de outro mestre de Chicago, o famoso Milton Friedman. Configurou-se assim o processo de valorização real da taxa de câmbio descrito (…). [Simonsen, M.H. 30 anos de indexação, FGV Editora, 1995, p.158]

Pois é. Quantas vezes não ouvimos a lenda de que toda a política econômica de Pinochet foi uma obra maligna dos economistas de Chicago? A pterodoxia vive dizendo isto. O trecho acima, portanto, tem duas lições didáticas simples. Primeiro, não insista em falar de “escolas de pensamento” como se fosse um monolito de pensamentos. Nunca é. Existem indivíduos antes de suas classificações imaginárias. No mínimo, mais cuidado, ok?

Em segundo lugar, note como os conselhos dos caras não eram sincronizados. É óbvio que muita coisa boa e muita coisa ruim foi feita pelos economistas de Chicago. Na minha opinião, nada comparável ao laboratório humano que os heterodoxos implantaram no Brasil com seus planos de combate à inflação, mas tudo bem. O importante é que você perceba que não existe esta história de se ver apenas um lado da historia, o dos vencedores da mediocridade acadêmica: os pterodoxos que tentam distorcer a história só porque preferem Fidel Castro à Pinochet.

Nada disto, moço. Ambos fizeram políticas econômicas imperfeitas e, o saldo líquido, você vê, sim, na diferença entre os países, hoje.

Claudio