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O imensurável, o incompreensível e o picareta…segundo um gato

Existe uma certa dignidade no imensurável e há algo impossível de se menosprezar dissimulado no incompreensível. Por isso, enquanto o homem comum se dá ares de entender aquilo que na realidade não compreende, os acadêmicos explanam o que compreendem como se não o houvessem entendido. É de conhecimento geral que nos cursos universitários os professores que discorrem sobre assuntos incompreensíveis se tornam populares e aqueles que explicam claramente o que sabem não são apreciados. [Souseki, Natsume. “Eu sou um gato”, Estação Liberdade, 2008, p.347]

O grande Souseki tinha uma sabedoria e um deboche inigualáveis.

Lembro de uma ocasião em que debochava, em uma cantina, com uma aluna, dos pomposos discursos recheados de jargões que são o ganha-pão de muito consultor de porta-de-cadeia. Lá pelas tantas, uma outra estudante que nos observava, disse-me seriamente:

– O senhor poderia ser candidato!

Mesmo lhe explicando que meu discurso era um arrazoado ilógico, ela insistiu e, mais ainda, falava seriamente. O gato de Souseki não poderia estar mais correto. Quanto a você, leitor, cuidado com aqueles que Pondé chama, pejorativamente, de moderninhos. Eles dizem ser criativos, conectados, inovadores mas, muitas vezes, são apenas vendedores de remédios que não funcionam, embora sejam tãããããoooo sedutores…

No mundo da pesquisa também existem estas criaturas execráveis que buscam vender aos inexperientes suas soluções “mágicas” para produzir sem muito esforço. Mas qualquer um que já tenha enfrentado uma banca de professores minimamente sérios sabe que pesquisa não se faz sem sofrimento. Já disse Feynman:

Sabe, tenho a vantagem de ter descoberto como é difícil saber mesmo alguma coisa, como a gente tem de tomar cuidado para conferir as experiências, como é fácil cometer erros e se enganar. [Os melhores textos de Richard Feynman, Blucher, 2015, p.39]

Você acha mesmo que sabe algo? Talvez o gato saiba mais…

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Dica para pesquisadores

Enquanto o governo destrói a vida de seus pesquisadores, lá no IPEA, eu me lembrava do que disse Jean-Laurent Rosenthal, numa de suas aulas lá na UCLA (google it, boy!): “a pesquisa tem que ser sua. Se for preciso, colete você mesmo os seus dados. Ou então você só fará pesquisas que o governo quer”. A idéia é simples: se você só depende de fontes oficiais para fazer pesquisa, você não tem uma pergunta, você é, sim, um mero reprodutor de idéias alheias. Claro, sempre é possível que você sinceramente goste de trabalhar com dados oficiais do mercado de trabalho, por exemplo. Mas muita gente, por preguiça ou falta de convicção mesmo, deixa de lado bons temas de pesquisa porque…teriam que coletar os próprios dados.

O que acontece no IPEA, claro, é mais grave. É dizer que pluralismo, cantado em verso e prosa pelos pterodoxos tipo H(eterodoxos), sempre foi uma mentira. E os pterodoxos tipo O(rtodoxos) ficam todos caladinhos ou acham que é normal que isto ocorra porque você tem um “modelo formal que gera uma proposição positiva compatível com o evento”. Ora, pitombas, sempre se pode fazer um modelo que gere uma proposição testável compatível com algum evento da realidade. Mas isto não significa que você deva bancar o espertinho e cruzar os braços.

Mas voltemos aos problemas menores, aqueles nos quais os pesquisadores ainda podem pesquisar seus temas livremente, com a independência que o verdadeiro pluralismo requer. Neste caso, há muita gente que, honestamente, procura fazer artigos mais sérios, sólidos, com metodologia decente, sem estas histórias estranhas de batuta ideológica que vemos no IPEA-fiel-ao-Mangabeira (onde está Dani Rodrik agora, com suas críticas ferinas? E Paul Krugman, o que diria disto?).

Para estes pesquisadores, eis a dica do dia.

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Pesquisas feitas de forma não tão correta…(e alguns pontos adicionais sobre marketing)

Esta notícia é interessante.

Aqui vai um pouco da história:

A new study has intensified the conflict between the food police and food marketers. Thomas Robinson of Stanford University School of Medicine has found that McDonalds’ marketing is highly effective. Young children ages 3 to 5, were presented with two identical samples of food. One sample was wrapped in plain paper while the other was in McDonald’s paper. The children were more likely to indicate the food labeled McDonald’s “tastes the best.”

Não, não. Não diga nada ainda. Leia o resto da matéria. Eu vou ajudar, selecionando alguns trechos, mas é melhor você mesmo ler. Aí vão:

Now consider what is happening from the child’s perspective. He or she is motivated to answer the question accurately. The two foods are, by design, very similar physically, so the child has to look for something to break the tie. The McDonald’s branding is the most obvious, easiest cue for solving the problem. “I have had good experiences with McDonald’s previously, and I will use that in my judgment.” Notice that the child’s rational response is different from advertising “tricking the taste buds.” McDonald’s has not nefariously manipulated the child. Instead the youngster has appropriately used the most relevant information available—his or her opinion of McDonald’s—to answer a difficult question. If anything, the experimenters themselves were manipulative, asking the children to spot a difference in taste that, if the experimental design were successful, did not exist.

Percebeu? Mais um pouco:

Suppose we were to replicate the Stanford study with adults. What is likely to happen is that adults who have positive associations with McDonald’s would prefer the McDonald’s wrapped food. By contrast, adults who despise McDonald’s would be more likely to say that the unbranded food tastes better. By the way, the young children of McDonald’s rejectors might act similarly to their parents. Your attitude toward the brand counts for a lot when physical differences between food samples is small.

The correct interpretation of the Stanford research is that when confronted with an ambiguous taste test young children will rely on familiarity and experience in making judgments. This does not suggest that McDonald’s actions are depraved, nor does it support “regulating or banning marketing directed at children.”

O autor gastou muita tinta para dizer algo bem óbvio. Talvez pudéssemos fazer um experimento similar. De um lado, colocamos um sanduíche enrolado no papel genérico. Do outro, um sanduíche enrolado em um papel com o símbolo do partido do presidente da Silva (ou com o símbolo dos nazistas, com uma goiaba desenhada, com o Bob Esponja..). É bastante óbvio, pelo menos para mim, que a criança preferirá a informação do que a falta de informação. Em outras palavras, qualquer marca é um sinal melhor do que nenhuma marca.

Lembro-me de Jerry Kirkpatrick, no único livro que já vi, traduzido em português, falando de propaganda do ponto de vista de Mises e Hayek (já posso imaginar o Guilherme Stein todo alegre, risos). Melhor, estiquei o braço e peguei o livro (“Em defesa da propagand – argumentos a partir da razão, do egoísmo ético e do capitalismo laissez-faire, Geração Editorial, 1997). Kirkpatrick faz uma análise randiana-austríaca (nunca vi nada igual entre os nossos “marketeiros”, mas confesso que não passo horas do meu dia folheando livros de marketing em livrarias…) da propaganda. Uma amostra do que há no texto dele:

A propaganda não modificou nossos gostos criando uma necessidade que de outra forma não teria existido? (…) Sempre tivemos necessidade de métodos mais rápidos e mais convenientes de cozinhar, e a necessidade de um entretenimento disponível de acordo com a conveniência de cada um. As pessoas que fazem o marketing dos fornos de microondas e dos VCRs, certamente, tornaram possível para o consumidor ir ao encontro destas necessidades, de uma forma melhor e mais barata, e a propaganda certamente contribuiu para esse processo. (…) Mas, à medida que os preços destes produtos declinaram, e os rendimentos dos consumidores aumentaram, as atitudes dos consumidores – o seu julgamento de valor – com relação aos produtos mudou. Livremente, eles resolveram não mais considerar estes produtos como um luxo e gradualmente passaram a considerá-los como necessidades (…). Longe de serem receptáculos passivos, que respondem curvando-se ante a propaganda, as mentes dos consumidores ativamente percebem as condições mutáveis do mercado e as avaliam. [p.70]

O ponto é que “marketing” não é esta coisa toda. Bom, o experimento descrito –  e criticado – acima não foi capaz de mostrar, realmente, o sucesso da (maligna) propaganda (subliminar) da McDonald’s. Apenas mostrou que sinalização é importante (e se o outro sanduíche viesse com o símbolo da Burger King?). E, afinal, seguir sinais – como marcas – não é nenhuma novidade. As placas indicando trajetos e nomes de cidades existem desde sempre.

Finalmente, aposto que o Guilherme não conhecia este livro. He, he, he.