microeconomia · pandemia

Consumo de bens de aplicativos versus consumo de bens comprados no supermercado e o teletrabalho

A pandemia nos trouxe um problema de decisão: saio de casa para comprar pizza ou peço pelo aplicativo? Por mais que governos presumam que todos obedecerão suas ordens acerca do distanciamento social/isolamento, não há controle perfeito (mesmo em países pequenos). Portanto, em última instância, a decisão é sua.

Dito isto, suponha que o governo sugira a adoção do trabalho remoto (slogan que já ouvi: “se puder, fique em casa”) e algumas empresas, percebendo que possuem maior capacidade de se adaptar (parte ou toda a) sua força de trabalho nesta modalidade, acatam a sugestão. Passamos, então, para o nível seguinte: o trabalhador.

O trabalhador que consegue seguir em suas atividades em teletrabalho, deve decidir se, além das horas em frente ao computador, sairá mais ou menos de casa. Suponha, para simplificar a exposição, que ele se adapte como seu empregador. Em outras palavras, trabalhadores que estão em teletrabalho também diminuem suas saídas para fins de consumo, ou seja, eles passam a consumir mais bens oriundos do comércio eletrônico (há um efeito-substituição entre bens comprados presencialmente e por meio do comércio eletrônico).

Bonito este modelo, mas qual a relevância empírica disto? A boa notícia: é bem relevante. Recente pesquisa, para os EUA (com uma amostra muito, mas muito grande mesmo…) mostrou que:

We find that the presence of jobs with high work-from-home capacity in a region increases the ability of people to self-isolate and decreases their unemployment risk, whereas the presence of jobs with high physical proximity decreases the incidences of self-isolation and unemployment and increases the incidence of work during the pandemic. These heterogeneous responses based on local job characteristics persist even conditional on a broad set of demographic and socioeconomic variables. [Ge, Suqin and Zhou, Yu, Social Distancing, Labor Market Outcomes, and Job Characteristics in the COVID-19 Pandemic (August 12, 2020).SSRN: https://ssrn.com/abstract=3672378]

O ponto interessante que percebo no texto dos autores é que há uma variável a ser considerada para pensarmos no consumo das pessoas: o grau de capacidade de adaptação do setor da economia (ou da empresa, em um nível mais micro) ao trabalho remoto. Note que, neste aspecto , a pandemia é apenas um dos fatores que podem alterar a rapidez desta adaptação das empresas. Afinal, a decisão de se levar maior parcela de seus empregados para o teletrabalho pode ser oriunda de alguma mudança tecnológica (um choque de oferta), por exemplo.

Assim, ignore, por um momento, a pandemia e façamos uma análise mais geral. Vamos tentar um esboço do que poderia ser um modelo no qual os padrões de consumo variam conforme o grau de adaptabilidade ao teletrabalho do setor no qual o indivíduo se encontra.

Suponha que os gastos em consumo possam ser classificados em dois tipos: o consumo de bens que você compra por aplicativo e recebe em casa (ou mesmo uma teleconsulta médica) e o que você compra presencialmente como um jantar no restaurante (ou uma consulta médica presencial).

Suponha que a restrição dependa do tipo de emprego que você tem, ou seja se você está em um setor com alta ou baixa capacidade de (rápida) adaptação ao teletrabalho. Para simplificar, pense em dois indivíduos idênticos em tudo (inclusive no salário-hora que recebem), mas empregados em dois setores que possuem diferentes graus de adaptação ao teletrabalho: alto e baixo. Claro, cada consumidor quer obter o maior bem-estar possível diante de sua restrição.

A figura a seguir é uma possível configuração deste argumento.

Cada indivíduo tem uma cesta distinta de consumo. Aquele empregado no setor com maior adaptabilidade consome relativamente mais bens de aplicativos/internet (e vice-versa). Percebe-se que o padrão de consumo de uma sociedade com estes dois tipos de indivíduos, então, é mais ou menos heterogêneo conforme a adaptabilidade do setor da economia ao teletrabalho.

Pode-se também pode pensar na figura acima como um exemplo do que acontece quando uma empresa sofre um choque tecnológico, tornando-se mais facilmente adaptada ao teletrabalho para a maior parte de seus empregados. Neste caso, o exemplo mostraria como o padrão de consumo de um indivíduo tenderia a mudar, em média.

Ah sim, a pandemia. Como já dito, a pandemia é um choque que afeta tanto a oferta quanto a demanda. Além disso, há outro complicador: a decisão do indivíduo de manter seu consumo presencial conforme o custo de oportunidade. Ou seja, como o controle do isolamento não é perfeito, o indivíduo, como nos modelos de Economia do Crime, pode decidir sobre se sai ou não de casa (arriscando-se e aos outros) conforme a probabilidade ser punido e também conforme a severidade da punição. Neste caso, o exemplo acima apenas ilustraria o caso de um funcionário que não perdeu seu emprego em uma empresa buscou sobreviver à pandemia. Mais ainda, é um funcionário que é averso ao risco e prefere não se arriscar saindo pelas ruas.

Finalizando, este pequeno texto é apenas um esboço na tentativa de organizar as ideias diante do interessante achado empírico de Ge & Zhou (2020). Para seguir adiante, claro, mais leitura é necessária. O leitor mais familiarizado com o tema poderá trazer bons insights para a discussão e, espero, também conseguirá ampliar seus horizontes a partir deste texto.

Cerveja · microeconomia · Organização Industrial

Cartéis são instáveis? Beba uma antes de ler isto!

Tullock's Beer

Em setembro de 1931, a Brahma propusera aos seus concorrentes um pacto de preços para as vendas no interior em que as cervejas de primeira qualidade seriam vendidas a 78$000 a caixa com quatro dúzias, ou seja, 1$625 a unidade. Acima, portanto, do preço unitário médio praticado pelas cervejarias até então. Passados três meses, em novembro, cartas dos viajantes informam que o acordo não se sustentava e os viajantes das fábricas concorrentes lançavam mão de todos os recursos para conquistar a freguesia. A Hanseática, por exemplo, enviara um carregamento de três vagões de cerveja que foram vendidas a preços da tabela antiga. Em consequência, os mercado de Barra do Piraí, importante entrocamento da Estrada de Ferro Central do Brasil, ficou abarrotado de cervejas da Hanseática. Outros viajantes ofereciam mobiliário para os bares, uns recompravam os vasilhames vazios a preços inferiores aos da tabela combinada entre as cervejarias, também se ofereciam desconto de fretes e prazos de pagamento dilatados. [Marques, Teresa C. de N. (2014). A cerveja e a cidade do Rio de Janeiro, Editora UnB, p.298-9]

Parece que seu professor de microeoconomia merece um growler daquela artesanal de trigo, heim?

microeconomia · pandemia

O onipresente ineficiente (breve nota de aula microeconômica na pandemia)

O teletrabalho/trabalho remoto/home office/qualquer-outro-nome-que-a-legislação-diga-que-é-isso-aí não é um problema em si. O problema é a forma como ele ocorre atualmente. Estamos trabalhando em todos os lugares, em todas as horas, mas necessariamente estamos mais ineficientes. Somos onipresentes…mas mais ineficientes. Por que? Pensemos um pouco.

Como era sua vida antes? Você acordava, arrumava-se e saía para o trabalho. Com alguma rotina, sua diarista/doméstica cuidava de boa parte do seu trabalho doméstico e, à noite você sempre estava em casa para continuar trabalhando (caso necessário), descansar ou apenas se aprontar para o aniversário do filho da dona Clotilde.

Dependendo da sua empresa, você até poderia estar em teletrabalho, mas com tudo o mais constante, ou seja, com a diarista, o aniversário do moleque à noite, etc. Era uma escolha simples que poderia ser feita conforme o contrato de trabalho (ok, não era a maioria esmagadora das pessoas).

Podemos pensar nisto assim: você aceita gastar um tempo em casa fazendo algumas atividades domésticas e também gosta de consumir bens que adquire nos mercados porque, com esta combinação, gera algo que lhe satisfaz. Por exemplo? Você compra carne, temperos e também arruma a casa para produzir um belo assado para seus amigos.

Traduzindo em termos mais técnicos, suponha que exista um bem (o assado), “Z”, produzido por dois insumos, a carne comprada (“x”) e o tempo de trabalho doméstico (“th“). Por meio de uma dada tecnologia, você os usa para produzir Z, ou seja:  Z=f(x, ath). O “a” é um parâmetro de eficiência no uso do tempo trabalhando em casa (você será totalmente eficiente se a = 1).

Como adquirir “x”? Com a sua renda. De onde ela vem? Suponha que parte dela “cai do céu”, ou seja, é uma renda oriunda de outra fonte que não o trabalho (e.g., herança) e a outra vem do tempo dispendido no trabalho. Em outras palavras: x = A + wtw.

Certo, mas além de suas horas de sono (não computadas aqui), o restante do seu tempo, “T” é a soma do tempo trabalhando em casa com o gasto em sua atividade geradora de renda (seja ele um trabalho presencial ou teletrabalho). Traduzindo: T = th + tw.

As duas últimas expressões podem ser convertidas em uma única: A + wT =x + wth e o economista que existe dentro do seu coração lhe diz que o objetivo de uma pessoa, neste contexto, é escolher os níveis ótimos de x (x*) e th (th*) que maximizam sua satisfação “U” dada esta restrição. É, seu coração é estranho…

A solução deste problema é que estes níveis são alcançados quando o valor da produtividade marginal do trabalho se iguala ao valor da produtividade marginal no trabalho doméstico, ou quando: wfx/=afh (ou: fx/fh = a/w). Final feliz, certo?

Entretanto, você não está se sentindo tão feliz assim, não é? Por que? A explicação dói menos com uma boa visualização gráfica do que foi dito anteriormente. Vamos a ela.

O ponto “A” é o ponto do equilíbrio que te deixaria feliz, fruto da resumida operação de otimização condicionada acima. Ótimo, não? Esta era sua situação em trabalho presencial ou em teletrabalho inicial. Você havia feito seu melhor arranjo com sua diarista (e com sua consciência sobre quem tiraria o pó de seu vaso chinês caríssimo).

Agora, a pandemia.

Considere o primeiro efeito da pandemia: você foi obrigado a ficar em casa. Esta restrição às suas escolhas é representada pela linha vermelha tracejada. Sua faxineira? Esqueça. Ela não pode entrar na sua casa já que você pode contaminá-la e vice-versa. Trabalhava com Uber? Bem, agora você sai muito pouco para tentar ganhar seu dia com viagens. 

Em resumo, você é obrigado a ficar no ponto “B”, com menos satisfação do que em “A”. Não é possível mais consumir a mesma quantidade de “x”, mas suponho que você ainda consegue fazer algum trabalho, o que lhe garante algum dinheiro. 

Claro, o pior pode acontecer (sempre pode piorar, diria Dostoievski). Suponha que além de estar preso em casa, a recessão é tal que o patrão não teve escolha e diminuiu o seu salário (ou suas viagens no Uber não pagam mais o aluguel do carro). Neste caso, a restrição orçamentária será a de cor verde e, juntamente com o isolamento social que te protege da contaminação (imperfeitamente, mas minimiza o risco), o melhor que você pode fazer é ir para o ponto “C”.

Ah, e o teletrabalho?

Mesmo que você estivesse em “A” com trabalho no escritório e tivesse ido para casa, em teletrabalho, a lógica acima se aplica, com um detalhe importante: se você foi para casa na esperança de entregar ao patrão o mesmo que entregava antes, agora você tem que lavar seus pratos e limpar seu banheiro.

Você não conseguirá entregar o que entregava antes, exceto se conseguir mudar sua eficiência no uso do tempo (para limpar pratos, para trabalhar, ou em ambos). Em termos do modelo, se aquele “a” não fosse inicialmente igual à unidade (a=1), há algum espaço para mudança. Mas se você já era eficiente, a única saída é se você conseguir criar um choque tecnológico em casa (é menos difícil do que parece, mas também não é tão simples).

Um exemplo de mudança tecnológica é usar o mercado para te fornecer o que precisa e, neste sentido, um grande herói na pandemia é o entregador de refeições (o mesmo que já te ajudava com a revolução dos muito bem explicada por Henderson & Churi (2019)), já que ele te poupa tempo em parte (muito mais preciosa) do seu tempo com baixo risco de dupla-contaminação. Infelizmente, esta mudança já é passado. Ela já existe (eu disse que não era tão simples…). 

Por isso é que falei em onipresente ineficiente. Você está em casa, com seus horários descontrolados (seu chefe também está com os horários descontrolados e seus colegas de trabalho também), pois tem que lidar com os trabalhos domésticos e com o isolamento (você provavelmente está indo de “A” para “B”). Caso tenha tido a lamentável queda de salário, a situação é bem pior (ponto “C”). A pressão aumentou de todos os lados porque, obviamente, no setor privado, a queda de renda é generalizada. Bem-vindo ao teletrabalho com isolamento. Um inferno, não?

Ah, mas e o setor público? Este modelo não explica?

Mais ou menos. O servidor público também está em teletrabalho (ou deveria estar), mas como seu salário não caiu, (e como a restrição pontilhada não está mais à esquerda, passando sobre o ponto inicial “A”), o servidor está com um belo problema. Ele tem que ser suficientemente rápido (eficientíssimo) para aumentar de forma muito rápida sua produtividade no uso do tempo. Não existe salário inalterado grátis e o modelo prevê que o estresse destes aumente (bastante?). Eu disse algo novo? Creio que não.

Claro, eu simplifiquei as coisas. Alguém poderia dizer que você economizou com a diarista, o que significa que a restrição original iria para o alto e para a direita logo no início da pandemia, dando-lhe algum alívio.

Isso é verdade. Mas gastos deste tipo provavelmente não representam parcela tão alta do seu orçamento. De qualquer forma, isso significaria uma pequena melhora (o que até explicaria um certo otimismo das pessoas nas primeiras semanas) que não vai se sustentar por muito tempo se a pandemia se prolongar.

Também não considerei o coronavoucher, mas é fácil ver seus efeitos: faz com que a queda de w seja menor por meio do deslocamento da restrição original para a direita (sem desconsiderar, claro, a restrição do isolamento, ou seja, a linha tracejada vermelha). É um exercício que se pode fazer.

Outro ponto que não abordei é o caso dos parceiros (casados, colegas de apartamento, etc). O problema é similar com algumas adições importantes, uma delas a de que casais em que ambos os parceiros trabalham fora enfrentam alguma tensão doméstica na pandemia já que devem rever a divisão de tarefas rapidamente ou o divórcio se tornará uma opção mais barata. Casais em que apenas cuida das tarefas domésticas, neste caso, talvez passem por um ajuste mais suave. Finalmente, colegas de apartamento…bem, deixa para lá. 

Enfim, somos todos onipresentes ineficientes agora.

Referências

Henderson, M. Todd & Salen, Churi (2019). The Trust Revolution. Cambridge University Press.

Silberberg, E. & Suen, W. The Structure of Economics – a mathematical analysis. 3rd. ed. McGraw-Hill, 2001

Nota de aula do prof. Wing Suen sobre o modelo de household production.

 

microeconomia

Teoria não serve para nad…ops

COWEN: And you’ve published in your academic career some articles that — at least to some people — would count as, I wouldn’t say obscure, but highly theoretical. You have a 1982 econometric piece, “The Nonparametric Approach to Demand Analysis.” Did doing that kind of work also help you at Google?

VARIAN: Believe or not, that very paper was the inspiration for the model I constructed of Google’s ad auction. Because in the equilibrium conditions, basically, I reveal preference conditions that I would rather be in the position I am in and paying the price I’m paying than to be in some other positions. So there’s a little inequality there. You manipulate those inequalities, very much like the paper you describe, and here you get this nice formula for what the price should look like.

Direto daqui.

Law & Economics · microeconomia

Desigualdade de gênero: as mulheres que fazem turismo sexual, mas não assumem

“(…), gender is also not the only variable at play: women clients are also engaging in sex tourism, as documented both in Thorbek and Pattanaik, and in Taylor (2001). The latter, in particular, offers a more in-depth analysis of North American and Northern European women buying sex work services of young men in the Caribbean, in what they themselves describe as ‘romance holidays’. Responses to her interviews suggest that, on the one hand, women clients are mostly reluctant to define what they engage in as prostitution, and, on the other, that their ideas about the young men whose service they buy are deeply rooted in racist ideas about black men and black men’s sexuality. [DELLA GIUSTA, M. Simulating the impact of regulation changes on the market for prostitution services. European Journal of Law and Economics, v. 29, n. 1, p. 1–14, 2010.]
Pois é. Percebemos, então, que as estatísticas podem ter outra fonte de erros de medida: a dificuldade de mulheres em assumir que estão fazendo turismo sexual. Interessante, né?
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Degredados!

320px-Desembarque_de_Pedro_C381lvares_Cabral_em_Porto_Seguro_em_1500_by_Oscar_Pereira_da_Silva_281865E28093193929Posso já ter citado este texto aqui (caso o tenha feito, peço desculpas), mas é que o Zanella tem sido sempre uma fonte de inspiração para que eu forme uma visão diferente da história econômica do Brasil.

Neste texto, ele desenvolve melhor um tema de sua tese de doutorado, qual seja, o papel dos degredados (ou dos tangomãos, tangomanos, lançados, etc) no desenvolvimento econômico brasileiro.

Boa leitura!

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Demanda por selos raros

A Ciência Econômica é tão cheia de opções para pesquisas interessantes que nunca consigo deixar este blog morrer, a despeito da baixa audiência (uns quatro interlocutores, creio). Veja, por exemplo, este texto, mostrando que há demandas a serem estimadas por aí. Demandas que nem sempre nos ocorrem…

Como um colecionador – que parou há algum tempo – de selos, nada poderia me deixar mais curioso. Aliás, há algo sim. Eu gostaria de ver se existe uma estimação de demanda similar para revistas da Marvel antigas (Ebal, RGE, Abril). Eis um tema que me deixa sempre curioso.

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A balconista que arredondava: o curioso caso do fio dental de R$ 9,19

Fui à farmácia comprar fio dental que, nos tempos de inflação e considerando milhares de características do mercado local, na supra-citada farmácia, conforme a etiqueta anexada no produto, custa R$ 9,19.
O diálogo a seguir se deu no caixa.
– Fio dental, R$ 9,20.
– A senhora quer dizer R$ 9,19?
A balconista me mostra a embalagem.
– O que o senhor achou que era? (sic)
– R$ 9,19.
– Ah sim, eu falo R$ 9,20, mas não posso lhe cobrar R$ 9,20 e sim R$ 9,19. O comércio não tem mais moedas de um centavo (como se eu não soubesse, mas tudo bem).
– Sendo assim, não seria melhor cobrar um preço já arredondado?
– Mas a matemática é exata. (outra frase que soou estranha para mim, mas…).
– Eu sei, mas porque não arredondar?
– Se o sistema (sempre há um “sistema” misterioso, tipo um cachorro atrás de uma criança…) permitisse…
Voltei para casa pensando em vários pontos deste diálogo.
Muita gente despreza o capitalismo ou o empreendedorismo porque já foi vítima de conversas desonestas. Talvez esta seja uma destas conversas, talvez não. Mas possui tanto cheiro de malandragem (ora é a matemática, ora é o sistema, como se fosse fácil confundir qualquer cliente…) que eu não tenho como não compartilhar deste desprezo. Mercados se baseiam em trocas voluntárias e as mesmas necessitam de um ingrediente essencial chamado (agora vou eu usar tom professoral, como a balconista ao citar a matemática) “reputação”. Malandragem quebra reputação como um elefante destrói um copo de plástico.
Talvez a conversa seja honesta, digo, talvez a balconista realmente seja um pouco confusa, mas honesta. Neste caso, parece que ela nunca teve contato com este imenso debate que não é só de boteco, mas também acadêmico, sobre preços como R$ 1,99 (ver, por exemplo, isto, notadamente a bibliografia e os links externos para começo de conversa).
Uma explicação é que os consumidores tenderiam a perceber R$ 1,99 como algo mais barato do que R$ 2,00 (ok, é mais barato, mas não tanto). Supondo que isso seja interessante para me atrair ao produto e decidir comprá-lo, por que uma balconista jogaria o preço para cima, como no meu caso, anulando o efeito (e me causando uma sensação de que tentaram me levar R$ 0,01)? Será que a balconista pensa que o desprezo por R$ 0,01 é tal que eu não deveria pensar em querer pagar R$ 1,98 ao invés de R$ 2,00, por exemplo? Ok, o argumento dos centavos seguiria, mas eu tenderia a caminhar para R$ 1,95.
Pesquisando rapidamente, descobri que, segundo Kinard, Capella & Bonner (2013), acredita-se que estes preços “quebrados” (chamados de odd prices) teriam sido criados para pegar empregados malandros:
Although odd pricing is believed to have begun nearly a century ago as an attempt to deter theft by employees who would be forced to make change during a sale (Gendall et al., 1997; Twedt, 1965), consumer behavior theory proposes that the practice of odd pricing continues today because of its ability to distort consumer’s perception of a good or service (Stiving and Winer, 1997).
 Mas o artigo cita diversos outros fatores para esta prática (leia-o aqui) e chama a atenção para o fato de que não existiriam evidências robustas de que a prática destes preços teria efeitos positivos sobre as vendas (os efeitos seriam mistos).
Agora, o que continua, mesmo, a me intrigar é a postura da balconista…
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UPDATE: Ainda sobre este tema, ao sair da farmácia eu peguei o catálogo de ofertas. Ele tem uma capa (com três produtos) e as seções “Higiene” (53 produtos), “Saúde” (25), “Infantil” (20), “Beleza” (29) e, na penúltima página, uma oferta única, totalizando 131 produtos anunciados.
O percentual de odd prices, por área, são:  “Higiene” (40%), “Saúde” (36,1%), “Infantil” (55%), “Beleza” (34,49%). Talvez isso não signifique muita coisa e o relevante é olhar o total. Neste caso, o percentual é de 41,22%. Em outras palavras, aproximadamente 41% (54 produtos de 131) em um catálogo de ofertas diz respeito a produtos com preços como R$ 12,99, R$ 4,49, R$ 21,46, R$ 30,67 ou R$ 9, 98, por exemplo.
Como não se consegue dar troco nestes casos, caso o vendedor seja desonesto e arredonde para cima, neste catálogo, considerando que se venda uma unidade de cada produto (para efeitos de simplificação), ele tiraria do consumidor o total de R$ 0,65. Obviamente, a conta correta não é esta porque a demanda não deve ser tão uniforme assim (pessoas demandam diferentes quantidades de produtos).
O mais curioso, para mim, é a proporção de produtos com preços quebrados no catálogo: 41% . Acho difícil acreditar na conversa da balconista. Parece-me, muito mais, uma estratégia de vendas.
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Em breve os “fanáticos pela externalidade” defenderão: “filhos homens devem indenizar as mães”

Você já viu o quanto de amigo seu usa – de forma abusiva – o conceito econômico de “externalidade”? Eu já ouvi vários argumentos assim. Normalmente são adeptos da pterodoxia ou da “esquerda (intervencionista) anaeróbica”. Pois agora considere isto (vou reproduzir um trecho):

Filhos homens não são fáceis para uma mãe. Seja o peso maior na hora do parto, o nível elevado de testosterona ou, simplesmente, as algazarras que as deixam de cabelo em pé – os meninos trazem um fardo extra à mulher que os deu à luz. Examinando registros de dois séculos de uma igreja finlandesa, Virpi Lummaa, da University of Sheffield, na Inglaterra, tem como provar: filhos homens reduzem a expectativa de vida da mãe, em média, em 34 semanas.

Com o auxílio de genealogistas, a bióloga evolucionária finlandesa de 33 anos vasculhou livros com séculos de idade (e décadas em microfichas) em busca de certidões de nascimento, casamento e óbito – e pistas sobre a influência da evolução na reprodução humana. Historiadores, economistas e mesmo sociólogos há muito usam táticas parecidas para explorar seus campos de estudo, mas Lummaa está entre os primeiros biólogos a estudar o Homo sapiens como animal cuja população pode ser acompanhada ao longo do tempo.

Primeira consequência deste argumento sobre estes intervencionistas, creio eu, seria uma redução de aproximadamente 50% dos mesmos. Outra possível consequência é que o grau de “negação” aumentaria graças à dificuldade de se defender, ao mesmo tempo, a ladainha intervencionista “porque-tudo-tem-externalidades” com o fato de se ter nascido homem (nos casos devidos, entenda-se bem). Finalmente, uma possível bem-humorada consequência seria o aumento dos pedidos para troca de sexo em centros especializados. ^_^

Eis um bom motivo para se entender bem economia: evita um monte de pensamentos bobos.

mercados · microeconomia

Até os burocratas chineses entendem que…mercados funcionam

Não acredita? Pois então veja:

“Acredito que com o aumento da oferta no mercado seremos capazes de assegurar preços relativamente estáveis de produtos agrícolas”, afirmou Gao Hongbin em entrevista coletiva.

Então, supondo curvas bem-comportadas, um deslocamento da oferta para a direita diminui o preço relativo dos produtos agrícolas, certo? Eu sei, eu sei, o mundo pode não ser ergódico (ou é, sei lá), há a questão da mais-valia (que nunca foi e nunca poderá ser testada porque, sei lá, Karl Popper é feio), há a questão dos custos crescentes (a única coisa lida de Piero Sraffa além da famosa introdução à biografia de David Ricardo), há também o fato de que incerteza não é risco (embora isto não faça a menor diferença na hora do vamos-ver na mesa do Banco Central), etc.

Com todas estas “poderosas” críticas, ainda assim o burocrata chinês acredita no bom e velho funcionamento das curvas de oferta e demanda. Claro que ele pode errar porque sobreestima seu poder, como burocrata, de alterar a oferta de produtos agrícolas. Mas este erro não avaliza a choradeira citada no parágrafo acima que, aliás, é sempre usada para criticar…o bom funcionamento dos mercados.

Irônico, não?

incentivos · microeconomia

Incentivos funcionam (mais uma prova cabal)

Este aí maximizou sem dó, nem piedade:

A college student withdrew from school after winning the five million yuan (S$988,180) jackpot in a lottery in China’s eastern city of Nanjing, local media reported yesterday.

Difícil dizer que incentivos não funcionam, não é? Você pode até dizer que ele não deveria ter feito isto, etc. Mas o fato é que o homo economicus existe e responde direitinho aos incentivos, tal como nos livros-textos de Microeconomia. Leia a notícia toda e descubra porque “socialismo real” é o termo adequado para notícias que mostram governos que morrem de inveja de loterias.

Econometria · função de produção · macroeconomia · microeconomia

Mais artigos interessantes (você que acabou de estudar Econometria…vai gostar)

A Brief History of Production FunctionsS. K. MISHRA
North-Eastern Hill University (NEHU) October 9, 2007
Abstract:
This paper gives an outline of evolution of the concept and econometrics of production function, which was one of the central apparatus of neo-classical economics. It shows how the famous Cobb-Douglas production function was indeed invented by von Thunen and Wicksell, how the CES production function was formulated, how the elasticity of substitution was made a variable and finally how Sato’s function incorporated biased technical changes. It covers almost all specifications proposed during 1950-1975, and further the LINEX production functions and incorporation of energy as an input. The paper is divided into (1) single product functions, (2) joint product functions, and (3) aggregate production functions. It also discusses the ‘capital controversy’ and its impacts.
Keywords: Production function, Cobb-Douglas, CES, Transcendental, translog, Zellner-Revankar, VES, Bruno, Kadiyala, Diewert, Kummel, Mundlak, Engineering, Kmenta, McCarthy, Fare, Mitchell, Multi-output, joint product, Data Envelopment, Household, Humbug, Cambridge capital controversy

JEL Classifications: B13, B21, B23, C13, D24, D33, E25

Working Paper Series

expectativas de inflação · microeconomia

Expectativas de inflação desagregadas: a importância do gênero

Mulheres são de Vênus, Homens são de Marte…e a racionalidade quanto à expectativa de inflação depende do gênero? Eis um trecho:

“That men and women occasionally see things differently is not a remarkable observation,” says Michael Bryan, economist at the Federal Reserve Bank of Cleveland. “But that the sexes could report vastly different perspectives on the rate at which prices are rising over a long period of time is astonishing.”

Bryan has studied decades of data on this battle of the sexes, using the University of Michigan Survey of Consumers, a joint survey conducted by the Cleveland Fed and Ohio State University among others. He found that demographics played a role in determining the public’s estimates and predictions of inflation.

Those who are rich, married, white and middle-aged have lower inflation perceptions and expectations than those who are poor, single, non-white and young. That seems almost intuitive: Society’s “haves” are better positioned to endure cost-of- living increases than the “have-nots.

O fundamento microeconômico das variáveis macroeconômicas só não existe para quem não acha o indivíduo algo importante em uma sociedade, não é mesmo?

Falando em gênero, o que será que nossos governantes, entusiastas da CASPA (Cúpula Árabe e Sul-Americana, ou algo assim) pensam disto?

Humor · microeconomia

Sinalização para leigos (e não tão leigos assim)

Há aproximadamente um mês, coloquei as instruções de um interessante (e importante) trabalho para os alunos mais jovens que tenho aqui. Quando chegou a época da listagem das músicas, listei-as, dia 08, aqui, com as instruções. Como as apresentações estão marcadas para a semana que vem e a entrega dos trabalhos para esta (ontem, dia 12, e hoje, 13), pensei que seria bom antecipar e reforçar o que já havia instruído, já que nesta era da “internet” a informação rápida é essencial.

No mesmo dia, o acesso foi pífio. Aproveitei um outro post para tentar provocar o animal spirit dos que se pretendem empreendedores (economista também é empreendedor, na acepção mais ampla do termo). Afinal, todos dizem acompanhar este blog. Pensei que não seria uma surpresa muito grande encontrar muitos leitores por aqui.

Pessoas gostam de ter tempo para se planejar e trabalhar, certo? Se a entrega é dia 12 e 13, você esperaria o seguinte padrão: muitos acessos no dia 08, idem no dia 09, com decaimento à medida em que nos aproximamos dos dias 12 e 13. Quem é que leria as instruções no dia da entrega? Só o sujeito que se atrasou e que não liga muito para instruções. Ou o distraído. Obviamente, há os que chegam aqui por acaso. Sim, o acesso não é fechado aos alunos. Então, as estatísticas que mostro a seguir podem, muito bem, ser fruto de acessos de outros leitores que não os meus alunos. Vejamos se o padrão AR(1) suposto acima foi verificado na prática. Minha hipótese: alunos que estão entre os melhores são alunos que se antecipam na leitura das instruções de suas tarefas para me sinalizar competência.

A série:

08.nov 5
09.nov 3
10.nov 3
11.nov 4
12.nov 19
13.nov 5

Opa, opa, opa. Em negrito estão as datas de entrega. O acesso maior às informações se deu….no primeiro dia da entrega. Minha hipótese de um comportamento AR(1) (vá lá, com menos de dez observações, diriam o Laurini, o Pedro, o Erik e outros feras da econometria que também estão na blogosfera…) não se manteve.

Isto mostra que os alunos não se antecipam? Talvez. Mas posso cometer erros do tipo I e II aqui. Há algumas qualificações que podem ser feitas aqui. Claro, algumas são do tipo “meu cachorro comeu meu trabalho”. Por outro lado, há o fato de que, talvez, todos os acessos (ou parte deles) tenham sido gerados por outros leitores que acharam o tema interessante.

Eis aí um bom uso para a internet na análise dos incentivos aplicados em salas de aula. Não é o melhor experimento estatístico que já vi mas, ei, eu tive mais trabalho do que muita gente que me diz trabalhar um bocado…^_^

p.s. meu aluno Márcio me deu uma idéia para outro e-book: publicar os melhores trabalhos. Sim, farei isto. Vejamos quantos alunos fizeram isto com cuidado (ou seja, salvaram o trabalho porque acreditam terem feito algo bacana). Márcio, valeu pela idéia. Vamos aplicá-la se pertinente for.

aula · microeconomia

Música, Economia e tudo o mais

Baseado neste concurso de 2005 do FED de Cleveland, criei o trabalho final de minha cadeira de Teoria dos Preços conforme estas instruções. Agora tenho a lista definitiva das duplas mas o famoso firewall da faculdade não me permite atualizar a página dos cursos. Desta forma, aqui vai a agenda dos dias 19 e 20 de novembro. Quem apresenta no dia X precisa vir em X+1? Sim. E vice-versa? Idem.

Agenda

19.11 [dupla/música/autor(cantor)]

1. Ana Carolina e Ronaldo – Como é duro trabalhar – Vinícius de Moraes

2. Patrícia Mendes e Thiago Lobato – Como vovô já dizia – Raul Seixas

3. Jefferson – Burguesinha – Seu Jorge

4. Alexandre e Gabriel – Brasil – Cazuza

5. Daniel Carvalho e Ivan – Comida – Titãs

6. Bernardo Augusto e Breno – Mascate – Nepal

7. Felipe Dias e Guilherme – Dívida – O Rappa

20.11

1. César e Éverton – Caviar – Zeca Pagodinho

2. Rodrigo e Pedro B. -1406 – Mamonas Assassinas

3. Marina e Luiz – Farinha Americana – ?

4. Márcio e Felipe G. – Gasolina – Made in Brazil

5. Camila e Júlia – Malandro – Chico Buarque

6. Felipe Costa – Brasil Corrupção – Ana Carolina

7. Leonardo e Augusto – Rico e Pobre – Caju e Castanha

A partir de agora, portanto, valem as regras expostas anteriormente sobre a entrega prévia dos trabalhos (12 e 13 de novembro), mais as seguintes: i. a ordem da exposição será definida pelas duplas que estiverem presentes no dia (isto significa que as duplas estão dentro da sala de aula às 7:30 ou já perdem pontos), ii. eu escolherei, conforme minhas preferências, o membro da dupla que apresentará o trabalho (o outro deve permanecer, então, em silêncio durante a apresentação do parceiro), iii. não há mais mudança de música e/ou inclusão de novas duplas.