Cultura · empreendedorismo · história econômica · terrorismo

Cultura, Terrorismo, Empreendedorismo e Economia: breves observações

“Cultura” já foi – e segue sendo, para muita gente – o sinônimo de uma conveniente desculpa para se justificar todos os males da humanidade, ou pelo menos de parte dela. Perdeu o emprego? Culpa da cultura portuguesa. Perdeu o bonde da história? Culpa da cultura judaico-cristã. Tá sem dinheiro? Culpa dos mercados. E assim por diante.

Para começo de conversa, qualquer um que pense um pouco no tema perceberá que a cultura não é um bloco de palavras congelado no tempo. A cultura do jovem brasileiro dos anos 2000 não é a mesma do jovem brasileiro de 1700, por exemplo.

Não é que não exista relevância para a “cultura” nas hipóteses que buscam explicar o desenvolvimento (ou as barreiras ao desenvolvimento) das sociedades humanas. Há sim. Aliás, a própria “cultura” (que propositalmente não foi definida aqui…) se confunde com traços genéticos, oriundos de grupos ancestrais em sua luta pela sobrevivência tanto quanto com os cuidados de uma mãe que pretende que sua filha cresça com valores de  sua mesma religião.

Algumas definições de cultura, aliás, estão neste ótimo texto da Virginia Postrel.

Here are a couple of useful definitions of culture:

    “a way of life of a group of people—the behaviors, beliefs, values, and symbols that they accept, generally without thinking about them, and that are passed along by communication and imitation from one generation to the next.”
    “the cumulative deposit of knowledge, experience, beliefs, values, attitudes, meanings, hierarchies, religion, notions of time, roles, spatial relations, concepts of the universe, and material objects and possessions acquired by a group of people in the course of generations through individual and group striving.”

Culture includes the topics newspapers put in their “culture” sections—arts and entertainment—and the rest of the newspaper as well. It encompasses how we think and behave. It determines who we trust or fear or censure. Culture shapes who we want to be and who believe we are. It is too important to be treated as an afterthought.

Desnecessário dizer que os desdobramentos disso são importantes. Por exemplo, nem todo terrorista é fruto de uma cultura islâmica. Há traços importantes que definem um terrorista, mas nada muito simplista como o que ouve por aí. Basta verificar os dados, por exemplo, para os EUA: boa parte dos terroristas são oriundos de uma “direita” radical (*).

Outro exemplo é o empreendedorismo. Sobel e co-autores (citados aqui) destacam a importância da liberdade econômica – um alegado fator “cultural” para muitos – para o empreendedorismo. Por sua vez, Galor e co-autores falam de um processo em que traços pró-empreendedorismo seriam fruto da complexa evolução humana. Finalmente, há quem encontre evidências da exposição à testosterona no período pré-natal na formação de traços empreendedores.

Neste último caso, aliás, percebe-se que as pesquisas avançam para uma direção em que a “cultura” já não pode mais ser tratada de uma única forma, seja em debates rasos ou em seminários de pesquisa. Para economistas, em particular, passou o tempo em que, justificadamente, recusava-se o simplismo de se usar a cultura como culpada por tudo (ao invés dos incentivos, como mostra, maravilhosamente, Zanella e co-autor neste artigo de história econômica comparada). Já podemos identificar a cultura – ou traços culturais – como incentivos em vários estudos mas o leitor deste blog já sabe disso…

(*) Radical mesmo. Não é como no Brasil em que alguém que leia Roger Scruton é rotulado de direita radical, o que, aliás, diz muito sobre o problema que muitos têm com o conceito de tolerância (aliás, sobre isso, ver este artigo e, claro, o que o motivou).

história econômica · história econômica brasileira · história econômica do Brasil · microeconomia · Uncategorized

Degredados!

320px-Desembarque_de_Pedro_C381lvares_Cabral_em_Porto_Seguro_em_1500_by_Oscar_Pereira_da_Silva_281865E28093193929Posso já ter citado este texto aqui (caso o tenha feito, peço desculpas), mas é que o Zanella tem sido sempre uma fonte de inspiração para que eu forme uma visão diferente da história econômica do Brasil.

Neste texto, ele desenvolve melhor um tema de sua tese de doutorado, qual seja, o papel dos degredados (ou dos tangomãos, tangomanos, lançados, etc) no desenvolvimento econômico brasileiro.

Boa leitura!

escravidão · história econômica · história econômica geral · Uncategorized

O número ótimo de chibatadas

Coincidentemente após terminar o Escravos de Leandro Narloch – livro que recomendo, inclusive – eu me deparo com a informação de que, em Richmond (EUA), a racionalidade econômica era importante não apenas no sentido de se preservar o escravo (pois era um ativo), mas também em outro aspecto do negócio: as chibatadas.

Pois é: não existe chibatada grátis. Excesso de violência tem um preço.

crédito · história econômica · juros · pensamento econômico

Textos que eu gostaria de ler…se tivesse tempo

Calculating Credibility: Print Culture, Trust and Economic Figures in Early Eighteenth-Century EnglandNATASHA GLAISYER
York University – Department of History
Economic History Review, Vol. 60, No. 4, pp. 685-711, November 2007
Abstract:
Credit in early modern England has been studied by both social historians of the market and historians of the book. The intersection of these literatures is explored by asking the question: how did producers of books about interest (which was closely connected to credit) convince readers that their books could be trusted? One particular book is considered: a palm-sized book of interest calculations by John Castaing. Most importantly, and unusually, many copies of this book contain his signature, which, it is argued, must be interpreted in the context of the particular role that signatures played in guaranteeing financial transactions.

Cultura · Desenvolvimento econômico · história econômica · liberalismo

Quem são os conservadores no Brasil?

Ainda sobre o mesmo texto sobre o qual eu falava…

As Veliz comments, “the cultural tradition of the Spanish-speaking peoples … proved unresponsive … to industrial capitalism” and their governments often sought to repress the market forces for change. Socialism, progressivism, and other collectivist ideologies in this sense were not a force for modernization—as many of their leading advocates preached—but a conservative movement to limit the extremely rapid pace of social transformation that capitalism was bringing about. Reflecting a fear of an unknown market-driven future, those peoples in Spain and Latin America whose values were shaped by a Spanish colonial history “appear to be sheltered (imprisoned?) by a magnificent past, unable to come to terms with a disappointing present,” reflecting a Spanish Catholic culture that for centuries manifested “an overriding affection for persons rather than a respect for things; a reluctance to sever the cords of the safety net; … a distrust of novelty and, generally, a sturdy disinclination to step outside the dependable protection of the dome, even in this, our own century of modernity” [Veliz 1994:201, 202].

Pense no seguinte: o discurso católico atual na América Latina é um discurso conservador, no sentido citado acima? Eu aposto que sua resposta é “sim, e muito”. Este é um desafio não apenas para o batalhão de militantes que se dizem qualquer coisa menos conservadores, mas também para uma vertente de liberais que pensa ser liberalismo um sinônimo do catolicismo (quando não falam de alguma suposta não-separabilidade entre ambos).

A questão da sua fé em Deus é, exclusivamente, sua. Não há dúvida quanto a isto. Agora, se a doutrina católica, tal qual transplantada para a América Latina produz algum efeito sobre a atitude média do latino-americano em relação ao funcionamento dos mercados é uma outra questão completamente diferente e, talvez, mais importante do que uma reles discussão sobre Deus, Marx ou Darwin. Pelo menos no que diz respeito ao desenvolvimento econômico.

desigualdade econômica · história econômica

As origens da desigualdade no Brasil

Reis e Monasterio (já citei o Congresso aí, né?) dizem:

The paper provides historical perspectives on regional economic inequalities in Brazil. Based upon municipal data on the occupational distribution of the labor force in Census years 1872 and 1920, it analyzes the changes in the spatial concentration of economic activities in Brazil. The New Economic Geography provides the analytical framework to show how geography, technology and institutions combined to give industrial preeminence to the city of São Paulo and why the industrialization of São Paulo had limited and delayed effects in the rest of the country. The conclusion discusses research extensions.  

The argument in short is that prohibitive transport costs precluded Brazilian industrialization up to the last quarter of the 19th c. when railroads were introduced. The significant reduction in transport costs brought by railroads increased the market potential of the city of São Paulo thus triggering self-reinforcing forces of economies of scale and agglomeration externalities in manufacturing activities. Other consequences of transport costs reduction were the accelerated pace of human capital accumulation brought by subsidized international migration to São Paulo. Consequences for the rest of the country were diverse. Emerging manufacturing activities outside the regions of São Paulo and Rio de Janeiro were out-competed by the reduction of transport costs. Furthermore, subsidized international immigration segmented the Brazilian labor market by delaying internal migration and inhibiting the reduction of regional disparities of wages and income.

Gostou? Eu gostei.

Se tem algo que não conheço bem é a tal Nova Geografia Econômica (também não conheço bem outras coisas, mas vamos ao ponto), coisa que o Leo gosta um bocado.

Acho este trabalho uma excelente chance de se aprender a fazer trabalhos empíricos em História Econômica. Como os leitores já sabem, sou simpático à Cliometria (google it!) e Monasterio é um dos que – a cada dia que passa – mais se destaca no bom uso da econometria à história. Fábio Pesavento também é outra estrela em ascenção.

Eu, como sempre, sou preguiçoso demais para fazer o trabalho de coleta de dados que estes caras fazem…

Passando os olhos pelos três ou quatro artigos que me interessaram, vejo que, embora haja aquele revival do conceito de colônias de exploração/povoamento, esta classificação ainda é inadequada para a compreensão dos problemas do desenvolvimento brasileiro. Instituições – a palavra-chave de Douglass North – parecem aparecer em diferentes formatos segundo determinantes que a literatura ainda não é capaz de resumir (talvez nem o seja). Dois pontos importantes aqui são: (i) quais os determinantes das instituições originariamente implantadas e (ii) como as instituições se desenvolvem ao longo do tempo.

Não é difícil ver que responder estas duas perguntas é um trabalho bem complicado, mesmo que não se entre no aspecto específico do problema que você estuda seja ele a história de Pindamonhagaba, do centro-sul paraguaio ou da América Latina.

América Latina · autoritarismo · bolivarianismo · Desenvolvimento econômico · história econômica · protecionismo · socialismo real

História Econômica

Ao contrário do que se ensina (desensina…) por aí, a América Latina sempre foi um local fértil em protecionismo e não-liberalismo. Acha que isto é discurso? Acha que tirei isto da minha cabeça? Ok, pode achar o que quiser, mas leia um pouco antes.

Depois deste gráfico, quero ver o poder do wishful thinking em ação para manter suas dissonâncias cognitivas…

cliometria · história econômica

Você conhece a Cliometria?

Aposto que seu professor de História Econômica não te contou…

 The Sixth World Congress of Cliometrics will be held from Thursday July 17 through Sunday July 20, 2008 at the Dalkeith Palace located near Edinburgh, Scotland. The Program Committee will put together an international program from the proposals submitted to the conference. Proposals are due November 15, 2007 and should be submitted via the form on the Congress web site at http://www.eh.net/Clio/WCC6/proposal_submission_form.html. The program will be posted on the Congress web site, http://www.eh.net/clio/WCC6/content.html, and the applicants will be informed in January 2008. If your paper is accepted for presentation, you are committing to sending a 22 page version of your paper to Program Committee no later than March 11, 2008.

All members of sponsoring organizations are invited to attend. Advance registration will be open January 1, 2008. To receive the Congress book in a timely fashion, those interested in attending must register for the conference by March 1, 2008.

As with the Annual Cliometrics Conference and the previous World Congresses, papers will be available in the Congress Book, sent to all participants. Sessions will be held in the traditional Cliometrics Conference format. Rather than formal presentations, authors will provide a brief five-minute introduction of the paper and then the floor will be open for discussion by the session participants. Thus, participants will be expected to have read the papers when they attend the sessions.

Accommodations will be available at Dalkeith Palace, the University of Edinburgh and local hotels. Complete information about registration and lodging, and the Congress Registration Form will be announced through the EH.NET list serves and on the Congress website later this year. Applicants will be encouraged to use the registration form on the Congress web site. However, they will also be able to submit the required information via e-mail, fax or post.

A limited number of Travel Grants will be available for Economic History Ph.D. students who would like to attend the Sixth World Congress. The U.S. National Science Foundation has provided funds through the Cliometrics Conference grant to help Ph.D. students defray travel and lodging expenses for the conference. Students from all countries are eligible for the grants.. Students who receive the grants must be a member of one of the sponsoring organizations.

Graduate students interested in applying for the grants must submit a paper proposal. When submitting the proposal, follow the link to the Travel Grant Application Form. Students whose proposals are accepted for presentation will receive first priority. Students whose proposals are not accepted for presentation are also eligible, funding permitting. In 2004 travel grants were awarded to nearly 20 Ph.D. students in economic history.

Additionally, the British Academy has made available funds to support five awards of £500 for early career Cliometricians at the 2008 Congress who will be presenting a paper at the Congress and received their PhD within the last five years. Junior colleagues from all countries are eligible for these awards, and those interested in applying should follow the links to the Early Career Travel Grant Application Form. 

Onde está o Fábio Pesavento nestas horas? ^_^

brasil · história econômica · rent-seeking

Excelente artigo

Rent Seeking and the Unveiling of ‘De Facto’ Institutions: Development and Colonial Heritage within BrazilJoana Naritomi, Rodrigo R. Soares, Juliano J. Assunção

NBER Working Paper No. 13545
Issued in October 2007
NBER Program(s): EFG

—- Abstract —–

This paper analyzes the roots of variation in de facto institutions, within a constant de jure institutional setting. We explore the role of rent-seeking episodes in colonial Brazil as determinants of the quality of current local institutions, and argue that this variation reveals a de facto dimension of institutional quality. We show that municipalities with origins tracing back to the sugar-cane colonial cycle — characterized by a polarized and oligarchic socioeconomic structure — display today more inequality in the distribution of land. Municipalities with origins tracing back to the gold colonial cycle — characterized by an over-bureaucratic and heavily intervening presence of the Portuguese state — display today worse governance practices and less access to justice. The colonial rent-seeking episodes are also correlated with lower provision of public goods and lower income per capita today, and the latter correlation seems to work partly through worse institutional quality at the local level.

commodities · história econômica

História Econômica…séria

O pessoal no Brasil deveria fazer algo como este excelente site. Há pesquisadores bons, há recursos, só falta aquele “algo a mais”. Fala-se tanto em commodities hoje, mas parece que há um imenso desperdício de tempo: os alunos parecem não terem nunca aprendido sobre o passado colonial e sobre a importância das commodities para a economia brasileira.

Digo, aprenderam, mas somente um amontoado de fatos desconexos (ou interpretados à luz da visão mainstream nas escolas: o marxismo) que, no máximo, citam alguns estranhos ciclos (pau-brasil, borracha, café, etc) sem o menor cuidado estatístico. Vá lá que haja gente que acredite em Papai Noel ou em ciclos de Kondratieff, mas há muito mais ciclos a serem replicados nos estudos de nosso passado histórico.

Agora, historiador bom mesmo é aquele que se enfurna nos arquivos e busca dados para conhecer a história de forma menos viesada do que na visão deste ou daquele historiador que, no máximo, sonhou com uma teoria, acordou, e escreveu um livro. Não, história econômica não é obra dos irmãos Grimm, gente. É obra de gente esforçada.

escravidão · história econômica

O navio negreiro fantasma

Nathan Nunn

NBER Working Paper No. 13367
Issued in September 2007
NBER Program(s):   ITI

—- Abstract —–

Can part of Africa’s current underdevelopment be explained by its slave trades? To explore this question, I use data from shipping records and historical documents reporting slave ethnicities to construct estimates of the number of slaves exported from each country during Africa’s slave trades. I find a robust negative relationship between the number of slaves exported from a country and current economic performance. To better understand if the relationship is causal, I examine the historical evidence on selection into the slave trades, and use instrumental variables. Together the evidence suggests that the slave trades have had an adverse effect on economic development.

Pergunta relevante e um artigo que promete. Vai para o caderninho dos artigos que não pude ler porque não tive tempo e/ou orientando que, realmente, quisesse e tivesse condições para explorar o tema. Não me leve a mal, mas é difícil encontrar um aluno que realmente entenda o que é História Econômica (pelo menos na minha vizinhança).

história econômica

História Econômica no mundo civilizado

Eis aqui um periódico que eu gostaria de assinar. Só de ver o que se fala sobre este número especial…

A supplementary issue, guest edited by Nicholas Dimsdale (Local Editor), Mark Thomas (University of Virginia), and Albrecht Ritschl (University of Berlin), will be published in October 2007.

This Special Issue of Oxford Economic Papers contains a collection of papers in economic history. It is entitled New Perspectives in Economic History since it was intended to encourage submissions in new areas of the subject or those which showed new insights into more familiar topics. The resulting collection represents some of the best work being done in the subject with papers ranging from the early 18th century to the mid 20th century.

Some papers use historical data sets to test economic models, others select an economic model and use it to illuminate some aspect of economic history. All of the papers make a contribution to our understanding of past economies and several provide valuable tests of economic models with an historical context.

The lead paper by O’Rourke uses a general equilibrium model to examine the effects of trade restrictions during the Napoleonic Wars. He shows how useful a small economic model can be in reassessing historical issues.

The majority of papers in the Special Issue use state of the art quantitative methods to analyze historical data sets. The paper which illustrates this most conspicuously is that by Shea who uses a version of the Black Scholes model of option pricing in studying the behaviour of share prices in the South Sea bubble. This paper will appeal to both to economic historians with an interest in financial history as well as financial economists. Similarly, students in both disciplines will be interested in the papers by Offer and Stelzer and Frank.

Notou, leitor? História Econômica não é isto de se sentar na cadeira de balanço com um livro velho, acender um charuto e sonhar. Primeiro, há que frequentar os arquivos. Segundo, há que se conhecer métodos estatísticos para se tratar os dados coletados. Caso não tenha dados, construa a teoria (com modelo e tal) e contraste com o ocorrido. Nada mais natural.

Agora, claro, existe gente que continua querendo sonhar…

história econômica · pensamento econômico · pterodoxos

Qual Chicago boy, cara-pálida?

Em 1979, quando o setor público já apresentava um pequeno superávit, os administradores de política econômica chilena resolveram fixar a taxa de câmbio em 39 pesos por dólar, para acabar de vez com a inflação. A sugestão vinha do professor Arnold Harberger, da Universidade de Chicago, um entusiasta da âncora cambial. Sucede que o Chile continuou reajustando trimestralmente os salários pela inflação passada, atendendo aos conselhos de outro mestre de Chicago, o famoso Milton Friedman. Configurou-se assim o processo de valorização real da taxa de câmbio descrito (…). [Simonsen, M.H. 30 anos de indexação, FGV Editora, 1995, p.158]

Pois é. Quantas vezes não ouvimos a lenda de que toda a política econômica de Pinochet foi uma obra maligna dos economistas de Chicago? A pterodoxia vive dizendo isto. O trecho acima, portanto, tem duas lições didáticas simples. Primeiro, não insista em falar de “escolas de pensamento” como se fosse um monolito de pensamentos. Nunca é. Existem indivíduos antes de suas classificações imaginárias. No mínimo, mais cuidado, ok?

Em segundo lugar, note como os conselhos dos caras não eram sincronizados. É óbvio que muita coisa boa e muita coisa ruim foi feita pelos economistas de Chicago. Na minha opinião, nada comparável ao laboratório humano que os heterodoxos implantaram no Brasil com seus planos de combate à inflação, mas tudo bem. O importante é que você perceba que não existe esta história de se ver apenas um lado da historia, o dos vencedores da mediocridade acadêmica: os pterodoxos que tentam distorcer a história só porque preferem Fidel Castro à Pinochet.

Nada disto, moço. Ambos fizeram políticas econômicas imperfeitas e, o saldo líquido, você vê, sim, na diferença entre os países, hoje.

Claudio

história econômica

Sharecropping (Sistema partilhado)

Imagine que você trabalhe para alguém. Como gostaria de ser remunerado? As pessoas geralmente dizem (ignore nossa natural preguiça) que gostariam de ganhar pelo que acrescentam à produção. Claro que, do lado do patrão, ele só está disposto a te pagar pelo adicional produzido e, mais ainda, ele tem que pesar o quanto você adiciona aos custos. Em resumo, falamos de produtividade marginal (na margem) e custo marginal. No ponto em que sua hora adicional iguala custo e produtividade marginais, pode-se mostrar, o lucro é máximo para o dono da firma.

Ok. Esta é a realidade em vários setores da economia em diversos períodos da história (e, claro, em diversos lugares do mundo). Mas há também outros arranjos contratuais existentes que, à primeira vista, podem parecer estranhos. Este tal “sistema partilhado” é um deles. Vejamos a explicação de David Friedman sobre o assunto:

Sharecropping means that a farmer pays, instead of rent, a fixed percentage of his crop to the owner of the land he farms. It seems an odd and inefficient arrangement. If I must pay half of my crop to my landlord, it only pays me to make investments of labor or capital if the payoff is at least twice the cost. I have, by contract, created an externality of 50 percent.

This raises an obvious puzzle. Sharecropping is a common arrangement, appearing in many different societies at different times in history. If it is inefficient, why does it exist?

Note que, para nós, economistas, é difícil entender porque pessoas normais queimam dinheiro (ou, colocado de outra forma, porque pessoas loucas não queimam dinheiro…). É isto que Friedman pergunta no final do parágrafo acima: “o sistema partilhado, aparentemente, é ineficiente (sob a ótica simples, de quem estudou apenas duas ou três disciplinas básicas de Economia), então, porque ele existe?

A resposta, na verdade, consiste em checar uma parte da pergunta: será que o sistema partilhado era, realmente, ineficiente? Ou será que nós não percebemos alguma peculiaridade do problema?

O “sistema partilhado” é um problema que sempre rende um bocado de discussão em economia, justamente por este seu caráter polêmico, digamos, múltiplo. Bom, uma das explicações para a permanência deste sistema – o próprio David Friedman comenta – é que este arranjo serviria como um seguro. Como assim?

Tomemos um whiske…digo, o caso do meu whiskey favorito:

Vários fazendeiros, porém, preferiam o “sistema partilhado”, em que pagavam a mão-de-obra com parte da colheita em lugar de dinheiro. Esse método diminuía o risco para o dono da terra, crucial agora que se abolira a escravidão. [Sangue e Uísque, A vida e a época de Jack Daniel, Peter Krass, Imago, 2006, p.120]

Em outras palavras, este arranjo pode não ser o que você esperaria, mas ele faz um certo sentido se você pensa no caso de um mundo no qual existe risco (ou “incerteza”, se você não for purista na nomenclatura). Detalhes sobre isto você encontra, por exemplo, no “Varian baby” e no “Varian hard”, as conhecidas versões de graduação e pós das notas de aula do Hal Varian.

Whiskey, contudo, só à noite. E olhe lá.

Claudio

Continue lendo “Sharecropping (Sistema partilhado)”

história econômica

Herança Ibérica? Que herança ibérica?

Já ouvi muito sobre esta história de sermos subdesenvolvidos por conta da cultura ibérica. Ouvi muito. Mas falei pouco. Então, aí vai.

1. Cultura ibérica é algo muito vago. Sabemos que os ibéricos sofreram influências dos mouros. Qual cultura é a ibérica? Hoje, portugueses e espanhóis vivem em um mundo muito mais globalizado do que em 1500. Qual é a cultura ibérica?

2. Vários historiadores já destacaram as notáveis diferenças entre portugueses e espanhóis, mesmo na construção dos respectivos impérios. Portanto, nada de conversa sobre heranças “ibéricas”.

Posto isto, ainda assim há o que se perguntar acerca do tal “path dependence” (se é que algum há) que “supostamente” teria influenciado nossa “cultura”. Eu me pergunto: Nagasaki, que sofreu forte influência do catolicismo através, justamente, da presença portuguesa, desenvolveu-se menos que o resto do Japão? E o que dizer da diferença entre Brasil e Angola? Ou Moçambique? Ou São Tomé e Príncipe?

Ok, ninguém disse que o problema era simples, mas ficou claro, espero, que podemos descartar termos imprecisos como esta tal “cultura ibérica” (ou “herança ibérica”). No mínimo, temos que considerar as especificidades portuguesas. E olhe lá.

Há um trecho, aqui, que é notável em termos de “insights” para se pensar isto.

Um império, sem dúvida, que não tinha muito a ver, na sua forma de se estrutura politicamente, com os impérios da tradição clássica europeia, nem com aquele desenvolvido pelos Espanhóis (…). Antes de mais, trata-se, não de um império terrestre, mas de um império oceânico, ou seja, de um império em que o mar já não era um limite, mas antes, o nexo essencial de união dos pontos de apoio na tera firme, o próprio corpo do império. [Hespanha & Santos, Os poderes…In: Mattoso, J. (dir) História de Portugal, vol.4, Editorial Estampa, Lisboa, p.395]

Imagine um modelo econômico que tente explicar isto. Acho que a inspiração inicial que me ocorre é este texto.

Palpites?

Claudio

Continue lendo “Herança Ibérica? Que herança ibérica?”

história econômica

Incentivos

Diz-nos Armando da Silva Saturnino Monteiro:

In 1494 Portugal and Spain signed the Treaty of Tordesilhas, which divided the unknown world between the two Iberian nations. The agreement enabled Portugal to keep good relations with Spain, assured the security of its land frontier, and thus allowed the application of a greater part of its resources to the sea. [Journal of Military History, v.65, n.1, Jan/2001]

Eis aí um exemplo de segurança jurídica, tratados internacionais e desenvolvimento econômico. Contudo, seria interessante verificar a hipótese de se foi mesmo o tratado o principal responsável pela expansão marítima (ou um dos principais…). A cliometria aguarda por algum interessado.

Claudio

Continue lendo “Incentivos”