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O onipresente ineficiente safadinho

https://cs.phncdn.com/insights-static/wp-content/uploads/2020/05/pornhub-insights-coronavirus-may-26-update-world.pngPois é. A imprensa mineira, recentemente, noticiou um período de prosperidade para a indústria de brinquedos eróticos e o ótimo blog (que geralmente é bloqueado…) de famoso site de vídeos, digamos, eróticos, apontou para um aumento de tráfico (em dois posts: este e este outro). Em suma: o isolamento levou muitas pessoas a alternativas ao sexo presencial. Desnecessário dizer que há uma chance incrível de se usar a Equação de Slutsky para um exemplo picante em sala de aula…

Claro, existem os solteiros e os que se viram isolados longe dos parceiros (namorados, maridos, esposas, amantes, etc): a aversão ao risco superou o desejo carnal e….bem, não é bem isso. Afinal, as vendas de brinquedos e o acesso aos vídeos aumentaram. E isso tudo no teletrabalho, já alvo de milhares de surveys que não necessariamente estão detectando esta mudança de comportamento. Por que? Porque talvez muitos não tenham coragem de declarar que gastam mais tempo com pornografia virtual.

Como já tive oportunidade de falar em O onipresente ineficiente, meu problema com algumas análises sobre o teletrabalho é que as mesmas confundem as preferências do indivíduo com uma óbvia mudança de restrição: não escolhemos as horas atuais alocadas ao teletrabalho porque queremos, mas porque fomos obrigados a isto.

Os dados do site cujo-nome-vai-causar-bloqueio-do-post e a matéria do jornal mineiro mostram uma outra possibilidade da difícil vida dos onipresentes ineficientes que é a composição de suas horas de lazer. Aliás, não sei não se alguns não aumentaram suas horas virtuais em sexo durante o horário de trabalho, embora reportem passar mais tempo com a família

É bom frisar: não há nenhuma bobagem de novonormal-blábláblá nisto. A pandemia passará e tanto o acesso aos vídeos quanto os brinquedos voltarão ao seu normal.

Parece que muitos não perceberam a diferença entre mudanças temporárias e permanentes (todo bom modelo macroeconômico tem um exercício sobre estas mudanças, acrescentando, claro, a antecipação ou não das ditas mudanças).

O mercado de artigos para sexo (inclusive o de assinatura virtual) está diante de uma mudança não antecipada e temporária (ainda que alguns mais apavorados, em seus devaneios, pensem que a mudança é permanente). Ou seja: ao longo do tempo, o choque da pandemia vai se dissipar e voltaremos aos hábitos de antes.

Então, nada disso deixará um legado? Claro que há lições a serem aprendidas por conta de guerras, crises financeiras, etc. Mas as mudanças de preços relativos não são nem totalmente previsíveis, nem eternamente fixas (ou não seriam mudanças!). Pare com a bobagem do suposto novo normal. O normal continua bem…normal.

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A infância nos anos 70

Tive infância na época. Descobri que, a despeito das dificuldades, vivi em uma época em que os brinquedos não vinham da China.

Os melhores carrinhos eram os ingleses. Acho que formavam a imensa maioria dos carrinhos ofertados (achei até um de Hong Kong).

Existiam alguns nacionais (na foto, o carro esportivo cinza) e, quando algum japonês retornava ao Japão, ganhávamos algumas lembranças, como a viatura e o ônibus da polícia que estão na foto.

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Onze (não dez) melhores livros de 2019

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No apagar das luzes do ano, eis alguns livros que gostei de ler em 2019. Uma lista incompleta, com livros ordenados aleatoriamente.

  1. Open Borders – the science and ethics of immigration. Livro em quadrinhos de Bryan Caplan e Zach Weinersmith. Minha opinião: não traduzí-lo (e publicá-lo) seria um crime (contra a humanidade, eu diria).
  2. The Political Economy of Special Economic Zones – Concentrating Economic Development. Livro de Lotta Moberg. Minha opinião: por muito pouco não é um livro sobre cidades experimentais (charter cities), mas tem um ótimo arcabouço conceitual para se estudar o tema.
  3. Hive Mind: how your nation’s IQ matter so much more than your own. Livro de Garett Jones. Minha opinião: mais um daqueles livros que precisam ser traduzidos. Pessoal que fala de capital humano precisa enfrentar o tema do QI com menos preconceito e mais coragem (e a coleta sistemática de dados já caducou o que, ironicamente, diz algo a nosso respeito como país em desenvolvimento…).
  4. The Trust Revolution: how the digitization of trust will revolutionize business and government. Livro de M. Todd Henderson e Salen Churi. Minha opinião? Um dos melhores do ano. Falam muita besteira por aí sobre Uber e aplicativos afins. Não neste livro. As perspectivas para o governo são interessantes. Há, no livro, bons insights para, seriamente, pensarmos em novas formas de governo (ou governança pública, caso prefira o termo).
  5. None of my business: from bestselling political humorist P.J.O’Rourke. Minha opinião? Qualquer livro do P.J. O’Rourke vale a pena. Ponto final.
  6. The Worlds of Gerry and Sylvia Anderson: the story behind International Rescue. Livro de Ian Fryer (complementa o Filmed in Supermarionation, de Stephen La Riviere). Minha opinião: gosto muito de toda a obra de Gerry e Sylvia Anderson e, mais ainda, dos aspectos pouco conhecidos desta interessante função de produção que é a dos filmes e programas de TV.
  7. Small Wars, Big Data: The Information Revolution in Modern Conflict. Livro de Eli Berman, Joseph H. Felter, Jacocob N. Shapiro e Vestal McIntyre. Minha opinião: livro que indico sempre que posso. Um dos melhores livros sobre o uso de big data em estudos científicos acerca de conflitos modernos (estas tais guerras assimétricas). Em outras palavras, quem estuda crime organizado ou terrorismo vai adorar.
  8. Hugo Chávez – o espectro. Livro de Leonardo Coutinho. Minha opinião: um dos melhores livros sobre o regime de Chávez e suas pouco analisadas (surpreendentemente) conexões com aspectos político-criminais pelo continente. Serve como reflexão sobre até onde um político pode ir quando a imprensa e os eleitores se deixam seduzir por belos discursos…vazios.
  9. Lucros de Sangue: como o consumidor financia o terrorismo. Livro de Vanessa Neumann. Outro livro essencial para quem sempre achou que a “Tríplice Fronteira” não deveria ser desprezada quando se fala do combate ao crime (ou terrorismo).
  10. Pancadaria: por dentro do épico conflito Marvel vs DC. Livro de Reed Tucker. Quem me conhece sabe do quanto gosto dos aspectos econômicos do mundo dos quadrinhos. Divertido e útil para, novamente, entender aspectos da criatividade e da função de produção deste incrível mundo dos gibis.
  11. Eu sou um gato. Livro de Soseki Natsume. Minha opinião: o mais famoso escritor japonês da era Meiji, Soseki me foi apresentado pelo pequeno e divertido Botchan (há versão para cinema, mas não me recordo dos detalhes). Já em “Eu sou um gato”, o autor narra o cotidiano de uma família centralizado em seu personagem principal, o gato. “Sonhos”, de Kurosawa, foi baseado na vida de um discípulo de Soseki, Hyakken Uchida, que escreveu uma espécie de resposta/complemento a este clássico da literatura japonesa (fica meu apelo para que o traduzam). Talvez seja o único livro de ficção desta lista.

Em retrospecto, vejo que sigo em busca de livros que me ajudem a compreender aspectos de pesquisas que, vez por outra, geram artigos científicos. É uma lista incompleta e deixou alguns ótimos livros de fora, mas creio que é isto.

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Previsão no ponto ou no intervalo: uma discussão inútil?

Eis a notícia. Como é de conhecimento comum aos já iniciados em Estatística ou Econometria, qualquer previsão pode ser feita no ponto ou no intervalo. Se observarmos a prática do FMI, Banco Mundial ou de qualquer outra consultoria privada nacional, observaremos que as projeções divulgadas são as pontuais.

Qual o motivo disto? Arrogância? Não. O motivo é reduzir a instabilidade natural que existe nas cabecinhas de gente como a gente. É óbvio que a inflação prevista pontualmente pode não se realizar, mas o importante é que o erro seja pequeno. E quem acha mais fácil falar em “4.5 + ou – 0.02” do que em “4.5, mas é só uma previsão estatística” na hora do cálculo do crediário que atire a pedra.

Mas, sejamos justos, o intervalo é mais preciso, né? Mais ou menos. Pois muito bem, digamos que se queira adotar intervalos de confiança para a divulgação das previsões. Por exemplo, suponha que o Banco Central quisesse mudar sua previsão de inflação para uma intervalar. Seria esta uma boa forma de diminuir a instabilidade nos mercados? O sujeito olha para a previsão e vê algo como 5.5% + ou – 0.4. A pergunta seria: “de onde veio o 0.4? Provavelmente veio de algum nível de confiança determinado.

Agora, esta é uma questão que nos remete novamente ao fato de que alguma arbitrariedade seria inevitável (agora, na determinação do nível de confiança). Se o objetivo é mostrar que o economista “é ignorante quanto à realidade”, como diz a notícia, acho que mais fácil seria dizer que a previsão é baseada em teoria estatística. Não é necessário este trabalho todo.

Claro que há sempre a patuléia da pterodoxia (e suas quintas colunas da blogosfera) que adoram dizer que “econometria não serve para nada porque o mundo é complicado”, etc. Para isto, basta, por exemplo, escolher intervalos de confiança ruins e divulgar sempre as péssimas previsões para, lentamente, minar a confiança das pessoas na Ciência Econômica. É como colocar um falso ponto em debate e, a partir daí, repeti-lo como verdadeiro para depois, sim, desmascará-lo (entre aspas). Claro que a alternativa desta gente é o debate sobre as idéias “Marshall-Kaleckinas com toques Hicksianos contra o dragão da maldade Friedmaniano” ou algo tão verborrágico quanto.

Óbvio é que uma previsão é apenas uma previsão. Mais óbvio ainda é que a econometria é baseada em estatística que, por definição, tem que ser considerada como algo que jamais nos dará respostas definitivas. Agora, dizer que o intervalo de confiança é uma forma de nos mostrar o quão ignorantes somos me parece um exagero. Eu prefiria ouvir isto de um Pedro Valls, de um Márcio Laurini, enfim, de gente que realmente trabalha com econometria e que, mais importante, entende do assunto.

Para mim, parece que o intervalo de confiança trará muito pouco ganho para o entendimento da realidade econômica. Bastava um rodapé na tabela. O que isto trará na prática é apenas mais ou menos trabalho para os encarregados destas previsões. Dou as boas-vindas ao intervalo, mas ressalto: a ignorância econômica, esta continuará se manifestando através das declarações estranhas de alguns economistas, repórteres, leigos, enfim, gente que ou tem má formação econômica, ou interesses ocultos. Simples assim.

UPDATE p.s. Aposta com o leitor: se algo sair errado, os economistas oficiais (e aliados) dirão que a culpa é do modelo. (quem quiser apostar, deixe o comentário aqui).

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Em breve os “fanáticos pela externalidade” defenderão: “filhos homens devem indenizar as mães”

Você já viu o quanto de amigo seu usa – de forma abusiva – o conceito econômico de “externalidade”? Eu já ouvi vários argumentos assim. Normalmente são adeptos da pterodoxia ou da “esquerda (intervencionista) anaeróbica”. Pois agora considere isto (vou reproduzir um trecho):

Filhos homens não são fáceis para uma mãe. Seja o peso maior na hora do parto, o nível elevado de testosterona ou, simplesmente, as algazarras que as deixam de cabelo em pé – os meninos trazem um fardo extra à mulher que os deu à luz. Examinando registros de dois séculos de uma igreja finlandesa, Virpi Lummaa, da University of Sheffield, na Inglaterra, tem como provar: filhos homens reduzem a expectativa de vida da mãe, em média, em 34 semanas.

Com o auxílio de genealogistas, a bióloga evolucionária finlandesa de 33 anos vasculhou livros com séculos de idade (e décadas em microfichas) em busca de certidões de nascimento, casamento e óbito – e pistas sobre a influência da evolução na reprodução humana. Historiadores, economistas e mesmo sociólogos há muito usam táticas parecidas para explorar seus campos de estudo, mas Lummaa está entre os primeiros biólogos a estudar o Homo sapiens como animal cuja população pode ser acompanhada ao longo do tempo.

Primeira consequência deste argumento sobre estes intervencionistas, creio eu, seria uma redução de aproximadamente 50% dos mesmos. Outra possível consequência é que o grau de “negação” aumentaria graças à dificuldade de se defender, ao mesmo tempo, a ladainha intervencionista “porque-tudo-tem-externalidades” com o fato de se ter nascido homem (nos casos devidos, entenda-se bem). Finalmente, uma possível bem-humorada consequência seria o aumento dos pedidos para troca de sexo em centros especializados. ^_^

Eis um bom motivo para se entender bem economia: evita um monte de pensamentos bobos.

economia

Finalmente a tradução de um dos clássicos da economia…

…embora poucos economistas brasileiros o conheçam. Dos poucos que o conhecem, menos ainda se atrevem a divulgá-lo. Mas é um dos melhores que já li, sem dúvida. Com muita simplicidade explica bons conceitos básicos de economia e como os mesmos podem, sob o funcionamento do mercado, gerar alegria para milhões.

Leia que ele é curtinho, curtinho. Tão curto quanto simples e gostoso de ler.

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Sexo, dinheiro e a obesidade estatal

Comece a ler:

Robert Solow, Prêmio Nobel de Economia, disse certa vez, referindo-se a Milton Friedman: “Tudo para Milton o lembra da oferta de moeda. Já para mim tudo lembra sexo, mas, pelo menos, eu tento mantê-lo fora dos meus artigos”. Também tenho minhas obsessões e, entre as publicáveis, a questão fiscal no Brasil ocupa lugar de honra. Digo isto a propósito de dados recentemente publicados pelo Banco Mundial acerca da comparação entre diferentes países. A imprensa local deu ênfase à posição do Brasil como a décima maior economia do mundo, mas não prestou muita atenção a outro conjunto de dados, bem menos lisonjeiro, que destaca o elevado nível de gasto público no país.

Continue aqui.

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Jovem mamador

Direto do Erik:

Dinheiro público

Ontem participei de uma banca de monografia onde a aluna analisou o programa “Jovem Empreendedor”. Sua principal conclusão foi: o programa, que em quatro anos atendeu 10 mil jovens, conseguiu formar apenas 215 empreendedores. Desses 215, uma dezena conseguiu levar o negócio adiante. Logo, ineficiência plena. E mais, tudo à custa de mais de meio milhão de Reais. Um membro da banca questionou: “não se prenda a essa análise fria dos dados, tente ver como o programa contribuiu para a felicidade dos 9 mil e poucos que não se tornaram empreendedores. Será que as vidas deles não melhoraram? Faça uma análise qualitativa.”

Na minha fala, entre outras coisas, retruquei: Felicidade dos jovens com mais de meio milhão de Reais dos cofres públicos?