Corrupção, Crime e Crescimento Econômico

Que tal este artigo?

A theory of organized crime, corruption and economic growth
Keith Blackburn, Kyriakos C. Neanidis, Maria Paola Rana

Abstract – We develop a framework for studying the interactions between organized crime and corruption, together with the individual and combined effects of these
phenomena on economic growth. Criminal organizations co-exist with law-abiding productive agents and potentially corrupt law enforcers. The crime syndicate obstructs the economic activities of agents through extortion, and may pay bribes to law enforcers in return for their compliance in this. We show how organized crime has a negative effect on growth, and how this effect may be either enhanced or mitigated in the presence of corruption. The outcome depends critically on a trade-off generated when corruption exists, that between a lower supply of crimes and the probability these crimes are more likely to be successful.

A referência? É esta: BLACKBURN, K.; KYRIAKOS, ·; NEANIDIS, C.; MARIA, ·; RANA, P. A theory of organized crime, corruption and economic growth. Economic Theory Bulletin, 2017. Springer International Publishing.

O artigo é de acesso aberto. ^_^

Economia do Crime e Drogas (mas não do jeito que você deve estar pensando…)

Não, não estou falando da polêmica do Bolsonaro sobre castração química, embora o assunto possa ser considerado como um tópico de pesquisa relacionado. De fato, estupro (rape) aparece como um dos crimes analisados pelos autores. Vale a pena pensar no tema? Responda para si mesmo após ler o resumo abaixo e, se possível, o artigo.

A Cure for Crime? Psycho-Pharmaceuticals and Crime Trends

Dave E. Marcotte
Sara Markowitz

Abstract
In this paper we consider possible links between the diffusion of new pharmaceuticals used for treating mental illness and crime rates. We describe recent trends in crime and review the evidence showing that mental illness is a clear risk factor both for criminal behavior and victimization. We summarize the development of a number of new pharmaceutical therapies for the treatment of mental illness that came into wide use during the “great American crime decline.” We examine limited international data, as well as more detailed American data, to assess the relationship between rates of prescriptions of psychotropic drugs and crime rates, while controlling for other factors that may explain trends in crime rates. Using state-level variation in the rates that various drug therapies disperse within populations to identify impacts on crime rates, we find some evidence that the expansion of psychiatric drugs is associated with decreased violent crime rates, but not property crime rates. We find no robust impacts on homicide rates and no effects on arrest rates. Further, the magnitudes of the estimated effects of expanded drug treatment on violent crime are small. Our estimates imply that about 5 percent of the decline in crime during the period of our study was due to expanded mental health treatment. © 2010 by the Association for Public Policy Analysis and Management

Mais policiais, menos crimes?

É o que parece. Trecho:

Intelectuais têm o direito de oferecer seus expedientes de curandeirismo social para tentar o que não se conseguiu em nenhum lugar do mundo, a redução da violência de forma ampla e consistente por intervenções sociais ou panacéias comunitárias.

O que não faz sentido é que essas idéias mirabolantes se transformem em políticas públicas destinadas ao fracasso, comprometendo instrumentos de controle do crime e prometendo o que não podem cumprir, com experimentações que não amenizarão a violência.

Pelo trecho, gostei. Mas leia o resto.

Carro bom para se andar em um país no qual se paga impostos mas a segurança pública,…óóó..

Fonte: Esta.

O custo de se pagar mais um centavo de imposto para não se diminuir um único ponto percentual na violência é o exatamente o que me custa a oportunidade de pagar por uma empresa de segurança privada que faça isto de maneira decente.

No Brasil, de fato, discutir segurança privada (por exemplo, num contexto anarco-capitalista) é algo anacrônico. O brasileiro, mesmo o cronista/filósofo/palpiteiro de plantão que se pretende indignado com a “privatização” das tarefas de segurança já vive em um condomínio fechado, vigiado com seguranças privados e usa alarme eletrônico em seu carro.

Quando até os críticos já vivem como reclusos, a discussão parece mesmo estar até atrasada. Dia destes farei um post sobre o tema que, sim, fascina-me.

Nem em paridade do poder de compra…

…você consegue igualar os valores de um “suposto” mensalão (lembra dele?).  Não, sul-coreanos, não tentem desafiar a potência brasileira. A corrupção na autoridade fiscal sul-coreana é de proporções escandalosas (para não-selvagens).

If Jun is convicted of all charges, he faces at least seven years in prison.
With the warrant, the prosecution escorted Jun to the Busan Detention Center last night.
Jun is suspected of receiving a total of 50 million won ($55,078) and $10,000 in cash from July last year to January this year in five payments from a subordinate who had sought to buy a promotion. Chung Sang-gon, then the head of the tax office in Busan, testified earlier that he paid the bribes to Jun.
At Jun’s order, Lee Byeong-dae, the current head of the Busan tax office, had visited Chung, who is already in detention, and tried to persuade him not to testify against Jun, prosecutors have said. Lee met with Chung twice, on Aug. 20 and in early September, the prosecution has said.

Como se vê, não é só na selva que a corrupção e a autoridade tributária (fiscal) se atraem. Trata-se de uma lei universal: onde há recursos obtidos de forma coercitiva (mas legal), há gente querendo meter a mão. Mas, cá para nós, o Brasil, um país de tolos, é bem mais competente na forma de se destruir a vida alheia. Faz sentido: não temos furacão, maremoto ou terremoto. Como é que seríamos punidos sem catástrofes naturais? Resposta simples: pela mão do próprio homem. Homem Macunaímico, devo dizer.

O uso do conhecimento

Insumos em uma função de produção de crimes: exemplo brasileiro. Sim, produz-se algo, é verdade. Mas pense bem: produz-se um mecanismo de redistribuição de recursos na economia não-baseado na eficiência da alocação dos recursos. A diferença entre isto e o governo é que aceitamos, geralmente, as distorções geradas pelo governo por via do voto e de nossa visão de que o sistema político pode ser algo interessante para nossa vida.

Já disse isto muito aqui: a alocação de recursos pode se dar de três formas: trocas voluntárias (mercados), trocas involuntárias sob coerção legal (governo) e trocas involuntárias sob coerção ilegal (violência).

Claro, há tipos intermediários, mas esta é a tipologia básica.

Consistência tende a zero…por que?

Disse o Daniel Piza:

A declaração do governador Nascimento, digo, Sérgio Cabral, de que favelas são fábricas de marginais e de que o aborto é necessário para conter a criminalidade, seria divertida se não fosse desastrosa. A maioria das pessoas que vive em favelas não é criminosa. E a fonte dessa idéia sobre o aborto é o best-seller Freakonomics, cuja consistência tende a zero.

Ok, eu gosto da crítica à hipótese do Levitt. Acho que o argumento dele é interessante, mas tenho dúvidas sobre a generalidade de sua hipótese. Outro dia disse aqui que o Samuel Pessôa faria uma ótima ação ao debate se divulgasse o seu artigo – ele já ficou bem famoso ao defender a hipótese do aborto no “Estadão” baseado neste estudo. O Laurini, por sua vez, foi específico na crítica, focando no método econométrico.

O Daniel Piza tem sempre boas observações sobre a realidade brasileira (nesta mesma edição de sua coluna há uma interessante análise sobre a história brasileira), mas ficou a dever nesta crítica gratuita. Por que é que a consistência da tese do Levitt tende a zero? Piza ficou nos devendo um arrazoado de bons motivos.

Comentários?

Lavando dinheiro em casa

Tito Belchior (UCB) tem novo artigo. E é sobre lavagem de dinheiro, um tema comum na boca do povo, mas pouco explorado na literatura acadêmica brasileira. Digo, na literatura econômica.

Este pessoal da UCB não é fácil não. Conheci os membros do departamento recentemente (inclusive o intrépido Adolfo Sachsida) e creio que ainda verei bons artigos saindo do celeiro de Brasília. Se fosse para aplicar Heckscher-Ohlin, bem, Brasília, políticos, lavagem de dinheiro… (piada para quem conhece o teorema). ^_^

Como pensam os ladrões?

É a própria polícia quem diz: “incentivos importam”. Trecho:

Existem apenas pequenas diferenças regionais quando se faz um trabalho comparativo, segundo Bondaruk. Mas, na estratégia de delito, quando se analisa também aspectos comportamentais dos criminosos, ele afirma que, até agora, não encontrou nada de novo. “A cabeça do bandido é mais ou menos a mesma. E segue uma regra básica: a lei do menor esforço.”

Quanto tempo e dinheiro teria sido poupado se, há anos, as pessoas parassem de reclamar dos economistas e lessem mais o que eles escrevem, notadamente, Gary Becker. Bom, o pessoal desta pesquisa foi na direção correta. Vejamos mais detalhes da pesquisa:

Para garantir o caráter científico, dos mil questionários aplicados, apenas 287 foram considerados. “A colaboração voluntária era uma garantia para evitar invenção de dados”, explica Bondaruk.

O resultado da pesquisa prova, segundo o tenente-coronel, o que há muito tempo é estudado no Exterior, mas que ainda é pouco conhecido no Brasil: fatores ambientais exercem influência direta na segurança pública. Além disso, as primeiras análises demonstram que as informações coletadas têm caráter universal, ou seja, são semelhantes e aplicáveis em qualquer município.

Finalmente, o que a pesquisa tem de recomendações normativas?

Casa com muro é o alvo preferido dos bandidos. A sensação de segurança que o proprietário busca ao erguer uma muralha reverte em favor do ladrão na hora do assalto: serve de esconderijo, pois impede a visão de quem está do lado de fora. A informação é daqueles que mais entendem do assunto: os próprios assaltantes.

Ok, minha única dúvida: como é tratado o viés potencial derivado do fato de o próprio assaltante responder aos questionários? Provavelmente a resposta está na lei dos grandes números, mas, pela primeira vez, eu vejo uma reportagem citar uma pesquisa e se preocupar com falar de sua seriedade citando dados da amostra.

Teoria econômica auxilia o combate ao crime

A teoria econômica pode gerar proposições positivas úteis a um eficiente combate à atividade criminosa? Claro que a resposta é sim. Vamos ao exemplo:

In this paper the efficiency of the confiscation as a tool against organized crime is studied by using a general equilibrium model that considers the existence of a representative criminal organization that generates profits that need to be laundered. The main result of the paper shows that if on one hand confiscation diminishes the optimal amount of money laundered on the other it increases the fraction of resources allocated to the criminal activity. This result suggests that confiscation has to be connected to further repressive measures in other to be an efficient tool against organized crime.

O artigo é de Ricardo Araújo e Lindomar Mendes, respectivamente da UCB e do Banco Central do Brasil. A moral da história contada no artigo é a seguinte: não basta confiscar a grana dos ladrões, você tem que reprimir o crime também.

Olho para o que acontece no Brasil e me pergunto sobre o problema anterior: por que tão pouca repressão de facto?

Desarmamento…para que?

Na época do referendo éramos eu e o Leo neste blog apenas. Nesta questão, eu e ele pensamos diferente. Na época tivemos vários textos aqui e, no que me lembro, eu sempre reclamei de um ponto específico (que, aliás, eu sempre reclamo quando se fala de política pública): a (quase total) despreocupação dos burocratas e seus asseclas (ou assessores, conforme o caráter do sujeito) com medidas objetivas de impacto. Algo como: “tá bom, eu tenho aqui um estudo que mostra que se aprovarmos o desarmamento, a criminalidade cairá em x%, com y% de confiança estatística”.

Pois é. O desarmamento não passou, eu fiz um artigo com mais três co-autores sobre a economia política deste negócio (você sabia que existe toooooooooda uma área de pesquisa sobre referendos e outros métodos de democracia direta? Procure por John Matsusaka no seu Google, tá?), e, hoje, entre um programa de TV e outro, eu abro o jornal na cama e leio:

Arma da PM abastece crime, diz estudo

Dados de subcomissão da Câmara mostram que 1 em cada 4 armas ilegais de SP pertencia ao poder público

Luciana Nunes Leal

Rastreamento realizado pelo Exército a pedido da Subcomissão de Armas e Munições da Câmara dos Deputados mostra que uma em cada quatro armas ilegais apreendidas no Estado de São Paulo teve como primeiro dono o poder público, principalmente a Polícia Militar. A estatística refere-se apenas às armas vendidas pelas fábricas legalmente para as instituições – ou para policiais e outros agentes de segurança – e depois desviadas para o crime.

O Departamento de Fiscalização de Produtos Controlados (DFPC) do Exército rastreou 4.200 armas apreendidas em São Paulo entre 2003 e 2006. Desse total, 1.134 (27%) tinham sido vendidas ao poder público – 1.002 delas (23,8%) à PM.

Eu assino o Estadão no final de semana e, portanto, pude ler o resto da matéria. Há mais no jornal. Há uma briga entre órgãos de segurança acerca destes números (você não achou que isto seria uma maravilha para os burocratas da segurança, né?) e mais informações.

Se eu fosse um daqueles caras das teorias de que “tudo-é-culpa-do-Bush-neoliberal”, eu estaria aqui elocubrando sobre a demora em divulgar e/ou fazer um relatório destes. Afinal, se estes dados estão corretos, o desarmamento pode não ser a melhor solução. O que ocorre é uma brutal falha de governo na qual pessoas privilegiadas no acesso ao mercado legal de armas ou são roubadas, ou vendem as armas para bandidos e estes privilegiados não são eu ou você, mas gente que é paga para nos proteger dos bandidos.

Mas eu não compartilho da tese da conspiração. Não neste caso. E não é porque sou como a esquerda anaeróbica que culpa Bush por tudo e se recusa a ver o Foro de São Paulo como algo beemmm estranho (embora as FARC estejam lá…). É porque descuidos ou falhas com respeito à informação estatística para o público…em tempo hábil é uma característica de nossa burocracia. Ou porque não têm recursos, ou porque podem desagradar algum poderoso que deseja se reeleger e/ou eleger o sucessor.

A discussão do desarmamento segue legítima, claro. Mas eis a informação interessante: talvez tivesse valido a pena, na época, investir na segurança e/ou mudança de regras quanto aos privilégios de alguns do que fazer o tal referendo. Ou, talvez, muita gente tenha visto com bons olhos a ampliação de seu mercado caso o referendo fosse aprovado. Afinal, é claro que a demanda ilegal de armas aumentaria um bocado.

Drogas: nova base de dados

O que você faz logo que acorda? Eu faço um café, escovo os dentes, assisto a temporada de Sumô e ligo o computador. Sempre faço uma leitura de jornal e/ou uma busca de novos artigos científicos.

De vez em quando eu me esqueço de fazer esta busca e, então, acabo por informar os meus leitores com algum atraso. Mas, veja, este artigo da Ana Kassouf e do Marcelo dos Santos tem uma dica muito boa sobre estatísticas de crimes, dentre outras: a tal SENASP.

Se eu fosse um pesquisador (aluno ou professor, etc) interessado na Economia do Crime (tema principal do Ari, o sumido deste blog), eu daria uma olhadinha lá.

Claudio

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Esta vai pro Ari

Ari é estudioso da economia do crime. Bem, acabo de folhear o livro de Ib Teixeira – A violência sem retoque – e encontrei o seguinte:

[citando Alba Zaluar, antropóloga] Os níveis salariais no Sudeste da Ásia são incrivelmente baixos, os operários não têm direitos trabalhistas como os operários brasileiros e, no entanto, os níveis de crimes violentos não aumentaram como aqui.

Em seguida, há uns dados que mostram que a relação não é clara. E aí, Ari? Você concorda com isto? O que os estudos mostram?

Claudio

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