Quem teria criado o termo “inflacionismo”?

Alguns acham que foi o prof. Gustavo Franco. Talvez se deva a ele o seu uso generalizado, mas veja que já no início do livro de Villela e Suzigan, na página 32…

Pois é. O inflacionismo já estava lá…^_^

p.s. UPDATE – Thomas Conti encontrou o termo em documento de 1894, aqui.

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Novo ponto no debate: o imposto único

Ok, não é uma proposta nova, mas o Marcos Cintra foi feliz no momento de recolocar a proposta. Eu gostaria mesmo era de ver um único economista que fizesse o estudo de viabilidade deste imposto (um exercício de contrafactual). Embora atrativo do ponto de vista teórico, o mais prudente é pensar no custo-benefício desta proposta relativamente ao nosso monstrengo tributário atual.

Alguém conhece estudos deste tipo para o Brasil? Para outros países?

A Epistemologia está nua

Alex publicou o artigo do dia. Nunca recebi tantas mensagens eletrônicas com o artigo como hoje. Vale a reprodução integral:

A miséria da epistemologia

O artigo de Luís Antônio de Oliveira Lima (“Ousando discordar da ortodoxia dos economistas”, Valor Econômico, 12/11/07) é pródigo em citações, o que mostra o salutar hábito de leitura do autor. Pena que seu entendimento destes textos não seja igualmente saudável, o que me pouparia o trabalho de rebatê-lo novamente. Isto dito, um texto com tantos problemas não poderia passar incólume.

A questão que debatemos é simples. Defendo que a escolha de uma meta de inflação mais elevada (ou mais baixa) não deve ter qualquer efeito sobre a taxa de crescimento da economia por um motivo bastante singelo: as pessoas conseguem distinguir entre alterações nominais e reais de preços. Sindicatos, por exemplo, negociam salários sabendo muito bem o que se trata de mero reajuste nominal e o que é, de fato, ganho real. Se isto é verdade, o anúncio de meta de inflação mais elevada deve ser imediatamente incorporado ao conjunto de informações dos agentes e, consequentemente, às suas expectativas, sem efeitos reais sobre a economia (chamemos isto de hipótese aceleracionista). Lima, pelo contrário, argumentou originalmente que, sim, uma meta de inflação mais alta poderia acelerar o crescimento (já em seu último artigo recuou da posição inicial, afirmando apenas que crescimento pode ser compatível com inflação mais alta).

Em apoio à sua tese Lima, citando o trabalho de Robert Barro, “observa que para taxas de inflação abaixo de 20% qualquer relação, positiva ou negativa, entre crescimento e inflação, não é estatisticamente significativa”. Lima não se deu conta, porém, que este resultado, ao contrário do que parece acreditar, não apóia sua tese. Se a taxa de inflação não tem qualquer efeito sobre a taxa de crescimento, por que alguém escolheria uma meta de inflação mais alta?

Para colocar a questão em termos mais mundanos, o número de vezes ao dia que alguém tocar a Macarena durante a primeira infância do seu filho muito possivelmente não irá afetar sua estatura na adolescência. Isto, porém, não é justificativa para tocá-la inúmeras vezes ao dia, a menos que você acredite que isto trará um aumento de bem-estar à criança (eu não acho, mas deixo isto a critério de cada pai). Da mesma forma, ainda que a inflação (abaixo de 20% a.a.) não prejudique o crescimento, qual a razão para que esta seja 8% a.a. ao invés de, digamos, 3%? Há algo de positivo na inflação mais elevada?

A bem da verdade, Lima agora diz não acreditar que inflação mais alta traga mais crescimento (ainda que em outras passagens revele persistir na crença), mas sim que inflação alta também é compatível com crescimento, assim como é a inflação baixa, ou seja, que o crescimento independe da taxa de inflação. Pergunto: no que mesmo sua posição difere da hipótese aceleracionista?

Lima, porém, não se limita a citações sobre macroeconomia e traz também a epistemologia ao debate. Segundo ele não se pode dizer que a hipótese aceleracionista seja “correta”, já que – citando Karl Popper – não há uma teoria “correta”, apenas hipóteses que se ajustam melhor ou pior aos dados. De fato, a teoria da gravidade de Newton, na leitura ingênua de Popper proposta por Lima, também não é “correta”, mas apenas uma hipótese, que, pode se ajustar melhor ou pior aos dados. Será que o filósofo pularia de uma janela com base na noção que a teoria da gravidade não é “correta” no sentido popperiano do termo?

Exagero meu? Pelo contrário. Anos de exercício de política monetária sob a hipótese aceleracionista cimentaram a noção do que tem sido denominado “A Grande Moderação”, isto é, um período no qual taxas baixas de inflação têm convivido com baixa volatilidade do crescimento. Ao contrário do período em que bancos centrais tentaram (inutilmente) acelerar o crescimento à custa de inflação mais elevada, apenas para pouco depois serem forçados a desacelerar fortemente a atividade para controlar a inflação, gerando um padrão conhecido como stop-and-go, hoje os bancos centrais aprenderam que não precisam (metaforicamente) pular da janela para ver se a hipótese aceleracionista se ajusta aos dados.

Em outras palavras, a hipótese aceleracionista, considerada “simplista” por Lima, serviu de base para a gestão bem sucedida de política monetária que, ao redor do globo, gerou baixas taxas de inflação com reduzida volatilidade do produto, traduzindo-se em ganhos significativos de bem-estar. Como diria Milton Friedman (“The Methodology of Positive Economics”), inspirado pelo mesmo positivismo de Popper, pouco interessam as hipóteses do modelo, desde que este consiga gerar previsões válidas, entre elas sugestões de política que aumentem o bem-estar. A evidência acumulada sobre estes anos de gestão de política monetária inspirada pela hipótese aceleracionista sugere que esta cumpre, com honras, este quesito.

Isto, porém, parece ainda além da compreensão de Lima, em que pesem suas pretensões epistemológicas. Sem dúvida é curioso que alguém cite Popper e, poucos parágrafos depois, questione o “realismo” das hipóteses do modelo, incluída a suposição acerca da racionalidade dos agentes econômicos. Revela, no mínimo, pouca reflexão sobre as implicações da abordagem popperiana à ciência. Na pior das hipóteses sugere que só cita o filósofo alemão quando lhe é interessante, deixando de lado as implicações menos favoráveis à sua tese.

Em todo caso, a miséria epistemológica, mesmo grave, não é o pior aspecto do artigo. Mais séria é a falta de entendimento acerca da própria hipótese aceleracionista, em particular para alguém que pretende se posicionar como o campeão da heterodoxia, “ousando desafiar a ortodoxia dos economistas”. Ao recuar da sua posição original acerca da inflação mais alta trazer mais crescimento e afirmar que teria dito apenas que a inflação elevada (mas, imagino, abaixo de 20%) é “compatível” com crescimento Lima apenas repete inadvertidamente a hipótese aceleracionista, isto é, que o crescimento não é afetado pela taxa de inflação. O defensor da “heterodoxia” não conseguiu perceber que sua suposta crítica apenas ecoa a mesma teoria que pretende criticar. Seria irônico, mas é apenas triste.

(Publicado 5/Dez/2007)

Clipping matinal

Duas: (a) Rogoff é muito melhor crítico do que o virulento Paul Krugman, (ii) Paulo Haddad pode ser meio confuso de se ler, mas ele não é o primeiro a fazer uso do argumento citado. Samuel Pessoa, do IBRE, tem dito isto já algumas vezes.

“Pode baixar os juros que não há problema”…mesmo?

O IEDI, órgão ligado às indústrias, divulgou o último dado da mais complicada variável (em termos de mensuração): a utilização da capacidade instalada. Diz o pessoal de lá:

O economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Edgard Pereira, não vê trajetória explosiva no Nível de Utilização da Capacidade Instalada (Nuci), calculado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), que ficou em 82,8% em outubro, ante 82,5% em setembro. “Foi apenas um ajuste na margem”, afirmou.

Será mesmo? Eis o exercício para o pessoal de Econometria:  (i) com os principais indicadores econômicos do Brasil, construa um cenário destacando os principais focos possíveis de inflação, (ii) no IPEADATA, obtenha a série citada acima e faça dois gráficos: um, com a evolução mensal da série e outro com os fatores sazonais.

Após fazer isto tudo, procure avaliar a afirmação do pessoal da CNI.

Excelente artigo na mídia: Affonso C. Pastore e Maria Pinotti

Países mais pobres obrigam seus governos a desenvolverem programas sociais, buscando a redução da pobreza, o que leva a uma carga tributária maior do que em países mais desenvolvidos. As transferências de renda minimizam o sofrimento dos pobres, mas não garantem a abertura de oportunidades de emprego e de aumento de ganhos derivados da aceleração do crescimento. Para que isto ocorra são necessários investimentos em infra-estrutura, sem os quais crescem os riscos que limitam os investimentos privados.

Leia mais aqui.

Não é bem assim

Primeiro, vamos a um trecho:

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, apresentou no IV Fórum de Economia da FGV uma coleção impressionante de dados favoráveis da economia brasileira e anunciou que o governo Lula está implantando um novo modelo social-desenvolvimentista no Brasil, com crescimento do PIB mais vigoroso e equilibrado, e com redução das desigualdades sociais e regionais.

O que é modelo “social-desenvolvimentista”? Trata-se de um mistério. Nenhum livro de crescimento econômico define isto. Talvez seja “social-desenvolvimentismo” atender demandas de empresários de “indústrias infantes”, “miseráveis” e “sem-terra”…aos custos de mais impostos mas, sejamos honestos, o ministro não definiu o que entende por mais este novo termo para os marketeiros políticos.

Fazendo um longo salto:

O que a experiência histórica dos casos de sucesso na aceleração e sustentação do crescimento de longo prazo mostra que o desafio maior que o ministro da Fazenda terá ainda que enfrentar é a de conciliar a tensão entre necessidade de uma taxa de câmbio competitiva e menos volátil com as restrições impostas pela livre mobilidade de capitais e excesso de liquidez global, num novo provável contexto de pressão inflacionária global. Isto exige ainda ajustes fiscais capazes de abrir espaços para ampliação do setor de tradables, com elevação da taxa de investimento e o convencimento de que os superávits nas transações correntes será permanente. A atual aceleração no crescimento é a principal moeda política que o ministro da Fazenda possui para fazer as mudanças. O empenho do governo em aprovar a CPMF e o anúncio de ampliação de gastos correntes caminham politicamente na direção oposta.

Então, o que o autor do artigo acima está dizendo é que um governo que se ajusta através de aumentos de impostos não segue um modelo “social-desenvolvimentista”? Sem ironias, isto me lembra muito o modelo “neoliberal” criticado em prosa e verso pelos “movimentos sociais”. Mas, novamente, sejamos justos, o autor do artigo não está discutindo o modelo neoliberal (seja lá o que isto signifique). Ele melhorou a qualidade da discussão ao falar do tipo de ajuste que gera maior crescimento econômico posterior, algo que a literatura já discutiu ad nauseam (mas que é, sim, relevante e útil rediscutir).

Neste sentido, eu já citei aqui, mas repito, este estudo é clássico no tema. Leia seu resumo para entender exatamente o que digo.

No final, eu fiquei mesmo é sem entender o neologismo “social-desenvolvimentista” do sr. Mantega. Parece-me muito mais um “nacional-desenvolvimentismo” abreviado. Este negócio de chamar tudo de “social” para ficar bem na fita é um truque antigo que só pega em gente que realmente ignora algumas obviedades não apenas do bom uso da língua portuguesa, mas também da economia. Claro, estou a falar dos desavisados, mas há sempre os mal-intencionados de plantão. Mas isto é tema para outra discussão.

Desmistificando as falácias econômicas

Alex Schwartzman é o melhor na arte de destroçar as falácias econômicas da grande mídia (e de alguns blogs, claro). Veja-se este novo exemplo:

An argument that has been floated recently, to the point of meriting the dubious honor of being officially dismissed in the Copom minutes, is that the increase in foodstuff prices would have an effect on Brazilian consumption similar to the increase in oil prices in US consumption, namely that it would work as a “tax” on consumers, reducing demand, hence inflation. Whereas, as I said, committee members downplayed (correctly) the argument, the minutes did not bother to explain why the argument does not make much sense (and, mind you, I am attempting to be polite here). In light of that, I believe that going into more detail might be helpful.

Gostou? Leia o resto então.

O governo cresce…contratando amigos

Veja bem, o governo cresce e com a contratação de amigos. Aí você me pergunta: mas tem o superávit primário, o ajuste fiscal que o ministro tanto cita como se fosse um auto-elogio. Se os gastos aumentam, como você consegue ter superávit primário? Ou você privatiza, ou aumenta a carga tributária.

Tem outra opção?

Quem é a favor de mais arrecadação gosta de subsídios?

O Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) defendeu que o governo aproveite o espaço fiscal obtido com a elevação da arrecadação para adotar medidas de estímulo ao crescimento econômico. Pelos cálculos do Iedi, essa folga representa 2% do Produto Interno Bruto (PIB) – 1,1 ponto com o aumento da carga tributária e 0,9 ponto pela redução dos gastos com juros.

Leia mais sobre a proposta do IEDI aqui. Aproveite e leia novamente o que o Adolfo disse ontem. Outro dia eu mesmo comentei aqui uma das últimas cartas quinzenais do Jorge Vianna Monteiro na qual ele expressava – corretamente – sua desconfiança da tal campanha da FIESP contra a CPMF. Se é contra a CPMF, é contra subsídios? Se é, então, sim, leitor, pode ser que seja um liberal. Mas se acha que subsídio é bom, não é liberal, embora o povo da esquerda insista em lançar esta confusão na mente de seus eleitores.

Faz parte do discurso dos não-liberais acusar seus inimigos de liberais (como o faz, descaradamente, há mais de 50 anos, a esquerda) ou de comunistas (como o faz, descaradamente, há quase tanto tempo quanto, os grupos de interesse de empresários).

Já ouviu falar da sociedade rent-seeking? Pois o Brasil é um exemplo que se encaixaria em qualquer livro-texto sobre o tema.

Complexo Industrial-Militar terá licitações “flexibilizadas”

Lembra do que falei ontem, sobre o complexo industrial-militar brasileiro? Pois é. Hoje eu leio que:

O ministro da Defesa, Nelson Jobim, disse ontem que o governo vai flexibilizar a Lei de Licitações para beneficiar as empresas brasileiras na compra de materiais, equipamentos e insumos bélicos para Exército, Marinha e Aeronáutica.

Isto dá uma pá de boas perguntas: (a) por que o setor de Defesa sim e o de Educação não?, (b) que interesses ganham com este aumento do gasto público?, (c) qual a justificativa teórica para se dizer que um tanque é mais bem público do que um remédio?, (d) como funciona a lei de licitações e quais os motivos de ela ser tão (pouco) flexível? Não vale culpar o governo já que é o próprio governo que está a flexibilizá-la agora (opa, olha a dica aí…).

Interessante que o novo ministro – celebrado porque iria resolver o problema da falha governamental no setor aéreo – seja notícia, agora, quase que exclusivamente por causa destas suas ações no ramo militar.

A tragédia do discurso oficial

O que você pensaria se Delfim Netto, nos bons anos de chumbo, diante da proposta da oposição de lhe cortar receitas de tributos, dissesse que isto prejudicaria os programas sociais? Eu sei o que você pensaria. Palavras como “chantagista”, “mentiroso”, “falso”, “safado” e outras que bloqueariam este blog em bons lares deste país estariam sambando em sua mente.

Mas, e se os tempos forem outros?

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou que seria trágico para o País se a renovação da CPMF não for aprovada pelo Congresso Nacional. “Teríamos de desativar programas como o Bolsa Família e reduzir o superávit primário. A emenda 29 (que estipula a destinação de recursos para a Saúde) teria de ser discutida”, afirmou Mantega.

Trágico, não?

Abstrações e sua realidade: escolha antes que o marketing político escolha por você

Costumo dizer que às vezes tenho vontade de socraticamente parar as pessoas na rua e perguntar: “E se o Brasil perdesse a Amazônia, que diferença isso faria na sua vida?” Porque eu não consigo pensar em nenhuma. Exceto que se algum povo menos burocrático a ocupasse talvez eu pudesse comprar alguns produtos novos. Essa postura em relação à Amazônia é só um sintoma de um condicionamento geral muito fácil de observar aqui: o brasileiro, por mais pobre e impotente que seja, sempre discute qualquer assunto do ponto de vista do governante, nunca do governado. É o que eu chamo “mentalidade imperial”. Se você vai escrever um poema, fazer um espetáculo de dança ou mesmo fritar uns pastéis é tudo pelo Brasil, é sempre em função de um suposto projeto de país. E ninguém parece perceber que nada faria mais bem ao Brasil do que parar de tratá-lo como um projeto e começar a tratá-lo como um dado. O Brasil não é um sonho. É um aglomerado político de cidades. A famosa “realidade” não é necessariamente desdentada; realidade é o que quer que esteja à sua volta. É melhor fritar um bom pastel porque ele é um bem, e não porque o bom pastel é bom para o Brasil. Ele é bom para quem vai comê-lo e bom para o artista que o fez. Não existe nenhuma maneira de um aglomerado político se beneficiar de um pastel.

Eu me impressiono com o Pedro Sette desde 1997 ou 1998, quando me enviou – a pedido meu – alguns exemplares impressos de “O Indivíduo”. Havia um post dele que não encontrei no qual ele disse sua frase (para mim, célebre): “não adianta sair do Brasil. Você tem é que tirar o Brasil de dentro de você” (ou algo assim).

O trecho acima, na minha opinião, tem o mesmo sentido geral. E me faz pensar um pouco sobre estes problemas de sempre: onde estão os eleitores com suas caras pintadas? Se eles não agem porque há um dilema de ação coletiva, quem é que comandou e resolveu o dilema nos anos 90?

A galera do Partido Libertário e do Partido Federalista, ambos nascentes, deveriam pensar nisto. Se seus organizadores desejam seguir uma linha liberal-libertária, precisam nos dizer como resolverão o problema que o dilema gera para seus prováveis membros. Ou, melhor ainda, precisam resolvê-los. Ok, aqui a discussão fica mais confusa e abstrata, mas era só para os liberais que estarão em Brasília no final do ano pensem no assunto. Principalmente o povo mais jovem.

A armadilha das idéias em ação

Hoje nós achamos o Hugo Chávez uma coisa meio estapafúrdia, meio folclórica, meio Odorico Paraguassu, mas ele não estaria fora de esquadro nos anos 80, quando o Mitterrand nacionalizava bancos e seguradoras. O presidente Kirchner, da Argentina, parece hoje uma figura meio heterodoxa, mas nos anos 80 ele seria considerado a Margaret Thatcher dos pampas. É verdade que tem um pouquinho de congelamento de preços aqui e ali, mas há um equilíbrio fiscal jamais visto na Argentina. E lembre-se que o Nixon tentou controlar preços nos anos 70 para combater a inflação. Eu não estou, obviamente, defendendo a política econômica do Chávez e do Kirchner. Pelo contrário, acho ambas ruins, equivocadas, e que vão danificar suas economias no médio prazo. Usei estes exemplos para mostrar como a perspectiva mudou, houve uma convergência para melhor na política econômica, e a percepção do que é heterodoxo é muito mais rígida. A esquerda costuma dizer que o mundo mudou e por isso eles tiveram que mudar. Mas, como diz meu amigo, o economista Samuel Pessôa, acho que não, o mundo continua o mesmo. Foram as pessoas que mudaram, a política econômica que mudou, e para melhor.

Isto é o que diz Marcos Lisboa. Agora eu não sou tão otimista como ele. Mas note que Lisboa deveria ser mais cuidadoso em seu interessante argumento: o que, afinal, é uma política econômica boa? Eu acho que sei o que ele quer dizer, mas é necessário esclarecer melhor o termo. Talvez a melhor forma de entender o argumento de Lisboa é pensar no The Idea Trap, de Byran Caplan.

Claudio

A nova política econômica do governo

Este – excelente – artigo do Sérgio Werlang me fez pensar: na verdade, o governo LLUULLAA adotou uma política “laissez-faire”. Veja só: não se diz qual é a meta, fala-se que se vai gastar em investimentos públicos, mas gasta-se em consumo público, enfim, um descompromisso total entre intenções e ações.

O mais fascinante é que os críticos do liberalismo sempre se incomodam com a fascinante coordenação gerada pelas ações descentralizadas dos indivíduos no mercado ao mesmo tempo em que têm de arrumar desculpas para desvios do caminho toda vez que alguém aponta uma contradição na ação do “sacrossanto” governo.

Eis aí algo que nem sempre os “jornalistas econômicos” (será que gastam pouco? :)) ressaltam em suas análises…

Claudio
p.s. eis um outro artigo que poderia servir de texto em um exame para a certificação de jornalistas econômicos.
p.s.2. Não, não estou defendendo a certificação, mas é uma boa idéia. Afinal, diploma bom é só para os outros? 🙂

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PAC e a realidade (além da blogosfera e do jornalismo rasteiro)

Desde os anos 60 do século passado a atividade de planejamento governamental encontra-se em um beco sem saída, seja no âmbito acadêmico, seja nas inúmeras tentativas de implementar pacotes de políticas públicas, em variadas economias nacionais. O Brasil não é exceção. A era dos Planos Nacionais de Desenvolvimento (PND), durante os governos militares, foi uma prática mais acadêmica do que de geração efetiva de resultados ou disseminação de uma cultura de planejamento na Administração Pública. Na seqüência do Plano Cruzado, ocorreu mais um fracassado esforço de planejar o crescimento econômico, e durante o Governo anterior as discussões em torno do “Avança Brasil” foram rapidamente deixadas de lado. Agora, surge o PAC, “Programa de Aceleração do Crescimento: 2007-2010”, com propósito análogo a essas tentativas: acionar um esforço de planejamento que possa induzir a que agentes privados atuem na intensidade desejada. A cola que liga tudo isso é, outra vez, o crescimento do PIB ou, na metáfora usada no PAC, “romper barreiras e superar limites”.

Leia o resto aqui (a blogosfera está cheia de opiniões ingênuas sobre o PAC…).

Claudio

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O suicídio

“A meta de superávits primários de 3% (do PIB) de 2001 a 2004, contida na última LDO, é exagerada e suicida para uma economia que precisa de investimentos. (Valor Econômico, 10/05/2001)”. [Giambiagi, F. “Rompendo com a ruptura: o governo Lula, in: Economia Brasileira Contemporânea, Campus, 2005, p.198]

Quem disse isto? Bom, abra o livro ou descubra aqui.

Suicida?

Claudio

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Para que independência legal se a autonomia já basta?

Proposição 1:

“Já que o BCB tem autonomia suficiente, não precisamos discutir sua independência legal”.

Proposição 2:

“Já que o escravo tem autonomia suficiente, não precisamos discutir sua independência legal”.

Claudio
p.s. não me venha com a tal “função social” do BCB. Assim como o escravo livre vai preso por cometer um crime, o presidente do BCB deve ser demitido se não cumprir suas metas. A única diferença, a crucial, é que as metas do BCB devem ser estabelecidas transparentemente, já que não é um indivíduo, e sim um aglomerado de gente.

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Empreendedores brasileiros e o Plano Real

Depois de anos sem descanso, o empresário cearense Afonso Gonçalves tirou dez dias de férias em janeiro. Do seu sítio, no interior de Minas Gerais, ele acompanha o movimento do seu supermercado pela internet, celular e ou pelo sistema interno de TV. Gonçalves, 43 anos, é dono de um supermercado na periferia de São Bernardo do Campo. Há dez anos, era um vendedor ambulante. ‘Nunca sonhei com isso’, conta o migrante, que chegou a São Paulo no início dos anos 80 com um par de chinelos de dedo e uma mochila nas costas.

O migrante subiu na vida. Até aí, nada de novo. Mas a história de Gonçalves é reveladora de uma transformação silenciosa na periferia do País. Ele é prova de que o capitalismo também está prosperando onde (quase) não existe banco, Bolsa de Valores ou MBAs. No ano passado, o Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial detectou o fenômeno sem querer, ao fazer um estudo encomendado pela Nestlé sobre o consumo em alguns bairros pobres da Grande São Paulo.

‘Há progressos totalmente fora do discurso político. Essas pessoas são menos dependentes de programas de transferência de renda do que se imagina’, afirma o economista Norman Gall, diretor-executivo do instituto. ‘O fim da inflação crônica a partir do Plano Real trouxe uma grande redução da pobreza. Há uma combinação de fatores econômicos e culturais melhorando a qualidade de vida dessas pessoas.’

Os pesquisadores do instituto se surpreenderam com o potencial empreendedor em regiões pobres de São Paulo. ‘Descobrimos pessoas que não foram à universidade, mas que são intuitivas, vão atrás de informação e de algum tipo de crédito, mesmo que extra-oficial, para fazer seu negócio crescer’, afirma a economista Patrícia Guedes.

Itálicos por minha conta.

Pergunta do dia: pessoas sem tantos anos de estudo como você são racionais (no sentido econômico)?

Claudio

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Windows para todos

A Associação Brasileira das Empresas de Software – Abes, divulgou um estudo nesta semana, segundo o qual que aponta que 73% dos usuários que adquiriram seu primeiro PC por meio do programa governamental Computador Para Todos (PC Conectado) trocaram o sistema aberto Linux, requisito do programa, pelo Windows.

Sim, veja também esta outra notícia.

Tem alguma moral nesta história? Quem me conhece até desconfia…e tem a ver com o que a razão diz após o papelão:

De acordo com o presidente da entidade, Jorge Sukarie, o governo federal deveria rever a exigência de venda de computador com um único tipo de sistema operacional.

“A pesquisa constata, de forma plena, que o sistema operacional que vem pré-instalado no equipamento é substituído após a compra. O governo federal deveria permitir que o usuário tivesse oportunidade de escolher o sistema operacional que equipa o “Computador para Todos”, mesmo que isto implique valores diferentes no preço final do computador”.

O que? Consumidor ter o direito de escolher??? Não é uma rendição ao neoliberalismo? Consumidor tem racionalidade limitada, é burro e idiota! Não sabe escolher. Ele é escravo das temíveis multinacionais “estadunidenses” e do imperialismo massacrante! Não, nada de escolha: linux goela abaixo!

Pronto, colaborei com a esquerda mundial. Estou com minha consciência social tranquila e com meu fígado desopilado…de tanto rir.

Claudio
p.s. a propósito, libertarianismo, agora, está na Britannica.
p.s.2. quer mesmo usar o argumento da racionalidade limitada? Então, primeiro, leia este livro.

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Hummm

Nos séculos VII e VIII, os árabes mulçumanos conquistaram o Norte africano. O resultado foi a arabização da porção setentrional do continente. Os árabes referiam-se às regiões não-árabes ao Sul do Saara de o país dos negros. Ibn Khaldun, um intelectual árabe do século XIV, foi um dos primeiros a divulgar a noção de que o clima tropical condicionou a formação de uma “raça” negra apática e indolente.

O tráfico de escravos africanos foi conduzido inicialmente pelos árabes, na orla da África Oriental, por meio de enclaves no Oceano Índico, como Mogadíscio, na atual Somália. Os traficantes de escravos, árabes ou europeus, não se aventuravam na captura de negros no interior da África. O trabalho de captura de futuros escravos ficava nas mãos dos próprios africanos, o que beneficiava muitas tribos ou clãs que queriam eliminar seus rivais. Assim, muitos reinos e clãs africanos enriqueceram à custa do sofrimento de seus irmãos africanos. Com efeito, reinos negreiros surgiram com o tráfico, configurados em Estados. Estes combatiam pelo controle de zonas de captura e rotas de tráfico negreiro. Destacaram-se como Estados negreiros Benin (o primeiro país a reconhecer a Independência do Brasil), Gana e Nigéria.

Agora, cabe-nos perguntar: devemos culpar apenas os europeus pelo tráfico e a escravização de negros africanos?

E agora José (ou será: “e agora Mahmoud Ahmadinejad”)? A lógica e os fatos falaram mais alto.

Mudando de assunto, hoje vi que foi reeditado o Febeapá do Stanislaw Ponte Preta. Compre e me dê de presente!

Claudio

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