Economia Brasileira · liberdade econômica

Os impactos da MP da liberdade econômica

Nota técnica interessante feita pelo pessoal da Economia. Resumo:

Sendo assim, o efeito potencial da MP 881/2019 seria um ganho no longo prazo de 7% no PIB per capita e de 4% na população ocupada. Assumindo que o período de 10 a 15 anos seja suficientemente longo para que as mudanças analisadas sejam convertidas em maior estoque de capital e produtividade dos fatores, os 7% de PIB per capita adicionais significariam um acréscimo entre 0,4% a 0,7% no crescimento médio anual.

Promissor, heim?

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ciência econômica · Economia Brasileira

Defender sua saúde é o mesmo que defender gastos com sua saúde?


Nem sempre. Exemplo simples: (a) tenho uma gripe e compro um remédio e me curo versus (b) tenho uma gripe, vou a todos os especialistas médicos existentes, faço vários exames e no final, eu me curo porque era uma simples gripe.

Note que, nestas duas pequenas histórias, eu estaria mais bem servido se fosse menos hipocondríaco (como o sujeito “b”) e mais racional no uso do meu dinheiro com a saúde. Note também que o resultado final (o fim da gripe e o tempo que levará até isso) dependem não apenas de mim, mas também de outros fatores (eu poderia ter alterado parâmetros nas minhas duas opções como o clima, a poluição, etc). A minha gestão da minha saúde, por melhor que seja, ainda pode estar sujeita a problemas externos à minha capacidade de controle.

Isso tudo significa que, na vida real, minimizamos danos e o mínimo não é zero (exceto por coincidência) e temos que escolher jeitos eficazes de lidar com nossa saúde.

Agora, defender a pesquisa também não é o mesmo que defender o (maior) gasto em pesquisa. Nem defender a educação é o mesmo que defender o (maior) gasto em educação.

Aliás, há nestas duas últimas questões, um ponto adicional: o dinheiro gasto nestas coisas não é apenas o meu (minha parte é apenas uma fração do gasto total em cada uma destas áreas e nem por mim é administrada).

Há até quem use do expediente de “discutir a qualidade do gasto” por um tempo absurdamente longo para, justamente, jamais melhorar a qualidade do mesmo (já que sabe que, provavelmente, a maior qualidade signifique menor nível de gasto). Há um tempo ótimo para se discutir qualquer coisa, como sabe qualquer um que já tenha participado de uma reunião (desde as de família até às de trabalho).

Não é tão fácil como nos induzem a pensar os cartazes (e os memes), né?

carga tributária · Desenvolvimento econômico · Economia Brasileira

A carga tributária ótima é de 20%?

Paulo Guedes disse que a carga tributária “ideal” é de 20% (ela foi de 32% em 2017). Em nosso estudo de 2017, estimamos algo em torno de 29%.

Claro, não contávamos com tantas mudanças como as que parecem estar por vir. Pessoalmente, até prefiro 20%, mas é difícil saber, agora, se esta será mesmo a carga tributária ótima. Por que? Porque não sabemos qual o tamanho da máquina governamental (que otimize o bem-estar) a ser sustentada.

CPMF · Economia Brasileira · imposto único

Novo ponto no debate: o imposto único

Ok, não é uma proposta nova, mas o Marcos Cintra foi feliz no momento de recolocar a proposta. Eu gostaria mesmo era de ver um único economista que fizesse o estudo de viabilidade deste imposto (um exercício de contrafactual). Embora atrativo do ponto de vista teórico, o mais prudente é pensar no custo-benefício desta proposta relativamente ao nosso monstrengo tributário atual.

Alguém conhece estudos deste tipo para o Brasil? Para outros países?

Economia Brasileira · epistemologia · falácias econômicas · Política monetária

A Epistemologia está nua

Alex publicou o artigo do dia. Nunca recebi tantas mensagens eletrônicas com o artigo como hoje. Vale a reprodução integral:

A miséria da epistemologia

O artigo de Luís Antônio de Oliveira Lima (“Ousando discordar da ortodoxia dos economistas”, Valor Econômico, 12/11/07) é pródigo em citações, o que mostra o salutar hábito de leitura do autor. Pena que seu entendimento destes textos não seja igualmente saudável, o que me pouparia o trabalho de rebatê-lo novamente. Isto dito, um texto com tantos problemas não poderia passar incólume.

A questão que debatemos é simples. Defendo que a escolha de uma meta de inflação mais elevada (ou mais baixa) não deve ter qualquer efeito sobre a taxa de crescimento da economia por um motivo bastante singelo: as pessoas conseguem distinguir entre alterações nominais e reais de preços. Sindicatos, por exemplo, negociam salários sabendo muito bem o que se trata de mero reajuste nominal e o que é, de fato, ganho real. Se isto é verdade, o anúncio de meta de inflação mais elevada deve ser imediatamente incorporado ao conjunto de informações dos agentes e, consequentemente, às suas expectativas, sem efeitos reais sobre a economia (chamemos isto de hipótese aceleracionista). Lima, pelo contrário, argumentou originalmente que, sim, uma meta de inflação mais alta poderia acelerar o crescimento (já em seu último artigo recuou da posição inicial, afirmando apenas que crescimento pode ser compatível com inflação mais alta).

Em apoio à sua tese Lima, citando o trabalho de Robert Barro, “observa que para taxas de inflação abaixo de 20% qualquer relação, positiva ou negativa, entre crescimento e inflação, não é estatisticamente significativa”. Lima não se deu conta, porém, que este resultado, ao contrário do que parece acreditar, não apóia sua tese. Se a taxa de inflação não tem qualquer efeito sobre a taxa de crescimento, por que alguém escolheria uma meta de inflação mais alta?

Para colocar a questão em termos mais mundanos, o número de vezes ao dia que alguém tocar a Macarena durante a primeira infância do seu filho muito possivelmente não irá afetar sua estatura na adolescência. Isto, porém, não é justificativa para tocá-la inúmeras vezes ao dia, a menos que você acredite que isto trará um aumento de bem-estar à criança (eu não acho, mas deixo isto a critério de cada pai). Da mesma forma, ainda que a inflação (abaixo de 20% a.a.) não prejudique o crescimento, qual a razão para que esta seja 8% a.a. ao invés de, digamos, 3%? Há algo de positivo na inflação mais elevada?

A bem da verdade, Lima agora diz não acreditar que inflação mais alta traga mais crescimento (ainda que em outras passagens revele persistir na crença), mas sim que inflação alta também é compatível com crescimento, assim como é a inflação baixa, ou seja, que o crescimento independe da taxa de inflação. Pergunto: no que mesmo sua posição difere da hipótese aceleracionista?

Lima, porém, não se limita a citações sobre macroeconomia e traz também a epistemologia ao debate. Segundo ele não se pode dizer que a hipótese aceleracionista seja “correta”, já que – citando Karl Popper – não há uma teoria “correta”, apenas hipóteses que se ajustam melhor ou pior aos dados. De fato, a teoria da gravidade de Newton, na leitura ingênua de Popper proposta por Lima, também não é “correta”, mas apenas uma hipótese, que, pode se ajustar melhor ou pior aos dados. Será que o filósofo pularia de uma janela com base na noção que a teoria da gravidade não é “correta” no sentido popperiano do termo?

Exagero meu? Pelo contrário. Anos de exercício de política monetária sob a hipótese aceleracionista cimentaram a noção do que tem sido denominado “A Grande Moderação”, isto é, um período no qual taxas baixas de inflação têm convivido com baixa volatilidade do crescimento. Ao contrário do período em que bancos centrais tentaram (inutilmente) acelerar o crescimento à custa de inflação mais elevada, apenas para pouco depois serem forçados a desacelerar fortemente a atividade para controlar a inflação, gerando um padrão conhecido como stop-and-go, hoje os bancos centrais aprenderam que não precisam (metaforicamente) pular da janela para ver se a hipótese aceleracionista se ajusta aos dados.

Em outras palavras, a hipótese aceleracionista, considerada “simplista” por Lima, serviu de base para a gestão bem sucedida de política monetária que, ao redor do globo, gerou baixas taxas de inflação com reduzida volatilidade do produto, traduzindo-se em ganhos significativos de bem-estar. Como diria Milton Friedman (“The Methodology of Positive Economics”), inspirado pelo mesmo positivismo de Popper, pouco interessam as hipóteses do modelo, desde que este consiga gerar previsões válidas, entre elas sugestões de política que aumentem o bem-estar. A evidência acumulada sobre estes anos de gestão de política monetária inspirada pela hipótese aceleracionista sugere que esta cumpre, com honras, este quesito.

Isto, porém, parece ainda além da compreensão de Lima, em que pesem suas pretensões epistemológicas. Sem dúvida é curioso que alguém cite Popper e, poucos parágrafos depois, questione o “realismo” das hipóteses do modelo, incluída a suposição acerca da racionalidade dos agentes econômicos. Revela, no mínimo, pouca reflexão sobre as implicações da abordagem popperiana à ciência. Na pior das hipóteses sugere que só cita o filósofo alemão quando lhe é interessante, deixando de lado as implicações menos favoráveis à sua tese.

Em todo caso, a miséria epistemológica, mesmo grave, não é o pior aspecto do artigo. Mais séria é a falta de entendimento acerca da própria hipótese aceleracionista, em particular para alguém que pretende se posicionar como o campeão da heterodoxia, “ousando desafiar a ortodoxia dos economistas”. Ao recuar da sua posição original acerca da inflação mais alta trazer mais crescimento e afirmar que teria dito apenas que a inflação elevada (mas, imagino, abaixo de 20%) é “compatível” com crescimento Lima apenas repete inadvertidamente a hipótese aceleracionista, isto é, que o crescimento não é afetado pela taxa de inflação. O defensor da “heterodoxia” não conseguiu perceber que sua suposta crítica apenas ecoa a mesma teoria que pretende criticar. Seria irônico, mas é apenas triste.

(Publicado 5/Dez/2007)

Econometria · Economia Brasileira · Política monetária

“Pode baixar os juros que não há problema”…mesmo?

O IEDI, órgão ligado às indústrias, divulgou o último dado da mais complicada variável (em termos de mensuração): a utilização da capacidade instalada. Diz o pessoal de lá:

O economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Edgard Pereira, não vê trajetória explosiva no Nível de Utilização da Capacidade Instalada (Nuci), calculado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), que ficou em 82,8% em outubro, ante 82,5% em setembro. “Foi apenas um ajuste na margem”, afirmou.

Será mesmo? Eis o exercício para o pessoal de Econometria:  (i) com os principais indicadores econômicos do Brasil, construa um cenário destacando os principais focos possíveis de inflação, (ii) no IPEADATA, obtenha a série citada acima e faça dois gráficos: um, com a evolução mensal da série e outro com os fatores sazonais.

Após fazer isto tudo, procure avaliar a afirmação do pessoal da CNI.

Economia Brasileira

Excelente artigo na mídia: Affonso C. Pastore e Maria Pinotti

Países mais pobres obrigam seus governos a desenvolverem programas sociais, buscando a redução da pobreza, o que leva a uma carga tributária maior do que em países mais desenvolvidos. As transferências de renda minimizam o sofrimento dos pobres, mas não garantem a abertura de oportunidades de emprego e de aumento de ganhos derivados da aceleração do crescimento. Para que isto ocorra são necessários investimentos em infra-estrutura, sem os quais crescem os riscos que limitam os investimentos privados.

Leia mais aqui.

brasil · Economia Brasileira

Não é bem assim

Primeiro, vamos a um trecho:

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, apresentou no IV Fórum de Economia da FGV uma coleção impressionante de dados favoráveis da economia brasileira e anunciou que o governo Lula está implantando um novo modelo social-desenvolvimentista no Brasil, com crescimento do PIB mais vigoroso e equilibrado, e com redução das desigualdades sociais e regionais.

O que é modelo “social-desenvolvimentista”? Trata-se de um mistério. Nenhum livro de crescimento econômico define isto. Talvez seja “social-desenvolvimentismo” atender demandas de empresários de “indústrias infantes”, “miseráveis” e “sem-terra”…aos custos de mais impostos mas, sejamos honestos, o ministro não definiu o que entende por mais este novo termo para os marketeiros políticos.

Fazendo um longo salto:

O que a experiência histórica dos casos de sucesso na aceleração e sustentação do crescimento de longo prazo mostra que o desafio maior que o ministro da Fazenda terá ainda que enfrentar é a de conciliar a tensão entre necessidade de uma taxa de câmbio competitiva e menos volátil com as restrições impostas pela livre mobilidade de capitais e excesso de liquidez global, num novo provável contexto de pressão inflacionária global. Isto exige ainda ajustes fiscais capazes de abrir espaços para ampliação do setor de tradables, com elevação da taxa de investimento e o convencimento de que os superávits nas transações correntes será permanente. A atual aceleração no crescimento é a principal moeda política que o ministro da Fazenda possui para fazer as mudanças. O empenho do governo em aprovar a CPMF e o anúncio de ampliação de gastos correntes caminham politicamente na direção oposta.

Então, o que o autor do artigo acima está dizendo é que um governo que se ajusta através de aumentos de impostos não segue um modelo “social-desenvolvimentista”? Sem ironias, isto me lembra muito o modelo “neoliberal” criticado em prosa e verso pelos “movimentos sociais”. Mas, novamente, sejamos justos, o autor do artigo não está discutindo o modelo neoliberal (seja lá o que isto signifique). Ele melhorou a qualidade da discussão ao falar do tipo de ajuste que gera maior crescimento econômico posterior, algo que a literatura já discutiu ad nauseam (mas que é, sim, relevante e útil rediscutir).

Neste sentido, eu já citei aqui, mas repito, este estudo é clássico no tema. Leia seu resumo para entender exatamente o que digo.

No final, eu fiquei mesmo é sem entender o neologismo “social-desenvolvimentista” do sr. Mantega. Parece-me muito mais um “nacional-desenvolvimentismo” abreviado. Este negócio de chamar tudo de “social” para ficar bem na fita é um truque antigo que só pega em gente que realmente ignora algumas obviedades não apenas do bom uso da língua portuguesa, mas também da economia. Claro, estou a falar dos desavisados, mas há sempre os mal-intencionados de plantão. Mas isto é tema para outra discussão.

Economia Brasileira · falácias econômicas · macroeconomia

Desmistificando as falácias econômicas

Alex Schwartzman é o melhor na arte de destroçar as falácias econômicas da grande mídia (e de alguns blogs, claro). Veja-se este novo exemplo:

An argument that has been floated recently, to the point of meriting the dubious honor of being officially dismissed in the Copom minutes, is that the increase in foodstuff prices would have an effect on Brazilian consumption similar to the increase in oil prices in US consumption, namely that it would work as a “tax” on consumers, reducing demand, hence inflation. Whereas, as I said, committee members downplayed (correctly) the argument, the minutes did not bother to explain why the argument does not make much sense (and, mind you, I am attempting to be polite here). In light of that, I believe that going into more detail might be helpful.

Gostou? Leia o resto então.

Economia Brasileira · falácias econômicas · grupos de interesse · liberalismo · propaganda política · rent-seeking · subsídios · tamanho do governo

Quem é a favor de mais arrecadação gosta de subsídios?

O Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) defendeu que o governo aproveite o espaço fiscal obtido com a elevação da arrecadação para adotar medidas de estímulo ao crescimento econômico. Pelos cálculos do Iedi, essa folga representa 2% do Produto Interno Bruto (PIB) – 1,1 ponto com o aumento da carga tributária e 0,9 ponto pela redução dos gastos com juros.

Leia mais sobre a proposta do IEDI aqui. Aproveite e leia novamente o que o Adolfo disse ontem. Outro dia eu mesmo comentei aqui uma das últimas cartas quinzenais do Jorge Vianna Monteiro na qual ele expressava – corretamente – sua desconfiança da tal campanha da FIESP contra a CPMF. Se é contra a CPMF, é contra subsídios? Se é, então, sim, leitor, pode ser que seja um liberal. Mas se acha que subsídio é bom, não é liberal, embora o povo da esquerda insista em lançar esta confusão na mente de seus eleitores.

Faz parte do discurso dos não-liberais acusar seus inimigos de liberais (como o faz, descaradamente, há mais de 50 anos, a esquerda) ou de comunistas (como o faz, descaradamente, há quase tanto tempo quanto, os grupos de interesse de empresários).

Já ouviu falar da sociedade rent-seeking? Pois o Brasil é um exemplo que se encaixaria em qualquer livro-texto sobre o tema.