economia aplicada · pandemia

Essencial mesmo é falar de aglomeração

Estamos no Ano II da Era Covídica. Segundo o painel da Johns Hopkins, hoje, no dia 11 de março de 2021, temos 2,621,98 mortos pelo novo vírus (no Brasil, pela mesma fonte, seriam 270,656). Desnecessário dizer que o quadro não é bonito.

É bastante óbvio que as perdas humanas não incluem apenas efeitos de curto prazo da doença – em si, já bastante complicados – mas também há custos derivados da perda de empregos. A ILO (em português, “OIT”), em janeiro, anunciava que, no ano passado, a perda mundial foi estimada em 255 milhões de empregos. Outro estudo estima que boa parte das perdas está em setores trabalho-intensivos. Não surpreendentemente, o setor de delivery de refeições (e outras mercadorias) tem sido uma importante fonte de renda para muitos (veja também esta matéria da CBS).

A ameaça de perda de renda ou de saúde, como sabemos, disparam diferentes – e não necessariamente harmônicas – reações nas pessoas. Por um lado tornamo-nos mais competitivos, por outro queremos que “cuidem de nós”. A situação não melhora se considerarmos os – ainda pouco conhecidos – resultados do prolongado isolamento social sobre os indivíduos. Mas toda crise é uma oportunidade e não somente para você: bons políticos sabem calibrar seus discursos e ações usando estas reações para maximizar sua chance de reeleição (ou de eleição de seus candidatos).

A morte ou o desemprego não chegam primeiro “na sociedade”, mas no indivíduo: a mortalidade em uma sociedade é a simples soma das mortes individuais. A pandemia deixa isto muito óbvio para quem ainda insiste em pensar o oposto. Perceber este fato talvez amplifique as reações que cada um sente diante da incerteza trazida pela pandemia. Em termos econômicos, por exemplo, é um choque negativo tanto para o setor produtivo (o famoso lado da oferta) quanto para os consumidores (lado da demanda).

Não é por acaso que a maioria dos governos optaram por algum tipo de auxílio emergencial. O distanciamento social – seja ele voluntário ou coercitivo – sem um auxílio se torna um problema para os que não possuem a opção do teletrabalho, sua gravidade variando conforme outros fatores como nível de capital humano, pobreza, etc.

Desnecessário dizer que há muita polêmica sobre o tal distanciamento social, principalmente quando o assunto é que atividades devem ser paralisadas, já que ninguém parece confortável em ouvir que deve ficar em casa trancado, embora sugerir isto ao outro possa lhe parecer razoável.

No Brasil, quando se deseja falar destes shutdown econômicos, usa-se o termo atividades e serviços essenciais. Na minha modesta opinião, acho esta descrição, que resume carreiras individuais e ramos econômicos tão distintos, péssima. Toda atividade é essencial e, retomando aquele pequeno parágrafo, linhas acima, sobre como a incerteza sobre a saúde ou a estabilidade financeira tem impacto sobre as reações humanas, não é nada agradável ouvir que sua ativdade é não-essencial.

Acho que um pequeno exercício explica melhor meu ponto. Imagine-se falando com seu avô (muitos, inclusive, perderam avós na pandemia) que ele não deve mais fazer o que faz porque sua atividade não é essencial. Dói, não? Mas dói mais porque você sabe que o ponto não é se uma atividade é essencial (por Deus do céu, é tão difícil perceber que um lixeiro é tão importante quanto um juiz, o que não quer dizer que devam ganhar o mesmo salário?).

O ponto central é se uma atividade ou serviço gera aglomeração ou não. É com isto que devemos nos preocupar. Alguns perceberam isto e tentam implementar políticas de isolamento social baseadas nas famigeradas bandeiras de cores diferentes. Claro, para mim, deveríamos falar em atividades que aglomeram (em determinados horários) ou não. Seria mais difícil acompanhar? Por óbvio. Mas quão difícil?

Há algum tempo falávamos dos preços dinâmicos praticados pela Uber ou pelos que cuidam do metrô de Londres, ou mesmo sobre os pedágios em Cingapura (que soa muito mais feia do que Singapore…). Talvez esta discussão devesse ser abraçada por aqueles que acreditam ser possível criar políticas de contenção ao vírus que minimizem as perdas econômicas de curto prazo (se isso não é um tradeoff, não sei o que é).

Auxílios emergenciais baseados em níveis diferentes de aglomeração? Pode ser uma ideia maluca ou imbecil. Mas sem um pouco de reflexão e diálogo, jamais saberemos. Não é só pela empatia, claro.

p.s. É óbvio, mas não custa lembrar que nenhum texto meu refletiu, reflete ou jamais refletirá (necessariamente) a opinião do meu avô, vizinho, amigo, instituição a que pertenci, pertenço ou um dia pertencerei (não por escravidão, espero, mas por alguma saudável relação de trabalho). Quem trabalha sob a ótica do individualismo metodológico não precisa dizer isto, mas os outros seres humanos nem sempre conseguem separar o indivíduo de seu entorno…Então fica o alerta.

economia aplicada · Economia Brasileira

Políticas públicas baseadas em evidências e a econometria…café matinal com base no FGTS

Muito se fala – e nem sempre muito se entende – acerca de políticas públicas baseadas em evidências. Aliás, quando é para se decidir sobre a política proposta pelo entusiasta defensor da abordagem, a conversa subitamente muda para argumentos sobre limitações do método ou para o famoso não podemos pensar apenas com estes números frios ou, mais ainda, o campeão dos torneios verborrágicos: mas que evidências são estas? A quem servem?

Mesmo assim, o tema é de suma importância já que gente que tem um poder muito elevado de decidir se pode colocar a mão no seu bolso (para levar seu suado dinheiro para alguma política sem impacto algum) adora falar do tema durante o café. Como você percebe, debater o tema seriamente é importante.

Pense por exemplo no caso de uma política como a de se liberar saques do FGTS. Será que podemos ter um embasamento científico para a mesma? A resposta, para quem passou por (e entendeu o que estudou) uma faculdade de Economia é, claro, positiva. Aliás, eis um exemplo de nota técnica interessante sobre o tema.