ciência econômica · Economia Brasileira

Defender sua saúde é o mesmo que defender gastos com sua saúde?


Nem sempre. Exemplo simples: (a) tenho uma gripe e compro um remédio e me curo versus (b) tenho uma gripe, vou a todos os especialistas médicos existentes, faço vários exames e no final, eu me curo porque era uma simples gripe.

Note que, nestas duas pequenas histórias, eu estaria mais bem servido se fosse menos hipocondríaco (como o sujeito “b”) e mais racional no uso do meu dinheiro com a saúde. Note também que o resultado final (o fim da gripe e o tempo que levará até isso) dependem não apenas de mim, mas também de outros fatores (eu poderia ter alterado parâmetros nas minhas duas opções como o clima, a poluição, etc). A minha gestão da minha saúde, por melhor que seja, ainda pode estar sujeita a problemas externos à minha capacidade de controle.

Isso tudo significa que, na vida real, minimizamos danos e o mínimo não é zero (exceto por coincidência) e temos que escolher jeitos eficazes de lidar com nossa saúde.

Agora, defender a pesquisa também não é o mesmo que defender o (maior) gasto em pesquisa. Nem defender a educação é o mesmo que defender o (maior) gasto em educação.

Aliás, há nestas duas últimas questões, um ponto adicional: o dinheiro gasto nestas coisas não é apenas o meu (minha parte é apenas uma fração do gasto total em cada uma destas áreas e nem por mim é administrada).

Há até quem use do expediente de “discutir a qualidade do gasto” por um tempo absurdamente longo para, justamente, jamais melhorar a qualidade do mesmo (já que sabe que, provavelmente, a maior qualidade signifique menor nível de gasto). Há um tempo ótimo para se discutir qualquer coisa, como sabe qualquer um que já tenha participado de uma reunião (desde as de família até às de trabalho).

Não é tão fácil como nos induzem a pensar os cartazes (e os memes), né?

ciência econômica · ensino de economia

O ensino de Economia

Certamente é uma discussão relevante. O trade-off, contudo, é o seguinte: ao mudar o foco para menos sofisticação teórica, o fosso entre a graduação e o mestrado/doutorado aumenta bastante.

Uma solução seria a flexibilização de currículos, com a criação de disciplinas intermediárias para os que desejam avançar para a pós-graduação.

Será que o novo ministro fará algo nesta direção?

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Novamente os Austríacos

Antony Mueller está nervoso. Ao comentar um artigo crítico da atuação do FED, diz:

The sad fact is that even guys like Ambrose are largely ignorant about the Austrian school of economics. There is the glimpse of hope that the current crisis may wake up at least a few from their slumber of ignorance. What is needed is a thorough transformation of how economics and management are practiced, taught and researched. What is needed is a change of perspective as it is provided by the Austrian school of economics.

Já falei aqui sobre a economia austríaca em outras – várias – oportunidades. Mas Mueller nos deve um pouco mais de explicações. Quer dizer que os cursos de economia e administração (ou seriam o mundo da economia e da administração em geral?) deveriam mudar na direção do que preconizam os simpáticos às teses austríacas?

Primeiro, temos o teste do mercado. Por que esta prática não é mais comum? Alguém poderia falar do papel do governo nesta história, “perseguindo” economistas austríacos, mas não vejo algo assim.

Também é difícil saber o que, exatamente, é a “Escola Austríaca”. A diversidade é tão grande que nunca surgiu um único livro-texto austríaco. Talvez se possa falar do Eonomic Logic, mas seu autor, Mark Skousen, brigou com outros austríacos (da FEE), o que nos deixa com a suspeita de que talvez não baste ser (e pensar como) austríaco para que a Escola Austríaca deslanche. Mesmo assim, seu manual só tinha como diferença a adaptação do esquema dos triângulos de Hayek (cuja interpretação, inclusive, não é trivial) a problemas econômicos.

Em terceiro lugar, para ser bem austríaco (na verdade, este ponto se relaciona com o primeiro), o conhecimento é disperso e, portanto, é difícil dizer que a solução seja que todos passemos a pensar, andar e respirar como austríacos. De certa forma, o mais correto seria lembrar que mudanças racionais são mudanças na margem (creio que os austríacos ainda não jogaram fora o conceito de racionalidade, embora alguns deles briguem com as funções de utilidade). Logo, é difícil, senão impossível, ver um mundo tão austríaco assim (e alterado de forma tão rápida).

O Guilherme, do Rabiscos, e eu, outro dia, discutimos um pouco sobre o tema. Sei que há o Joel e outros frequentadores deste blog que têm simpatia pela escola austríaca. Eu sou um deles, mas creio que sou menos otimista em relação ao poder de mercado de uma teoria na qual nem os próprios proponentes concordam sobre a necessidade de um teste empírico (é diferente você debater calibragem e econometria pois, neste caso, ambos querem ter alguma idéia quantitativa dos parâmetros, algo que Mises, creio, não aprovaria). Como, por exemplo, um economista austríaco trabalharia no mercado financeiro?

Gosto do prof. Mueller mas acho que, nesta observação, ele errou o tiro (se é que existe alvo). Pensando bem, um austríaco diria que o alvo tem que ser descoberto (piadinha besta, mas bem ao gosto dos austríacos…). ^_^

Finalmente, sim, há muita coisa interessante entre os insights austríacos. De longe são os heterodoxos mais consistentes que conheço. Mas, não, não acho que esta bronca contra o mainstream seja muito precisa.

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O empreendedor do ensino versus o dragão da ineficiência de sete cabeças

Introdução

Vamos falar um pouco de como funciona o sistema de incentivos em uma faculdade. Hoje, em especial, falarei de mim mesmo, num surto de egocentrismo que merece ser tratado, certamente, com algum cuidado. O tema deste longo post será…minhas iniciativas pedagógicas num mundo onde pedagogos só querem saber se você falou de “socialismo”, “mundo mais justo” e se afagou o pobre do menininho da classe média que bate em empregadas e tem déficit de vergonha na ca..digo…atenção.

Para fins de complicação didático-pedagógica, dividiremos este texto em mais duas partes de compreensão quase impossível: oferta, demanda e equilíbrio (entre oferta e demanda, algo bem mais complicado). O leitor que chegar até o fim deste texto poderá ser considerado um alfabetizado funcional, um herói. Caso goste do texto, será um pária. Caso não goste, fará parte da grande legião dos que acham muita chatice este papo todo.

Um subproduto disto tudo, creio, é que o leitor-professor desonesto poderá fazer algo idêntico por aí e não citar este blog, ganhando a fama de inovador e, quem sabe, uma coluna numa destas revistas de auto-ajuda para CEO’s com déficit de competência?

Pois bem. Do ápice de meu mau humor….o texto!

Oferta: a história de um professor (muito) aloprado

Sim, (eu) falo de mim. Um pouco de auto-reflexão, creio. Em 1997-8, em outra faculdade, fiz minha primeira incursão pelos métodos didático-pedagógicos originais. Na época, eu tentava fazer com que os alunos de uma turma apresentassem trabalhos sobre capítulos do livro de Mauá, Empresário do Império, mas com ênfase nos aspectos econômicos dos mesmos.

Já no IBMEC, numa – desesperada e entusiasmada – tentativa de fazer brotar as idéias na mente dos alunos da outrora Técnicas de Pesquisa em Economia (hoje “Monografia I”), inovei novamente, criando o Projeto 42. Na verdade, a idéia do título foi dos alunos. A minha era que o blog fosse um instrumento útil no aprendizado e crescimento dos mesmos. Claro, a ênfase era em economia. Lembro-me da Camila, aluna tímida e até algo desanimada que se revelou uma excelente blogueira e economista. Estive em sua banca de monografia, não estive? Acho que sim. E acho que me lembro de ter falado do orgulho que senti ao vê-la terminar o curso com uma postura que (meu ego, meu ego) eu ajudei a mudar…para melhor.

Semestre passado, em prol da integração do conhecimento, promovi um trabalho conjunto com o professor de Econometria. Alunos do 3o período fizeram o que muito marmanjo nunca fez: manipular a POF e tentar estimar curvas de Engel. Neste semestre, a idéia foi um pouco diferente e o foco foi parecido com a história do Mauá, só que com música.

Outra turma, ainda este semestre, foi submetida a uma metodologia que o VanDyck sempre citava (mas nunca me explicou, de forma que tive de criar as regras…ou adaptá-las de colegas norte-americanos): os reaction papers. A turma de História Econômica do Brasil II teve momentos interessantes – eu espero – com um tipo de exercício que nunca fizeram e que, honestamente, com exceção minha e do VanDyck, nunca vi fazerem mas, confesso, sou pouco informado sobre isto.

Ah sim, em outra turma pequena, mas avançada na grade curricular, a idéia foi, a partir da discussão em sala com o João, um aluno, construir um estudo de caso em Economia (alguns chamam isto de case) . Este ficou bem interessante, passará por uma revisão minha e, sim, vai se transformar num “mini-e-book” (caso os meninos façam os ajustes que pedi…e ainda tenho que checar aquela história de plágio…). Na verdade, o que a turma tentou fazer foi entender algumas estratégias de preços de uma grande loja de aluguel e venda de fitas VHS e DVD’s. Após uma cadeira muito interessante (modéstia, realmente às favas), acho que este é o tipo de exercício interessante. Se o resultado foi efetivamente a sedimentação do aprendizado, eu tenho minhas dúvidas. Mas isto não depende apenas de mim. Voltaremos a este tópico adiante, não se preocupe.

Além disso tudo, embora não se relacione com minhas aulas, os dois e-books dos quais tomei parte, um editando e outro como um dos autores, foram, sim, importantes. Conversei sobre ambos com os alunos e notei que alguns deles participaram dos projetos com certo entusiasmo. Notei, por exemplo, que o co-blogueiro Pedro é um sujeito genuinamente interessado no que aprende. Vi que Lucas, Igor e Cristiane têm também um talento que poderia ser mais bem aproveitado se a timidez puder ser dissipada mais rapidamente…enfim…foi uma diversão só.

O leitor pode se perguntar sobre a efetividade disto tudo. Bem, é impossível dizer se não pensarmos na demanda. Tudo isto que contei resume um conjunto de iniciativas de minha parte – e olha que pulei alguns bons trabalhos que meus alunos calouros fizeram no IBMEC entre 2004-5.

Mostram, se posso dizer isto, meu lado empreendedor. A vontade de tornar a matéria mais interessante sem perder a seriedade na cobrança, o desejo de fazer com que a pessoa entenda que seu curso está, sim, espalhado em sua volta, em aspectos nem sempre explicitados de sua vida, enfim, estas coisas que professor faz para tornar a sua vida mais interessante. Mas, será que a vida dos alunos fica mais interessante com isto?

Para responder a esta pergunta, precisamos nos perguntar sobre o lado da demanda.

Demanda: a eterna luta entre Yin, Yang e Chow Yun Fat

Joaquim foi um aluno meu que participou de minha experiência com o livro de Mauá. Na época, eu bem me lembro, ele elogiou um bocado o trabalho. Se aplicou isto em outros livros ou se isto mudou sua vida, não sei. Mas pelo menos lhe fez bem.

Sobre os outros experimentos, tive retorno de apenas um ou dois alunos no Projeto 42, com boas críticas mas, do que eu esperava, elogios apenas modestos. Seria o mundo dos blogs algo pouco desafiador aos alunos de economia? Talvez.

Em geral, tive pouca repercussão sobre os e-books aqui. Foi muito gratificante – mas muito mesmo – ver meus ex-alunos de um único semestre na Fundação João Pinheiro participarem dos dois e-books. E não falo apenas de um semestre de 2006. Tenho lá um ex-aluno mais antigo, quem diria, que participou do e-book.

Há, sim, muito economista sem diploma e muito bronco diplomado. Incrível como isto é assim em qualquer área do saber (se é que podemos classificar as áreas e delimitá-las tão bem…). Os e-books mostram bem isto.

Os trabalhos sobre a POF e músicas me mostraram que a maturidade dos alunos do 3o período ainda não é totalmente compatível com o clima universitário. Há gente talentosa, mas há muito descaso também. Ou desinteresse. Ou ambos.

Em quase todo trabalho entregue, a pesquisa pelo aprofundamento do significado econômico encontrado na música parece morrer no primeiro site encontrado no Google. Há muito descaso com o que se diz. O ensino prévio à faculdade não parece se preocupar se alguém chama “urubu de meu louro”. Vocabulário é coisa séria demais para ser deixado nas mãos de professorinhas que só se preocupam em eleger os colegas militantes (ou passam o dia reclamando de um salário que, sim, sabiam qual seria na hora de ler o edital). Claro, em um ambiente como este, os incentivos não favorecem os bons alunos, o que não os isenta da culpa de não insistirem no estudo. Nada de culpar a “tia”, meu caro. Você olha tanto para seu umbigo na hora de se vangloriar das cervejas que tomou, né? Lembre-se que é também de seu umbigo que sai a sua má vontade. Seu umbigo é seu, para o bem ou para o mal…

Antes que o Leo Monasterio diga que reclamo muito, eu pergunto: há alunos bons? Claro. Tive, tenho e terei vários deles passando por minhas cadeiras. Mas há muitas dificuldades para que eles canalizem seus esforços corretamente. A atitude do cara pesa muito na formação de seu caráter e, neste sentido, algo muito bacana é quando o aluno reclama com você ao invés de sair correndo atrás do diretor, como se fosse um menino de 10 anos de idade. Faz parte do processo de amadurecimento – diria um pediatra – o sujeito aprender a lidar com seu próprio fracasso, assumir suas culpas e saber falar disto com o professor como um adulto, isto é, sem lágrimas, soluços ou berros infantis.

Por outro lado, atrapalha quando bons alunos (ou alunos que desejam apenas te bajular) falam mal de outros professores para você. Ora, se você não gosta da aula do fulano, reclame com ele. Eu não sou o diretor da faculdade. Não posso punir o professor que chega atrasado e nem posso fazê-lo ser mais educado com você (sim, existe professor mal educado, que é diferente do professor rígido…embora ambos possam coexistir em um único corpo físico). Quem pode fazer isto é o diretor.

E a diferença entre escola (= ensino básico e médio) e faculdade? Alunos bons captam isto rápido. O antigo adágio vale: “na faculdade ninguém te dirá como fazer as coisas”. O que se faz, isto sim, é ensinar onde está o caminho das pedras e como evitar os buracos e atalhos perigosos da estrada. O resto, meu filho, é por sua própria conta e risco. A faculdade, eu disse em outro lugar, não é substituto do pai ou da mãe, mas sim um complemento destes. O seu objetivo é dar ao mercado profissionais qualificados, não atender os desejos dos alunos (ou dos pais que confundem tudo).

E aí?

Oferta e Demanda: o melhor que se pode fazer dadas as circunstâncias ou “você pode ser o homem certo, na hora certa, com as pessoas certas…mas nada lhe garante que isto é sinônimo do melhor desempenho possível”

O encontro destas curvas de oferta e demanda por conhecimento dá no que sempre aprendi: um resultado de equilíbrio e eficiência alocativa. Claro que regras ruins (faculdades “caça-níqueis” e faculdades públicas têm este problema de forma acentuada, embora o erro possa ser de natureza distinta em cada caso…), leniência excessiva com desejos alheios ao bom processo de produção do conhecimento, incompetência administrativa, tudo isto pode resultar em um equilíbrio de elevado custo e produção quase nula. Péssimo, né?

Mas há a possibilidade de que o equilíbrio se dê em um ponto mais favorável a todos. Não se iluda, leitor: você deve ter chegado aqui antes dos meus alunos. Provavelmente sairá daqui me achando um pessimista. Mas eis aí o paradoxo: por mais que nunca tenham reconhecido meus esforços na inovação pedagógica, eu continuo a insistir. Sou teimoso e independente demais para ser amarrado na mediocridade burocrática.

Bom, há qualificações importantes também. Adolescentes – e universitários, hoje, são, sim, adolescentes, seja na universidade pública ou na privada – são impacientes. Não querem nada mais do que a solução para seus problemas de forma muito rápida. Pais e professores do ensino médio e básico não tiveram sucesso: criaram meninos ansiosos. Corrijo-me: ansiosos além do ponto ótimo. Eu também sou ansioso. Mas canalizo minha ansiedade para coisas produtivas (até este blog pode ser pensado assim, ou, claro, esta esperta estratégia de colocar este link aqui). Alguém me ensinou a fazer isto ao longo da minha vida.

Hoje, claro, eu mesmo cuido de minha ansiedade e me conheço melhor após alguns anos de Análise (ou Terapia, sei lá o nome desta joça que me é muito útil). Sei como me tratar. Mas, reveleia: passei pela minha adolescência, já estou velho e ainda sou ansioso. Por que eu consegui estudar e aprender mais do que muito aluno de hoje em dia? Minha aposta: porque eu tive, na mesma época, mais “horas-bunda” de estudo. Nunca deixei de curtir as festas, mas sempre soube separar as consequências da impaciência do meu futuro incerto. Por via das dúvidas, fui prudente em minhas baladas. Nada que um adolescente não consiga fazer. Basta querer.

Mas eu comecei este texto tentando fazer um pouco de auto-biografia (auto-crítica). Termino com uma frase que pode te ajudar a repensar sua trajetória na faculdade. Eu a cunhei para mim mesmo há alguns anos, como uma “frase do mês”, mas ela virou uma frase para minha vida: “sempre achei minha auto-crítica bem ruinzinha”.

Fico a dever: (a) o mini-e-book, (b) dicas sobre como estudar de maneira eficiente (como se eu soubesse…) e (c) crônicas da vida universitária (os nomes dos malucos serão alterados para preservar a integridade (i)moral dos meliantes). Aguarde.

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O rei heterodoxo continua nu

Mais uma vez a falta do debate nos jornais é suprida pela boa blogosfera. Desta veze é o Laurini quem fala. E fala tão bem que vai na íntegra:

Erik escreveu dois bons comentários sobre o expurgo no IPEA e sobre a inconsistência das críticas heterodoxas. Felizmente esta problema do IPEA está tendo uma boa atenção.
Sobre o último comentário é estranho que para os pós-keynesianos a teoria de equilíbrio geral é base de toda a chamada teoria ortodoxa. E não é; é apenas uma construção que pode ser útil em muitos problemas. Por exemplo toda a literatura de microestrutura de mercado não é baseada em equilíbrio geral. Uma boa parte dos modelos em finanças não é baseada em equilíbrio, mas apenas em não-arbitragem que é um condição mais fraca.
O mais engraçado é que por desconhecimento dos pós-keynesianos, que raramente leêm o que criticam, eles perderam uma crítica possível aos modelos baseados em equilíbrio geral, que era o péssimo ajuste destes modelos aos dados reais . Algo que sempre foi criticado pelos demais macroeconomistas ortodoxos.
E estas críticas já vão ficando sem sentido, já que a nova literatura de modelos DSGE (Dynamic Stochastic General Equilibrium) tem tido bastante sucesso no ajuste aos dados reais.
A grande diferença é que na economia ortodoxa modelos que são rejeitados pelos dados são criticados e substituídos por modelos melhores.

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Economia do Terrorismo

O Selva Brasilis hoje surtou – no bom sentido – e falou sobre terrorismo duas vezes. Nós fomos infectados pelo seu vírus. Eis aqui uma terceira notícia sobre o tema. Trecho:

An index company and a security advisory firm have teamed up to create a series of screened indexes to help investment plan sponsors meet “terror-free” investing goals as more states adopt these strategies.

OAS_RICH(“Middle”);FTSE Group, a London-headquartered global index company, and Conflict Security Advisory Group, an independent research provider based in Washington today signed an agreement to create The FTSE CSAG Terror-Free Index Series, scheduled for release in 2008.

Vejamos quantos alunos de Finanças se interessam pelo tema.

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O Terceiro Setor está nu e a realidade não é muito bonita

O ministro da Controladoria-Geral da União (CGU), Jorge Hage, põe em xeque tudo que foi dito sobre ONGs e informa que o governo está fazendo, pela primeira vez no País, uma auditoria do setor seguindo critérios científicos. O trabalho começou no final de 2006 e abrange 325 entidades que recebem da União.

São fiscalizadas em três grupos: as 20 que mais receberam, as que obtiveram repasses entre R$ 2 milhões e R$ 10 milhões e as que ganharam entre R$ 200 mil e R$ 2 milhões. O mesmo critério será adotado pela CPI das ONGs. “Há irregularidades, mas alguns pretendem extrapolar para o universo das ONGs. Não se pode generalizar”, pondera.

Para Hage, a indefinição do quadro normativo é um dos problemas mais sérios no setor. O governo baixou em julho o Decreto 6.170/07, para regulamentar transferências de verbas para as ONGs, mas ainda há brechas legais. “É um quadro normativo impreciso e nebuloso”, diz.

O problema das ONG’s é que elas se pretendem uma forma de gerar bens públicos com menores custos e maiores benefícios do que o setor privado ou o público. Em relação ao setor privado, eventualmente, você encontra alguma razão no argumento, embora seja óbvio que uma ONG que formate seus incentivos de maneira economicamente correta possa ser chamada de “setor privado”. Basta que não receba recursos públicos e viva como tal, apenas com as contribuições de seus membros.

Aliás, este é o problema insano que pouco se discute: uma ONG, em si, não deveria ser “não-governamental”? Claro. Mas o vício em relação ao governo já é tão disseminado no país que poucos atentam para o fato. O Ministério da Saúde deveria fazer uma campanha como a que faz contra cigarros ou bebidas alcóolicas: “o ministério da saúde adverte: impostos como a CPMF podem ter seus recursos aplicados em fins diversos aos da saúde”. Ou, sei lá: “o ministério da saúde adverte: subsídios podem gerar mais impostos sobre seu bolso”.

Estudar teoricamente as ONGs é algo que os economistas brasileiros não têm feito. Ou estão no governo fazendo política monetária, fiscal, avaliando os colegas na CAPES, ou estão enfurnados no mercado financeiro ou fugindo da briga com os colegas que lhes avaliam. Na verdade, a divisão do trabalho na Ciência Econômica não é tão grande no Brasil como é no mundo civilizado, o que explica, em parte, a má qualidade de nossos acadêmicos (ainda que a mesma tenha melhorado nos últimos anos).

Quando economistas deixam de lado a discussão séria de assuntos que envolvem alocação de recursos, o debate fica abaixo do nível ótimo já que pessoas menos qualificadas para a discussão predominam na mesma. Bom, pelo menos há o David Baron para nos salvar. Mas terei novidades sobre isto, leitor, em breve.

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Eis o e-book…dos provérbios

E-book dos provérbios

Faço comentários sobre ele mais adiante.:

i. É uma honra abrir o e-book que o Adolfo editou. Eu o encontrei pessoalmente há um mês e pouco e testemunhei o entusiasmo dele com a idéia. Claro que acho genial isto que ele fez. Quem enviou artigo, aproveitou uma oportunidade cujo valor nem sempre é imediata e prontamente apreciado.

ii. O que dizer? Não muito. O e-book segue a linha deste outro. Ambos inauguram o que não aparece em estatística da CAPES ou do MEC ou de qualquer outro órgão privado de pesquisa: uma era de colaboração e produção de conhecimento intermediário de Ciência Econômica, crítico, competente e totalmente inserido em nossa realidade. “Para além do” discurso pterodoxo, pseudo-pluralista, estes dois livros aplicam, realmente, economia, ao dia-a-dia. Como em qualquer ciência séria, a aplicação é limitada, incompleta, mas interessante.

iii. Há alunos de todos os níveis, mestres e doutores em Economia. Há gente que não faz o curso de Economia. Novamente: não somos fascistas. Mussolini e os sindicatos/conselhos de Economia é que, em sua esmagadora maioria, acham que só um diploma gera conhecimento (apesar de todos os estudos sobre modelos de sinalização, na selva, sim, acredita-se muito nestas asneiras). Por outro lado, sabemos que não basta língua e garganta para gerar uma fala competente em economia. Tem que estudar o livro-texto. Até para criticar é preciso entender antes, a despeito do discurso populisto-pterodoxo (acabo de cunhar mais um neologismo engraçadinho…). Parabéns ao nosso aluno Lucas, único representante dos três IBMEC’s neste livro. Parabéns aos outros todos participantes.

Pronto. Falei e disse.

UPDATE: Marcelo Soares até já sugeriu um nome para o conjunto da obra: Doidonomia.

brasil · ciência econômica · História do Pensamento Econômico Brasileiro

Evidências de que a Ciência Econômica evoluiu no Brasil, a despeito de tudo e de todos…

    A criação da economia profissional no Brasil, entretanto, não era uma simples questão de implantação de um currículo moderno. Havia problemas culturais e institucionais mais amplos que dificultavam o desenvolvimento das ciências sociais no Brasil. As tradições intelectuais do Brasil e de outros países latino-americanos gravitavam em torno do pensador, um homem que se orgulhava de sua vasta cultura e que rejeitava a especialização. Esse pensador, com freqüência, com a mesma facilidade que escrevia sobre sociologia e política contemporâneas, escrevia também sobre literatura e, seus estudos, muitas vezes, cruzavam fronteiras interdisciplinares. (…) o fato é que os autores que tratavam de questões sociais geralmente escreviam sem qualquer referência a estudos monográficos, os quais, na Romênia, eram citados já antes da Primeira Guerra (…). Os juízos do ensaísta brasileiro tendiam a ser definitivos e eram tratados de forma histórica.
(…)
Esse fato se deve principalmente a que, no Brasil, o número de estudantes universitários era reduzido, em comparação com as oportunidades de emprego na advocacia, no jornalismo e no serviço público.
(…)
Uma razão sociológica para a persistência da tradição do pensador é que raramente as instituições acadêmicas brasileiras voltavam-se para a pesquisa. [Joseph L. Love, “A Construção do Terceiro Mundo”, Paz & Terra, 1998, p.350-1, grifos meus].

Eu sei, é um texto mais antigo. Mas não resisto em citar novamente.

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Dados, divórcio e algumas reflexões sobre o escopo limitado dos economistas acadêmicos brasileiros

Justin Wolfers é blogueiro convidado do – excelente – Marginal Revolution esta semana. E ele fala sobre o mito do crescimento das taxas de divórcio, nos EUA.

Sempre que leio um texto interessante como este eu me pergunto: por que não vejo economistas brasileiros tratarem dos mesmos temas, mas com dados brasileiros? Se há algum e se alguém tiver a bondade de me dar a referência, eu a coloco aqui.

Mas entende meu ponto? Há tão poucos economistas acadêmicos? Ou seus interesses são limitados? Ou seria a falta de dados? Seria algum outro motivo? Por que tanta timidez de estudos econômicos que não tratem apenas de oferta de moeda, taxa de juros ou taxa de câmbio?

Minha intuição me diz que há outro problema relacionado: o vício antigo de acadêmicos economistas não estudarem os impactos de bem-estar de políticas que eles mesmos propõem (ou propostas por políticos). Isto tem mudado, mas é incrível a ausência de preocupação com isto nos artigos mais antigos, com as usuais exceções de praxe, claro.