Casino Royale encontra o seu clube de futebol ou “Seu dirigente sabe o que está fazendo?”

p_20170223_082954_vhdr_auto_1Já notei que torcedores reclamam de dirigentes de clubes por diversos motivos. Uns querem mais gols. Outros, resultados (sejam eles vitórias ou classificação). Muitos motivos existem para se reclamar da direção de um clube mas, claro, é importante saber qual seria o objetivo de um clube para, então, reclamar do resultado aquém do esperado.

Quem poderia nos dizer qual o objetivo de um clube? Como não sou um sujeito muito inteligente, vou me basear apenas no que pesquiso: economia. Para minha sorte, existe a economia dos esportes (já citada neste blog) e, para ser mais exato, neste caso, precisamos da teoria dos esportes profissionais onde a escassez de recursos faz mais sentido do que nunca.

Bem, a teoria econômica dos esportes profissionais não é consensual sobre o objetivo de um clube. Existem três hipóteses principais que são bem resumidas por Késenne (2014): (a) maximização de lucro, (b) maximização de receita, (c) maximização de vitórias.

Supondo que o principal insumo para se atingir quaisquer destes resultados seja a contratação de talentos, o leitor já deve desconfiar que não vale a pena contratar 100% de talentos.

Ah sim, aqui é que está a analogia com o clássico filme Casino Royale, de 1967, que tinha um elenco fenomenal e que foi um fracasso de bilheteria. Não nos lembra alguns clubes que investiram em elencos estelares e fracassaram deixando dívidas perigosas como lembrança?

Embora não saibamos o objetivo do clube, podemos discutir um pouco o que ele faz observando o número de talentos contratados e comparando-os com algum benchmark. Sim, isto não é fácil (e é uma fonte de polêmicas), mas vejamos o que a teoria nos fornece para pensarmos no problema.

A figura abaixo é uma cópia da figura 1.1. de Késenne (2014). Supõe-se que o custo de se contratar talentos cresça linearmente (uma hipótese simplificadora, mas bem razoável). A receita é côncava (este formato de “u” invertido) nos talentos. Conforme o autor:

“If a team becomes too strong, public interest fades because of a lack of uncertainty of outcome, and total revenue can decrease”. [p.6]

A idéia da receita côncava apenas nos diz que times poderosos demais perdem receita porque já sabemos quais os resultados obtidos. Alguma incerteza, diz-nos a teoria, é necessária para que o interesse do torcedor gere algum tipo de receita para o clube (compra de ingressos, por exemplo). De certa forma, a paixão do torcedor por um clube não é, portanto, tão diferente de um relacionamento amoroso ou da vida profissional: é necessário ter alguma incerteza para manter viva a chama da paixão (principalmente quando seu time perde a vaga para a divisão de acesso, como o Esporte Clube Pelotas, no último sábado).

Deixemos a tristeza (imensa) de lado e voltemos à figura 1 abaixo. Minha análise no parágrafo logo abaixo da figura é praticamente uma tradução livre de Késenne (2014), p.7, ok?

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Observe que o número de talentos contratados por um clube que maximiza lucros (t1) é menor do que o o número de talentos contratados por um que maximiza a receita (t2). Um clube que siga maximize o número de pontos no campeonato seguindo uma regra de breakeven point (ou seja, que iguala receitas e custos) contratará t4.

Os pontos t3 e t5 ilustram duas situações interessantes. O primeiro, t3, é um número de talentos contratados quando o time necessita apresentar algum lucro e, claro, t5 é um número de talentos que levará o time ao prejuízo.

Repare que a figura acima é estática, no sentido de que ela não mostra a relação das contratações ao longo do tempo. Em outras palavras, caso o clube contrate t5, como ficará sua situação financeira no período seguinte? Não sabemos.

O pior que pode acontecer é quando a direção de um clube não sabe o que fazer, ou seja, não se decide quanto a seu objetivo. Neste caso, as decisões sobre contratação de talentos será um resultado probabilístico, limitado no intervalo [t1, t5] o que, convenhamos, não é uma situação confortável.

Você pode me perguntar sobre o caso em que certos sócios injetam dinheiro no clube, aqueles dirigentes ou fãs apaixonados que ajudam o time poderia alterar este resultado. Na verdade, Madden (2012) mostra que o número de talentos contratados será algo intermediário entre t1 e t4.

Agora, pense no seu clube. Ele está endividado? Neste caso, a situação dele é algo menos confortável do que o da figura 1. Podemos pensar, simplificadamente, que a curva de custos se deslocou para cima e fica fácil ver que, em relação à figura anterior, o time terá muito mais dificuldades para contratar talentos, seja seu objetivo o de maximizar lucros ou o número de pontos, sob a restrição de receita total igual ao custo total). Repare que, na figura abaixo, os pontos t1 e t4 estão mais à esquerda dos respecetivos na figura anterior.

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Não é tão difícil assim perceber que aquele que assumir um clube endividado terá muito mais problemas com a torcida, não? A idéia de se ter doações de fãs (notadamente daqueles que têm mais condições financeiras), conforme Madden (2012) não é tão ruim assim neste caso. Afinal, elas deslocariam a curva de receita total para o alto tal e qual, por exemplo, uma ajuda de uma federação de futebol (que, na linguagem técnica, é um cartel, embora, neste caso, este termo não tenha uma conotação negativa, como nos casos analisados pela área da economia chamada de Organização Industrial (Industrial Organization).

Para terminar, é triste que o Esporte Clube Pelotas tenha perdido a chance de subir para a primeira divisão do campeonato estadual gaúcho este ano. A torcida está raivosa mas o importante é ter calma e usar a razão porque nenhum clube é vitorioso se baseando apenas em etéreas vontades de torcedores. É preciso transfomar paixões em apoio ao time, seja em campo, seja em termos financeiros.

Gostou? Curta (e, se quiser usar, cite, diga não ao plágio!). Não gostou? Curta também.  🙂 Comentários?

p.s. você quer estudar mais o assunto?

  1. KÉSENNE, S. The Economic Theory of Professional Team Sports. 2o ed. Cheltenham: Edward Elgar, 2014.
  2. MADDEN, P. Welfare Economics of Financial Fair Play’’ in a Sports League With Benefactor Owners. Journal of Sports Economics, October, p. 1–26, 2012.

Corrupção, Crime e Crescimento Econômico

Que tal este artigo?

A theory of organized crime, corruption and economic growth
Keith Blackburn, Kyriakos C. Neanidis, Maria Paola Rana

Abstract – We develop a framework for studying the interactions between organized crime and corruption, together with the individual and combined effects of these
phenomena on economic growth. Criminal organizations co-exist with law-abiding productive agents and potentially corrupt law enforcers. The crime syndicate obstructs the economic activities of agents through extortion, and may pay bribes to law enforcers in return for their compliance in this. We show how organized crime has a negative effect on growth, and how this effect may be either enhanced or mitigated in the presence of corruption. The outcome depends critically on a trade-off generated when corruption exists, that between a lower supply of crimes and the probability these crimes are more likely to be successful.

A referência? É esta: BLACKBURN, K.; KYRIAKOS, ·; NEANIDIS, C.; MARIA, ·; RANA, P. A theory of organized crime, corruption and economic growth. Economic Theory Bulletin, 2017. Springer International Publishing.

O artigo é de acesso aberto. ^_^

Vale a pena encher vários ônibus de torcedores para jogos fora de casa?

PaperCamera2017-05-13-10-53-42Esta é uma pergunta válida porque times de futebol têm recursos escassos e decidir como alocá-los é uma tarefa sabidamente difícil. Não fiz uma pesquisa ampla, mas achei interessante este resultado encontrado para o beisebol dos EUA. Vejamos o resumo:

We examine the role of attendance in home-field advantage for Major League Baseball, using a dataset of all MLB games played from 1996 to 2005. Using two-stage least squares, we find that attendance has a significant effect on the home-field advantage. Our results indicate that a one standard deviation increase in attendance results in a 4% increase in the likelihood of a home team win. We also find that if attendance as a percent of stadium capacity were to increase by 48%, we would expect the home team’s run differential to increase by one run. We show that the additional home-field advantage is driven by increased home team performance.

Bem, digamos que o mesmo ocorre em outras amostras de esportes como o futebol (uma hipótese heróica, eu sei, mas só para estimular o debate). Neste caso, teríamos que torcida seria importante em jogos em casa (ou seja, o efeito home advantage), ceteris paribus (= “tudo o mais constante”) outros fatores. Claro, não adianta ter uma torcida gigante se o conjunto composto de equipe técnica e plantel da equipe não funcionar.

Ah sim, antes de terminar este texto encontrei uma referência a um estudo que mostraria que a torcida é importante, mas novamente em jogos realizados em casa. O complicado desta pergunta, acho, está em se entender o mecanismo de transmissão da torcida: como é que a pressão da torcida se traduz em desempenho melhor da equipe da casa?

Talvez o efeito seja relativo, ou seja, quando o time joga em casa – e a distância entre as sedes dos times é considerável – o tamanho da torcida do time da casa geralmente supera o do time visitante. Então, na verdade, o efeito seria relativo ao tamanho das torcidas. Caso isso seja correto, então, sim, valeria a pena encher vários ônibus com torcedores quando seu time jogar fora de casa.

Claro, ainda não fica claro, para mim, como é a transmissão do efeito da torcida sobre o clube, mas imagino que fatores psicológicos sejam importantes. Ah sim, vale a pena lembrar que isso não garante, por si só, resultado de jogos: estamos apenas detalhando um dos fatores que possivelmente explicam o bom desempenho de um time.

Quando disserem, pejorativamente, a você que o Prêmio Nobel de Economia não é bem o Nobel…

…você já pode se sentir menos ofendido (ou não? Descubra lendo até o fim o artigo a seguir)  ^_^

Dynamite Regulations. The Explosives Industry, Regulatory Capture and the Swedish Government 1858-1948

Josefin Sabor, Lena Andersson-Skog

Abstract
In this article, we argue that the regulation of the explosives industry in Sweden between 1858 and 1948 can give a slightly different perspective on regulatory capture. In this case it was the upstart company, the Nobel Dynamite Company, and not the established explosives companies that in negotiation with the regulator succeeded in establishing new national regulations. Through three different cases we show that the method behind this successful capture was indirect and direct with a common trait of risk minimizing for the public that developed in cooperation with the regulator. 

O artigo é aberto e você pode obtê-lo sem pagar taxas.

Demanda por selos raros

A Ciência Econômica é tão cheia de opções para pesquisas interessantes que nunca consigo deixar este blog morrer, a despeito da baixa audiência (uns quatro interlocutores, creio). Veja, por exemplo, este texto, mostrando que há demandas a serem estimadas por aí. Demandas que nem sempre nos ocorrem…

Como um colecionador – que parou há algum tempo – de selos, nada poderia me deixar mais curioso. Aliás, há algo sim. Eu gostaria de ver se existe uma estimação de demanda similar para revistas da Marvel antigas (Ebal, RGE, Abril). Eis um tema que me deixa sempre curioso.

Modelo empresarial de gangues de traficantes no sul do Rio Grande do Sul

garybecker-may24-2008

Claro que são!

Criminosos são racionais?

Eis um debate no qual não entro mais. Não perco meu tempo com quem – já tendo estudado em alguma graduação – insista que imputar racionalidade econômica a criminosos é um tipo de vício ou um crime metodológico. Ignorância só é um direito do estudante que está em meio aos seus estudos (sic) e não leu o livro-texto e/ou não assistiu a aula em que se falou de racionalidade. Então, sim, o título tem uma interrogação quase apenas retórica.

Aliás, não sou eu quem insiste que criminoso são racionais. Quem diz isso são os fatos detalhados na notícia.

Resumidamente, descobre-se que os traficantes que atuam em Capão do Leão e em algumas cidades do sul do Rio Grande do Sul adotam uma prática interessante: o aluguel de armas de fogo (o que nos faz lembrar, imediatamente, do famoso monopolista com bens duráveis e da conjectura de Coase a respeito: armas são bens duráveis e alugá-las pode ser mais lucrativo do que vendê-las, ainda mais se o mercado de armas for ilegal e você for o chefe de uma gangue…).

Direitos de propriedade sobre as armas (e sobre o produto do roubo)

A ação policial, acertadamente, tem causado prejuízos – o jornalista fala em mais de R$ 3 milhões – aos traficantes que, se recorriam ao aluguel de armas, agora intensificaram seu uso entre facções. Note que o aluguel não é apenas de pistolas, mas também de fuzis. Como funciona o sistema de precificação do aluguel? Diz-nos o repórter (*):

Eles [os valores] podem ser de R$ 2 mil referentes a um revólver calibre .38 e R$ 7 mil em um fuzil. Aproximadamente 30% vão para quem executou o crime e o restante para a facção. “Os valores são conforme o lucro que, por exemplo, um assalto a joalheria vai render ao grupo”, explicou o titular da DP (…).

Ainda de acordo com informações da polícia, caso o integrante perca a arma ou a mesma seja apreendida pela polícia, as lideranças determinam um valor – normalmente mais alto que o preço já cobrado – para que a pessoa não saia do grupo e atue cada vez mais na organização para conseguir cifras impostas pelos chefes. Além do custo da taxa de locação, a chefia impõe pagamento de mensalidade à facção. O valor cobrado é de aproximadamente R$ 200,00 de cada um. A justificativa é para que, em caso de prisão, haja caixa para pagar advogados.

Percebe-se que o aluguel só faz sentido para assaltos de porte (não é fácil pagar R$ 2/7 mil por uma pistola/fuzil, né?). Pelo que se pode entender do texto, digamos que um grupo de três pessoas assalte uma joalheria usando três pistolas alugadas. Supondo que se cobre R$ 2 mil cada, o grupo já inicia com um custo total de R$ 6 mil (pensando apenas nas armas como insumo e ignorando outros custos).

Não ficou muito claro para mim se o fruto do roubo é tal que se desconta os R$ 6 mil dos 30% de quem alugou as armas ou se os 30% são adicionais aos R$ 6 mil. Por exemplo, digamos que o roubo rendeu R$ 100 mil. Isso significa que: (a) ou R$ (30-6) mil seriam do grupo e R$ 70 mil de quem lhes aluga as armas, ou que: (b) a facção paga R$ 6 mil adiantado e depois mais R$ 30 mil, deixando R$ 70 mil para os proprietários das armas. Imagino que a opção (a) faça mais sentido pelo que vem em seguida no texto (a questão da perda da arma).

A economia dos contratos…no mundo do crime

O segundo parágrafo do trecho ilustra como os proprietários do bem arrendado (armas ilegais, no caso) gerenciam perdas/apreensões de armas e captura de membros da facção que são, fundamentalmente aleatórias (mas dependem, ceteris paribus, dos cuidados dos que planejam o crime). Em outras palavras, trata-se de como locatários e locadores de armas desenham seu contrato.

Além de cobrarem uma mensalidade fixa (para contratar advogados), há uma parte aleatória que depende da perda da arma. Neste caso, a idéia é fazer com que quem perdeu a arma tenha incentivos a não cometer o mesmo erro. O sistema é similar ao dos restaurantes que ameaçam cobrar um valor absurdamente alto para quem perder a comanda: um elevado valor que faz com que ninguém queira perder a arma.

Ah sim, sobre a racionalidade dos criminosos: você acha que estes valores caíram do céu? I rest my case

Conclusão: o que mais tenho para ler?

Ora, material não falta. A economia do crime é objeto de análise do capítulo 12 de Direito e Economia no Brasil, organizado por Luciano B. Timm (editora Atlas, já na 2a edição). Trata-se do capítulo escrito por Pery F. A. Shikida, da Unioeste (no interior do Paraná). Uma busca rápida pela internet mostrará a você que há vários pesquisadores na área (não citarei mais nomes para não ser injusto com vários deles que são meus amigos, inclusive).

Obviamente, o grande nome sobre a economia do crime é o falecido Nobel, Gary S. Becker, cujos artigos merecem uma olhadinha rápida. Sobre a economia do crime em gangues ou dentro de prisões, veja, por exemplo: David Skarbek, Daniel D’Amico.

(*) O jornal cometeu um erro sério: a página 39, na qual se encontra o artigo não existe na edição digital. Trata-se, na pior das hipóteses, de uma séria quebra de confiança com o assinante (será que assinamos por “X” páginas e recebemos menos que X?). Espero que o Diário Popular, de Pelotas, explique-se aos assinantes. De qualquer forma, quem comprou a edição impressa pôde ler a matéria completa.

Muçulmanos moderados nos EUA e percepções sobre o terrorismo

Recentemente assisti este vídeo da Prager University sobre o que muçulmanos moderados significa, do ponto-de-vista dos próprios muçulmanos. É um vídeo polêmico, mas levanta pontos interessantes para uma discussão sobre o terrorismo.

Bem, agora que você já assistiu ao vídeo, eis uma questão interessante: será que muçulmanos são idênticos em suas preferências por ataques terroristas ao redor do mundo? Esta nova pesquisa feita nos EUA – para uma amostra de muçulmanos dos EUA – ajuda a colocar as coisas em perspectiva (ainda que tenha diversos problemas metodológicos, um deles a falta de um modelo teórico, por exemplo). Resumindo a pesquisa (literalmente), temos:

Tracking Radical Opinions in Polls of U.S. Muslims
Veronika Fajmonová, Sophia Moskalenko, Clark McCauley

Abstract

This Research Note examines two telephone polls (2007, 2011) and three Internet polls (2016) to track opinions of U.S. Muslims relating to the war on terrorism. Results indicate that a small but consistent minority (five to ten percent) justify suicide bombing of civilians in defense of Islam, while those seeing the war on terrorism as a war on Islam have declined from more than half to about a third. This decline coincided with a decline in perception of discrimination against Muslims in the U.S., and correlational results confirm that perceived discrimination is one source of seeing the war on terrorism as a war on Islam. Other results from both the Pew and Internet polls show that disapproval of U.S. foreign policies affecting Muslims also contributes to seeing a war on Islam.Discussion emphasizes the value of Internet polling for tracking shifts in the opinions of U.S. Muslims, but acknowledges that polling has not yet discovered what is different about the small minority who justify suicide bombing.

Percebemos que se sentir discriminado nos EUA é uma fonte de apoio ao terrorismo por parte dos muçulmanos. O que é se sentir discriminado, contudo, não é algo tão simples de se entender.

Afinal, um ponto importante que se depreende do vídeo é saber se os muçulmanos desejam ser vistos como parte de uma nova sociedade, preservando alguns valores, mas tolerando (ou até assimilando parte de) outros valores ou, por outro lado, se desembarcaram nos EUA dispostos a impor seus valores religiosos a outros, usando a força se necessário.

Neste sentido, o artigo citado aponta para a importância de se entender bem as preferências de um grupo de imigrantes. Querem ser aceitos mantendo seus valores – mas sem obrigar outros a seguí-los? – ou querem impor seus valores na sociedade que lhes recebe?

A virtude da sociedade norte-americana tem sido, ao longo dos séculos, resolver este dilema de forma pacífica (no cômputo geral da história do país, creio que soluções pacíficas ganham, a despeito de conflitos aqui e acolá).

Ah sim, economia do terrorismo é um campo de pesquisa importante (faça uma busca no google) e que vale a pena ser explorado.

Gestão e Coração

“Em resumo: vale o profissionalismo na gestão. Mesmo assumindo a tese de que esporte morre sem paixão, deve-se admitir que a paixão fica para a torcida, não para a gestão. Uma gestão que deve ser remunerada, em tempo integral, focada na maximização das receitas e redução dos custos, e na obtenção de títulos. A estrutura gerencial tem de ser semelhante à de uma empresa normal, sem nenhum traço de amadorismo”. [Aidar, A.C.K. & Leoncini, M.P. “A necessidade de profissionalização na gestão dos esportes”, in: Aidar, et al. A Nova Gestão do Futebol, FGV Editora, 2002, 2a ed, p.112]

O livro já está um pouco velho, mas o problema da gestão do futebol, central na economia dos esportes (e, por consequência, na economia do futebol), obviamente, segue incomodando.

William J. Baumol, descanse em paz

Acabo de saber. Muito triste até para procurar links. Eterno candidato a Nobel deste que vos escreve. Baumol me fez gostar de equações em diferenças com aquele seu velho manual – acho que o nome era Dynamic Economics (nem vou procurar) – e criou, juntamente com Panzar, Willig e outros, a teoria dos mercados contestáveis que serviu de base para a desregulamentação do mercado aéreo dos EUA, dizem. Criou o conceito – essencial – de cost disease.

No momento em que fica pronto meu café – reserva especial (gracejo da Ucoffee) que eu pretendia saborerar com prazer…bem, dedico o saboroso café ao grande William J. Baumol. Deixou-nos órfãos. Descanse em paz.

Sem imagens, sem links. Talvez, inconscientemente, esta seja uma homenagem adequada ao grande economista que também era pintor.

Goleiros e o paradoxo do poder: a Economia dos Esportes encontra a Economia do Conflito (e ninguém esperaria que isso não ocorresse, certo?)

soccernomicsO que vejo de mais legal, para mim, nesse estudo, é o que os autores destacam, eles mesmos:
 
The most interesting performance differential was that a goalkeeper of a high-level team had a higher number of Saves when playing against a low-level team than a high-level team or an intermediate-level team.
 
Ok, eu sei que há um problema de validação externa (ou seja, generalizar para outras amostras…), embora eu também seja levado a pensar que com maior globalização, times ficam mais mistos e estilos de jogo distintos tenderão a se homogeneizar no longo prazo (não estou dizendo que ocorrerá, é apenas um palpite irresponsável). Isto aparece também em alguns livros sobre economia dos esportes que citei aqui outro dia (e também em livros sobre história do futebol ou das táticas).
20160430_100143Voltando ao trecho acima, sem uma leitura mais detalhada, mas entusiasmado com o que li, fui levado a pensar em um resultado de Economia do Conflito que acho muito legal (embora não seja genérico o suficiente para quem curte Teoria Econômica): o paradoxo do poder (POP), descoberto pelo falecido Jack Hirhsleifer no contexto de conflitos (guerras, batalhas judiciais e, por que não, partidas de futebol?).
Os autores do texto acima provavelmente não se surpreenderiam se lessem o início do resumo do artigo. Senão, vejamos:
In power struggles, the stronger might be expected to grow ever stronger and the weak weaker still. But, in actuality, poorer or smaller combatants often end up improving their position relative to richer or larger ones.
No contexto do resultado destacado pelo artigo sobre futebol, eu diria que há momentos de uma partida em que isso acontece (o time pequeno “cresce” em relação ao grande) e o resultado é que o goleiro do time mais forte tem mais trabalho salvando seus times do que o normal.
Será que isso ocorre mesmo em divisões de acesso (segunda divisão) de campeonatos estaduais? Ou seja, seria este resultado uma regularidade empírica observável? Não sei. Não coletei os dados, mas, quem sabe? Vai que alguém resolve explorar este aspecto que, note bem, tem uma relação bem íntima com a boa gestão de uma equipe de futebol (afinal, você tem que saber escolher bons goleiros).
Será que a relação que proponho faz sentido? Comente por aqui. Gostou? Curte aí. Não gostou? Curte também. Ah, e se reproduzir, cite a fonte. Obrigado.

Hobsbawm mentiu

Nunca gostei do Hobsbawm, mas não achava que inventasse factóides (ou seja, o nome reto e direto disto é: mentir). Não apenas sua reputação fica manchada como, o que é mais grave, todos que o citam passam a carregar a dúvida sobre se estão citando algum factóide também.

Não se faz isso com a História, Hobsbawm.

Dominância Fiscal? Não, obrigado.

Aparentemente, o debate sobre a dominância fiscal vai esquentar. Carlos Eduardo Gonçalves, do “Por quê” publicou um pequeno (altamente técnico para leigos, algo técnico para graduandos que entendem econometria) texto para “leitura” na Casa das Garças com evidências econométricas de que não, não há dominância fiscal no Brasil.

O debate é interessante porque…bem, leia a última frase da conclusão do artigo e veja os dados do governo (gastador pacas) do Brasil para entender porque isto é um tema que incomoda tanta gente.

p.s. dica do comentarista Diogo Bastos (lá no livro de caras) é este trabalho, de alguns meses atrás, que chega à conclusão oposta.

Economia dos Esportes – a divisão de acesso (continuação da continuação)

acordeibemEu sei, eu sei. Já beira ao “doentismo” do torcedor. Mas como ontem a vitória foi sofrida, lembro do que eu disse anteriormente: os adversários eram igualmente bons. Pelotas tinha 60% das vitórias em casa e Aimoré tinha 60% das vitórias fora de casa. E ambos vinham de uma derrota anterior, curiosamente pelo mesmo placar: um a zero.

A rodada não acabou ainda, mas com os resultados até ontem, até o momento, temos 91 partidas e, destas, 44 resultaram em vitória dos mandantes (48%). Sobre o Lobão (E.C. Pelotas), seu desempenho na minha medida – vitória do time em casa sobre o total de jogos em casa – aumentou de 60% para 67% (ou seja, aumentou sete pontos percentuais ou 7 p.p.). No grupo A da divisão de acesso, o Internacional de Santa Maria é o que tem, por enquanto, melhor desempenho em casa – nesta medida – com 80% de vitórias obtidas em casa. Já no grupo B, o Lajeadense é quem se sai melhor em casa, com 83% das vitórias nesta métrica (ou medida, se quiserem..são sinônimos).

O juiz, os acréscimos e tudo o mais…

Ah, sim, um caso que vale a pena comentar é que a vitória ontem foi de pênalti marcado nos acréscimos (aos 49 minutos do segundo tempo). Há sempre muito choro, muita paixão e emoção nestes momentos mas ontem eu vi um artigo (que ficou em algum lugar…) sobre o tema. Um resumo sobre o tema (não do texto específico cujo sumiço começa a me incomodar…) – com mais comentários – aparece neste post deste blog. Ah, claro, você pode se perguntar se isto é um tema de economia. Eu diria que sim, mas você pode checar este livro (e me presentear com ele) ou este texto para discussão do IZA, para citar apenas alguns poucos exemplos.

Agradeço sua leitura e eventuais comentários. Os textos anteriores estão aqui e aqui. Gostou e quer citar? Fique à vontade. Só não faça plágio, ok?

Economia dos Esportes – A divisão de acesso (complemento)

Eu não costumo fazer isto, mas aqui vai, apenas para desencargo de consciência, a atualização das tabelas do post que publiquei sobre a divisão de acesso na qual se encontra um dos meus dois times favoritos, o E.C. Pelotas (Lobão!).

Faço a atualização porque aí temos completas as onze primeiras rodadas da divisão de acesso. Dos 88 jogos até agora, 42 vitórias foram obtidas nos campos dos mandantes, o que nos dá 48% de “mando de campo” (ok, já discuti anteriormente isto, não vou me repetir). Ah sim, lembro que o próximo jogo é quarta-feira (amanhã) e você pode conferir mais aqui.

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Economia dos Esportes – Mando de Campo ou “Por que você deveria ir ao jogo da próxima quarta-feira?”

20160601_215320-001A Economia dos Esportes é uma área estabelecida mundialmente (ver, por exemplo, as páginas da NAASE, da ESEA, ou da IASE) embora, curiosamente, pouco se fale do tema no Brasil. Artigos sobre aspectos econômicos do futebol brasileiro, contudo, já podem ser encontrados de vez em quando por estas bandas. Promissor? Com certeza.

Para motivar o tema, eis aqui um assunto caro ao pessoal das ciências (d)esportivas: o fenômeno do mando de campo (home field effect). Por que ele seria relevante para economistas? Bem, se este efeito existe, ele pode ter impacto sobre as receitas dos clubes e, portanto, no desempenho dos mesmos (conforme a tendência européia de se modelar o comportamento dos clubes nesta área de pesquisa) ou sua lucratividade (conforme a tendência norte-americana).

Será que existe mesmo este efeito? Ao invés de citar um ou dois artigos (na verdade, acho que existem uns três, sendo que um deles já foi aceito e será publicado em breve em periódico da área de Economia), vou apenas tentar medir o efeito sem me preocupar em explicá-lo (o que é, com certeza, o mais importante e interessante aspecto do problema).

Tomando como exemplo a divisão de acesso (A2) do Gauchão, onde se encontra o glorioso Esporte Clube Pelotas (que teve uma derrota vergonhosa ontem), vejamos como os times se saem jogando fora e dentro de casa. Neste ano, a divisão de acesso é composta de dois grupos numa lógica mata-mata. Estamos na 11a rodada de quatorze antes das quartas de final (seguidas das fases semifinal, final). Até o dia 22/04 foram 84 partidas. Grosso modo, quando os times foram mandantes (i.e., jogaram em casa), obtiveram 41 vitórias, o que nos diz que o mando de campo, medido desta forma, foi de 48.8%.

Podemos entrar em mais detalhes, contudo. Vejamos os desempenhos dos times em seus respectivos grupos (à esquerda o Grupo A).

Exemplificando, tomemos o caso do Lobão (Esporte Clube Pelotas) e do Aimoré, que jogarão na Boca do Lobo (a casa do Lobão) na próxima quarta-feira. Percebe-se que o Pelotas foi mais efetivo em vitórias jogando em casa (venceu 60% das partidas) do que fora (venceu apenas 17% neste caso). Já o Aimoré tem desempenho oposto. Vence mais fora (75%) do que em casa (33%).

Repare que muitas coisas aconteceram até aqui. Vários times trocaram de técnicos, jogadores foram contratados, dispensados, etc. De certa forma, os números já trazem em si mesmos estas alterações. O acumulado de vitórias é o resultado de todas estas mudanças.

Como falei inicialmente, há várias hipóteses que buscam explicar o mando de campo e estamos longe de uma teoria sólida sobre o fenômeno. Mas isso não significa que não devamos trabalhar para que o mesmo se efetive. Neste sentido, voltando ao exemplo do próximo jogo do Lobão, na quarta-feira, eu diria que a torcida deveria ir em peso ao estádio e, sem violência (sempre sem violência!), mas com firmeza, pressionar o seu time e fazer mais barulho do que a torcida do adversário. Por que? Porque os dados nos mostram que o mesmo apresentou, até agora, um desempenho muito melhor fora de casa e é aqui que enfrentará o Lobão.

Caso tenha se interessado por Soccernomics ou mesmo pela Economia dos Esportes, saiba que, ocasionalmente, encontrará algum material por aqui.

Gostou? Comente. Não gostou? Comente também. Mas cite a fonte original sempre, ok?

A balconista que arredondava – continuação

Lembra do texto que escrevi sobre arredondamentos nos preços de produtos? Pois é. Eu sigo interessado no tema e, se você pesquisa economia, boas chances existem de que também esteja curioso. Bem, vamos tentar organizar as idéias. A literatura se refere a odd pricing effects quando “o vendedor estabelece o preço logo abaixo do arrendodamento mais próximo” (assim o definem Kinard, Capella & Bonner (2013), citado no texto anterior). Neste caso, pode-se pensar em preços como R$ 12,99, R$ 3,49 ou mesmo R$ 2,50 (alguns incluiriam preços como R$ 2,98, como se vê aqui).

Entretanto, há um subconjunto destes preços que são os preços para os quais não há troco. Quem leu o texto anterior notou que esta foi a tônica principal do meu texto. Eu estava incomodado não com o efeito psicológico (que é bem interessante também) do arredondamento, mas sim com o fato do preço ser tal que o consumidor poderia perder o troco.

Resolvi conhecer um pouco melhor a realidade local. Saí pela cidade obtendo panfletos de vários tipos de lojas e tabulei os dados. Não importa, nesta tabulação, se um produto é vendido individualmente ou em pacote. Considerei cada um como um produto distinto. Na verdade, considerei todos os preços à vista que constavam em cada catálogo. Eis o resultado desta rápida amostragem (nomes dos estabelecimentos foram excluídos).

semtroco

Como alguém poderia dizer, realmente o “não ter troco” é uma ocorrência mais comum em produtos não-duráveis do que nos duráveis. Isto é razoável? Talvez, já que a demanda de duráveis varia menos no tempo em relação a de não-duráveis (no sentido de que você não compra um sofá semanalmente como compra remédio, sabonete ou frutas). Logo, se há um ganho positivo, por menor que seja, em embolsar uns centavos do consumidor, talvez seja melhor fazer isso com produtos não-duráveis. Caso ele não reclame no balcão, azar o dele (e ele voltará, por exemplo, para comprar o remédio…).

Falando um pouco da tabela, no caso das farmácias, há uma clara divisão: três delas apresentam muitos preços para os quais não há troco e duas se comportam basicamente de forma oposta.

Não pude ir ao outro supermercado da cidade, mas no que fui, existiam dois panfletos separados: um para a seção de higiene pessoal (na tabela, “Higiene/Limpeza” e o resto (que chamei de “Alimentícios”, mas este não é um nome exato pois nesta seção tem-se produtos como amaciante de roupas…depois mudarei o nome). Note que o uso de preços “sem troco” é elevado neste estabelecimento.

Uma única loja com um panfleto bem pequeno é a exceção a esta regra. Trata-se de uma loja de moda íntima (se bem que cuecas e sutiãs não são exatamente não-duráveis ou duráveis, embora eu tenda a classificá-los como mais duráveis).

As lojas de departamento praticamente usam todos seus preços na forma “R$x9,xx, mas os centavos são sempre de forma a permitir a devolução de troco. Então, ok, pode-se até dizer que elas usam odd pricing, mas nunca deixam o consumidor sem troco, mesmo quando percebemos que negociam bens duráveis para os quais, geralmente, paga-se por meio de cartões ou cheques, o que, presumo, até facilitaria cobrar preços “sem troco”.

A pergunta que me perturba agora é a seguinte: diante de uma situação em que o vendedor não tem troco, o que ele faz? Arredonda para baixo ou para cima? Minha experiência pessoal, em Belo Horizonte, é que geralmente o arredondamento é para baixo. Como sou chato com isto, minha memória está treinada para me alertar quando o vendedor tenta levar embora meus centavos. Mas, aqui em Pelotas, será assim? Minha experiência com a balconista não foi desagradável, mas me deixou muito desconfiado.

Ah sim, não poderia encerrar o texto sem dizer que vou tentar acompanhar a evolução deste fenômeno daqui para diante e, talvez, tentar também estudar um pouco mais de odd pricing. Outro ponto legal de se coletar estes panfletos é tentar verificar a existência de custos de menu, mas esta idéia já foi bastante explorada.

Evidentemente, também é interessante pensar se haveria algum motivo exógeno ao mercado (alguma lei) que obrigaria o vendedor a colocar preços estranhos como R$ 2,98. Eu duvido, mas vivo em um país que já teve lista de preços “congelados” em jornal, o que me dá motivos para me preocupar com isto, embora eu aposte (contra minha própria experiência?) que isto não seja um problema sério.

Bem, é isso. Deu um pouco de trabalho, mas talvez algum leitor tenha aproveitado a leitura deste textinho. Gostou? Cite o original. Não gostou? Cite também. Tem referências bibliográficas interessantes? Envie para mim. Será um prazer.

A hipótese nula é que este mini-texto é engraçado

Você matou a aula de Estatística mas tem dois colegas – Nicodemos e Parmênides – que foram e anotaram as definições de erro tipo I e II. Um deles é mais distraído que o outro mas você supõe que Nicodemos tenha anotado corretamente e está se preparando para a prova final quando então lhe ocorre o seguinte pensamento:

Erro tipo I: – É verdadeira a hipótese de que Nicodemos tenha anotado as corretas definições de erros tipo I e II, mas você rejeita esta hipótese.

Erro tipo II – É falsa a hipótese de que Nicodemos tenha anotado as corretas definições de erros tipo I e II, mas você não rejeita esta hipótese.

Refletindo um pouco, você conclui (sem realizar teste algum) que faltar à aula e depender do caderno alheio é, realmente, uma droga!

p.s. como professores também podem se confundir com slides, melhor ler o livro (e uma anedota similar se aplica).