O clássico artigo de Marcos Lisboa (em duas partes)

O arquivo único – com ambas – está aqui.

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Fred Williamson me lembra Joseph Schumpeter

Fred Williamson, o ex-jogador de futebol americano e ator tinha um conjunto de três regras – que podemos chamar de “Proposição de Fred Williamson” – para sua participação em filmes. Para ele, ao menos duas das três deveriam ser cumpridas.

Assim, em suas palavras, eis o que chamo de Proposição de Fred Williamson:

1. Eu não podia ser morto

2. Eu tinha que ganhar todas as lutas

3. Eu ficava com a garota no final do filme se quisesse.

Alguém aí se lembrou das três aspirações de Schumpeter? Ou do que disse David Friedman sobre as habilidades necessárias para entender economia?

Talvez eu devesse ter três regras para alguém escolher duas para orientação de dissertações.

Acho que elas seriam: (a) você sempre seguirá minha orientação, aceitando ser repreendido se não o fizer , (b) você assumirá seu protagonismo na sua dissertação, (c) você terá sempre de me convencer de que está no caminho correto.

A economia em “Willie Dynamite”

willie_dynamite_filmposterEis um dos filmes de Blaxploitation mais úteis para a sala de aula. Lançado com legendas em português há pouco tempo (mas disponível na internet sem as mesmas…procure), este é um filme que traz vários temas de economia para diversas aulas de Economia.

Um resumo da história do filme está aqui e, bem, vamos aos spoilers.

1. Organização Industrial (Cartel) – a tensão óbvia da tentativa de cartelização entre os cafetões por um deles, Bell, logo no início do filme é uma descrição cinematográfica do que vemos em livros-texto de teoria dos jogos. Willie insiste que é um “capitalista” e que não tem “medo de competição”, frustrando o projeto de cartelização. A pergunta principal que ele faz é: “quem decidirá a divisão de lucros”.

2. Economia do Crime – Willie Dynamite (irônico apelido para Willie A. Short, como aprendemos na parte final do filme) é um cafetão e tem que gerenciar suas prostitutas. Não se discute muito como ele se transformou em cafetão, mas as variáveis estão ali para a discussão: a probabilidade de ser pego (em função de sua riqueza e como a mesma é variável conforme alguns policiais buscam prendê-lo a todo o custo, juntamente com a atuação dos cafetões concorrentes).

3. Empreendedorismo – Implícito nos dois itens anteriores, já que Willie tem que agir o tempo todo (e ele não usa auxiliares, gerenciando diretamente as prostitutas, nomeando uma como uma espécie de “braço direito”, mas com pouca autonomia) em prol do sucesso de seu negócio ilegal. Aliás, sobre a gerência deste tipo de negócio, na prática, veja, por exemplo, os dados desta pesquisa.

Finalmente, eis aqui uma pesquisa empírica de alguns antropólogos sobre o tema. O autor principal, inclusive, tem um livro sobre o tema que parece interessante.

Ah, claro, a trilha sonora do filme é uma atração integrante e não deve ser ouvida separadamente (mas isso é o que eu acho). Altamente recomendável.

O monstro do seu sonho

Não me lembro da página e o livro não está aqui perto, mas este trecho é ótimo:

“Contou-me, certa feita, um psicanalista que uma analisada vivia atormentada por um monstro que implacavelmente a perseguia. Por ter o monstro mil disfarces, o medo não tinha como se concentrar num rosto. O psicanalista pediu-lhe, por isso, que deixasse de tentar identificar o semblante do mal e se limitasse, da próxima vez, a despistá-lo vagando a esmo por toda a paisagem que se apresentasse como caminho possível. Deveria fugir indefinidamente para ver até onde a perseguiria. Seguir à risca o conselho. Ao começar a ser seguida, andou por um bom tempo a passos firmes. Um grito ao longe a assustou. Começou a correr em desabalada carreira. Corria, corria e corria. (…) De repente, exausta, sobrou-lhe apenas adentrar por uma ruela escura. Lá, nos últimos trinados da respiração, viu-se contra a tosca parede da rua sem saída. Fim da linha. Encurralada, prestes a desfalecer, olhou nos olhos vazados do monstro e perguntou aterrorizada: “O que você vai fazer comigo?” “Não sei, respondeu-lhe atônito o monstro. Não tenho como saber. O sonho é seu”. [Alberto Oliva, A Solidão da Cidadania, Editora Senac, São Paulo, 2000]

Pois é. O sonho é seu, não é? Então, não adianta jogar a culpa no monstro.

Tensões liberais/libertárias (ainda o caderno de anotações aberto)

Eu seguiria Daniel Klein e usaria o termo liberal sem ambiguidades, mas o leitor brasileiro geralmente se confunde com as traduções erradas dos jornais (erradas, de má fé ou não). Então, prefiro o uso de liberais/libertárias e, caso você tenha alguma dúvida, veja este pequeno artigo do mesmo Klein.

De qualquer forma, novamente, eis as tensões (quem acompanha o blog perceberá que estou ainda na sequência disto). Primeiro, este trecho de Antônio Paim:

(…) verifica-se que os liberais sociais deram uma notável contribuição para a evolução da doutrina liberal, tornando-a apta a dar respostas concretas aos problemas que o curso histórico veio a suscitar. Contudo, deve ser creditado aos conservadores o alerta quanto à necessidade de avaliar-se corajosamente a eficácia das políticas sociais. [Paim, A. “O liberalismo social” in: Merquior, J.G., Paim, A. & Kujawski, G. de Mello, O liberalismo social: uma visão histórica. Massao Ohon Editor, 1998, p. 60]

Note-se, portanto, que, na concepção de Paim, o liberalismo/libertarianismo não é e nunca foi, exclusivamente, um conjunto de concepções exclusivamente econômicas (embora, ok, possamos discutir isso sob uma ótica Beckeriana em outra oportunidade). Kujaswki também fará coro a este discurso seguindo Ortega y Gasset mais à frente (p.73 do mesmo livro).

Destaque também para o importante papel do conservadorismo (já citado no outro post que fiz aqui). A discussão do conservadorismo bem poderia ser feita em relação à path dependence, mas isso fica para outra oportunidade. De certa forma, a teoria de North (veja, em especial, a versão de Pereira, Alston e Mueller ilustrada para o Brasil recente) pode servir para se entender estes momentos de tensão (matematicamente falando – e divagando – lembro da teoria da catástrofe) entre conservadores e liberais/libertários ao longo da história.

Outro ponto de tensão entre conservadores e liberais e que, na minha opinião, torna este termo left-lib algo sem sentido (para mim é algo como socialismo e liberdade) diz respeito aos aspectos não-econômicos do liberalismo. Por exemplo:

Libertarians advocate equal protection for homosexuals, and thus support same-sex marriage and oppose the US military’s former restrictions on homosexuality.

Libertarians advocate women’s reproductive freedom, including the rights to abortion, to birth control, and to have sex with other consenting adults. [Brennan, J. Libertarianism – what everyone needs to know. Oxford University Press, 2012, p.83]

Mas, o mais importante, na mesma página (obviamente, do mesmo livro):

The libertarian view of civil liberty is just one view among many, and there’s no reason why libertarians should get to impose their expansive view of civil liberties on other people if most of them favor a less expansive view.

Aliás, o artigo citado do prof. Klein, serve como alerta aqui.

The principle of liberty has its holes, gray areas, and exceptions; it does not speak to all important issues of government; and it is not self-justifying. Despite the limitations, however, it remains cogent and gives backbone to libertarian and classical liberal thought.

Outro ponto interessante do liberalismo – pouco divulgado – é o da liberdade religiosa. Neste sentido, um breve depoimento desta militante do Livres é esclarecedor.

Diga-se de passagem, tudo o que foi dito aqui não é exatamente uma novidade. Basta você se lembrar do índice de liberdade humana e de suas dimensões que vão além da econômica (no qual, aliás, a sociedade brasileira piorou ultimamente).

Concluindo esta segunda parte das anotações, parece-me que a definição de left-lib – desde John Stuart Mill pelo menos – não faz o menor sentido. Os conservadores têm o legítimo direito de discordar de algumas posições liberais, mas o termo left-lib é tão sólido quanto o socialismo e liberdade. Não faz sentido, exceto para fins de propaganda e, no caso dos liberais, a propaganda é pejorativa e usada contra os liberais.

Por outro lado, é importante que os liberais mais jovens, estes que enfatizam bandeiras não-econômicas, esforcem-se para fundamentar melhor suas posições, afim de se diferenciarem dos, estes sim, leftists.

Por enquanto, é isso.

Liberalismo…qual liberalismo? (caderno de anotações aberto)

Nietzsche disse que apenas seres a-históricos permitem uma definição no verdadeiro sentido da palavra. Assim, o liberalismo, um fenômeno histórico com muitos aspectos, dificilmente pode ser definido. [Merquior, J.G. O liberalismo antigo e moderno, Editora Nova Fronteira, 1991, p.15]

Informando aos leitores: este breve post objetiva apenas marcar algumas anotações sobre liberalismo e temas correlatos. Motivação? O incômodo com algumas discussões non sense (na minha opinião) que vejo por aí. Não busque um texto concatenado neste post (quem sabe, no futuro?). Talvez eu consiga entender melhor o que pensam algumas correntes do ativismo liberal recente (e seus correlatos libertários e conservadores).

Vamos lá. Primeiro, um pouco do que penso ser o que guia – embora eles nunca explicitem – o pensamento do grupo de liberais ‘Livres’ (aliás, penso que muito do que vai a seguir poderá ser visto como a visão de mundo expressa aqui e ali pelo grupo):

Mas nós sabemos que o mercado, conquanto seja instrumento indubitavelmente necessário da criação de riqueza e do desenvolvimento econômico ‘intensivo’, nem por isso constitui uma condição suficiente da liberdade moderna, porque não é capaz de gerar, ‘por si só’, toda uma série de requisitos e oportunidades para o exercício mais pleno e mais significativo da individualidade de muitos. Se suprimir o mercado é ferir de morte o substrato material das liberdades modernas, deixar tudo entregue ao seu império é restringir significativamente o livre gozo dessas mesmas liberdades a minorias – e a minorias compostas de privilegiados pelo berço, e não só pelo mérito. [Merquior, J.G. O Argumento Liberal, Editora Nova Fronteira, 1983, 94-5]

Ainda:

Do comunismo, a ordem liberal só precisa temer a força, não o poder, tão desgastado, de persuasão. E, todavia, em nossas sociedades cada vez mais permissivas e reivindicatórias, ela não está completamente a salvo da perversão interna de seu próprio ânimo: o velho, nobre espírito de liberdade e igualdade. [idem, p.98]

Não encontro a mesma ênfase em Mises, por exemplo, embora, como não poderia deixar de ser, a abordagem seja parecida. Mas, para não passar em branco:

O liberalismo sempre teve em vista o bem de todos, e não o de qualquer grupo especial. Foi isso que os utilitários ingleses quiseram dizer – embora, é verdade, de modo não muito apropriado – com seus famoso preceito, ‘ a maior felicidade possível ao maior número possível de pessoas’. [Mises, L. Liberalismo, José Olympio Editora, 1987, p. 9]

Outra bela definição:

O liberalismo não se reduz a uma simples teoria política ou econômica. Antes disso, e primariamente, ele constitui certa forma de vida, modo peculiar de ser homem. Nessa perspectiva, a melhor definição do liberalismo é a de Ortega y Gasset: ‘O liberalismo, antes de ser questão de mais ou de menos política, é uma idéia radical sobre a vida: é crer que cada ser humano deve permanecer desimpedido para preencher seu individual e intransferível destino’. [Merquior, J.G., Paim, A. & Kujawski, G. de M. O liberalismo social: uma visão histórica. Massao Ohno Editor, 1998, p. 73]

Já sobre o libertarianismo, uma clara definição de Brennan:

Libertarianism is a political philosophy. Libertarians believe respect for individual liberty is the central requirement of justice. They believe human relationships should be based on mutual consent. Libertarians advocate a free society of cooperation, tolerance, and mutual respect. [Brennan, J. Libertarianism – what everyone needs to know. Oxford University Press, 2012, p.1]

Alguns confundem liberais, libertários e conservadores. Embora exista algo em comum entre os três, há diferenças. Hayek foi um que tentou estabelecer a linha demarcatória.

(…) por sua própria natureza, o conservadorismo não pode oferecer uma alternativa ao caminho que estamos seguindo. Por resistir às tendências atuais poderá frear desdobramentos indesejáveis, mas, como não indica outro caminho, não pode impedir sua evolução. Por esta razão, o destino do conservadorismo tem sido invariavelmente deixar-se arrastar por um caminho que não escolheu (…). Antes de mais nada, os liberais devem perguntar não a que velocidade estamos avançando, nem até onde iremos, mas para onde iremos. De fato, o liberal difere muito mais do coletivista radical dos nossos dias do que o conservador. Enquanto este geralmente representa uma versão moderada dos preconceitos de seu tempo, o liberal dos nossos dias deve opor-se, de maneira muito mais positiva, a alguns dos conceitos básicos que a maioria dos conservadores compartilha com os socialistas. [Hayek, F.A. Os fundamentos da liberdade, Visão, 1983, p.467-8]

Talvez João P. Coutinho em seu “As ideias conservadoras” de 2014 seja uma referência mais recente, mas não vi muitas diferenças entre o que ele diz no início do livro e o que diz Hayek no trecho anterior.

Uma conexão nem sempre notada entre alguns amigos liberais ou conservadores é aquela entre liberalismo/libertarianismo e dignidade. Vejamos o que diz Klein:

In preserving our own dignity (…) [we] oppose those who would use our being without due regard for our own story, our own meaning. In preserving dignity, we oppose those who would demean us by denying, disdaining, or belittling the (…) integrative moral force, of our being.

In acting so as to preserve the dignity of others, we presume that the individual is conducting his affairs as he sees fit, no matter how mad the method may seem. We respect his individuality. We do not dwell on, pity, or patronize someone’s apparent weakness or disadvantage. We do not attempt to rescue when no rescue has been sought. We do not judge or even draw attention to, except insofar as doing so is a part of the relationship the other has willfully entered into. We honor an ethic of MYOB – Mind Your Own Business. [Klein, D. 3 Libertarian Essays. FEE Occasional Paper, 1998, p.39]

Mas não se confunda a visão liberal de mundo com alguma defesa da liberdade irrestrita em quaisquer dimensões do espaço-tempo. Por exemplo, no campo da pesquisa científica, diz-nos Oliva:

Como a liberdade total pode levar a seu oposto, é importante reconhecer que a liberdade de pensar pressupõe levar em conta as orientações básicas da razão. Há métodos e métodos; uns promovem a criatividade em parceria com a razão, outros invocam ilegitimamente a razão apenas para propor normas infecundas. [Oliva, A. Anarquismo e Conhecimento, Jorge Zahar Editor, 2005, p.25]

Para não dizer que não terminei de bom humor…

O liberalismo oferece água de lavagem como elixir da vida. [Krause, K. Ditos e Desditos, Brasiliense, 1988, p.150]

FIM (?)

A estatística do futebol: chutes a gol que se convertem em gol

Conforme este interessante estudo, no modelo estendido, espera-se que um jogador médio (na amostra) acerte, jogando em casa, cerca de 11,4% para um chute a gol. No modelo mais simples, o percentual é de 10,2% (e 9,1% fora de casa).

A base de dados diz respeito ao campeonato inglês.

p.s. embora não seja um trabalho de economia do futebol, optei por citá-lo aqui pelo resultado interessante. Nunca vi algo similar para o Brasil, mas nunca pesquisei muito a respeito.

Não, seu amigo de esquerda não é mais aberto a novas idéias do que você.

Ideology as Motivated Cultural Cognition – How Culture Translates Personality into Policy Preferences

Abstract

In different cultures, the same perceptions make for different policies. This paper summarises the results of a quantitative analysis testing the theory that culture acts
as an intermediary in the relationship between individual perceptual tendencies and political orientation. Political psychologists have long observed that more “left-wing” individuals tend to be more comfortable than “right-wing” individuals with ambiguity, disorder, and uncertainty, to equivocate more readily between conflicting viewpoints, and to be more willing to change their opinions. These traits are often summarised under the blanket term of “openmindedness”. A recent increase in cross-cultural studies, however, has indicated that these relationships are far less robust, and even reversed, in social contexts outside of North America and Western Europe. The sociological concept of culture may provide an answer to this inconsistency: emergent idea-networks, irreducible to individuals, which nonetheless condition psychological motivations, so that perceptual factors resulting in left-wing preferences in one culture may result in opposing preferences in another. The key is that open-mindedness leads individuals to attack the dominant ideas which they encounter: if prevailing orthodoxies happen
to be left-wing, then open minded individuals may become right-wing in protest. Using conditional process analysis of the British Election Study, I find evidence for three specific mechanisms whereby culture interferes with perceptual influences on politics. Conformity to the locally dominant culture mediates these influences, in the sense that open-minded people in Britain are only more left-wing because they are less culturally conformal. This relationship is itself moderated both by cultural group membership and by Philip Converse’s notion of “constraint”, individual-level connectivity between ideas, such that the strength of perceptual influence differs significantly between cultural groups and between levels of constraint to the idea of the political spectrum. Overall, I find compelling evidence for the importance of culture in shaping perceptions of policy choices.

Eis aí um artigo que nos ajuda a pensar cientificamente (não como em discussões de boteco) sobre “cultura”, “ideologia” e afins. Aliás, eis uma definição de cultura (lá no artigo):

One influential definition of culture is that it is a pattern of beliefs, a repetition of
ideas or behaviours across individuals in a way that is too systematic to be explained by individual choice alone, yet too variable to be attributed to biological “human nature” (Benedict, 2005).

Não encontro análises detalhadas e com esta qualidade sobre o tema em trabalhos nem de economistas, nem de cientistas políticos, há anos (com as exceções esparsas de sempre). Ah sim, o trecho abaixo resume o que eu sempre digo sobre o uso do termo “cultura” por aí.

Culture is perhaps the hardest to operationalise of all the concepts in this study. The concept is somewhat vague, has been underused in quantitative research, and historically has been understood to mean quite different things in different theoretical traditions (Soares et al, 2007).

Vou ter que ler as 107 páginas do artigo para entender melhor o que ele quer dizer (minto: são 33 apenas e o resto é apêndice!), mas já adianto que a conexão com os conceitos expostos nos últimos trabalhos de Douglass North e no livro de Pereira, Mueller e Alston (aquele, sobre o Brasil, já citado por aqui) parece direta.

O tema da “cultura” e da percepção ideológica atrapalhando ou ajudando na implementação de políticas públicas, este sim, não é tão estranho a alguns economistas (embora ainda haja quem diga, no Brasil, “que isso não é assunto de economista”, claramente ignorando mais de 50 anos de pesquisas…).

Como é interessante ver trabalhos de cientistas sociais que realmente se preocupam em analisar dados (ou seja, a realidade) ao invés de dispararem palpites genéricos por aí…

Substituição de importações diminuirá a desigualdade…eles diziam.

Latin American earnings inequality in the long run (Cliometrica, Sep/2017)
Leticia Arroyo, Pablo Astorga Junquera
This paper traces between-group earnings inequality for six Latin American countries over two centuries based on wage and income series compiled from a large array of primary and secondary sources. We find that inequality varied substantially by country and by period, questioning the notion that colonial legacies largely dominated the evolution of inequality. There is a broader inequality trajectory over the long run in the form of an “m” pattern with peaks around 1880 and the 1990s and a trough around 1920/1930s. Export-led growth does not necessarily imply a rise in inequality, while the import-substitution industrialisation efforts did not translate into a more egalitarian distribution of income. More notably, Latin America’s experience does not exhibit the great inequality levelling as seen in the North Atlantic economies from the 1930s to the 1970s.

Parece que não foi bem assim, não?

Humanos e humanos

Humans are a peculiar species. We’re relatively hairless, we walk on our hind legs, we dance and sing like nobody’s business. We laugh, blush, and shed tears. And our babies are among the most helpless in all the animal kingdom. (Robin Hanson, The Elephant in the Brain, 2017, página desconhecida)

Uma boa descrição.

Preço justo

Eis um bom texto sobre o tal preço justo. Por estes dias andei citando trechos do livro antigo de Alec Nove (A Economia Soviética) e o primeiro tópico do oitavo capítulo, A Formação dos Preços dos Fatôres de Produção, chama-se, vejam só, Os objetivos contraditórios da política de preços.

Acho que isso resume tudo. ^_^

Governos populistas e investimento externo

Ótima dica de leitura:

A signaling model of foreign direct investment attraction
Marcelo de C.Griebeler, Elisa M.Wagner

Resumo
Investidores estrangeiros diretos são incertos sobre o tipo do governo do país onde desejam investir. Em um jogo de dois períodos, permitimos que o governo de tal país mitigue essa incerteza ao enviar um sinal através da política fiscal. Nosso principal resultado estabelece que um governo populista pode imitar um conservador a fim de atrair investimento estrangeiro direto (IED), e essa escolha depende principalmente do grau de impaciência e do estoque de IED originalmente planejado. Destacamos o papel da reputação do governo em atrair capital externo e assim fornecemos algumas recomendações de política. Além disso, nosso modelo explica porque alguns governos considerados populistas adotam políticas conservadores no início do seus mandatos.

Modelo teórico interessante – que encontra respaldo em análises empíricas – é sempre bem-vindo. É o caso.

Mais sobre a economia soviética: incentivos que não funcionavam como em uma economia de mercado

Nada mais agradável do que descobrir que Alec Nove lia Janos Kornai. Ainda comentando os absurdos incentivos criados pelos soviéticos para resolverem o que sempre acusaram a economia de mercado de não fazer (ou seja, resolver o problema da eficiência e da distribuição), ele diz:

As instruções devem deixar muita coisa para ser resolvida na ocasião ou por negociações entre as partes diretamente interessadas (como o atacadista e a fábrica) mas o que não encontra recompensa de forma alguma é o ‘valor de uso’, ou satisfação da procura. Como Kornai bem disse, ‘se o artigo não estiver defeituoso (…) e ainda assim não fôr procurado por pessoa alguma, isso não tem conseqüências. Não afeta o fato de que será contado como parte do valor da produção creditado à empresa interessada”. [Nove, A. (1963). A Economia Soviética, Zahar, p.200]

Nove prossegue dizendo que, obviamente, a coisa toda não é tão absurda a ponto de se produzirem mercadorias inúteis (ao menos como regra, não exceção). Mas ele prossegue:

No entanto, há todos os motivos para supormos que o sistema de incentivos que guia o diretor da emprêsa a optar entre alternativas age com freqüência de modo enganador, assim causando certa má distribuição de recursos. [p.200]

Claro, eventualmente, as empresas soviéticas poderiam ter lucros.

Certamente, parece haver algum interêsse, por parte da emprêsa, em obter lucros, principalmente lucros além do plano. No entanto, sob as condições atuais, há muita evidência de que tal incentivo funciona irracionalmente e também de que não influencia muito o comportamento empresarial, a não ser em que o aumento dos lucros podem ser conseqüência acidental do cumprimento do plano de redução de custos. [p.201-2]

É inacreditável, tragicômico (já que ainda há quem pense neste modelo como um bom arrnajo para gerar eficiência e redistribuição), risível mesmo que a maximização de lucros, comum ao pipoqueiro, ao sapateiro, ao dono da siderúrgica e aos gerentes de uma empresa qualquer só pudesse ser obtido, na URSS, por mero acaso.

Claro que, como economistas, desejamos entender que incentivos existiam para que instituições tão absurdas prevalecessem. A resposta não é muito diferente daquela que encontramos no famoso capitalismo brasileiro de compadrio. Quem conhece um pouco a literatura (ou frequenta este blog há mais tempo) sabe quais são as pistas para se construir uma explicação para a existência de instituições aparentemente sem sentido.

Não há uma única explicação possível, mas obviamente as boas explicações não supõem que os dirigentes soviéticos fossem loucos.

Carro sem motorista? Nem chega perto do “uber” soviético

Ainda o livro de Alec Nove, de 1963 (edição brasileira), A Economia Soviética, nas páginas 198-9 vem a inacreditável e talvez mais engraçada tentativa dos planejadores socialistas de criar incentivos sem considerar a lógica econômica.

Também há relatórios de que os motoristas de táxi  verificam ‘valer a pena’ gastar gasolina dirigindo um táxi sem passageiro, de modo a cumprir o plano, desde que seu abono por cumprimento do plano exceda a quantidade em que no taxímetro ‘falta’. [p.198-9]

Imagino o observador ocidental inocente, dos anos 60, maravilhado com a quantidade de táxis circulando por Moscou, dando uma impressão de movimento e atividade econômica quando, na verdade, vários deles estavam, literalmente, indo de lugar algum para lugar nenhum (ou o contrário)…

Pensar fora da caixa pode não ser uma boa idéia…o caso da extinta (mas viva em nossos corações) URSS

okishioAlec Nove, em seu antigo A Economia Soviética, da Zahar, livro de 1963, observa algo que ouvi de um professor como uma anedota há anos: o problema dos planejamentos baseados em qualquer coisa que não a teoria econômica que conhecemos hoje como mainstream (ou ortodoxa, para alguns). Em outras palavras, não se usa preço, mas sim a quantidade. É até simples de pensar, se você é um matemático sem noção de economia.

A receita total com a demanda de um bem é dada pelo produto do preço unitário (burguês, capitalista) com a quantidade de produto demandada. Sendo o preço algo ideologicamente reprovável, usa-se a quantidade como indicador para as metas. Genial, não? Nem tanto. Pense na falta de incentivo econômico neste caso. Não visualizou? Eis alguns exemplos.

É claro que um plano de produção expresso em têrmos de toneladas incentiva à escolha de uma variedade em que um determinado pêso é conseguido com o menor dispêndio possível dos recursos não relacionados com êle. Por exemplo, as fábricas que produzem blocos de cimento pré-fabricados preferem fazer blocos grandes embora, como acontece, o resultado seja uma escassez de blocos menores destinados a completar partes dos edifícios em construção. O próprio Krushev apresentou um exemplo especialmente absurdo: o plano para lustres e candelabros foi expresso em toneladas, de modo que os lustres e candelabros se mostraram desnecessàriamente pesados. [p.192]

Isso jamais acontece em um sistema econômico movido pelo lucro (ou pelas sobras, para os simpatizantes das cooperativas), como sabemos. Ah sim, a piada que sempre ouvi era a de que uma fábrica de lâmpadas recebia metas em tonelagem e fabricavam lâmpadas que caíam. Certamente baseada no relato dos lustres e candelabros acima…

Neste caso, pensar fora da caixa é uma boa idéia se você vive em uma sociedade maluca como a soviética ilustrada acima. Caso contrário, pensar fora da caixa pode te levar exatamente a uma sociedade como esta. Todo cuidado é pouco.

p.s. a grafia dos anos 60 foi, como se viu, integralmente respeitada na citação acima.