Sim, você é o culpado, não jogue a culpa na sociedade (ou em “ideias”)

Aquele filme, “A Onda”, é muito bacana, e nos faz pensar em uma certa crueldade humana uma certa incapacidade do indivíduo de agir por si só. Não seria totalmente responsável por suas crueldades, digamos assim. Alega-se, por exemplo, que haveria fundamentação para isso no famoso Stanford Prison Experiment .

Mas o buraco é mais embaixo. Embora famoso, este experimento tem vários problemas. Por exemplo, os de replicação (como vemos aqui). Aliás, a Psicologia não é a única área sujeita a este tipo de problema, mas isso fica para outro dia…

Há também o problema da fraude que, supondo que não tenha sido cometida propositalmente, pode ter a ver com o fato de que alguns psicólogos – da época – não terem compreendido que o suposto experimento é um jogo no qual cobaias e experimentadores têm ações praticamente endógenas.

Por exemplo, o psicólogo Zimbardo – a estrela deste experimento – não parece se convencer (ao menos publicamente) que algumas de suas cobaias não estivessem atuando:

In Quiet Rage, Zimbardo introduced dramatic audio footage of Korpi’s “breakdown” by saying “he began to play the role of the crazy person but soon the role became too real as he went into an uncontrollable rage.” A taped segment in which Korpi admitted playacting and described how tiring it was to keep it up for so many hours was edited out. Korpi told me that Zimbardo hounded him for further media appearances long after Korpi asked him to stop, pressuring him with occasional offers of professional help.

Sem falar no desejo de publicar os resultados do suposto experimento na grande mídia – que nunca é a mais qualificada para escrutinizar resultados científicos, pois sua vantagem comparativa é divulgar notícias, falsas ou não.

Deviating from scientific protocol, Zimbardo and his students had published their first article about the experiment not in an academic journal of psychology but in The New York Times Magazine, sidestepping the usual peer review. Famed psychologist Erich Fromm, unaware that guards had been explicitly instructed to be “tough,” nonetheless opined that in light of the obvious pressures to abuse, what was most surprising about the experiment was how few guards did. “The authors believe it proves that the situation alone can within a few days transform normal people into abject, submissive individuals or into ruthless sadists,” Fromm wrote. “It seems to me that the experiment proves, if anything, rather the contrary.” Some scholars have argued that it wasn’t an experiment at all. Leon Festinger, the psychologist who pioneered the concept of cognitive dissonance, dismissed it as a “happening.”

Por que o sucesso? Porque queremos dispersar os custos de nossas ações e concentrar os benefícios, como dizemos em Economia.

The appeal of the Stanford prison experiment seems to go deeper than its scientific validity, perhaps because it tells us a story about ourselves that we desperately want to believe: that we, as individuals, cannot really be held accountable for the sometimes reprehensible things we do. As troubling as it might seem to accept Zimbardo’s fallen vision of human nature, it is also profoundly liberating.

Aceitar a teoria implícita de que podemos ser levados pela onda, claro, é reconfortante porque nos faz pensar que é algo intrínseco à nossa natureza e, portanto, não seríamos tão culpados assim. Por mais que esta narrativa seja atraente, como expõe didaticamente o autor do trecho acima, o fato é o experimento carece seriamente de fundamentação científica, para dizer o mínimo.

Para mim, incentivos importam e a ação do indivíduo é fundamental. Podemos até discutir certas variáveis que influenciam nas ações dos indivíduos (motivações intrínsecas) além das tradicionais que economistas debatem (motivações extrínsecas). No final do dia, o fato é que, até o momento, a responsabilidade por suas ações parece ser sua e não das vozes em sua cabeça ou dos documentos escritos por seus superiores ordenando que você fizesse barbaridades, né, Adolf Eichmann?

p.s. Agradeço ao Philipe pelas dicas dos textos. Há tempos eu procurava links sobre o tema…

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