XI Congresso da ABDE

Atenção para as informações sobre o XI Congresso da ABDE!

45916b1c-6bee-459f-816a-f0233b97b66d-png-1500x720_q85_crop

Anúncios

O político ideal, na visão de Tavares Bastos

“Nas gravíssimas circunstâncias do Brasil só reformas liberais em todos os assuntos podem salvá-lo. Como à Rússia, como à Áustria, como à França, chegou o seu dia também. Acreditara no prestígio despótico da autoridade, como o menino se confia à onipotência do mentor, como o povo de Deus libertado ao seu guia nos desertos. Mas o despotismo decididamente não pode mais galvanizar cadáveres. Quando as ruínas caem aos pedaços, invoca-se a única medicina conhecida, o choque elétrico da liberdade.

Mas, quem ministrará, meu amigo, ao Brasil sequioso a água refrigerante das doutrinas salvadoras? Serão os homens que há tantos anos monopolizam todos so cargos do Estado, e cuja condenação os acontecimentos estão lavrando de modo irresistível? Esses homens não pensam nem possuem convicções: seus discursos são plágios, seus decretos cópias, suas palavras repetição sem elegância das frases que leram no primeiro livro encontrado. Assim se ilustram, granjeiam fama, e nos governam. (…)

É necessário, é indispensável, é urgente entregar o governo do país a indivíduos que tenham visto o mundo, que saibam abrir e alongar os olhos por toda a extensão do ‘Eldorado’ que habitamos. Não é um japonês que há de civilizar o Império do Japão. No governo do Brasil deviam assentar-se indivíduos com uma imaginação cosmopolita de Goethe, e uma cabeça universal de Humboldt”. [A.C. Tavares Bastos. Cartas do Solitário, Brasiliana, V.45, Edição comemorativa do centário da morte do autor, 1975, Companhia Editora Nacional, p.102]

Ok, Tavares Bastos não levou em contaa famosa política de envio de japoneses para a Europa, após a abertura forçada do país, com a declarada intenção de absorver tecnologia (institucional, inclusive) no novo Japão que surgiria ali por volta da era Meiji.

Dito isto, a impressão que dá é que Tavares Bastos não votaria em vários candidatos à eleição presidencial deste ano, caso pudesse ser ressuscitado. (momento normativo: eu aposto, aliás, que ele votaria em alguém NOVO. ^_^)

 

Blockchain e a Economia do Setor Público

Sensacional. Usar este artigo em sala de aula é quase uma obrigação. (*)

(*) Claro, os alunos podem dizer que o vestibular/ensino médio não lhes deu inglês bom o suficiente e que não vão ler porque é difícil aprender inglês embora tenham aprendido a jogar PS4 e Xbox, usar o Facebook ou o Instagram, muitas vezes com palavras e frases em inglês (enquanto comiam hot dog ou tomavam um milk shake). Dependendo da universidade (pública ou privada), podem reclamar formalmente e pedir para o professor trocar o artigo por uma versão em quadrinhos (e gerentes privados que não querem dor de cabeça ou gerentes públicos que não querem…dor de cabeça acatarão suas demandas antes de partirem para reclamar da sociedade brasileira no café). Há sempre a opção de você parar de preparar aulas, pesquisar e cumprir obrigações burocráticas para traduzir o texto ou, então, apenas divulgar nas redes sociais e esquecer dele. Pode ser uma boa.

Mando de campo

A divisão de acesso do Gauchão já tem 23 partidas (hoje é a 24a) e o efeito mando de campo, contado como número de vitórias do mandante já é de 48%. Caso se contabilizem vitórias e empates (o que não é bem a mesma coisa, mas estou pensando em “não-derrotas”), o percentual é de 78%.

De curiosidade, na 1a fase do campeonato mineiro, temos 53% de vitórias na casa do mandante e, se computadas “não-derrotas”, o percentual é de 74%.

Parecidos, não? Aposto que a regularidade se mantém.

Incentivos políticos: a intuição de Fumimaro Konoe

Japão, anos 30. Época turbulenta. Logo após o incidente 226 (26/fev/1936), conhecido como ni-ni-roku jiken, Fumimaro Konoe recebe a oferta de ser nomeado Primeiro Ministro, já que era bem popular em todas as camadas da sociedade. Ele recusa. Por que?

Konoe argued that a person who enjoyed popularity from all sides would be restricted in his governing because those who supported him would naturally expect to be pleased, and if not, would turn antagonistic. [Yagami, Kazuo. “Konoe Fumimaro and the Failure of Peace in Japan, 1937-1941 – A Critical Appraisal of the Three-Time Prime Minister”. McFarland & Company Inc, 2006, p.37]

A resposta dele faz sentido em um regime parlamentarista – talvez ainda mais no que existia no Japão no pré-guerra – e parece indicar que ele entendia bem a lógica da ação coletiva e o baixo (alto) poder das grandes (pequenos) grupos desorganizados (organizados)… ou talvez ele tenha dado uma bela justificativa para evitar problemas que antevia.

Prince Fumimaro Koneo Reading Paper

Por que você deveria legalizar as drogas apenas se proibir, simultaneamente, o comércio de chocolates?

320px-dark_chocolate_blanxartIntrodução 

A resposta é simples: criminosos operam maximizando lucros e, uma vez que não possam estar no negócio de drogas, provavelmente buscarão lucros na prostituição ou nos assaltos. É o que nos lembra o falecido Baumol [Baumol (2010), citado ao final deste texto (*)].

Como assim? Vejamos o argumento do autor em três etapas (tradução livre minha com algumas modificações para facilitar a leitura).

1. Os criminosos são, muito provavelmente, indiferentes entre a gama de produtos ilícitos que podem ofertar (eles não se importam muito se lucram com cocaína ou com prostituição ou mesmo com a venda de armas para outros criminosos);

2. A descriminalização de qualquer produto ilícito não eliminará, nem reduzirá o total de crimes praticados, promovendo apenas uma realocação entre os diversos tipos de crimes.

3. Como criminosos buscam maximizar o retorno líquido de suas atividades, o papel da lei é muito importante. A adoção de leis que reduzem a oferta e aumentam a demanda de bens e serviços que geram perdas de bem-estar tornam lucrativo para os criminosos a alocação de seus esforços na oferta destes itens indesejáveis.

Ok, ficou chateado, não é? Mas o autor nos oferece uma solução achocolatada. Seu argumento tem duas partes: (a) descriminalizar bens e serviços como narcóticos e prostituição e; (b) ao mesmo tempo proibir alguns produtos pouco perigososo, incentivando sua oferta pelo crime organizado.

Seu exemplo é o de proibir a oferta de chocolates, o que incentivaria os criminosos a ofertarem este produto (e, ao mesmo tempo, fazer uma vigilância moderada desta nova atividade criminosa com a imposição de penas severas para o caso de uso da violência na oferta e demanda de chocolate).

Embora controverso, o ponto do autor é: um preço um pouco mais alto pelo chocolate não seria preferível aos assassinatos, sequestros, etc que existem no regime atual?

Será?

Claro que a proposta de Baumol merece algumas qualificações e tentarei fazer algumas aqui.

Primeiro, pode ser que a proibição de chocolates não atraia os criminosos da mesma forma porque estes podem ser heterogêneos (digamos que o criminoso que diversifica entre narcóticos e prostituição não substitua facilmente estas atividades por, digamos, doces e refrigerantes). A lucratividade relativa poderia ser bem diferente entre estas atividades (e talvez os custos de troca de negócios possam não ser triviais). Acho que o que eu disse pode ser resumido como: não devem haver sunk costs nas atividades envolvidas (ou, se existirem, o governo deveria trabalhar para diminuí-los noa caso do chocolate e/ou aumentá-las no caso dos narcóticos/prostituição) (1).

Outro ponto, mas que não é exatamente uma crítica ao argumento do autor, é a questão da credibilidade de uma política deste tipo. A mudança teria que ser crível para que os criminosos realmente se decidissem pela troca entre, digamos, a gerência da boca de fumo para a venda de chocolates. Na Economia do Crime, como sabemos, a probabilidade de detenção e prisão deve ser elevada, ceteris paribus, para que o criminoso se sinta desestimulado. Na proposta de Baumol, o governo, propositalmente, administraria um cardápio de probabilidades de detenção e prisão para diferentes tipos de atividades ilegais (ou seja, estamos falando de Equilíbrio Geral aqui…).

É interessante pensar que, na verdade, as autoridades já se comportam um pouco assim no mundo real. Há uma certa tolerância com camelôs que vendem produtos sem nota fiscal e as prisões são ocasionais, com uma certa vista grossa com relação a estas atividades. Aliás, dificilmente as pessoas têem uma imagem negativa tão forte de um camelô quanto a de um traficante de cocaína…

Ah, claro, eu não disse, mas Baumol apresenta alguns exemplos históricos para ilustrar seu argumento. O artigo pode ser encontrado por aí, na internet e, sim, vale a leitura.

Bibliografia

BAUMOL, W. J. On the allocation of criminal activity to ensure its social benefits. Journal of Policy Modeling, v. 32, n. 5, p. 662–669, 2010.

(*) Esta seção é, basicamente, uma tradução livre das seções iniciais deste pequeno artigo de Baumol.

(1) Será que esbocei aqui uma proposta de teste(s) de hipótese(s) para o leitor? Dado o número reduzido de leitores neste blog, creio que o uso, aliás, do “leitor” no singular tem um significado mais profundo…

Quem teria criado o termo “inflacionismo”?

Alguns acham que foi o prof. Gustavo Franco. Talvez se deva a ele o seu uso generalizado, mas veja que já no início do livro de Villela e Suzigan, na página 32…

Pois é. O inflacionismo já estava lá…^_^

p.s. UPDATE – Thomas Conti encontrou o termo em documento de 1894, aqui.

O que acontece quando você substitui o mercado pela política?

Duas reflexões interessantes. Uma foi este ótimo episódio de The Orville. Uma outra visão é a de Black Mirror.  No mínimo, você deveria pensar na analogia com a discussão de Escolha Pública sobre formas de alocação de recursos decididas fora do mercado (ou seja, via sistema político).

Para quem já estudou um pouco de regra da maioria, não é algo tão surpreendente, mas ambos os episódios têm seu valor para uma discussão interessante em aulas de Economia do Setor Público (regras de decisão, eleitor mediano, poder de fixar a agenda, etc).