Economia do Futebol – Empreendedorismo

Parece-me que uma solução – que pode não ser a esteticamente mais bonita – para clubes endividados que possuem poucas fontes de receita passa, necessariamente, pela criatividade. Neste sentido, o anúncio de ontem do Lobão é um bom começo.

Claro, a busca pela profissionalização na gerência de clubes (adotando as novas normas contábeis, etc) é condição inseparável deste pacote que pode fazer com que o clube dê um salto de qualidade em seu futebol.

Diga-se de passagem, a divisão de acesso começa sábado.

p.s. sei que o blog está meio parado, mas tenho estado muito pouco criativo nos últimos dias, o que é péssimo.

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Fred Williamson me lembra Joseph Schumpeter

Fred Williamson, o ex-jogador de futebol americano e ator tinha um conjunto de três regras – que podemos chamar de “Proposição de Fred Williamson” – para sua participação em filmes. Para ele, ao menos duas das três deveriam ser cumpridas.

Assim, em suas palavras, eis o que chamo de Proposição de Fred Williamson:

1. Eu não podia ser morto

2. Eu tinha que ganhar todas as lutas

3. Eu ficava com a garota no final do filme se quisesse.

Alguém aí se lembrou das três aspirações de Schumpeter? Ou do que disse David Friedman sobre as habilidades necessárias para entender economia?

Talvez eu devesse ter três regras para alguém escolher duas para orientação de dissertações.

Acho que elas seriam: (a) você sempre seguirá minha orientação, aceitando ser repreendido se não o fizer , (b) você assumirá seu protagonismo na sua dissertação, (c) você terá sempre de me convencer de que está no caminho correto.

A economia em “Willie Dynamite”

willie_dynamite_filmposterEis um dos filmes de Blaxploitation mais úteis para a sala de aula. Lançado com legendas em português há pouco tempo (mas disponível na internet sem as mesmas…procure), este é um filme que traz vários temas de economia para diversas aulas de Economia.

Um resumo da história do filme está aqui e, bem, vamos aos spoilers.

1. Organização Industrial (Cartel) – a tensão óbvia da tentativa de cartelização entre os cafetões por um deles, Bell, logo no início do filme é uma descrição cinematográfica do que vemos em livros-texto de teoria dos jogos. Willie insiste que é um “capitalista” e que não tem “medo de competição”, frustrando o projeto de cartelização. A pergunta principal que ele faz é: “quem decidirá a divisão de lucros”.

2. Economia do Crime – Willie Dynamite (irônico apelido para Willie A. Short, como aprendemos na parte final do filme) é um cafetão e tem que gerenciar suas prostitutas. Não se discute muito como ele se transformou em cafetão, mas as variáveis estão ali para a discussão: a probabilidade de ser pego (em função de sua riqueza e como a mesma é variável conforme alguns policiais buscam prendê-lo a todo o custo, juntamente com a atuação dos cafetões concorrentes).

3. Empreendedorismo – Implícito nos dois itens anteriores, já que Willie tem que agir o tempo todo (e ele não usa auxiliares, gerenciando diretamente as prostitutas, nomeando uma como uma espécie de “braço direito”, mas com pouca autonomia) em prol do sucesso de seu negócio ilegal. Aliás, sobre a gerência deste tipo de negócio, na prática, veja, por exemplo, os dados desta pesquisa.

Finalmente, eis aqui uma pesquisa empírica de alguns antropólogos sobre o tema. O autor principal, inclusive, tem um livro sobre o tema que parece interessante.

Ah, claro, a trilha sonora do filme é uma atração integrante e não deve ser ouvida separadamente (mas isso é o que eu acho). Altamente recomendável.

O monstro do seu sonho

Não me lembro da página e o livro não está aqui perto, mas este trecho é ótimo:

“Contou-me, certa feita, um psicanalista que uma analisada vivia atormentada por um monstro que implacavelmente a perseguia. Por ter o monstro mil disfarces, o medo não tinha como se concentrar num rosto. O psicanalista pediu-lhe, por isso, que deixasse de tentar identificar o semblante do mal e se limitasse, da próxima vez, a despistá-lo vagando a esmo por toda a paisagem que se apresentasse como caminho possível. Deveria fugir indefinidamente para ver até onde a perseguiria. Seguir à risca o conselho. Ao começar a ser seguida, andou por um bom tempo a passos firmes. Um grito ao longe a assustou. Começou a correr em desabalada carreira. Corria, corria e corria. (…) De repente, exausta, sobrou-lhe apenas adentrar por uma ruela escura. Lá, nos últimos trinados da respiração, viu-se contra a tosca parede da rua sem saída. Fim da linha. Encurralada, prestes a desfalecer, olhou nos olhos vazados do monstro e perguntou aterrorizada: “O que você vai fazer comigo?” “Não sei, respondeu-lhe atônito o monstro. Não tenho como saber. O sonho é seu”. [Alberto Oliva, A Solidão da Cidadania, Editora Senac, São Paulo, 2000]

Pois é. O sonho é seu, não é? Então, não adianta jogar a culpa no monstro.

Tensões liberais/libertárias (ainda o caderno de anotações aberto)

Eu seguiria Daniel Klein e usaria o termo liberal sem ambiguidades, mas o leitor brasileiro geralmente se confunde com as traduções erradas dos jornais (erradas, de má fé ou não). Então, prefiro o uso de liberais/libertárias e, caso você tenha alguma dúvida, veja este pequeno artigo do mesmo Klein.

De qualquer forma, novamente, eis as tensões (quem acompanha o blog perceberá que estou ainda na sequência disto). Primeiro, este trecho de Antônio Paim:

(…) verifica-se que os liberais sociais deram uma notável contribuição para a evolução da doutrina liberal, tornando-a apta a dar respostas concretas aos problemas que o curso histórico veio a suscitar. Contudo, deve ser creditado aos conservadores o alerta quanto à necessidade de avaliar-se corajosamente a eficácia das políticas sociais. [Paim, A. “O liberalismo social” in: Merquior, J.G., Paim, A. & Kujawski, G. de Mello, O liberalismo social: uma visão histórica. Massao Ohon Editor, 1998, p. 60]

Note-se, portanto, que, na concepção de Paim, o liberalismo/libertarianismo não é e nunca foi, exclusivamente, um conjunto de concepções exclusivamente econômicas (embora, ok, possamos discutir isso sob uma ótica Beckeriana em outra oportunidade). Kujaswki também fará coro a este discurso seguindo Ortega y Gasset mais à frente (p.73 do mesmo livro).

Destaque também para o importante papel do conservadorismo (já citado no outro post que fiz aqui). A discussão do conservadorismo bem poderia ser feita em relação à path dependence, mas isso fica para outra oportunidade. De certa forma, a teoria de North (veja, em especial, a versão de Pereira, Alston e Mueller ilustrada para o Brasil recente) pode servir para se entender estes momentos de tensão (matematicamente falando – e divagando – lembro da teoria da catástrofe) entre conservadores e liberais/libertários ao longo da história.

Outro ponto de tensão entre conservadores e liberais e que, na minha opinião, torna este termo left-lib algo sem sentido (para mim é algo como socialismo e liberdade) diz respeito aos aspectos não-econômicos do liberalismo. Por exemplo:

Libertarians advocate equal protection for homosexuals, and thus support same-sex marriage and oppose the US military’s former restrictions on homosexuality.

Libertarians advocate women’s reproductive freedom, including the rights to abortion, to birth control, and to have sex with other consenting adults. [Brennan, J. Libertarianism – what everyone needs to know. Oxford University Press, 2012, p.83]

Mas, o mais importante, na mesma página (obviamente, do mesmo livro):

The libertarian view of civil liberty is just one view among many, and there’s no reason why libertarians should get to impose their expansive view of civil liberties on other people if most of them favor a less expansive view.

Aliás, o artigo citado do prof. Klein, serve como alerta aqui.

The principle of liberty has its holes, gray areas, and exceptions; it does not speak to all important issues of government; and it is not self-justifying. Despite the limitations, however, it remains cogent and gives backbone to libertarian and classical liberal thought.

Outro ponto interessante do liberalismo – pouco divulgado – é o da liberdade religiosa. Neste sentido, um breve depoimento desta militante do Livres é esclarecedor.

Diga-se de passagem, tudo o que foi dito aqui não é exatamente uma novidade. Basta você se lembrar do índice de liberdade humana e de suas dimensões que vão além da econômica (no qual, aliás, a sociedade brasileira piorou ultimamente).

Concluindo esta segunda parte das anotações, parece-me que a definição de left-lib – desde John Stuart Mill pelo menos – não faz o menor sentido. Os conservadores têm o legítimo direito de discordar de algumas posições liberais, mas o termo left-lib é tão sólido quanto o socialismo e liberdade. Não faz sentido, exceto para fins de propaganda e, no caso dos liberais, a propaganda é pejorativa e usada contra os liberais.

Por outro lado, é importante que os liberais mais jovens, estes que enfatizam bandeiras não-econômicas, esforcem-se para fundamentar melhor suas posições, afim de se diferenciarem dos, estes sim, leftists.

Por enquanto, é isso.

Liberalismo…qual liberalismo? (caderno de anotações aberto)

Nietzsche disse que apenas seres a-históricos permitem uma definição no verdadeiro sentido da palavra. Assim, o liberalismo, um fenômeno histórico com muitos aspectos, dificilmente pode ser definido. [Merquior, J.G. O liberalismo antigo e moderno, Editora Nova Fronteira, 1991, p.15]

Informando aos leitores: este breve post objetiva apenas marcar algumas anotações sobre liberalismo e temas correlatos. Motivação? O incômodo com algumas discussões non sense (na minha opinião) que vejo por aí. Não busque um texto concatenado neste post (quem sabe, no futuro?). Talvez eu consiga entender melhor o que pensam algumas correntes do ativismo liberal recente (e seus correlatos libertários e conservadores).

Vamos lá. Primeiro, um pouco do que penso ser o que guia – embora eles nunca explicitem – o pensamento do grupo de liberais ‘Livres’ (aliás, penso que muito do que vai a seguir poderá ser visto como a visão de mundo expressa aqui e ali pelo grupo):

Mas nós sabemos que o mercado, conquanto seja instrumento indubitavelmente necessário da criação de riqueza e do desenvolvimento econômico ‘intensivo’, nem por isso constitui uma condição suficiente da liberdade moderna, porque não é capaz de gerar, ‘por si só’, toda uma série de requisitos e oportunidades para o exercício mais pleno e mais significativo da individualidade de muitos. Se suprimir o mercado é ferir de morte o substrato material das liberdades modernas, deixar tudo entregue ao seu império é restringir significativamente o livre gozo dessas mesmas liberdades a minorias – e a minorias compostas de privilegiados pelo berço, e não só pelo mérito. [Merquior, J.G. O Argumento Liberal, Editora Nova Fronteira, 1983, 94-5]

Ainda:

Do comunismo, a ordem liberal só precisa temer a força, não o poder, tão desgastado, de persuasão. E, todavia, em nossas sociedades cada vez mais permissivas e reivindicatórias, ela não está completamente a salvo da perversão interna de seu próprio ânimo: o velho, nobre espírito de liberdade e igualdade. [idem, p.98]

Não encontro a mesma ênfase em Mises, por exemplo, embora, como não poderia deixar de ser, a abordagem seja parecida. Mas, para não passar em branco:

O liberalismo sempre teve em vista o bem de todos, e não o de qualquer grupo especial. Foi isso que os utilitários ingleses quiseram dizer – embora, é verdade, de modo não muito apropriado – com seus famoso preceito, ‘ a maior felicidade possível ao maior número possível de pessoas’. [Mises, L. Liberalismo, José Olympio Editora, 1987, p. 9]

Outra bela definição:

O liberalismo não se reduz a uma simples teoria política ou econômica. Antes disso, e primariamente, ele constitui certa forma de vida, modo peculiar de ser homem. Nessa perspectiva, a melhor definição do liberalismo é a de Ortega y Gasset: ‘O liberalismo, antes de ser questão de mais ou de menos política, é uma idéia radical sobre a vida: é crer que cada ser humano deve permanecer desimpedido para preencher seu individual e intransferível destino’. [Merquior, J.G., Paim, A. & Kujawski, G. de M. O liberalismo social: uma visão histórica. Massao Ohno Editor, 1998, p. 73]

Já sobre o libertarianismo, uma clara definição de Brennan:

Libertarianism is a political philosophy. Libertarians believe respect for individual liberty is the central requirement of justice. They believe human relationships should be based on mutual consent. Libertarians advocate a free society of cooperation, tolerance, and mutual respect. [Brennan, J. Libertarianism – what everyone needs to know. Oxford University Press, 2012, p.1]

Alguns confundem liberais, libertários e conservadores. Embora exista algo em comum entre os três, há diferenças. Hayek foi um que tentou estabelecer a linha demarcatória.

(…) por sua própria natureza, o conservadorismo não pode oferecer uma alternativa ao caminho que estamos seguindo. Por resistir às tendências atuais poderá frear desdobramentos indesejáveis, mas, como não indica outro caminho, não pode impedir sua evolução. Por esta razão, o destino do conservadorismo tem sido invariavelmente deixar-se arrastar por um caminho que não escolheu (…). Antes de mais nada, os liberais devem perguntar não a que velocidade estamos avançando, nem até onde iremos, mas para onde iremos. De fato, o liberal difere muito mais do coletivista radical dos nossos dias do que o conservador. Enquanto este geralmente representa uma versão moderada dos preconceitos de seu tempo, o liberal dos nossos dias deve opor-se, de maneira muito mais positiva, a alguns dos conceitos básicos que a maioria dos conservadores compartilha com os socialistas. [Hayek, F.A. Os fundamentos da liberdade, Visão, 1983, p.467-8]

Talvez João P. Coutinho em seu “As ideias conservadoras” de 2014 seja uma referência mais recente, mas não vi muitas diferenças entre o que ele diz no início do livro e o que diz Hayek no trecho anterior.

Uma conexão nem sempre notada entre alguns amigos liberais ou conservadores é aquela entre liberalismo/libertarianismo e dignidade. Vejamos o que diz Klein:

In preserving our own dignity (…) [we] oppose those who would use our being without due regard for our own story, our own meaning. In preserving dignity, we oppose those who would demean us by denying, disdaining, or belittling the (…) integrative moral force, of our being.

In acting so as to preserve the dignity of others, we presume that the individual is conducting his affairs as he sees fit, no matter how mad the method may seem. We respect his individuality. We do not dwell on, pity, or patronize someone’s apparent weakness or disadvantage. We do not attempt to rescue when no rescue has been sought. We do not judge or even draw attention to, except insofar as doing so is a part of the relationship the other has willfully entered into. We honor an ethic of MYOB – Mind Your Own Business. [Klein, D. 3 Libertarian Essays. FEE Occasional Paper, 1998, p.39]

Mas não se confunda a visão liberal de mundo com alguma defesa da liberdade irrestrita em quaisquer dimensões do espaço-tempo. Por exemplo, no campo da pesquisa científica, diz-nos Oliva:

Como a liberdade total pode levar a seu oposto, é importante reconhecer que a liberdade de pensar pressupõe levar em conta as orientações básicas da razão. Há métodos e métodos; uns promovem a criatividade em parceria com a razão, outros invocam ilegitimamente a razão apenas para propor normas infecundas. [Oliva, A. Anarquismo e Conhecimento, Jorge Zahar Editor, 2005, p.25]

Para não dizer que não terminei de bom humor…

O liberalismo oferece água de lavagem como elixir da vida. [Krause, K. Ditos e Desditos, Brasiliense, 1988, p.150]

FIM (?)