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Mais sobre a economia soviética: incentivos que não funcionavam como em uma economia de mercado

Nada mais agradável do que descobrir que Alec Nove lia Janos Kornai. Ainda comentando os absurdos incentivos criados pelos soviéticos para resolverem o que sempre acusaram a economia de mercado de não fazer (ou seja, resolver o problema da eficiência e da distribuição), ele diz:

As instruções devem deixar muita coisa para ser resolvida na ocasião ou por negociações entre as partes diretamente interessadas (como o atacadista e a fábrica) mas o que não encontra recompensa de forma alguma é o ‘valor de uso’, ou satisfação da procura. Como Kornai bem disse, ‘se o artigo não estiver defeituoso (…) e ainda assim não fôr procurado por pessoa alguma, isso não tem conseqüências. Não afeta o fato de que será contado como parte do valor da produção creditado à empresa interessada”. [Nove, A. (1963). A Economia Soviética, Zahar, p.200]

Nove prossegue dizendo que, obviamente, a coisa toda não é tão absurda a ponto de se produzirem mercadorias inúteis (ao menos como regra, não exceção). Mas ele prossegue:

No entanto, há todos os motivos para supormos que o sistema de incentivos que guia o diretor da emprêsa a optar entre alternativas age com freqüência de modo enganador, assim causando certa má distribuição de recursos. [p.200]

Claro, eventualmente, as empresas soviéticas poderiam ter lucros.

Certamente, parece haver algum interêsse, por parte da emprêsa, em obter lucros, principalmente lucros além do plano. No entanto, sob as condições atuais, há muita evidência de que tal incentivo funciona irracionalmente e também de que não influencia muito o comportamento empresarial, a não ser em que o aumento dos lucros podem ser conseqüência acidental do cumprimento do plano de redução de custos. [p.201-2]

É inacreditável, tragicômico (já que ainda há quem pense neste modelo como um bom arrnajo para gerar eficiência e redistribuição), risível mesmo que a maximização de lucros, comum ao pipoqueiro, ao sapateiro, ao dono da siderúrgica e aos gerentes de uma empresa qualquer só pudesse ser obtido, na URSS, por mero acaso.

Claro que, como economistas, desejamos entender que incentivos existiam para que instituições tão absurdas prevalecessem. A resposta não é muito diferente daquela que encontramos no famoso capitalismo brasileiro de compadrio. Quem conhece um pouco a literatura (ou frequenta este blog há mais tempo) sabe quais são as pistas para se construir uma explicação para a existência de instituições aparentemente sem sentido.

Não há uma única explicação possível, mas obviamente as boas explicações não supõem que os dirigentes soviéticos fossem loucos.

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Carro sem motorista? Nem chega perto do “uber” soviético

Ainda o livro de Alec Nove, de 1963 (edição brasileira), A Economia Soviética, nas páginas 198-9 vem a inacreditável e talvez mais engraçada tentativa dos planejadores socialistas de criar incentivos sem considerar a lógica econômica.

Também há relatórios de que os motoristas de táxi  verificam ‘valer a pena’ gastar gasolina dirigindo um táxi sem passageiro, de modo a cumprir o plano, desde que seu abono por cumprimento do plano exceda a quantidade em que no taxímetro ‘falta’. [p.198-9]

Imagino o observador ocidental inocente, dos anos 60, maravilhado com a quantidade de táxis circulando por Moscou, dando uma impressão de movimento e atividade econômica quando, na verdade, vários deles estavam, literalmente, indo de lugar algum para lugar nenhum (ou o contrário)…

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Pensar fora da caixa pode não ser uma boa idéia…o caso da extinta (mas viva em nossos corações) URSS

okishioAlec Nove, em seu antigo A Economia Soviética, da Zahar, livro de 1963, observa algo que ouvi de um professor como uma anedota há anos: o problema dos planejamentos baseados em qualquer coisa que não a teoria econômica que conhecemos hoje como mainstream (ou ortodoxa, para alguns). Em outras palavras, não se usa preço, mas sim a quantidade. É até simples de pensar, se você é um matemático sem noção de economia.

A receita total com a demanda de um bem é dada pelo produto do preço unitário (burguês, capitalista) com a quantidade de produto demandada. Sendo o preço algo ideologicamente reprovável, usa-se a quantidade como indicador para as metas. Genial, não? Nem tanto. Pense na falta de incentivo econômico neste caso. Não visualizou? Eis alguns exemplos.

É claro que um plano de produção expresso em têrmos de toneladas incentiva à escolha de uma variedade em que um determinado pêso é conseguido com o menor dispêndio possível dos recursos não relacionados com êle. Por exemplo, as fábricas que produzem blocos de cimento pré-fabricados preferem fazer blocos grandes embora, como acontece, o resultado seja uma escassez de blocos menores destinados a completar partes dos edifícios em construção. O próprio Krushev apresentou um exemplo especialmente absurdo: o plano para lustres e candelabros foi expresso em toneladas, de modo que os lustres e candelabros se mostraram desnecessàriamente pesados. [p.192]

Isso jamais acontece em um sistema econômico movido pelo lucro (ou pelas sobras, para os simpatizantes das cooperativas), como sabemos. Ah sim, a piada que sempre ouvi era a de que uma fábrica de lâmpadas recebia metas em tonelagem e fabricavam lâmpadas que caíam. Certamente baseada no relato dos lustres e candelabros acima…

Neste caso, pensar fora da caixa é uma boa idéia se você vive em uma sociedade maluca como a soviética ilustrada acima. Caso contrário, pensar fora da caixa pode te levar exatamente a uma sociedade como esta. Todo cuidado é pouco.

p.s. a grafia dos anos 60 foi, como se viu, integralmente respeitada na citação acima.