Choques reais (modelos RBC)

Anúncios

A lei dos três desvios-padrão

Leo Monasterio – antigo companheiro deste blog e grande amigo – é o autor de uma das leis mais inteligentes para a manutenção de seu bem-estar: a lei dos desvios-padrão. Trata-se de uma lei normativa. Enunciando-a livremente, diz Leo que você jamais deve discutir (brigar) com alguém distante de você em dois desvio-padrão.

Em resumo: nem um bronco, nem um Nobel valerão uma discussão com você.

A lei é ótima e famosa. Contudo, o paradoxo da história toda ocorre quando vemos o meu querido amigo, com uma frequência acima do esperado, quebrar sua regra. Como isso é possível? A resposta é simples: Leo é racional, mas o conhecimento que ele tem do universo é limitado e, portanto, ele não tem como saber, de antemão, se o debatedor que enfrenta está a dois desvios-padrão de sua inteligência.

Assim, a Lei dos Dois Desvios-Padrão de Leo Monasterio nem sempre é adotada segundo a (agora criada e enunciada com pompas e soar de trombetas) Lei Shikida dos Três Desvios-Padrão (todos os direitos reservados). A modesta lei nos diz que o Leo não conseguirá seguir sua própria regra porque, ao iniciar uma contenda nas redes sociais, terá que estimar a inteligência do adversário e, para tanto, terá que ampliar, inicialmente, a região de sua pesquisa.

Pronto, canibalizei meu amigo e, como alguns economistas pretenciosos (muito comuns no Brasil), criei uma lei com meu nome. Uma lei específica, claro, pois ela é a versão positiva que explica os desvios de conduta do Leo a partir de sua lei normativa.

Feliz 2018!

Etiquetas tortas: incentivos importam

Como seria possível saber, além de qualquer dúvida, que a Albânia era comunista apenas olhando uma garrafa de seu conhaque ou um vidro de suas compotas de frutas?

No caso destas últimas, claro que as etiquetas não estariam coladas direito. Podemos especular se essa tortuosidade representaria revolta por parte dos etiquetadores de vidros ou uma sátira sutil. Afinal, se as estiquetas fossem coladas apenas ‘sem cuidado’ – por causa da embriaguez, digamos – , poderíamos esperar que, de vez em quando, aparecesse uma etiqueta alinhada. Porém isso não acontece: examinei os vidros em diversas lojas para verificar a veracidade dessa observação particular. [T. Dalrymple, Viagens aos Confins do Comunismo, É Realizações, 2017, p.36]

Incentivos importam, não é? Como não há que se agradar consumidores, por que se preocupar em etiquetar corretamente uma compota de frutas?

The Brazilian Workshop in Economic History

Call for Papers


The Brazilian Workshop in Economic History, organized at the Department of Economics of the University of São Paulo, has promoted the interaction of Brazilian-based researchers and graduate students of economic history in the past four years. With the goal of broadening and internationalizing our network, we are opening a call for papers for the 5th Workshop, which will be held this time at Insper, São Paulo, on 16th and 17th August 2018. We invite researchers to submit papers to workshophist@gmail.com until 2nd April 2018. A committee formed by William Summerhill (UCLA), Renato Perim Colistete (FEA-USP), and Leonardo Weller (EESP-FGV) will evaluate the submissions. The Workshop is organized as a series of one-hour, single-paper sessions attended by all participants. Nine papers will be selected for presentation and discussion. The committee will announce the list of the selected articles on 15th May 2018. The committee welcomes working papers with research-based results relevant to the literature, written in Portuguese or English. We invite the submission of papers that draw upon primary evidence and employ appropriate analytical tools, regardless of the period and topic of analysis. Even though the workshop is meant to focus on Brazilian economic history, the committee may accept papers on other countries. The Workshop will cover hotel accommodation and meals for one presenter of every accepted paper, while participants will be responsible for their travel expenses. We have the honor of counting with William Summerhill as keynote speaker. 

Main dates:
Submission deadline – 2nd April 2018, please e-mail the papers to workshophist@gmail.com

Announcement of the selected papers – 15th May 2018
Workshop – 16th and 17th August 2018, Insper, São Paulo

Mais individualismo, menos risco país.

Evidências de que Hayek vence a ideologia que suporta Chavez-Maduro e e afins.
 

Economia do Crime e Instituições

Um resultado interessante deste artigo:

It is also worth noting that the coefficients on the dummy for the Latin America and
the Caribbean are positive and statistically significant in all models of Table 5. All other regional dummy coefficients are insignificant at the 5% confidence level. This suggests that Latin America and Caribbean countries have historically experienced higher violence rates and that they share some idiosyncrasy concerning violence that is not present in other regions.

Ou seja, parece que o Brasil não é um patinho feio nesta história. Nas próximas eleições, creio, um candidato decente apresentará propostas concretas sobre o tema.

O combate ao terrorismo também deveria atentar para o combate ao crime?

Pistas para a resposta aqui. Trecho do resumo:

We find that engagement in crime reduces a group’s chance of demise by around 50% and extends its lifespan by around 7 years on average. Terrorist groups involved in narcotics are less likely to end by police or military force, but are also less likely to win political concessions. We find that groups involved in extortion live the longest and are also less likely to end by force or by splintering.

Interessante, principalmente quando se pensa no grau de criminalidade no Brasil. Minha impressão é de que nos faltam dados bem coletados sobre esta relação aqui, no Brasil. O terrorismo pode não ter bases de treinamento aqui (supostamente), mas pouco se fala sobre a questão financeira (e o bitcoin e afins pode obscurecer prováveis rotas de financiamento do Brasil para outros lugares).

Tema interessante, creio.

Profético…

If our rosy predictions for Brazilian soccer come true, then that won’t make Brazil as a whole richer. Rather, the Brazilian World Cup is best understood as a series of financial transfers: from women to men (who will have more fun), from Brazilian taxpayers to FIFA and the world’s soccer fans, and from taxpayers to Brazilian soccer clubs and construction companies. Possibly Brazilian society desires these transfers. Still, we have to be clear that this is what’s going on: a transfer of wealth from Brazil as a whole to various interest groups inside and outside the country. This is not an economic bonanza. Brazil is sacrificing a little bit of its future to host the World Cup. [Kuper, Simon & Szymanski, Stefan. Soccernomics: why England loses, why German and Brazil win, and why the U.S., Japan, Australia, Turkey and even India are destined to become the kings of the world’s most popular sport. Nation Books, 2014, p. 286-7]

O único ponto talvez não imaginado neste corretíssimo trecho é que a magnitude de algumas transferências seria bastante elevado e escolhidas pelo presidente e seus amigos de uma forma não exatamente compatível com a escolha da sociedade (embora os mesmos autores citem o barulho de 2013).

wick2

A maldição dos recursos naturais

A conferir…

Regime types, ideological leanings, and the natural resource curse
Chong-Sup Kim Seungho Lee
Abstract

While many consider institutional quality as a central explanatory variable when finding what causes the variance in per capita GDP growth performance of resource-abundant countries, this paper attempts to focus on more structural factors: regime type and its ideological approaches to economic policy. Several joint effects of natural resource abundance and regime type on growth are found. The natural resource curse is likely to be more severe in authoritarian regimes than democratic regimes. Among democracies, it is found that the natural resource curse is more salient in presidential regimes than in parliamentary regimes. This paper also suggests that the natural resource curse is more likely when a certain type of democratic regime coincides with a particular ideological orientation of the regime with respect to economic policy. Presidential democracies with left-wing economic policy are found to be least growth enhancing among the combinations between regime type and its economic ideology offered, given similar levels of natural resource abundance.

Percepções 2017, um pouco do que você gostaria que elas significassem (e o que elas não significam (ou algo assim))

Correlação não é causalidade, mas um jornal brasileiro resolveu colocar uma foto na matéria em que divulga a pesquisa sobre percepções que pode induzir o leitor mais distraído a achar que quem acha bonito sair por aí com a bandeira do Brasil é meio burro (confira lá na sua rede social), como notado por perspicaz personalidade do Twitter.

Bem, a pesquisa fala de erros de percepção e pode-se pensar no argumento de Caplan da irracionalidade racional para se discutir o tema (até onde sei, ele não comentou a pesquisa ainda). Como já cansei de falar aqui, correlação não é causalidade, mas a foto do jornal é uma maneira muito matreira de tentar nos induzir a isso.

Não tenho tempo para me dedicar a coletar e atualizar dados agora e, assim, eis algumas correlações que servirão, pelo menos, para você refletir sobre o tema.

Na primeira figura, faço a distinção dos países pela origem de seu código legal. Vemos que países que estão lá embaixo no ranking (ou seja, que erram menos na percepção) são também os que apresentam maior liberdade econômica (algo que, aliás, parte do pessoal que carrega bandeira do Brasil, curte).

naoeditornaosoubobo

Mas vejamos mais um gráfico. Novamente peço desculpas ao leitor por não atualizar a base, mas vejamos o valor do índice do Failed States Index (Sudão e Iraque costumam ter altos valores nestes índices) e o ranking da percepção (quanto mais distante no ranking, repito, menos as pessoas erram, na concepção da pesquisa). Nada muito diferente do que eu esperaria.

naoeditor2

Finalmente, só para as ex-colônias, com a famosa variável dos estudos de desenvolvimento econômico.

naosoubo3

Sim, eu poderia ficar horas brincando aqui, mas como correlações não implicam causalidade, eu diria que associar os maiores erros de percepção de brasileiros a um certo posicionamento em termos político-ideológicos não é uma forma correta de divulgar a interessante medida.

Ah sim, pena que as percepções são captadas em tão poucos países (e, o mais interessante, elas variam no tempo). Então, a visão acima, que já deve ter servido para aumentar seu ceticismo quanto à mensagem da foto da manchete, tem ainda mais um complicador: as correlações podem mudar se as pesquisas mostrarem variações dos países ao longo dos anos.

Por exemplo, em 2016, o Brasil era o 6o colocado e, em 2015 era o 3o. Em 2014, salvo engano, nem estava na base de dados. Então, poderíamos dizer que a percepção do brasileiro quanto aos dados é algo que oscila tanto em três anos? Talvez sim, talvez não.

Fico com Caplan: a educação melhora a percepção das pessoas, aproximando-as das dos especialistas.

 

Os glutões

Hume, Smith, and other literati of the last century, used to frequent a tavern in a low street in Edinburgh called the Potterrow; where, if their accommodations were not of the first order, they had at least no cause to complain of the scantiness of their victuals. One day, as the landlady was bringing in a third supply of some particularly good dish, she thus addressed them: – “They ca’ ye the literawti, I believe; od, if they were to ca’ ye the eaterawti, they would be nearer the mark.”

O Planeta dos Macacos Economistas

Segundo o Teorema dos Infinitos Macacos:

The infinite monkey theorem states that a monkey hitting keys at random on a typewriter keyboard for an infinite amount of time will almost surely type a given text, such as the complete works of William Shakespeare. In fact the monkey would almost surely type every possible finite text an infinite number of times. However, the probability that monkeys filling the observable universe would type a complete work such as Shakespeare’s Hamlet is so tiny that the chance of it occurring during a period of time hundreds of thousands of orders of magnitude longer than the age of the universe is extremely low (but technically not zero).

Pois bem. No mesmo verbete, uma prova direta é obtida supondo-se que um macaco use um teclado de 50 teclas. A probabilidade dele teclar uma letra aleatoriamente é de 1/50 e, portanto, teclar banana (que são seis tecladas) é igual a (1/50)*(1/50)*(1/50)*(1/50)*(1/50)*(1/50).

O verbete, então, mostra-nos que a probabilidade de um macaco não teclar banana é dada por (1 – (1/50)^6). Assim:

In this case Xn = (1 − (1/50)6)n where Xn represents the probability that none of the first monkeys types banana correctly on their first try.

Pois bem. Fica fácil ver que a probabilidade dos n macacos não teclarem algo como banana demora a cair.

Contudo, o que acontece se o macaco infinito (ou os infinitos macacos) resolver teclar uma palavra ligeiramente menor como preço? A fórmula se altera para: Xn = (1 − (1/50)5)n, que é apenas ligeiramente diferente do que a anterior, certo?

O que acontece, neste caso?

macacos2

Repare que a queda na probabilidade de não se digitar preço é bem mais rápida do que no caso de se digitar banana. A intuição poderia nos dizer que os gráficos não deveriam ser tão distintos, mas não é o que encontramos.

Sim, a pergunta que você deve estar se fazendo é: e se os macacos tiverem que digitar “oferta e demanda”? Neste caso, com os espaços, são 16 caracteres a serem digitados. O gráfico?

Rplot

Claro, o exercício, no fundo, mostra apenas que é mais provável que um macaco digite agrupamentos de letras (e espaços, símbolos, etc) menores do que maiores. Mas não deixa de ser divertido pensar que macacos terão mais facilidade em escrever preço do que um pedido de banana. ^_^

p.s. Implementei isso no R, mas é possível fazer algo em planilhas eletrônicas como Excel ou LibreOffice. Neste caso, aliás, fica clara a vantagem de se usar o R.

Por que não estranho a posição do Distrito Federal? (uma tentativa de ironia sem muita convicção, mas com muita vontade)

df_rentseek

Pessoal do Centro de Liberdade Econômica da Universidade Mackenzie gerou um ótimo bem público com o índice de liberdade econômica estadual. Espero que não falte o apoio necessário para que melhorem a metodologia e, o mais importante, para que possam avançar a série (ou mesmo gerar valores para o passado).

Sobre o gráfico acima, claro, como sempre digo aqui, uma correlação não faz verão  porque, claro, correlação não é causalidade. Dito isto, os dados foram normalizados (no sentido estatístico, obviamente, do termo). Assim, por exemplo, no I quadrante, temos estados que estão acima da média em ambas as dimensões.

Claro que não dá para fazer muitas inferências, mas a tentação de ser irônico com o nosso DF é grande: baixa liberdade econômica e elevado PIB per capita. Há um cheiro forte de rent-seeking no ar, mas não serei peremptório. ^_^