Uncategorized

Religião explica tudo?

Segundo alguns especialistas em tradução livre de textos estrangeiros e disseminação de conteúdo midiático (e também segundo muita gente de bem), a religião explica a proeminência de eventos violentos envolvendo terroristas islâmicos nas notícias. Assim é o mundo dos “debates” na era das redes sociais.

Mas aí o Estado Islâmico assume um atentado no Irã. Você pode ou não achar – como eu – que dados nos ajudam a entender a realidade, obviamente, sob algum viés teórico, mas fica difícil dizer que todos os islâmicos são terroristas em potencial. Até o momento, iranianos não se explodiram em massa (ou em grupos, ou individualmente) em protesto ao atentado e olha que já se passaram algumas horas.

Ok, o islamismo moderado não é lá aquelas coisas, mas o problema não é o islamismo (ou os islamismos, para ser mais exato) ou o catolicismo, etc. O problema é a mentalidade radical. Black Blocs não são islâmicos e não perdem muito em sua pronta disposição de usar da violência para atingirem seus objetivos.

O que faz alguém revoltado contra algum(ns) aspecto(s) da sociedade recorrer à violência? Ser especialista em escrituras cristãs  apenas não me explica a violência de alguns cristãos. Ser especialista em análise de dados apenas, também não. Saber bem ambos? Eis aí um achado raro.

Da minha ignorância (sem falsa modéstia, sou mesmo ignorante em um bocado de coisas), apenas sei que: (a) “cultura” é um conceito para lá de complicado (muda com o tempo, sabe-se lá como), (b) “religião” não é sinônimo de fraternidade ou de violência, mas pode haver algum efeito, (c) imigração não é um problema em si, mas um problema que envolve mais variáveis (talvez a intolerância dos imigrantes e dos que recebem os imigrantes seja uma pista), (d) é preciso medir melhor o evento terrorista (conversas(/leituras) rápidas com o Lucas Mafaldo e o Leonardo Monasterio me convenceram disso).

Bom dia para você que está vivo ainda.

Uncategorized

O que sabemos sobre ‘vouchers’?

Ideologicamente, eu gosto da idéia de vouchers. Mas sou pesquisador, não posso me deixar influenciar pelas minhas preferências ao estudar um problema. O bacana é que acabaram de publicar um baita survey (cinquenta e duas páginas!) sobre o tema. Onde? Lá no famoso Journal of Economic Literature. Reproduzo o resumo e deixo o link. Vai que você tem acesso também.

We review the theoretical, computational, and empirical research on school vouchers, with a focus on the latter. Our assessment is that the evidence to date is not sufficient to warrant recommending that vouchers be adopted on a widespread basis; however, multiple positive findings support continued exploration. Specifically, the empirical research on small-scale programs does not suggest that awarding students a voucher is a systematically reliable way to improve educational outcomes, and some detrimental effects have been found. Nevertheless, in some settings, or for some subgroups or outcomes, vouchers can have a substantial positive effect on those who use them. Studies of large-scale voucher programs find student sorting as a result of their implementation, although of varying magnitude. Evidence on both small-scale and large-scale programs suggests that competition induced by vouchers leads public schools to improve. Moreover, research is making progress on understanding how vouchers may be designed to limit adverse effects from sorting, while preserving positive effects related to competition. Finally, our sense is that work originating in a single case (e.g., a given country) or in a single research approach (e.g., experimental designs) will not provide a full understanding of voucher effects; fairly wide-ranging empirical and theoretical work will be necessary to make progress.

Ou seja, amigos, precisamos de mais estudos – e de mais experimentação. Seria muito interessante que alguém sério na política (não é piada, mas é quase…) abraçasse essta idéia. Que idéia? Um sistema de voucher desenhado da melhor forma possível (no sentido de evitar efeitos adversos). Não é uma questão ideológica, é uma questão de tentar novas formas de políticas públicas que ajudem a educar a meninada, notadamente a mais carente.

Uncategorized

Quando o juiz Learned Hand encontra os religiosos terroristas

Os recentes ataques terroristas parecem um triste argumento contra a fórmula de Learned Hand, dos manuais de Law & Economics. A fórmula aparece aqui e reproduzo-a para o leitor: PL > B. Como assim?

Suponha, como no manual organizado por Timm (procure por aí: foi editado pela Atlas e está na sua segunda edição), que eu tenha um bar cujas mesas e cadeiras estão em uma esquina. Pode ser que um motorista vire uma das ruas e atinja as mesas e cadeiras que podem ou não estar ocupadas por clientes. Devo eu ser considerado culpado?

A regra de Learned Hand (literalmente o nome do juiz) é a de que este será o caso se: PL > B, em que B é o custo de se precaver contra o acidente, P é a probabilidade da perda cuja gravidade é medida por L. Assim, se era mais barato para mim, relativamente, precaver-me contra o acidente.

Ou seja, se meu custo de colocar, digamos, uma mureta na esquina (considerando o tempo gasto, insumos, etc) for menor do que o dano total causado na ocorrência de um acidente como o que descrevi e eu não tomei as precauções, então eu devo ser considerado culpado.

Até aí, tudo bem. Entretanto, os atentados terroristas nem sempre seguem as hipóteses básicas deste modelo. O terrorista, muitas vezes, não liga se ele mesmo morre ao jogar o carro sobre as pessoas. Pior ainda, ele pode não se preocupar muito se, após jogar o veículo sobre as pessoas, sair esfaqueando-as e morrer no meio do caminho.

Na verdade, o problema é que, em situações como esta, não importa meu custo B, o terrorista quer mesmo é jogar PL para o maior valor possível e a fórmula perde a validade para se julgar alguém culpado pois, afinal, o terrorista se auto-declara como tal! Não precisamos mais da fórmula para imputar a culpa a alguém…

…exceto se dissermos que a legislação, agora, será mais dura e as pessoas terão que, por conta da lei, tomar todas as precauções para evitarem ataques terroristas, não é? Olha, mesmo assim, repare, a fórmula perderá sua utilidade porque não estamos lidando com acidentes e sim com ataques planejados (e a atribuição de culpabilidade fica óbvia).

Repare que a estratégia do terrorista, no fundo, envolve fazer a sociedade arcar com um custo cada vez mais alto para evitar ataques, sacrificando até mesmo valores como a liberdade individual até que, no final, esteja-se alocando milhares de recursos para a defesa. Economicamente falando, a idéia destes terroristas é, na verdade, destruir a economia de trocas forçando alocações cada vez maiores de recursos em prevenção contra ataques (a versão fictícia disso é a corrida armamentista entre o Império Klingon e a Federação de Planetas Unidos em um dos (melhores) filmes clássicos de Star Trek).

Claro, para nossa sorte, estamos sempre sujeitos a choques tecnológicos (mas eles também estão…), o que diminui os custos de defesa (e de ataques…). No final das contas, é uma situação bem desagradável para quem é vítima potencial desta gente (ou seja: nós).

Então é isso: teoricamente, a função de utilidade do terrorista segue sob os postulados da racionalidade econômica, mas esta função difere da que geralmente estudamos nos cursos de Economia. Melhor dizendo, é uma função com mais argumentos e, bem, você pode dar uma olhada no texto do link.

Uma dica para começar a ler sobre extremistas religiosos sob a ótica econômica é procurar pelos trabalhos de Laurence Iannaccone, o grande nome da Economia da Religião moderna (veja também a associação de pesquisa que ele fundou, a ASREC).

Ah, antes que me esqueça, existem sugestões para se tentar aumentar os custos para os ataques terroristas baseados em “jogar veículos sobre pessoas”. Evitar ataques terroristas, na lógica econômica, significa aumentar o custo do ato terrorista de forma a superar o benefício total auferido pelos seus perpetradores (que, note bem, significa prejudicar não somente o motorista do carro que se joga sobre as pessoas, mas todo o seu grupo).

Felizes os dias em que a gente se preocupava apenas com a fórmula de Learned Hand

 

Uncategorized

Terrorismo e islamismo: o problema é a assimilação, não a integração (e nada é tão simples quanto tentam nos vender)

Quem imigra assimila ou é integrado? Vejamos:

To decrease the risk of homegrown radicalization, we should work to improve integration of Muslim immigrants, not further isolate them. This means welcoming Syrian refugees, not excluding them. It means redefining what it means to be American or German in a way that is inclusive and doesn’t represent only the majority culture. It means showing interest in and appreciation for other cultural and religious traditions, not fearing them.

Claro, como nenhuma religião é capaz de evitar que seus seguidores matem pessoas (o Brasil, país católico-protestante-etc é um bom exemplo disto), existe sempre um problema dinâmico de se reformar a religião quando a mesma, além de não evitar comportamentos violentos (não servindo de trava moral, para lembrar a ótima defesa de tese do Sandro, na última quarta-feira cujo link não encontrei, infelizmente), incentiva-os. Uma proposta razoável é que a mudança seja endógena, mensagem do apresentador deste vídeo.

Recentemente, um debate no Twitter sobre o tema resultou em uma discussão de surdos, com algumas ofensas desnecessárias da parte dos defensores de barreiras incondicionais à imigração islâmica mostrando, mais uma vez, o quão difícil é debater o tema.

Fato é que saber os determinantes do terrorismo não é uma tarefa trivial e se alguém acha que poderá fazê-lo, ceteris paribus, sem o uso de métodos científicos, este mesmo alguém, inconscientemente pode estar facilitando a ação de terroristas (dois exemplos de pesquisas na área estão aqui e aqui.

De qualquer forma o problema segue sendo desafiador, como explica o prof. LaFree aqui.