A balconista que arredondava – continuação

Lembra do texto que escrevi sobre arredondamentos nos preços de produtos? Pois é. Eu sigo interessado no tema e, se você pesquisa economia, boas chances existem de que também esteja curioso. Bem, vamos tentar organizar as idéias. A literatura se refere a odd pricing effects quando “o vendedor estabelece o preço logo abaixo do arrendodamento mais próximo” (assim o definem Kinard, Capella & Bonner (2013), citado no texto anterior). Neste caso, pode-se pensar em preços como R$ 12,99, R$ 3,49 ou mesmo R$ 2,50 (alguns incluiriam preços como R$ 2,98, como se vê aqui).

Entretanto, há um subconjunto destes preços que são os preços para os quais não há troco. Quem leu o texto anterior notou que esta foi a tônica principal do meu texto. Eu estava incomodado não com o efeito psicológico (que é bem interessante também) do arredondamento, mas sim com o fato do preço ser tal que o consumidor poderia perder o troco.

Resolvi conhecer um pouco melhor a realidade local. Saí pela cidade obtendo panfletos de vários tipos de lojas e tabulei os dados. Não importa, nesta tabulação, se um produto é vendido individualmente ou em pacote. Considerei cada um como um produto distinto. Na verdade, considerei todos os preços à vista que constavam em cada catálogo. Eis o resultado desta rápida amostragem (nomes dos estabelecimentos foram excluídos).

semtroco

Como alguém poderia dizer, realmente o “não ter troco” é uma ocorrência mais comum em produtos não-duráveis do que nos duráveis. Isto é razoável? Talvez, já que a demanda de duráveis varia menos no tempo em relação a de não-duráveis (no sentido de que você não compra um sofá semanalmente como compra remédio, sabonete ou frutas). Logo, se há um ganho positivo, por menor que seja, em embolsar uns centavos do consumidor, talvez seja melhor fazer isso com produtos não-duráveis. Caso ele não reclame no balcão, azar o dele (e ele voltará, por exemplo, para comprar o remédio…).

Falando um pouco da tabela, no caso das farmácias, há uma clara divisão: três delas apresentam muitos preços para os quais não há troco e duas se comportam basicamente de forma oposta.

Não pude ir ao outro supermercado da cidade, mas no que fui, existiam dois panfletos separados: um para a seção de higiene pessoal (na tabela, “Higiene/Limpeza” e o resto (que chamei de “Alimentícios”, mas este não é um nome exato pois nesta seção tem-se produtos como amaciante de roupas…depois mudarei o nome). Note que o uso de preços “sem troco” é elevado neste estabelecimento.

Uma única loja com um panfleto bem pequeno é a exceção a esta regra. Trata-se de uma loja de moda íntima (se bem que cuecas e sutiãs não são exatamente não-duráveis ou duráveis, embora eu tenda a classificá-los como mais duráveis).

As lojas de departamento praticamente usam todos seus preços na forma “R$x9,xx, mas os centavos são sempre de forma a permitir a devolução de troco. Então, ok, pode-se até dizer que elas usam odd pricing, mas nunca deixam o consumidor sem troco, mesmo quando percebemos que negociam bens duráveis para os quais, geralmente, paga-se por meio de cartões ou cheques, o que, presumo, até facilitaria cobrar preços “sem troco”.

A pergunta que me perturba agora é a seguinte: diante de uma situação em que o vendedor não tem troco, o que ele faz? Arredonda para baixo ou para cima? Minha experiência pessoal, em Belo Horizonte, é que geralmente o arredondamento é para baixo. Como sou chato com isto, minha memória está treinada para me alertar quando o vendedor tenta levar embora meus centavos. Mas, aqui em Pelotas, será assim? Minha experiência com a balconista não foi desagradável, mas me deixou muito desconfiado.

Ah sim, não poderia encerrar o texto sem dizer que vou tentar acompanhar a evolução deste fenômeno daqui para diante e, talvez, tentar também estudar um pouco mais de odd pricing. Outro ponto legal de se coletar estes panfletos é tentar verificar a existência de custos de menu, mas esta idéia já foi bastante explorada.

Evidentemente, também é interessante pensar se haveria algum motivo exógeno ao mercado (alguma lei) que obrigaria o vendedor a colocar preços estranhos como R$ 2,98. Eu duvido, mas vivo em um país que já teve lista de preços “congelados” em jornal, o que me dá motivos para me preocupar com isto, embora eu aposte (contra minha própria experiência?) que isto não seja um problema sério.

Bem, é isso. Deu um pouco de trabalho, mas talvez algum leitor tenha aproveitado a leitura deste textinho. Gostou? Cite o original. Não gostou? Cite também. Tem referências bibliográficas interessantes? Envie para mim. Será um prazer.

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