Juízes de futebol favorecem o time da casa?

20160601_215320-001As evidências deste artigo de 2004 para a Bundesliga nos diz que….sim. A análise dos autores se baseia em duas variáveis: tempo extra concedido e pênaltis. Um dos canais de transmissão pelo qual isso ocorre seria por pressão da torcida (que, por sua vez, afeta o desempenho do time, “empurrando-o” e também teria impacto sobre a atuação do juiz).

Eu diria que, lembrando da teoria da regulação de Stigler, o juiz poderia ser ‘capturado’, sem falar, claro, na possibilidade de corrupção (algo também já estudado na economia dos esportes).

Mas vejamos os microfundamentos econômicos que os autores usam para explicar o fenômeno em questão:

(…) when facing a contentious decision, the salient cue of crowd noise (remaining rather silent when a home team player makes a tackle, but booing when a visitor tackles) may cause a difference in assessing fouls of home players or visiting players. Another subtle form of how crowd noise influences referees may stem from the use of heuristics in decision making. Even though heuristics frequently result in systematic errors (Tversky & Kahneman, 1974), they are often used as rules of thumb to reduce complexity in judgment. If a referee is uncertain whether a tackle was regular or irregular, he might, therefore, place equal weight on the possibly biased auditory information from the crowd and on his visual information. [SUTTER, M.; KOCHER, M. G. Favoritism of agents – The case of referees’ home bias. Journal of Economic Psychology, v. 25, n. 4, p. 461–469, 2004.463-4]

A análise dos autores, como já dito, limita-se ao campeonato alemão (o que nos faz pensar sobre a validação externa dos resultados, obviamente). De qualquer forma, como ela é feita?

Os autores utilizam uma regressão múltipla (MQO) com controles para cartões, substituição de jogadores e a margem do resultado (uma dummy construída pela margem de diferença de gols entre o time da casa e o visitante) na análise do tempo extra concedido pelo juiz. No caso dos pênaltis, faz-se uma comparação simples (um teste qui-quadrado) entre distribuições de frequências de pênaltis “classificados” como legítimos (ou não) com uma amostra que me pareceu pequena.

São reportados resultados que corroborariam a hipótese de viés do juiz a favor do time da casa, embora, no meu entender, possam ser feitas várias críticas aos dois testes (talvez no caso da regressão alguém possa reclamar de dos controles, mas creio que o teste dos pênaltis é mais sensível às críticas). Claro, o ideal é você ler o artigo para tirar suas próprias conclusões.

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Não confunda os Khans!

Um ponto que me chama a atenção é a necessidade que pesquisadores têm de que existam fichas detalhadas (e padronizadas) de jogos. Não basta saber quem ganhou ou perdeu, mas quem entrou/saiu, quem levou cartão e, claro, sempre com o tempo bem registrado. Bases de dados padronizadas permitem a análise inter-campeonatos e inter-países (o que minimiza bastante o problema de validação externa já citado…).

Mas isto é assunto para economistas? Bem, eu poderia citar vários argumentos, mas prefiro apelar a Khan (2000).

Bibliografia(zinha)

KAHN, L. M. The Sports Business as a Labor Market Laboratory. Journal of Economic Perspecitves, v. 14, n. 3, p. 75–94, 2000.

SUTTER, M.; KOCHER, M. G. Favoritism of agents – The case of referees’ home bias. Journal of Economic Psychology, v. 25, n. 4, p. 461–469, 2004.

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Incentivos para que o trabalho em equipe funcione – o caso do futebol

O papel de motivador em um time (seja ele do técnico ou do jogador) é importante. Como dizem Anderson & Sally:

“(…) the Köhler effect occurs because weak links work harder to keep up, whether in an attempt to match their more talented colleagues or because they think their role is just as essential. These two factors are equally important in helping improve a weak link”. [Anderson, C. & Sally, D. (2013) The Numbers Game, Penguin Books, 2013, p.242]

20170224_151410-001Ok, o efeito Köhler está resumido aqui e, contrariamente ao que um economista novato esperaria, diz que o indivíduo trabalha mais em grupo do que individualmente. Após estudar um pouco mais (ou seja, deixar de ser “novato”), o pesquisador descobre que incentivos importam e que o trabalho em grupo pode gerar maior esforço individual conforme os incentivos que se aplicam.

Meu exemplo preferido era um que usava nos meus tempos de professor de Industrial Organization, retirado do excelente livro-texto de Oz Shy, mas não vamos cansar os poucos leitores com álgebra, ok? Basta dizer que é possível construir um sistema de incentivos simples que minimiza (bem, no modelo teórico diríamos que “zera”) o comportamento free-rider (o carona…).

Voltando ao nosso caso, os autores estão discutindo como fazer com o jogador que é o seu elo mais fraco na equipe (weak(est) link) e uma das soluções é buscar melhorá-lo. Mas é preciso ser mais específico quanto aos incentivos que operam, digamos, no dia-a-dia dos jogadores de um time que treinam para um campeonato. Não é muito fácil gerenciar um conjunto heterogêneo de jogadores (uns ganhando mais, outros menos, uns ídolos antigos, etc), percebe-se.

Uma sugestão dos autores é que você tenha um jogador que seja um baita strong(est) link (aqui eu diria strongest mesmo). Ou seja: o cara que chega cedo para o treino, faz o dever de casa, dá o exemplo, enfim, diminui o custo de absorção dos valores adequados para um time que deseja vencer (os autores são felizes na expressão: an ethos of maximum effort). Um exemplo? Para os autores, Lionel Messi. No Lobão, eu apostaria no nome de Rafael Dal Ri.

(Longo) p.s. Sério, não tem como parar de ler este livro e também não tem como não gostar da área de Economia dos Esportes, mais especificamente, a Economia do Futebol. Sem falsa modéstia, aos que se interessam, sugiro o artigo que provavelmente foi um dos primeiros no Brasil (leitores mais atentos, por favor, corrijam-me se não for o caso) que é este. Há também este e, nos últimos anos, alguns poucos pesquisadores de economia têm publicado no tema (já citei alguns por aqui, salvo engano). Claro, principal periódico da área é este journal.

Seus piores jogadores de futebol e a teoria do “O-Ring”

A teoria do O-ring foi desenvolvida em um artigo de Michael Kremer de 1993. Basicamente, o ponto é que os links mais fracos de um processo produtivo podem ser muito importantes no desempenho de uma economia (um resumo até razoável está aqui e o item 4 do resumo da teoria repete o que acabo de dizer).

O interessante, no caso do futebol (é, estou com o Anderson & Sally (2013) que cito nos posts imediatamente anteriores a este), é que isto se traduz em um ponto que vale a pena enfatizar: cuidado com os jogadores mais fracos do time.

“(…) because soccer is an O-ring process, good players do cluster together. But he [Pérez] had missed the ultimate conclusion of this idea: that the weak links are the crucial determinant in a team or a company’s success, not the strong ones”. [Anderson, C. & Sally, D. (2013) The Numbers Game, Penguin Books, 2013, p.217]

Ok, as evidência dos autores são simples (lembre-se: é um livro de divulgação), mas há um bocado de bibliografia e trabalho com dados escondidos nos rodapés e em parágrafos aparentemente inocentes (não estamos falando de Michael Kremer aqui?). Traduzindo em números mais compreensíveis, após alguma econometria com dados europeus, os autores nos dizem que:

“That means that if you increase the quality of your best player from 82 percent to 92 percent, by signing a new striker, say, then over the course of a thirty-eight-game season, you will find your goal difference improving by just over ten. The results are just as demonstrable for points per game: the same upgrade on your star player would mean five more points a season. [Anderson, C. & Sally, D. (2013) The Numbers Game, Penguin Books, 2013, p.218-9]

Um resultado interessante diz respeito à diferença de efeitos na margem. O trecho acima fala de melhorar seu melhor jogador. Contudo, o que se observa quando se melhora o seu pior jogador?

Improving your weak link from 38 percent to 48 percent is worth thirteen goals a season, or nine points in the league table.

That means that upgrading its weak link can help a club ‘more’ than improving its best player. [Anderson, C. & Sally, D. (2013) The Numbers Game, Penguin Books, 2013, p.220]

Interessante, não?

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Dados são importantes mas…

The data cannot do the manager’s job. Numbers cannot put us all in the dugout; analytics is not an attempt to mechanize soccer. It simply enables the manager to do his job of building and directing a successful team with the clearest possible vision of what is happening on the pitch. [Anderson, C. & Sally, D. (2013) The Numbers Game, Penguin Books, 2013, p.193]

Ok, é no contexto do futebol, mas vale para tudo na vida, inclusive para a Ciência Econômica.

Por que sua esposa só se lembra de quando você esquece de comprar pão?

As the psychologist Eliot Hearst explains: ‘In many situations animals and human beings have surprisingly difficulty noticing and using information provided by the absence or nonoccurrence of something…Nonoccurrences of events appear generally less salient, memorable or informative than occurrences’. [Anderson, C. & Sally, D. (2013) The Numbers Game, Penguin Books, 2013, p.126]

Ou seja, seguem os autores (e aqui traduzo livremente): isso faz com que descontemos coisas que não aconteceram e aumentamos a importância de coisas que aconteceram. Você não se esquece de comprar pão em quatro dias, ok, passou batido. Mas experimente se esquecer do pãozinho no quinto dia…

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Dica R do Dia – Penn World Tables 9.x

O prof. Zeileis tem feito ótimos pacotes para o R. O último é o que contém os dados da última versão da Penn World Tables (ele tem também pacotes para as versões anteriores). Claro, deve-se ter muito cuidado com esta base de dados.

Ela já foi mais simples. Hoje, está longe de ter seu uso feito sem um bocado de restrições. Leia, por exemplo, a documentação que se encontra aqui.

Pokemon Go…breaking it!

Ok, mais R. Agora, mudando o final do período de 06/2016 para 01/2017.

pokemon1pokemon2

library(gtrendsR)
res <- gtrends(c("Pokemon", "Evangelion", "Dragon Ball"), geo = c("BR"), time = "2004-01-01 2016-06-01")
plot(res)

res <- gtrends(c("Pokemon", "Evangelion", "Dragon Ball"), geo = c("BR"), time = "2004-01-01 2017-01-01")
plot(res)

Não somos tão racistas assim

O título acima poderia ser reescrito como: somos, mas não tanto, comparativamente. Digo isto por conta das evidências usadas neste artigo interessante sobre os impactos do racismo sobre o desenvolvimento econômico. Na amostra utilizada – 94 países – o Brasil aparece na 85a colocação.

O artigo é basicamente empírico – o argumento teórico é apenas verbal – e testado econometricamente e envolve história econômica, instituições (logo, colonização). Vale a leitura do texto e, sim, eis a figura que todo mundo gosta de ver.

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Tavares Bastos e a abertura unilateral do comércio

(…) a livre navegação do Amazonas deve ser estipulada em convenções com outros governos não ribeirinhos, ou é melhor permiti-la por ato próprio do governo imperial? Quando não sentíssemos já os efeitos de tratados dessa natureza, como são as convenções consulares, bastava o fato de não se haver carecido de tal recurso a respeito dos outros rios mencionados para se abandonar essa idéia, que determinaria delongas inúteis, além de outros inconvenientes mais sérios. [BASTOS, A. C. T. O vale do Amazonas: a livre navegação do Amazonas, estatística, produção, comércio, questões fiscais do vale do Amazonas. Brasília: Editora Nacional, 1975, p.46]

Eis aí a defesa da abertura comercial unilateral, por Tavares Bastos, que também achava que capital humano é importante para o bem-estar.

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Direitos autorais importam: o caso da Mulher-Hulk

Quando Stan Lee começou a achar que a Universal ia inventar uma Hulk mulher na série de TV, sobre a qual passaria a teros direitos, preparou uma solução preventiva a toque de caixa. (…) ‘Foi uma coação’, disse David Anthony Kraft, que assumiu os roteiros da série. ‘Foi tipo: ‘Precisamos inventar uma personagem chamada Mulher-Hulk, e tem que ser daqui a trinta segundos’ (…)’. [Sean, Howe. Marvel Comics: A História Secreta, Leya, 2013, p.235]

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A importância das preferências reveladas – Howard, o Pato

Um dos personagens mais bizarros da Marvel Comics é Howard, o Pato. Ele serve para explicar, mais uma vez, a importância – e a dificuldade – de se considerar corretamente as preferências dos consumidores.

“- Claro”, você dirá, “isto é fácil”.

Contudo, estamos falando do lançamento da revista em 1976. Howard havia aparecido algum tempo antes, em outras histórias e estava há algum tempo fora do radar dos leitores de quadrinhos. Quando do lançamento da revista ocorreu o seguinte:

[Os consumidores] (…) corriam para as bancas e compravam todos os exemplares da edição – às vezes, até antes de estarem expostos”. [Sean, Howe. Marvel Comics: A História Secreta, Leya, 2013, p.191]

Quanto à editora, segundo depoimento no mesmo livro:

Eu falei: ‘Qual é a desse pato? É só mais um personagem tipo Disney. Não vai dar certo’, disse o diretor de circulação da Marvel, Ed Shukin, à New Yorker. ‘Por isso só imprimimos 275 mil. Na época, eu ainda não havia lido um exemplar de Howard. Foi um erro. Subestimei o patinho.

Os especuladores, não. Em questão de semanas, o gibi estava sendo vendido a quase dez vezes o preço de capa – se você encontrasse alguém a fim de vender. [Sean, Howe. Marvel Comics: A História Secreta, Leya, 2013, p.191]

Ou seja, a preferência revelada não é desprezível. A narrativa do livro segue mostrando que a Marvel rapidamente percebeu o valor do pato e iniciou uma agressiva campanha de propaganda.

Ah sim, não, eu nunca li uma história do patinho. ^_^

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