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Salário-eficiência em livro-texto brasileiro na década de 70?

Simonsen, do post anterior, jogando o insight:

Em segundo lugar, como observa Liebenstein, ainda que a oferta de mão-de-obra seja superabundante e que os salários sejam flexíveis, pode não interessar aos empresários do setor capitalista rebaixar os salários aquém de certo nível. Com efeito, há um mínimo calórico de subsistência, e um trabalhador excessivamente mal pago torna-se fraco, doente e, por isso, ineficiente. Como assinala Liebenstein, pelo menos até certo ponto é de se presumir que exista uma correlação positiva entre o salário e a eficiência do empregado. [Simonsen, M.H. Macroeconomia, 2a ed., v.2, p.243, APEC, 1974]

Na minha graduação, alguns diziam que Simonsen era um “malvado ortodoxo” e que não deveríamos nós, alunos, levar muito a sério o que ele dizia porque ele só “fazia matemática, não economia”. Parece até piada, né?

Em uma época na qual você não tinha muitos livros-texto de macroeconomia, o de Simonsen surpreende por seu elevado nível não apenas teórico como também pelos exemplos, que não se limitavam à economia norte-americana.

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Entendendo hipóteses dos modelos: o caso da oferta de trabalho totalmente inelástica

A hipótese de uma oferta de mão-de-obra absolutamente rígida é a caricatura de uma sociedade onde os indivíduos não dispusessem nem de amigos nem de familiares, não dispondo senão de duas alternativas: trabalhar ou morrer de fome. No mundo real há a alternativa de o indívíduo se tornar dependente; isso pode tolher consideravelmente a liberdade do homem ou da mulher, mas representa uma alternativa de sobrevivência. Na medida em qeu se considera a família, e não o indivíduo, como a unidade econômica, chega-se à conclusão de que a oferta de trabalho pode apresentar razoável coeficiente de elasticidade pela variação do número de pessoas ativas dentro da família. [Simonsen, M.H. Macroeconomia, APEC, Vol2. 2a ed, 1974, p. 241]

Observações:

  1. Não descobri isto lendo 140 caracteres na tela do meu celular, mas sim em um livro. Logo, leitores-estudantes, leiam livros, pelo amor de Deus. Deixem de preguiça e este papo de que “ah, tá tudo salvo no meu celular”. Salvar arquivos não é sinônimo de estudo.
  2. Nunca havia lido uma explicação tão singela e, ao mesmo tempo tão inteligente acerca da hipótese de oferta de trabalho inelástica. Simonsen tinha o dom, realmente.
  3. Há uma implicação interessante, portanto: se você trabalha com um modelo em que as unidades de mensuração que são households (“famílias”, numa tradução aproximada), então eu esperaria uma oferta de trabalho (por hipótese e/ou estimada) menos inelástica do que uma oferta de trabalho individual. Isto é, digamos que estimei uma oferta de trabalho para uma família e a elasticidade-preço dela (no caso, o preço da mão-de-obra, né?) for de, digamos, 0.2, então eu diria que a elasticidade da oferta de trabalho do indivíduo seria, no máximo, 0.2.
  4. Outra forma de dizer a mesma coisa é pensar no insight básico dos livros-texto de microeconomia: a oferta de uma firma é sempre mais inelástica do que a oferta de mercado para o produto desta mesma firma. É exatamente o que Simonsen explicou de maneira brilhante lá no alto.
  5. Logo, trabalhar com modelos em que a unidade básica é uma família, não é a mesma coisa de se trabalhar com “n vezes o mesmo indivíduo”, exceto sob esta hipótese explicitada. Afinal, como bem sabemos desde os trabalhos de Gary Becker, o modelo de household capta a diversidade de uma família (as famosas questões: quem lava os pratos e quem trabalha, etc). Ok, como eu disse, você pode fazer a hipótese de que a família é simplesmente uma replicação do indivíduo, mas isso seria uma simplificação desnescessária (veja o ponto 3: dali temos uma riqueza maior de análise, não?).

Ok, eu posso ter me entusiasmado um pouco, mas didaticamente, acho que Simonsen foi brilhante. Muitos passam por esta observação sem captar as sutilezas e depois, lá na frente, ficam confusos na interpretação do modelo. É sobre isto que estou tentando explicar: Simonsen foi um dos melhores economistas em explicar intuições de modelos.