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Custo de oportunidade é importante? – o exemplo da Companhia Fiação e Tecidos Pelotense

Como o leitor sabe, a resposta à pergunta acima é: sim, é claro que é importante! Mas vamos ao esclarecedor trecho.

Os navios que levavam o charque de Pelotas para o Nordeste do País retornavam vazios, tornando os custos proibitivos, pois aos índices normais somava-se o ‘frete morto’, ou valor dos porões não ocupados.
Decidiu-se, então, que o problema estaria resolvido com a instalação de uma fiação e tecelagem de algodão em Pelotas, voltando os navios que levassem o charque ao Nordeste, carregados de algodão.
Assim, nasceu a Companhia Fiação e Tecidos Pelotense. Nasceu de um fato econômico. De uma solução econômica’. [Companhia Fiação e Tecidos Pelotense. In: Pelotas Memória, especial 1992, p.15]

Preciso explicar mais? A oportunidade perdida era o porão “não ocupado”. Repare na importância do custo implícito, aquele que nem sempre as pessoas percebem, já que subjetivo. Para você, pode ser que o porão vazio pudesse ser preenchido com um carregamento de linguiças. Para mim, talvez por um carregamento de cervejas. Mas para o ator importante desta história, valia a pena trazer algodão e abrir uma grande tecelagem.

Exemplo legal, heim?

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A gente tem que seguir a restrição orçamentária com carinho…já dizia Antonil

Pedindo a fábrica do engenho e tantos e tão grandes gastos quantos acima dissemos, bem se vê a parcimônia que é necessária nos particulares de casa. Cavalos de respeito mais dos que bastam, charameleiros, trombeteiros, tangedores e lacaios mimosos não servem para ajuntar fazenda, para diminuí-la em pouco tempo com obrigações e empenhos. E muito menos servem as recreações amiudadas, os convites supérfluos, as galas, as serpentinas e o jogo. E, por este caminho, alguns em poucos anos do estado de senhores ricos chegaram ao de pobres e arrastados lavradores, sem terem que dar de dote às filhas, nem modo para encaminhar honestamente aos filhos. [Antonil, André J. Cultura e Opulência do Brasil, Itatiaia/Unesp, 1997 (original de 1711), p.93]

Pois é. “Lacaios mimosos” seria, hoje em dia, traduzido como “trabalhadores que fazem corpo mole”. Belo trecho, chamando a atenção para o problema da restrição orçamentária (intertemporal e incerta, eu diria). Antonil entendia o papel dos incentivos.

p.s. A edição em domínio público do livro está aqui.

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Batistas, Contrabandistas, Monopolistas e Professores: como unir interesses distintos?

Batistas e Contrabandistas e o rent-seeking

Bruce Yandle mostrou, com um exemplo simples (seu artigo, bem informal, está aqui), como regulamentações anti-concorrenciais surgem da união de interesses aparentemente improváveis. Seu artigo é um clássico e o objeto de estudo era a chamada lei seca norte-americana. Que lei agradaria mais aos batistas – contrários às bebidas alcóolicas – e aos contrabandistas – loucos para venderem-nas?

Criar monopólios não é privilégio dos norte-americanos!

Claro que não. Veja o caso de uma companhia privilegiada criada pelo Marquês de Pombal, abaixo descrita.

“A Companhia deu lucro e conseguiu ampliar seu raio de ação, armando diversos navios com destino ao Brasil e às ilhas. Os atravessadores, porém, foram uma dor de cabeça cada dia maior, atuando mais intensamente a partir de 1769. Mesmo assim, em 1771, ela se declarava disposta a comprar sua ações pelo preço do mercado, e, em 1772, pagava dividendos na base de 7,5%, aumentados para 8,25% em 1775. (…) Numa demonstração do alto conceito que possuía perante o poder central, ou das profundas ligações entre seus interesses e os do governo, a Companhia foi encarregada da cobrança do chamado ‘subsídio literário’ nas ‘suas terras’. Criado tal imposto, em 1772, para estipendiar os professores régios, sua fonte eram taxas sobre o vinho e as aguardentes, sendo administrado por uma ‘Junta da Fazenda’ então instituída. Nessa mesma ordem de idéias podemos referir o Alvará de 6 de agosto de 1776, ordenando que o Rio de Janeiro e as províncias do sul ficassem abertas ao comércio exclusivo dos vinhos, aguardentes e vinagres da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro”. [FALCON, F.J.C., 1982 : 460-2]

Em outras palavras, ao invés de batistas e contrabandistas, temos professores e produtores de vinho unidos por algo que, certamente, não era a educação (ou pelo menos, não apenas…). 

Monopólios mantidos artificialmente sempre geram reclamações de consumidores e o texto de Falcon é repleto de exemplos. Pombal mostra argúcia ao ligar a ação do monopólio à coleta de impostos destinados a subsidiar professores? É provável que sim.

Sua percepção acerca do papel dos professores no suporte às suas políticas certamente merece um olhar mais cuidadoso com mais pesquisas, mas fica, neste post, a insinuação de que ele provavelmente enxergou a importância da ascendente classe dos intelectuais em seu planos (lembremos que ele competia com os jesuítas neste aspecto…).

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Mercantilismo japonês no século XVIII: tão diferente de nosso Brasil de hoje?

Vez por outra eu me pergunto sobre certos impostos. Você importa um produto que não tem qualquer similar nacional – o que tira de qualquer análise o argumento de que “deve-se proteger o similar nacional” – e ele é taxado. Bem, considere este trecho:

Kokueki was a word of Japanese origin, having no counterpart in Chinese. During the 1750s when this new word was coming into popular use in Tosa, it was used most commonly by townsmen and people from the ports: a fact that, in itself, suggests that they were its natural reservoir. More than any other class in Tosa, they were reminded in their daily experience of the intangible fact of ‘country’. When they exported or imported, they paid taxes for no other reason than crossing an invisible border. They were forbidden to deal in certain goods accross borders. It was, for example, illegal to export rice or horses and illegal to import rice, sake, or many luxury items. [Roberts, L.S. Mercantilism in Japanese Domain – The Merchant Origins of Economic Nationalism in 18th-Century Tosa, Cambridge University Press, 1988, p.137]

Não parece o Brasil de hoje? Por que será que sinto que o brasileiro pertence ao governo e não o contrário?