Teorema de Alchian-Allen na Pernambuco colonial: o caso dos escravos exportados

O Leo Monasterio é quem vai gostar deste trecho, do Colonização e Monopólio no Nordeste Brasileiro, de José Ribeiro Júnior (Hucitec, 2004):

Em 1766 a junta tomara a resolução de enviar para a Capital da colônia alguns escravos ‘dos milhores’ para lhes dar saída por melhor preço e a fim de evitar a despesa que se fazia no Recife ‘aonde tem decahido muito do seu valor’. O fato de deixar o pior escravo para Pernambuco provocaria a observação do governador José César de Menezes, dizendo que era preciso adquirir 10 escravos ruins para fazer o serviço de 8, tornando mais caro o custo de mão-de-obra na capitania servida pela sociedade mercantil, detentora do privilégio. [Ribeiro Jr (2004), p.129]

Não é que o monopolista – no caso, a Companhia de Comércio de Pernambuco e Paraíba – segue a lógica que foi exposta no famoso Teorema de Alchian-Allen?

Nunca ouviu falar do teorema? Alguns o chamam de Terceira Lei de Demanda. O Leo Monasterio explica aqui (incluindo o famoso vídeo do falecido Olavo Rocha). Eu também já tentei explicar o Teorema em outras ocasiões (como esta, inclusive, pensando em um exemplo hipotético sobre a escravidão).

Ironicamente, neste caso, aqueles que pensam em conspirações (a motivação básica de Alchian e de Allen era mostrar que devemos pensar na lógica econômica ao invés de apelarmos para explicações muito fantasiosas como conspirações…) podem se ver em uma situação em que o monopolista – geralmente criticado como um agente conspirador em onze de cada dez romances, não necessariamente sem base empírica… – também respeita a lógica econômica do teorema.

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3 respostas em “Teorema de Alchian-Allen na Pernambuco colonial: o caso dos escravos exportados

  1. Gostei mesmo!
    Tem um problema complicado que nunca entendi: o de informação na “qualidade” dos escravos. Como podia ter mercado inter-regional se a qualidade (saúde, submissão às vontades do senhor) era bem pouco observável? Não havia problema de market for lemons?? (ou será que havia e, por isso, a escravidão continuou residualmente mesmo quando o PMg do escravo era baixo?. Eu acho que li isso em um outro paper para os eua. )

    • É o tal de “Antebellum Puzzle” (paper para EUA)? Tem um artigo numa das últimas cliométricas sobre esta coisa da assimetria informacional. O fato é que o relato do cara é inegável…ou seja, o problema existiu. Você já viu o artigo da Cliometrica? Não vou lembrar o argumento agora, mas eu sei que era sobre isso. O que eu não sei é se no Brasil já tem pesquisa sobre assimetria informacional no mercado de escravos (será que o Noguerol sabe?).

  2. Pingback: Retrospectiva 2016? | De Gustibus Non Est Disputandum

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