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A verdade não é relativa: os custos de buscá-la é que a relativiza (ou: mecanismos de transmissão da irracionalidade racional)

Capa_Frente_O Prazer de PensarDe Theodore Dalrymple, “O Prazer de Pensar”, É Realizações, 2016, temos este ótimo trecho para reflexão:

Nossa imaginação não precisa se esforçar muito para entender a mágoa – aquelas mágoas que acabam sendo ocorrências da própria vida – para a qual o espiritismo é uma resposta. Não significa que a verdade se torna relativa, é a importância da verdade na existência humana que faz isso [p.18]

Em primeiro lugar, sim, o autor não é simpático ao espiritismo, o que não o impede de fazer uma ótima observação sobre a suposta relatividade da verdade. Assim, esqueça a questão espiritual.

O último trecho é que é o mais interessante: “é a importância da verdade na existência humana que faz isso”. De fato, todos nós, em geral, gostamos da idéia de que exista uma verdade que se adequa à nossa experiência de vida. A tentação de torná-la relativa é muito forte porque, como dizem por aí, pensar dói (o que é uma boa maneira de dizer que existem custos de busca pela nossa suposta verdade universal).

Pense no caso da política e nos vieses que ela vende como corretos, a despeito da universal lei da oferta e da demanda. Políticos, como nos ensina Bryan Caplan, sempre tentam nos vender verdades relativas que não respeitam as leis econômicas básicas. É a famosa irracionalidade racional já citada neste blog tantas e tantas vezes.

O autor citado nos oferece uma bela forma de pensar em como isto funciona em nossa mente: estamos sempre em busca da verdade, mas se os custos forem muito altos, acomodamo-nos na versão isso é válido para mim, não para você. Talvez por isso a irracionalidade racional exista e continue afastando as pessoas das soluções eficientes e permitindo as mais bizarras falhas de governo que vemos por aí.

Eu sempre me lembro do amigo Diogo Costa que gostava de introduzir o tema em suas aulas perguntando aos alunos se eles concordavam que toda verdade é relativa e, após o imediato – e entusiasmado, previsível – “sim” dos seus alunos, prosseguir: até mesmo esta frase? Sim, dá um nó na cabeça. Outro que talvez possa comentar mais sobre estas questões filosóficas é o amigo Lucas Mafaldo. Quem sabe algum deles não aparece para um café nos comentários, mesmo na era do fêissibúki?