Breves Reflexões sobre o atentado em Orlando: instituições, liberdades, emporiofobia e violência (UPDATED)

Começo este triste texto lembrando que o fato é que, no século XXI, a religião campeã de intolerância contra os gays é…bem, provavelmente há um empate entre o Islã e o Cristianismo, mas não tenho dados sobre citações religiosas pró e anti-tolerância com homossexuais para apresentar aqui. Contudo, uma boa proxy do discurso (in)tolerante pode ser a prática social em favor da liberdade individual. Neste quesito, os dados sobre liberdades individuais nos mostram que o 41o (dentre 142 países) no ranking deste subíndice do índice de prosperidade é o Brasil, por exemplo. Já o Afeganistão é o 133o…

homicides_gunDe qualquer forma, não sei não, mas me parece que os seguidores do Islã vencem os cristãos em termos de homicídios (ou seriam “feminicídios”, Brasil?) de gays e lésbicas, pelo menos nos anos recentes (estes dados eu não procurei, mas devem existir e agradeço qualquer dica a respeito). Uma breve visita à página do Gunpolicy.org já é suficiente, contudo, para se ter uma idéia que, considerando-se que homossexuais e heterossexuais são, ambos, parte da população, o total de homicídios, por uso de armas de fogo, é bastante alto no Brasil, comparando-se com os EUA (ou, pior ainda, com o estado da Florida). Acredito (no sentido de “aposto”) – sem ter os dados – que dificilmente o padrão geral verificado acima mudaria em caso tivéssemos apenas homossexuais: o Brasil seguiria campeão.

Aliás, o gráfico é interessante também por mostrar a evidência – para os que gostam de termos nunca claramente definidos – de que “cultura das armas” parece ser um patrimônio do Brasil (cuja primeira medalha em Olimpíadas foi em…), não dos EUA.

Com todos os problemas de comparabilidade internacional de dados, ainda assim vale a pena ver o comparativo de total de homicídios.

homicides_total

Pois é. Já está claro que É, você já desconfiou, escrevo este pequeno texto inspirado no triste massacre de Orlando, certo? Aliás, antes de começar, pela mesma lógica que diz que nem todo negro é pobre, é óbvio que nem todo praticante de religiões islâmicas é assassino (a questão passa pela discussão das raízes do terrorismo), ou seja, pelo chamado radicalismo, um tema que, em si, vale um curso inteiro (Joseph Humire falou sobre isso na imprensa dos EUA recentemente: o problema é o islamismo radical).

Tá, mas quero ver alguns dados…correlacionados!

Claro, correlação não é causalidade e, portanto, não direi, inequivocamente, que Obama está errado ou que Sanders está errado. Provavelmente nem Trump está com a razão, claro, embora a cultura individualista – que Trump, sem entender muito bem o porquê, provavelmente defende – seja compatível com o modo de vida tolerante (veja também isto).

Quero mais! Dê-me pesquisas econométricas ou lhe dou um tiro!

Ok, Bergreen e Nilsson (2012) têm evidências de que a liberdade econômica é um fator pró-tolerância. Aqui está um trecho do resumo:

Stable monetary policy and outcomes is the area of economic freedom most consistently associated with greater tolerance, but the quality of the legal system seems to matter as well. We furthermore find indications of a causal relationship and of social trust playing a role as a mechanism in the relationship between economic freedom and tolerance and as an important catalyst: the more trust in society, the more positive the effect of economic freedom on tolerance.

Mais mercado…maior felicidade gay?

Quem quer que tenha visto os links anteriores perceberá que, com uma base de dados um pouco diferente, construí correlações que não atrapalham, de forma alguma, os resultados dos autores. Aliás, eles têm mais modelagem e as conclusões são essencialmente as mesmas (apenas quero dizer que se simples correlações nos mostrassem o oposto do que eles encontram, teríamos motivos para pensar em problemas, não que correlações sejam poderosas, ok?).

Mas há mais! Em 2015, os mesmos autores nos deram outro estudo, cujo resumo reproduzo.

Tolerance is a distinguishing feature of Western culture: There is a widespread attitude that people should be allowed to say what they want even if one dislikes the message. Still, the degree of tolerance varies between and within countries, as well as over time, and if one values this kind of attitude, it becomes important to identify its determinants. In this study, we investigate whether the character of economic policy plays a role, by looking at the effect of changes in economic freedom (i.e., lower government expenditures, lower and more general taxes and more modest regulation) on tolerance in one of the most market-oriented countries, the United States. In comparing U.S. states, we find that an increase in the willingness to let atheists, homosexuals and communists speak, keep books in libraries and teach college students is, overall, positively related to preceding increases in economic freedom, more specifically in the form of more general taxes. We suggest, as one explanation, that a progressive tax system, which treats people differently, gives rise to feelings of tension and conflict. In contrast, the positive association for tolerance towards racists only applies to speech and books, not to teaching, which may indicate that when it comes to educating the young, (in)tolerant attitudes towards racists are more fixed

Viu só, leitor? Aí você me pergunta dos EUA. Afinal, foi lá que ocorreu o triste fator que gerou este pequeno texto. Bem, não quero te deixar triste, mas me parece que, a despeito da polêmica sobre o uso de armas de fogo em atentados terroristas (e também da polêmica sobre se aquilo foi um ato terrorista ou não), não me parece que o Brasil seja um paraíso (você viu as evidências no início do texto). Pode até ser que não se matem pessoas por religião aqui (ainda) mas, em medidas internacionais, quem “ganha” em estatísticas de assassinatos? Brasil ou EUA? Já vimos no início do texto, mas eis outra dica de dados sobre o tema aqui (dica: você continuará tristenão ficará feliz).

A despeito do que aconteceu na Florida, ainda é melhor para um homossexual viver nos EUA ou na Suíça do que no Brasil ou no Quênia, não é? Sim, a discussão tem a ver com tolerância e esta é um exemplo cabal do que Douglass North chama de instituições informais. É por aí que a discussão passa e, de cara, não dá para aceitar argumentos bizarros que jogam a culpa no “mercado” ou no “capitalismo” pela intolerância contra homossexuais, como nos lembra o sempre recomendável blogueiro Guy Franco e, creio, este meu breve texto sobre a emporiofobia.

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