O Falcão Maltês, o R e os eventos aleatórios: um estudo de caso pontual

Nunca vi o filme, mas não posso deixar de relatar este caso. Recentemente, conversei sobre o R (na verdade, sobre o RStudio) com a turma do mestrado. Até aí, tudo bem.

Mas alguns bolsistas da graduação vieram me pedir uma amigável introdução ao R, já que não puderam assistir ao minicurso (sim, você leu direito: alunos me procuraram pedindo aulas extras). Como diria Parker Lewis: “Not a problem”! Agendamos dois encontros matinais e preparei um material compacto para as sessões. Fiz até um convitezinho.

Após nos divertirmos com a função consumo (veja mais sobre ela no artigo do prof. Fabio Gomes) no primeiro encontro, fomos para o segundo encontro, no qual eu falaria sobre dois exercícios: (a) demanda de moeda (um exemplo do livro de Gujarati & Porter) e (b) uma equação dos determinantes do crescimento usando a base de dados de um dos artigos do Ross Levine sobre o tema (o exemplo é do livro de Stock & Watson).

O interessante deste segundo exercício é que há uma rápida discussão sobre outliers. Na verdade, você encontra Malta e descobre que o país tem uma economia atípica, com um altíssimo fluxo de comércio na medida ((X+M)/PIB). Até aí, nada de novo, certo? Obviamente, eu pesquisei e me preparei para contar aquela novidade para a turma.

Então, estávamos os seis (eu e mais cinco alunos) neste exato ponto do exercício quando eu respirei fundo e, com aquele ar professoral, perguntei: “- O que podemos dizer sobre Malta”?

Foi neste momento que alguém disse (usarei nomes fictícios para preservar a identidade do aluno), acho que foi Karol: “- Thyaggo sabe, professor, ele morou em Malta”.

Fez-se um profundo silêncio na sala. Por um instante senti o que deve ter sido a sensação de gregos e romanos diante de oráculos. Ou seria a sensação de John Nash ao se deparar com sua criação? Talvez DaVinci ao terminar a Mona Lisa. Não, acho que parecia com a sensação que provavelmente meu amigo Lucas Mafaldo teve diante na primeira vez em que viu um suculento bife de bode. Honestamente, não sei descrever em palavras (ou imagens) o que senti. Só sei que não sabia o que dizer e todos os alunos (o conjunto de alunos, só para constar, era composto de cinco elementos) olharam para Thyaggo que completou:

“- É verdade, professor, estudei inglês lá por um tempo”.

Antes que eu pudesse esboçar um arremedo de resposta, Nathallia completou:

“- Professor, 20% da sua turma já esteve em Malta”!

As outras alunas, Mayirah e Mharianna, apenas riam, ao mesmo tempo em que tentavam ler algo na tela do nano-notebook de Mayirah.

Give me your multiple regression or I will shoot you!

Dizem por aí, em situações similares, que “mesmo que você tivesse planejado, não seria tão bom”. Pois é. A sensação que eu tive deve ter sido a mesma do primeiro ser humano (ou primata) que balbuciou esta frase em alguma linguagem primitiva. Literalmente eu me senti dentro da frase, quase como parte integrante da mesma.

Ri por algum tempo. Tudo era muito engraçado. Era uma aula de Econometria Aplicada e um evento absolutamente (ou absurdamente) aleatório como este realizava-se naquele instante. A própria aleatoridade, ela mesma, em toda sua plenitude, ali, naquela manhã de quinta-feira!

Quase perguntei se alguém já tinha visitado Tonga ou Saint Kitts-and-Nevis, mas achei melhor não arriscar.

p.s. Esta história pode ou não ser baseada em fatos reais. Nenhum aluno ou regressão foi morto(a) ou ferido(a) na confecção deste texto. Cuidado ao ler: risadas podem causar soluços. O autor não se responsabiliza por nada do que você pense ou sinta após a leitura do texto (e nada do que você possa – ou não – imaginar após ser exposto(a) a este texto).

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